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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

livros que me apetecem - Champignac

As personagens da série Spirou e Fantásio têm-se autonomizado: primeiro foi o Marsupilami, que o criador, André Franquin, levou consigo quando abandonou as histórias do groom e do seu amigo repórter. Mais recentemente, foi a vez dos dois génios, do bem e do mal, terem direito a álbum próprio. O primeiro, Zorglub, criatura engendrada também por Franquin com Greg, está a cargo do espanhol José Luis Munuera; no ano passado foi a vez do estupendo Conde de Champignac, – outra criação a meias de Franquin, desta vez com Jijé, surgindo agora jovem, a contrariar com o seu cérebro privilegiado as maquinações dos nazis, e ao qual voltaremos. Os desenhos são de David Etien e texto de Béka – Béka, na verdade é um casal: Bertrand Escaich e Caroline Roque, uma francesa com apelido português… Enigma (Dupuis, 2019)


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

livros que me apetecem - Breccia

Um dos grandes nomes da historieta argentina (apesar de nascido no Uruguai), Alberto Breccia (1919-1993) ganhou nome mundial com a série Mort Cinder, com texto de Héctor Germán Oesterheld (1919-desaparecido em 1977). Breccia, um mestre do preto & branco e pouco compatível com o ‘mercado’, apesar do sucesso editorial, é objecto de um ensaio da autoria de Laura Caraballo, Alberto Breccia – Le Maître Argentin Insoumis (Éditions P.L.G., 2019).


terça-feira, 21 de janeiro de 2020

livros que me apetecem - Marzi

Todas as oportunidades para falar de Marzi são de menos. Nem se percebe por que diabo nenhum editor português ainda lhe pegou. BD autobiográfica da polaca Marzena Sowa (Stalowa Wola, 1979), desenhada pelo marido, Silvain Savoya (Reims, 1969), decorre nos anos de chumbo do confronto do sindicato Solidariedade e a Igreja Católica com o Estado comunista, descrevendo o crescimento da protagonista numa sociedade radicalizada pela lei marcial e ameaças externas no contexto da Guerra Fria. Contada com inteligência e finura, trata-se de algo tão importante e significativo quanto, por exemplo, Persépolis, de Satrapi. Marzi une Enfance Polonaise – 1984-1989 (Dupuis, 2019).


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

um Astérix à la Goscinny

O génio combinado de Goscinny (1926-1977) e de Uderzo (n. 1927) marcou o imaginário do nosso tempo. O primeiro pertence, aliás, àquele grupo raro de autores cujas expressões entraram no quotidiano – “uma aldeia gaulesa”, aplicada a uma comunidade irredutível, incapaz de se normalizar, será o exemplo mais saliente, de resto muito usada entre nós nos tempos da Troika.
Depois de alguns anos em colaboração, e após o surpreendente 'chumbo' de Humpa-pá, o Pele-Vermelha num referendo aos leitores do Tintin belga, Goscinny e Uderzo criam este universo centrado no pequeno gaulês, apresentado no número inaugural da revista Pilote, em Outubro de 1959. A ideia é um achado: graças à poção mágica do druida Panoramix, cuja ingestão confere a quem a beba uma força sobre-humana, a aldeia consegue rechaçar os assaltos das poderosas legiões de César. As narrativas vão-se aprimorando logo a partir da segunda história, A Foice de Ouro, o traço de Uderzo como o humor de Goscinny; explorando o gag de actualidade, as referências históricas, recentes ou da Antiguidade, e um irresistível manejo dos equívocos e das idiossincrasias do género humano, atingem níveis elevadíssimos. Recordemos A Zaragata, O Domínio dos Deuses, O Adivinho, todos os restantes.
Após a morte inesperada de Goscinny, Uderzo lançou-se sozinho ao trabalho, com resultados desiguais, mas com a fasquia muito alta e por vezes vencida (O Grande Fosso, A Odisseia de Astérix, As 1001 Horas de Astérix) Retirado este, a grande responsabilidade de continuar coube a Jean-Ives Ferri (Mostanagem, Argélia, 1959) e Didier Conrad (Marselha, 1959), autores dos últimos quatro álbuns.
Este mergulho na história gaulesa, com uma suposta filha do chefe arverno Vercingétorix, derrotado por Júlio César na batalha de Alésia (52 a.C.), parece-nos plenamente conseguido, com Ferri a revelar-se pela primeira vez um verdadeiro émulo de Goscinny, o que, convenhamos, não é fácil. O aproveitamento recorrente do trauma de Alésia, fazendo com que o nome daquele chefe gaulês seja apenas sussurrado, é gerador de situações da maior comicidade, claramente goscinnyanas... Já Conrad não é Uderzo (ninguém é Uderzo), e ainda bem. As revisitações dos clássicos da BD franco-belga, caracterizam-se, nos casos mais conhecidos, por uma sujeição ao cânone (supomos que por imposições contratuais de diversa natureza), apesar de alguns avanços em relação aos originais, o que é importante, sob pena de cairmos numa mastigação sem grande interesse. É sempre difícil fazer ‘igual’ e bem, e bem melhor partir dos traços gerais de cada série com o(s) respectivo(s) autor(es). Na BD franco-belga não haverá melhor exemplo que o de Spirou. Conrad parece querer seguir o seu próprio caminho, e tão maior relevância poderá alcançar quanto mais se libertar da ‘tutela’ de Uderzo.
Astérix – A Filha de Vercingétorix
texto: Jean-Ives Ferri
desenho: Didier Conrad
edição: Asa, Alfragide, 2019




