sexta-feira, 8 de novembro de 2013

50 álbuns: 8. Frank Le Gall, CAPITÃO STEENE (1987) -- invitation au voyage

Contrariando o meu proverbial sedentarismo, o imaginário portuário sempre me fascinou. Na literatura, no cinema, na pintura, na música e, obviamente, na bd. O apelo da distância, do desconhecido, do diferente, dos lugares de fronteira -- tudo sonhado no remanso do meu sofá: Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Manhã cedo em Dunquerque (ao melhor estilo da revista Spirou), na primeira vinheta, 2 de Dezembro de 1927, janelas dum edifício centrado numa espécie de praça à beira do cais, ainda com luz artificial , um carro deambula ensonado, no porto dormem pesadamente os rebocadores e restantes embarcações.
No interior desse escritório de "carregadores marítimos", uma personagem empunhando uma caneta de aparo, sorri deleitadamente ante os topónimos que se lhe deparam e o fazem sonhar: "Dacar, Buenos Aires, Changai". É Théodore Poussin (Teodoro Pintainho, na tradução portuguesa anónima) sentado à secretária, que assim vai nutrindo essa vontade de ver mundo. Um telefone desperta-o dessa evasão, e o Senhor Sénard, o chefe, conhecendo esse anseio de Teodoro, comunica-lhe que no início do ano irá, a serviço da empresa, a bordo do "Cabo Padaran" com destino à Indochina.  

Frank Le Gall, Teodoro Pintainho -- Capitão Steene, Lisboa, Méribérica/Liber, s.d., pranchas #1 e 2.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Os fumetti de Fellini

Os quadradinhos da infância de Fellini: «Adora fumetti  (bandas desenhadas populares), nomeadamente as que são publicadas em Il Corrieri dei Piccoli e cujas personagens, Mickey, Mandrake, o Mágico, Flash Gordon, O Gato Félix ou Buck Rogers povoam a sua imaginação.» (Àngel Quintana, Federico Fellini, Lisboa, Público, 2008).
Mandrake, que fará encarnar por Marcello Mastroianni; bd, para a qual foi dotado e homenageado, entre outros por Milo Manara, e que nunca abandonou. 






segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Repostagens: Piratas

A figura do Barba Ruiva exerceu sempre sobre mim um fascínio a que não foram alheios o traço de Victor Hubinon e a destreza narrativa do grande Jean-Michel Charlier. Apesar disso, o poder caricatural duma certa dupla Albert-René foi tal, que não consigo pegar num álbum de aventuras do comandante do «Falcão Negro» sem que me venha à memória aquela angustiosa interjeição: «Os gau!... Os gaugau!...»

[29 de Abril de 2005, postado aqui]


sábado, 19 de outubro de 2013

50 álbuns: 7. Dany & Greg, LE CANNON DE LA BONNE HUMEUR (1983) -- "Baf"?!...

Em cenário edénico, surgem saltitando, quais efebos, Dany & Greg, os autores, envergando túnicas alvas e louros na cabeça; o primeiro, de paleta de cores na mão e pincel em riste, o segundo de pena em riste e folha branca na mão. Inspirados pela envolvente de paraíso das Escrituras -- árvores e flores viçosas, quedas d'água marulhantes e passarinhos a chilrear --, preparam-se Dany & Greg para dar início à narrativa, o que sucede apenas na última vinheta da prancha #1: um violento directo de boxeur -- BAF! -- no queixo do pugilista oponente... Trata-se de Kid Cahot, agora em knockout, transportado em maca pelo entourage aflito, em meio à vaia monumental do público. Já não é o primeiro KO; mas, estranhamente, Cahot, sem sentidos, é representado com um sorriso beatífico.
Sonha com Reverose (a "Sonhorosa" da saudosa revista dos 7 aos 77 anos), está-se mesmo a ver. Ou melhor: ver-se-á, em pranchas seguintes...
A verdade é que fomos transportados para o mundo-onde-todos-se-aborrecem, e nessa vinheta, como em toda a prancha #2, quase todas as cores desaparecem, como se pode ver na vinheta em baixo, com vários tons de vermelho, e só vermelho.

Dany & Greg, Le Canon de la Bonne Humeur, Bruxelas, Éditions du Lombard,. 1983, pranchas 1-2.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

a poesia dos quadradinhos #2 - Daniel Maia-Pinto Rodrigues

fonte: http://www.salimbeti.com/paperinik/en/paperino.htm



Não adormeças logo agora
que eu estava mais disposto e fluente
a falar-te, ainda que de novo, da contemporaneidade

ou não adormeça eu
logo agora
que o teu cabelo se encosta
à suavidade das almofadas
animando o amor do Donald e da Daisy
que, entretanto, já transpuseram
a barreira lisa do pano e do desenho
e se encaminham já para o quarto ao lado.


Daniel Maia-Pinto Rodrigues, O Afastamento Está Ali Sentado, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2002



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

50 álbuns: 6. Berthet & Foerster, CÃES DA PRADARIA (1996) -- pobre Calamidade...


