segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

50 álbuns: 11. W. Vance & J. Van Hamme, O DIA DO SOL NEGRO (1984) -- um homem tatuado


Numa casa de praia na costa americana, Abe gasta as horas da reforma na pesca, em companhia do cão. Sally, a mulher, chama-o para o almoço, ao mesmo tempo que o cocker spaniel está inquieto, procurando atrair o dono para um local mais afastado das rochas, onde jaz o corpo de um homem ainda novo. Com ténues sinais vitais, Abe e Sally transportam-no até à moradia. O homem vai chamar uma médica, e Sally, procurando acomodar o estranho sinistrado o mais confortavelmente possível, detecta uma tatuagem por cima da clavícula.
Creio que, antes de XIII, apenas Fort Navajo, de Charlier e Gir, me haviam provocado tanto interesse nas categorias das bedês fleuve, de álbum para álbum, a ver como tudo aquilo se desenrolava. Não admira, pois, em ambos os casos estamos a falar de dois dos maiores argumentistas da bd franco-belga: Jean-Michel Charlier e Jean Van Hamme; e se Vance não é Giraud, teve a envergadura suficiente para lhe traçar um Blueberry.

W. Vance & J, Van Hamme, XIII -- O Dia do Sol Negro, tradução anónima, Lisboa, Meribérica / Liber, s.d., pranchas 1-2.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

repostagens: Boule, antes de Calvin

Boule e Bill, um rapazinho e o seu cocker spaniel, criação magnífica do belga Jean Roba, em 1959, foi uma das grandes séries da revista Spirou. Reli há pouco o primeiro álbum. Boule lembrou-me o seu congénere americano Calvin: ambos miúdos de palmo e meio, beneficiando da cumplicidade das respectivas mascotes, o bouleversement (desculpem, mas não resisti) do mundo adulto e dos seus códigos de conduta, uma notável disponibilidade do(s) autor(es) para estar(em) na pele duma criança, e simultaneamente uma grande inocência. Antes de se retirar, há cerca de dois anos, Roba escolheu Verron para lhe suceder. Boule e Bill são pouco conhecidos entre nós e estão inéditos em livro.
(publicado aqui)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

50 álbuns: 10. Derib, CHINOOK (1974) -- era novidade



Duas figuras minúsculas movimentam-se, ao longe, num qualquer sopé duma zona montanhosa do Oeste americano. Na segunda vinheta distinguimos uma raposa perseguindo uma lebre, até que (3.ª vinheta) "PUM", o predador é abatido, surgindo agachado por entre os arbustos um homem loiro, barba por fazer, chapéu de cowboy e rifle fumegante. Pelo último quadradinho da primeira prancha, verificamos que tem atavios de caçador. Virada a página, Buddy Longway (é dele que se trata) dirige-se para o seu acampamento. Caçador de peles, percebemos agora.
Buddy Longway é uma das grandes criações da BD francófona (Derib é suíço). Neste primeiro álbum (de 1974) o desenho, embora realista, mantém ainda resquícios de influências disneyana, ou por aí, e doutras séries do autor destinadas a público infantil, como Yakari.
Para nós, leitores da revista Tintin nos anos 70, era novidade a disposição narrativa na prancha, vinheta dentro da vinheta, recorrentemente. Novidade seria também assistirmos, nos livros seguintes, ao progressivo envelhecimento das personagens, à constituição de família, à morte...
Derib, Buddy Longway -- Chinook, tradução de Pedro Lopes d'Azevedo, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1978, pranchas 1-2.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

P&R [pergunta & resposta] -- José Eduardo Agualusa

Quem é o seu herói de ficção preferido?  Corto Maltese.

José Eduardo Agualusa, "Questionário de Proust", Somos Livros #5, Novembro, 2013.




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

50 álbuns: 9. - Jean Graton, OS CAVALEIROS DE KOENIGSFELD (1967) -- VROOAP

Este álbum preencheu uma boa parte do meu imaginário infantil. Lembro-me de que ainda estava na primária quando o recebi. A capa, estranha, o piloto de espada na mão em luta com um cavaleiro medieval embuçado e envergando uma cota de malha; a vinheta do frontispício, três bólides subindo uma rampa em direcção a um castelo penumbroso, causava também sensação... Mas as duas primeiras pranchas eram do mais trivial Vaillant: uma panorâmica do circuito de Nurburgring, Michel Vaillant e o inevitável Steve Warson no meio de ases do volante da vida real e o deslumbramento um bocado cabotino de Jean Graton pelo glamour dos circuitos. Salvam-se os carros (o Mercedes descapotável da menina que aparece na última vinheta da prancha 2 justifica-se, como se verá), mais as características onomatopeias dos motores a rugir: VROOAP VROOAP !...

Jean Graton, Michel Vaillant -- Os Cavaleiros de Koenigsfeld [1967], trad. C. Rodrigues, Venda Nova, Livraria Bertrand, s.d., pranchas 1-2.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

a poesia dos quadradinhos #4 -- Paulo Abrunhosa

B.D.

"Quero ser alcatifa,
no lugar do Califa",
sibilou o Grão-Vizir,
descaradamente a mentir.
Paulo Abrunhosa, Diário de um Dromedário, Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2000.
(Iznogoud, criação de Jean Tabary e René Goscinny)




sexta-feira, 15 de novembro de 2013

repostagens -- Don Rosa: pura aventura

Deu uma qualidade à BD Disney que há muito lhe faltava. Herdeiro espiritual do magnífico Carl Barks, foi influenciado pelo sortilégio das suas narrativas, aventuras puras. Com Rosa, as personagens ganharam densidade psicológica (a imagem do Tio Patinhas/Scrooge McDuck recolhido junto das campas dos pais, na Escócia natal*, seria impensável antes dele), deixando, contudo, de apresentar aquela frescura ingénua que víamos nas estórias de Barks. A trama, porém, é sempre bem urdida, e com verdeiro enlevo para com os nossos conhecidos cidadãos de Patópolis/Duckburg.
*«Uma carta de casa», Tio Patinhas nº 231, Março de 2005.
[27 de Abril de 2005, aqui]

a poesia dos quadradinhos #3 -- Rui Knopfli

[...] Havia também / Marina, filha mais velha do pianista / do casino, pernas magras enfeitiçando, / qual deusa na selva dos comic books, / o meu desejo obscuro. [...]

Rui Knopfli, «Rua de Coolela», O Monhé das Cobras  (1997), 2.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1998.


uma capa de Will Eisner