domingo, 19 de janeiro de 2020

livros que me apetecem - Vasco

Os admiradores desta série da linha clara criada por Gilles Chaillet (1946-2011), passada na Itália do século XIV, podem revisitar uma edição especial de Ténèbres sur Venice (1987) em preto e branco, seguido de um extenso dossier sobre a cidade dos doges na Idade Média, por Luc Révillon. Vasco – Ombres et Lumières sur Venise, Le Lombard, Bruxelas, 2019.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

livros que me apetecem - nas asas de hergé

A bibliografia sobre Hergé cresce em consistência. Biógrafo do criador dos Dupondt e argumentista de BD de alto coturno, Benoît Peeters publicou recentemente uma conferência em que revisita a personalidade do autor belga, procurando o homem na obra, com revelações inéditas, diz quem leu. Dans les Coulisses des Aventures de Tintin, Éditions Bayard, Montrouge, 2019.

livros que me apetecem -- a sobrinha do general

Geneviève de Gaulle-Anthonioz. Mulher admirável, Geneviève (1920-2002) foi uma resistente francesa à ocupação nazi e posteriormente uma activista contra a pobreza e a exclusão. Sobrinha do General de Gaulle, foi deportada para Alemanha e encarcerada no campo de Ravensbrück, vivência que relatou no magnífico A Travessia da Noite (1998), livro publicado entre nós pela Editorial Notícias. A sua vida é contada em BD por Coline Dupuy e Jean-François Vivier, com desenhos de Stéphan Agosto. Editions du Rocher. Mónaco, 2019.





domingo, 12 de janeiro de 2020

como diz o ditado...

...o sexo é como a presunção e a água benta: cada qual toma o que quer. Este episódio de Dylan Dog, Trevas Profundas, publicado originalmente em Itália em 2018, e lançado entre nós pela nova editora A Seita, é uma incursão bem lograda no mundo do sadomasoquismo, conjugado com o crime e o sobrenatural, universos por onde se move o “detective do pesadelo”.
O argumento é de Dario Argento (Roma, 1940), cineasta de culto do cinema de terror (Suspiria, 1977), que entra no universo de Dylan Dog como faca em manteiga, secundado pelo argumentista Stefano Piani (Imola, 1965). Embora com paralelos narrativos com o cinema – os storyboards estão, aliás na vizinhança dos quadradinhos –, a BD conhece uma linguagem própria; e Argento, que, de resto, tem em Piani um colaborador em alguns filmes, não iria certamente arriscar-se a 'borrar a pintura' sem dominar essas competências, no que foi avisado. A história é consistente, e tem o twist para surpreender o leitor.
Tudo começa numa galeria de arte londrina, na exposição de fotografia subordinada ao tema do S&M, em que Dylan é atraído por uma mulher fugidia. A acção decorre no meio da aristocracia inglesa, vista como demasiado vetusta e moralmente corrompida, acumulando séculos de poder degradante sobre “os de baixo”. O exemplo dado a propósito dos whipping boys. é particularmente expressivo. Trata-se de uma prática reservada à educação dos príncipes, um pouco por todo lado, da Europa ao Oriente, em que um rapaz do povo, companheiro de brincadeira e estudo era chicoteado por cada falta grave que o infante cometesse; dado o vínculo de amizade estabelecido entre ambos, presenciar o castigo era uma insuportável fonte de remorsos, e uma forma de o príncipe, no futuro, pensar várias vezes antes de cometer faltas graves. Na narrativa dá-se a entender tratar-se de um regime extensivo à nobreza, o que é uma fantasia. A antipatia de Argento pela aristocracia “de sangue” é notória, pondo na boca de uma personagem as palavras do iluminista Giuseppe Parini (1729-1799): «não se deve celebrar o sangue da alma que definha» (p. 66). O motivo está, contudo, bem aproveitado.
Mas o melhor são os desenhos, o traço esguio do experimentado Corrado Roi (Laveno-Mombello, Varese, 1958); as cenas’bondage’ no teatrinho que acolhe as sessões são esplêndidas e vão ao limite da perversão. O mesmo se diz do final, de uma terrível beleza, sugerido pelo próprio Roi, que – de acordo com Piani – foi acolhido pelos argumentistas, por ser melhor que a ideia original de Argento, mais poderoso, mais “diabolicamente argentiano”, e que vale, só por si, todo o livro.
Uma palavra para o critério editorial de incluir um texto introdutório que situa o leitor, a cargo de João Miguel Lameiras e João Pedro Castello Branco, bem como breves notas biográficas sobre os autores, prática que deveria ser seguida por outros.
Dylan Dog – Trevas Profundas
texto: Dario Argento e Stefano Piani
desenhos: Corrado Roi
edição: A Seita, Lisboa, 2019