Uma só vinheta na prancha inicial: um entardecer caminhando para o lusco-fusco, paisagem que parece situar-se no noroeste americano, assim o denuncia a vegetação. Em plano geral sobressaem cumes elevados e, em baixo, ainda distante, centrado e avançando na nossa direcção, um daqueles carros de que se compõem as míticas caravanas do colonos que deram corpo ao destino manifesto. Há uma envolvente dramática, um clima tenso e triste, soturno e pesado, que a chuva mais acentua e assombra. 
Duas filacteras, em cima, transcrevem, em discurso directo, parte de uma carta a uma filha, datada de Deadwood (Dacota do Sul), em 26 de Julho de 1876. Filha que está longe, à guarda dum pai adoptivo. Quem escreve lamenta-se pela distância, pela ausência, e está cheio de remorsos: "[...] peço a Deus que me perdoe do mal que te fiz..." Quem na escreve? Certamente o condutor, que vai, cabisbaixo, protegendo-se da chuva e da tristeza, pejado de crianças na direcção do orfanato de Rapid City, cujos pais foram vitimados pela varíola. Vemos as suas expressões apreensivas e tristes, o condutor, de costas, ruivo e de rabo-de-cavalo.
Até que se cruza com um velho conhecido  fora-da-lei, "J. B." Bone, em montada que arrasta o esquife do compaheiro de um assalto que correu mal, e cujo corpo, exposto à contemplação pública,  resgatara pela calada da noite: "Calamity! -- saúda Bone -- Sempre a correr as pradarias?" O cocheiro era, afinal, uma: Calamity Jane.  

Philippe Foerster & Philippe Berthet, Cães da Pradaria (196)
Lisboa, Meribérica/Líber, 1999, pranchas 1-2

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Rorschach

13-VIII-2013

Acabei a madrugada a lerWatchmen (1986) de Alan Moore & Dave Gibbons. Não sou um indefectível dos comics, Batman (dos grandes autores) e The Spirit (do Eisner) à parte, entre poucos outros.
Tour de force que deu mais densidade às narrativas de super-heróis (apesar de Bruce Wayne ou Peter Parker...), touxe-nos também um fantasmagórico Rorschach. Walter Kovaks de seu nome civil, filho de prostituta e produto do que se julga poder ser o crescimento infantil, dos alcoices até à institucionalização, traumas cuja existência se adivinha.
Chapéu, gabardine amarrotada, tanto quanto o gorro que exibe variáveis imagens de Rorschach, a cujo autor o anti-herói vai buscar o nome. Intuitivo, inteligente, Rorschach odeia os maus visceralmente, infligindo-lhe provações de violência e quase sádica, inflingindo terror aos delinquentes, como se fosse um Hannibal Lecter do bem, descontando-se a desordem canibal.
Capturado na sequência de uma cilada, cuja orquestração remete para o nó da narrativa, Rorschach é encarcerado numa prisão com mais de um recluso a querer ajustar contas passadas. Em anotações de trabalho, o psicoterapeuta da cadeia -- excelente momento do cap. VI -- resume um grave incidente ocorrido no refeitório, entre o mais fascinante watchman e outros companheiros de cárcere: "Vocês não estão a perceber. Eu não estou aqui fechado convosco, são vocês que estão aqui fechados comigo."

domingo, 15 de setembro de 2013

50 álbuns: 5. Hugo Pratt, A BALADA DO MAR SALGADO (1967) -- nem Bougainville nem Rousseau


«Sou o Oceano Pacífico e sou o maior». No meio do Pacífico, após fera tormenta a desmentir o nome do grande mar, um catamaran pejado de piratas das Fiji, capitaneado pelo desertor Rasputine, avista, o mar ainda revolto, uma chalupa de náufragos.

O Oceano dissera-nos do seu espanto por ver ainda à tona a embarcação nativa -- sinal do desembaraço da tripulação indígena, ou «algum pacto com o diabo» celebrado.
Rasputine lê a Viagem à Volta do Mundo, do barão de Bougainville, o mesmo que descrevera aquelas paragens nos antípodas como um paraíso terreal, em que a espécie humana não fora ainda corrompida pela civilização. O bom-selvagem do Rousseau vem daqui...
Os naúfragos são um casal jovem branco, passageiros do "A Jovem de Amsterdam", "uma bela galeota de milionários", diz o pérfido russo, acolhendo a sugestão dos seus marinheiros, já pouco partícipes dessa idílica visão bougainvillesca-rousseauna, de aprisionarem os desafortunados -- em troco de pagamento de resgate, claro está...

Hugo Pratt, A Balada do Mar Salgado
pranchas 1-2

domingo, 8 de setembro de 2013

50 álbuns: 4. Hermann, BABETTE (1984) -- foice-feixes-forquilha-carro

Tempo de colheita para os servos. As mãos cruzam-se, afanosas, foice-feixes de trigo-forquilha-carro de bois. O tempo está quente, e o característico rugoso do traço de Hermann mais sobressai. Na vinheta central da primeira prancha todos labutam, excepto um cão deitado ao lado dum canjirão ou jarro semelhante. Todos, menos Babette, em primeiro plano, que estaca olhando enlevada para fora do quadro. Observada pelo irmão, no cimo dos molhos de trigo, o pai é alertado: "Tenho a impressão de que a Babette tem outra paixoneta aí pelos bosques." Foice em punho, o chefe da família, sorrateiro, descobre e enxota o intruso, também ele especado, voltando-se depois para Babette na intenção de arriar-lhe o bastão. Subitamente, enquanto a rapariga ensaia a fuga floresta adentro, irrompe um veado espavorido do arvoredo, ouve-se um sopro de caça, cães e logo atrás cavaleiros avançam a galope pelo campo de trigo, espezinhando as espigas.


Hermann, As Torres de Bois-Maury -- Babette (1985), pranchas 1-2