quinta-feira, 30 de outubro de 2014

vivaço

De idade indefinida, à volta dos 8/9 anos, Titeuf é um miúdo vivaço e inconveniente; um reguila, em suma, misto do Calvin de Bill Watterson e do Pequeno Spirou, de Tome & Janry -- sem a poesia do primeiro ou a finura do segundo. Divertido, sem dúvida, mas, pelo menos nestes dois álbuns, falta o golpe de asa que caracteriza aqueles.

Zep, Titeuf -- As Miúdas Ficam Banzadas / N'É Nada Justo, tradução de Paula Caetano, Porto, Edições Asa / Público, 2008.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

50 álbuns: 17. Franquin & Jean Darc, O FEITICEIRO DE TALMOROUL (1950) -- um conde, um edil, um cigano -- um velho Spirou



Em O Feiticeiro de Talmourol (Il y A un Sorcier à Champignac, 1950), Spirou e Fantásio planeiam fazer campismo numa aldeia, cujo titular, o Conde Pacómio Hegésipo Adelardo Ladislau, em primeira aparição, será personagem de importância crescente na série, até hoje. As intervenções iniciais serão, porém, do cabotino presidente da Câmara, também em estreia, e de uma família cigana, por ele escorraçada, por antecipação de pilhagalinhagem.
O factor de comicidade é introduzido pelos novos semáforos que o maire manda instalar numa recta -- sem trânsito, mas isso só seria notado pelos inimigos políticos e do progresso, porque ele é que sabia, ele é que era o presidente da Câmara... A família cigana, de caravana, com o homem a pé, é admoestada por passar o sinal vermelho; para o conde, que transgride em sua dona-elvira, uma acentuada vénia, embora com fúria; dois ciclocampistas ajoujados com as pesadas mochilas pejadas -- Spirou e Fantásio --, esses sim, o edil vê neles a oportunidade de tirar desforço pelo atrevimento do desrespeito pelas regras de trânsito: "Alto! Seus garotos! Não vêem o sinal vermelho?!"

Franquin e Jean Darc (Henri Gillain), Spirou -- O Feiticeiro de Talmourol, tradução de Ricardo Alberty, Lisboa, Editorial publica, 1981, pranchas 1-2.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

50 álbuns: 16. Rosinski & Van Hamme, A FEITICEIRA TRAÍDA (1980) -- um início prometedor


Na névoa e na neve, um homem impele outro, manietado, em direcção a um rochedo à beira-mar, o anel dos crucificados, cujas argolas prendem os infelizes ali aferrolhados, condenando-os à morte por afogamento, com a subida da maré.
O carrasco é Gandalf, o Louco e a vítima Thorgal Aegirsson. Ambos se invectivam até que Gandalf, reagindo ao insulto, fere Thorgal no rosto.
No drakkar de Gandalf, uma jovem e bela mulher está amarrada ao mastro. É loira, é linda, é filha do Louco (na prancha seguinte saberemos o seu nome, Aaricia).
Trata-se do álbum de estreia (1980) de uma das grandes criações do belga Van Hamme e do polaco Rosinski, uma promessa que passados todos estes anos foi muito bem cumprida.

Rosinski & Van Hamme, Thorgal -- A Feiticeira Traída, trad. Marília Alves, Lisboa, Livraria Bertrand, 1983, pranchas 1-2.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

a poesia dos quadradinhos #5 - Teresa Rita Lopes

«Os Capitães de Abril são / para os mais novos / jovens heróis de lenda / como o Homem Aranha!»

vinheta de John Romita
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«Poema de parabéns», JL #1136, Lisboa, 16.IV.2014.

domingo, 23 de março de 2014

bem escrito

«A 31 de Dezembro de 1995, Calvin dizia para o seu compincha Hobbes que valia a pena ir explorar o mundo lá fora, para lá dos claustrofóbicos limites de uma tira de BD e da necessidade diária de ser simples inovador, original e divertido.
E na passagem sem contornos da neve, ambos deslizavam num trenó para não mais voltarem.»
António Rodrigues, «O homem que soltou a criança em todos nós», Público / Ípsilon #8742, 21.III.2014

sexta-feira, 14 de março de 2014

50 álbuns: 15. Vernes 6 Forton, A ESPADA DO PALADINO (1967) -- Os rapazes tinham pressa.


A minha geração foi das últimas destinatárias de um certo tipo de produtos (para)literários juvenis assentes na aventura pura e dura, sem grandes pedagogismos à mistura. Havia uma designação que caravterizava muito bem esse segmento editorial: as "bibliotecas para rapazes". A Editorial Íbis, que publicou em álbum Astérix, Lucky Luke, Strapontam, tinha uma mais direccionada "Colecção Pilote", com as sagas de Bob Morane, Barba Ruiva, Tenente Blueberry (Fort Navajo) e Tanguy & Laverdure, ou seja: aventura e ficção científica; piratas; western; guerra, espionagem e aviação.
Embora o meu Bob Morane seja o de William Vance, A Espada do Paladino, história desenhada por Forton (com argumento de Vernes) foi uma das que marcou a minha infância. Começa no castelo de Morane na Dordonha, numa noite de bátega, em que, na companhia de Bill Ballantine, é surpreendido pela visita do seu conhecido Professor Hunter. Este, incapaz, devido a um acidente recente, de testar uma máquina do tempo de que é inventor, convida o herói para fazer o ensaio, com os riscos inerentes; convite aceite sem mais aquelas por Morane, para desespero de Ballantine, na última vinheta da segunda prancha (e que a abrir a narrativa se queixara de estarem ambos a enferrujar, pela inacção a que se tinham votado). Rapidez estonteante (na mesma prancha, o Prof. Hunter é recebido e o desafio aceite...). E tinha de ser mesmo assim, porque os rapazes que nós éramos, devoravam a revista ou o álbum (relidos muitas e muitas vezes nos anos que se seguiriam), para pegarem na bicicleta, dar toques na bola, descer uma rua num carrinho de rolamentos, dar um mergulho na praia (os que a tinham por perto) ou, até,  jogar à pedrada... Os rapazes tinham pressa, e os mestres que escreviam, desenhavam e publicavam estes universos de sonho, sabiam-no.    

Vernes & Forton, A Espada do Paladino, Venda Nova, Editorial Íbis, 1970, pranchas 1-2.

terça-feira, 4 de março de 2014

50 álbuns: 14. Godard, O EMIR DOS 7 BEDUÍNOS (1974) -- Às portas de Mandahmerh


Firmin Vestigue, detective privado, chega de jipe às imediações do palácio decrépito do recém-falecido soberano do ignoto emirado de mandahmerh, "não longe das portas de Omã". Recebe-o Ibrahim, o vizir, preocupado com a vacatura do modesto trono: dum lado, o poderoso vizinho de Kakh-Haweit, com ambições territoriais; nas montanhas do interior pululam rebeldes fortemente armados; Ibrahim, porém, está decidido a matar por suas próprias mãos quem se atrever a sentar-se indevidamente no trono de Mandahmerh...
Ainda é cedo para aparecer o fleumático Martin Milan, uma das mais sublimes criações da bd franco-belga, humanista e bem-humorada. Era mesmo daquelas que eu fazia questão de ter as histórias em duplicado, na revista Tintin, primeiro, e em álbum, depois.

Godard, Martin Milan -- O Emir dos 7 Beduínos, trad. Marília Alves, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1979, pranchas 1-2.