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

leituras de meio ano


Fim de ano, tempo de balanço a propósito dos 40 livros de que falámos aqui, desde Julho. Se sobre a Bdteca não há grande coisa a dizer, a não ser lembrar autores e personagens, de Tintin a Batman, de Will Eisner a Tardi, não nos vamos eximir a assinalar o que mais nos impressionou. Mais e melhor, já que a grande vantagem de não ser crítico é a de escrever sobretudo a propósito do que se gosta. «Leitor de BD», foi a designação que propusemos para estas crónicas de impressões subjectivas, com o lastro de mais de meio século de convívio, desde as tiras do Professor Nimbus no saudoso Diário de Lisboa, e de uns patos que ainda hoje podem ser companhia, depende de quem os trace.
Na BD de expressão portuguesa, elegemos como melhor livro O Coleccionador de Tijolos, de Pedro Burgos (Chili com Carne), esplêndida harmonia entre texto e desenhos, parábola de um país ultrajado entre a mentalidade troikista da pobreza e o recurso impudente ao dinheiro fácil, mesmo que tudo seja para arrasar. O desenho é soberbo em todas as suas dimensões, traço e plano em prancha; a edição cuidada faz jus ao que publica, Salientamos ainda Filhos do Rato, de Luís Zhang e Fábio Veras (Comic Heart e G. Floy Studio), o escaranfuchar nas cicatrizes e nos traumas da Guerra Colonial, escrito e traçado com sangue por quem nem era nascido quando ela terminou, sem dúvida um dos livros do ano; Entre Cegos e Invisíveis, de André Diniz (Polvo), uma esplêndida narrativa de estrada, cheia do insólito que ela pede, num Brasil que teima em desencontrar-se; Conversas com os Putos e com os Professores Deles, de Álvaro (Insónia), ou a saga de ser-se profe de geometria descritiva quando a vida a todos faz tangentes.
Quanto à BD estrangeira,uma escolha cem por cento franco-belga. Spirou – L'Espoir Malgré Tout – 1. Un Mauvais Départ, de Émile Bravo (Dupuis) – ou a audácia de empreender a releitura de uma personagem canónica da BD europeia, num trabalho surpreendente e de largo fôlego, e cuja continuação aqui acompanharemos. Duke – Sou uma Sombra, de Yves H. e Hermann (Arte de Autor), este um dos maiores nomes da BD em todas as latitudes, num formidável western, género sempre em reinvenção; tal como Undertaker – 1. O Devorador de Ouro, de Xavier Dorison, Ralph Meyer e Caroline Delabie, tanto um como outro, personagens em busca de si próprios. A lista termina com o volume I de O Diário de Esther – Histórias dos Meus 10 Anos, de Riad Sattouf (Gradiva), excelente descoberta que é um desafio, o acompanhar de toda a adolescência de uma criança com empatia e humor, além disso trazendo inovações formais, marca de um autor de excepção.
A melhor capa: a majestade do desenho de Roberto Gomes, em Mar de Aral (G-Floy Studio e Comic Heart), com texto de José Carlos Fernandes, trabalho que ganha ainda mais consistência após a leitura desta fantástica narrativa curta.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

o outro que era ele


Um homem acorda dum pesadelo com uma série de duendes ao lado, que lhe dizem ser um dos sete anões, e de repente, em miraculosa aparição, surge uma generosíssima mulata, longe de ser alva como a neve. (Os anões já estavam fora, mas não era o seu dia.) Recebe, confuso, um convite para uma apresentação dos Badsummerboys Band, no “Heaven – O Céu Bar” – nomes que só na cabeça dos autores – Geral (Mário Cavaco, Lisboa, 1973) e Derradé (Dário Duarte, Lisboa, 1971), sócios nas Produções de Marda – poderia vir ao prelo. E é no “Heaven” que, com ajuda dum uísque com duas pedras, se faz luz, e o filme da vida passa diante dos olhos do nosso homenzinho, que é nem mais nem menos que o próprio Pai Natal, entretanto retirado e barbeado.
Este exaustivo estudo de Geral & Derradé comprova que o Pai Natal é incompatível com o mundo de hoje: da complexidade da logística da distribuição aos direitos das renas, dos duendes reivindicativos, aos putos exigentes, e ao franchise amador, tantos os desafios a enfrentar… Felizmente, dois representantes duma multinacional propuseram-lhe um contrato milionário para exploração dos direitos de imagem, e promessas de descanso merecido, com dinheiro, miúdas e coca. Chegámos assim à balbúrdia presente, de tal forma que nem Dickens… Acordado de um pesadelo para outro, a história termina com o Pai Natal vestido de Pai Natal a distribuir presentes na boite do Céu, na festa do “Filho do Patrão”.
Pai Natal: Um Estudo Morfológico
texto: Geral
argumento: Derradé
edição: Polvo, Lisboa, 2001

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

os persas

Autobiografia de Marjane Satrapi (Rasht, Irão, 1969). até ao início da idade adulta, no seio duma família desafogada do Irão contemporâneo; trecho de vida que assistirá à revolução islâmica, à carnificina da Guerra Irão-Iraque e à normalização da repressão. História pessoal, história duma família, história dum país, Persépolis (quatro tomos, 2000-2003) é um bom exemplo de como a novela gráfica elevou a BD a outro patamar, tema a desenvolver noutra ocasião.
Um livro especial, que traz ao proscénio uma criança de dez anos Marjane Ebihamis, que se tornará 'Satrapi' (nome nada casual), figura real que se transporta para o mundo da BD, enquanto personagem, espécie de mistura feliz da Mafalda de Quino com a Esther de Riad Sattouf. Família especial, moderna e cultivada, classe alta, pais comunistas, ele descendente do xá Nasser Aldim, da dinastia Kadjar, que governou o país entre 1794 e 1925; aristocratas e marxistas num estado cujo tirano foi substituído pela não menos brutal teocracia dos aiatolas. Um país especial, o Irão (os gregos antigos chamaram-lhe Pérsia), berço duma grande civilização, encerrando todas as contradições em que se confrontam tradição e modernidade. Aspirações, refúgio no Ocidente, depressão, até à tomada de consciência de si, numa sociedade esquisofrénica.
Uma observação a propósito do desenho minimalista de Satrapi: reparem nos olhos das personagens e comparem-nos com os dos arqueiros do friso do palácio de Dario III (em exposição no Louvre), cuja capital era... Persépolis.
Persépolis
texto e desenhos: Marjane Satrapi
edição: Bertrand, 2015

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

espectros

Se a infância é um país, como escreveu Antoine de Saint-Exupéry em Piloto de Guerra (1942) – fragmento de uma frase maravilhosa que já aqui citámos a propósito da manga de Takashi Murakami, O Cão que Guarda as Estrelas –, há puerícias que melhor fora delas ser apátrida, pelos traumas, e o sofrimento que se transporta pelo resto da vida. O relato desenhado por Bernardo Majer (Lisboa, 1990), que André Oliveira nos oferece, um dos mais profícuos autores da BD nacional, é contudo um pouco menos pessimista. Entre o céu e o inferno há o purgatório, e será por aí Toutinegra transcorre.
«Qualquer vida tem uma história. Começa a ser conhecida desde o dia em que nascemos / e arrasta-se muito para além da nossa morte.» (p. 72). Esta é uma narrativa de desconformidade. A acção passa-se na aldeia de Moinho, um desses muitos lugares do país à beira da extinção, com meia dúzia de habitantes quase sem crianças e no limiar da fantasmagoria. No centro da narrativa está Pedro, rapazinho de nove anos a quem a vida virou as costas, um desadaptado sem que o saiba porquê, um incompreendido, que mais se compraz na contemplação da Natureza que na companhia das pessoas; entre a escola e a igreja, sem pai, a mãe devota e desequilibrada. Um estranho na sua pele, tem em Laidinha a única amiga e também única colega (a outra criança da aldeia), com pais relativamente idosos, “milagre, nascido à margem do tempo”.
E há também um velho moinho que esconde uma criatura fantástica e monstruosa, com quem Pedro e depois Laidinha, estabelecem uma relação de confiança, espécie de esfinge, “com voz doce de mulher”, a Senhora do Moinho: «Estou nos capítulos finais de todas as histórias que conto.» (p. 77). Um cenário para uma, várias tragédias dificilmente ultrapassáveis: «aceitar o fim de alguém é consentir o nunca mais» (p. 33). Será no regresso às origens da memória que Pedro encontrará a sua redenção: «Nunca me senti ser dali e ao mesmo tempo / nunca pertenci tanto a um pedaço de chão. » (p. 8)
Os tons suaves do desenho de Bernardo Majer, vinhetas sem cercadura, traço como que de ilustrador, à partida poderiam não ser os mais indicados para uma narrativa trágica como esta, pois Toutinegra sendo uma história sobre um miúdo, é tudo menos um livro infantil; e por várias vezes o nome de Didier Comès nos assomou na leitura e releituras – Toutinegra é um livro que se presta a revisitações. Mas à medida que o texto ia tomando conta de nós, mais se tornava evidente o erro e o preconceito dessa concepção do primado das trevas, aliás bem presentes, carecesse de sobressair na parte desenhada desta narrativa: para muitos o terror não é o negro que cobre, mas o branco que tudo desvela.
Toutinegra
texto: André Oliveira
desenhos: Bernardo Majer
edição: Polvo, Lisboa, 2019


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Franquin antes de Gaston

Em 1955, Franquin estava em conflito com o editor Charles Dupuis, proprietário da revista Spirou. O autor criara já alguns dos maiores títulos da aventuras do jovem groom, como Os Herdeiros e O Roubo do Marsupilami. Na revista concorrente, Tintin, Raymond Leblanc, homem da Resistência belga que deu o braço a Hergé no pós-Guerra, torcia o nariz à circunspecção em demasia do hebdomadário, faltava-lhe humor. Estava, pois, criada a oportunidade para Franquin trabalhar na revista de Hergé e Jacobs.

Modeste et Pompon, série discreta mas importante para o desenvolvimento do percurso do seu criador, gira em torno do irascível Modesto, a namorada Pompom, contraponto de bom-senso, de Félix, um vendedor de inutilidades, além de três sobrinhos pestes -- condimentos para diversas peripécias de grande comicidade. É aqui que Franquin ensaia os esquemas insanes que depois iremos encontrar em Gaston Lagaffe, já de volta à Spirou; mas poderemos também vislumbrar algumas situações que viria a explorar nas Ideias Negras, expressão do seu lado mais sombrio.

A série foi continuada por Dino Attanasio (co-criador, com Goscinny, de Il Signor Spaghetti), Mittëi (O Incrível Désiré), entre muitos outros, com várias perninhas de alguns dos maiores autores do tempo: Peyo (Schtroumpfs), Tibet (Ric Hochet, Chick Bill), Greg (Achille Talon, Bernard Prince, Comanche), Van Hamme (História sem Heróis, XIII), Godard (Martin Milan)…

Modesto e Pompom

texto e desenhos: Franquin

edição: Asa, Porto, 2005

sábado, 14 de dezembro de 2019

viva o povo brasileiro

É um lugar-comum dizer-se que no estrangeiro vemos o torrão natal com mais acuidade, e o exemplo que logo surge é o de Eça de Queirós, cujos romances foram escritos em Inglaterra e França. É verdade, embora todo o espírito crítico e toda a empatia do autor de O Primo Basílio já estivessem contidos nas páginas de imprensa, da Gazeta de Portugal e O Distrito de Évora. Marcello Quintanilha (Niterói, 1971) vive há longos anos na Europa, mas nem por isso aquelas qualidades estão ausentes, pelo contrário: as seis narrativas de Folia de Reis constituem-se como um olhar pleno de ternura, mas sem embelezamento, dirigido ao povo brasileiro.
E quem são estes 'reis' de Quintanilha? Gente de paz e trabalho, gente de bem; o povo falando na sua língua errada que é a sua língua certa de onde chega a vida com verdade, dizia o grande Manuel Bandeira; que procura levar cada dia por diante, com o auxílio mágico/místico sincrético do 'Senhor Jesus' em combinação com a religiosidade popular de extracção africana, que tão perseguida foi. E do lenitivo dominical do futebol. Todas as seis estórias deste livro estão encorpadas por esse desafio do quotidiano, do torcedor do Flamengo a.J. (da era antes de Jorge Jesus...), doentiamente supersticioso (como vemos em “De como Djalma Branco perdeu o amigo em dia de jogo”), ao trabalhador negro que ainda não extirpou do seu interior a condição submissa inculcada pela persistência duma mentalidade gerada numa sociedade escravocrata (no impressionante «Dorso»); do matuto inofensivo ajudante dum circo de província, vítima da 'autoridade' brutal («A fuga de Zé Morcela»), ao futebolista medíocre duma equipa dos baixos escalões regionais, tornado, por cómico equívoco dos vizinhos, como potencial e quase certo jogador de selecção, sedentos que estão dum 'milagre' que lhes transforme a modorra de vida num lugar onde o diabo perdeu as botas (“De pinho”).
No meio destas narrativas de muito bom nível, destacamos uma jóia intitulada “Escola Primária”, estória de Selma e Tiago, este seguidor da religião do candomblé, aquela evangélica. Jovem adulta a frequentar os cursos de alfabetização pede ajuda a Tiago, pescador instruído (sabe ler e escrever) para um trabalho de casa sobre a História do Brasil, de modo a ficar com tempo livre para poder ir à festa da aldeia nessa noite. Selma bebe-lhe as palavras sobre os navegadores portugueses, os índios, os negros escravizados, as guerras – as dos estados e a deles mesmos: “A vida da gente já é uma guerra!”, exclama. Na prancha final, cujo conteúdo não se revela, espelham-se e esplendem as qualidades autorais de Marcello Quintanilha, argumentista e desenhador de quadrinhos.

Folia de Reis
texto e desenhos: Marcello Quintanilha
edição: Polvo, Lisboa, 2019


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

desventuras do himeneu

Tal como Jacobs se retratou fisicamente no Coronel Olrik, arqui-inimigo de Blake e Mortimer, sendo ao que se sabe pessoa respeitadora da lei, também George McManus (1884-1954), designer de moda, caricaturou parte da fisionomia, aplicando-a aos traços do castiço Jiggs (que os brasileiros, com propriedade, renomearam como Pafúncio).
Bringing Up Father / Educando o Pai, cujas tiras apareceram na imprensa norte-americana em 1913, conta-nos o quotidiano duma família de novos ricos. De origem irlandesa, Pafúncio fora um trolha a quem saíra a sorte grande. Impecavelmente vestido (chapéu alto, colete distinto, polainas), bengala numa mão e charuto aceso, nunca deixou de ser um homem simples, cujas ambições, para além do vil metal, se resumiam a umas horas de pândega com os amigos. A mulher, Maggie (Marocas, na versão brasileira), antiga lavadeira, deslumbra-se com vestidos, jóias, a ópera, a sociedade – um tormento para o pobre cônjuge, que ainda tem de aturar os caprichos sentenciosos da filha, Norah, espécie de pin up langorosa.
A série anda pois à volta destas idiossincrasias de marido pelos cabelos com as pretensões operáticas da mãe e as maneiras dispendiosas da filha, quando não tem que levar com os cunhados penduras, todos cadastrados e recém-saídos da prisão. Escapar-se à família sem ser vítima de violência doméstica é sempre o grande móbil destas tiras, em que o protagonista ora tem êxito ora (na maioria das vezes) soçobra à ira conjugal.
Pafúncio
texto e desenhos: George McManus
edição: Martins Fontes, São Paulo, 1989

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

o Cid da Cidadela

A história contrafactual oferece possibilidades infinitas, com a vantagem, quanto a nós, sobre outro tipo de narrativas especulativas, pelo facto de as coordenadas serem mais reconhecíveis.
E se a Guerra Fria tivesse degenerado, com um conflito nuclear em solo europeu entre os Estados Unidos e a União Soviética? E se, em consequência da desarticulação política dos estados do Velho Continente, a História houvesse tomado um rumo distinto, não tendo sequer ocorrido a revolução portuguesa em 25 de Abril de 1974? Eis os pressupostos da série Ermal, da autoria de Miguel Santos.
No Hemisfério Sul, na capital de uma “província ultramarina”, os colonos portugueses e os que, vindos da Europa, conseguiram escapar, reorganizam-se por acção dos Capitães de Maio, um grupo de militares que tem para si a missão de assegurar a subsistência da nova cidade-estado. Esta não é mencionada, mas será Luanda – agora com o nome de “Cidadela”. Este reduto do antigo império colonial português tem de defrontar os colectivistas do exército proletário, entretanto tomado de assalto pela cupidez – o petróleo está ali à mão... –, o que levará a dissensões no seu seio. Tina, uma guerrilheira grávida e destemida, dirá a um tuga: “Uns turras são pela tirania, outros não.”
Dos Capitães de Maio sobressai o ‘Cid’, nome de guerra em homenagem a Rodrigo Díaz de Bívar, o Campeador castelhano contra os mouros, no século XI. Este Cid da Cidadela, de tez morena e com verbo fácil e cultivado, está em missão com o fim de captar o auxílio de um grupo armado não alinhado, como aliados contra os totalitários. Com a Cidadela envolvida por forças hostis, o inimigo do inimigo aliado pode ser.
A paisagem é a savana, e os bichos são os carros de combate, ou o que dentro deles evolui, não faltando mercenários e peões a falar o africânder (os sul-africanos) e o castelhano (os cubanos). As imagens dessa movimentação de homens e armas, evocaram a este leitor a célebre batalha do Cuito Cuanavale, o maior combate terrestre a ter lugar após a II Guerra Mundial, tão avassalador quanto inconclusivo, deixando marcas nos contendores, em especial nos que não tinham ligação àquele solo. Mas isto é a imaginação a funcionar, pois se não houve 25 de Abril, também não se deu a descolonização e muito menos se realizou tão fantástica refrega…
Sementes no Deserto é o terceiro livro desta série, depois de Quando a Guerra Fria Aqueceu e Terra e Sangue. São nítidas as qualidades narrativas: os diálogos, fluentes, rápidos e vivos, quando existem; e quando tal não sucede, a concepção das vinhetas, com recurso a vários planos (veja-se a operação militar, a páginas 26-28), alcança um bom dinamismo – um dos aspectos mais fortes desta BD, em que é visível o gosto de contar uma história original com vivacidade.
Ermal – Sementes no Deserto
texto e desenhos: Miguel Santos
edição: Escorpião Azul, 2019

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

onde está Tintin?...

Na década de 1930 Tintin suscitava reservas ao conservadorismo: não tinha família, não estudava, era demasiado livre. A revista Coeurs Vaillants propõe assim a Hergé uma série com crianças normais, inseridas numa família tradicional. Nascem então Jo, Zette et JockoJoana, João e o Macaco Simão, em português –, os gémeos da família Legrand, composta pelo pai engenheiro, a mãe doméstica, e um chimpanzé.
O Vale das Cobras em curso de publicação 1939, foi interrompido e só retomado na década de 1950, pelos Estúdios Hergé, concluído por Jacques Martin (Alix, Lefranc) e Bob de Moor (Barelli, Cori, o Grumete), saindo o álbum em 1957.
Numa estância de neve na Alta Sabóia, Joana, João e Simão cruzam-se com o Marajá de Gopal, rei dum país imaginário nos Himalaias indianos. O marajá merece, por estupidez própria, figurar na galeria das grandes personagens secundárias de Hergé, que o qualificava como um Abdalá (O País do Ouro Negro) adulto. Entra em conflito com os miúdos porque estes ousam ultrapassá-lo no ski, e como se não bastasse ainda apanha com uma bola de neve em cheio na cara. Qualquer contrariedade tinha como punição mínima o açoitamento do infractor, pelo que as coisas não poderiam correr-lhe de feição, quando intervém o pai Legrand. Sanados os hilariantes incidentes, o engenheiro é convidado pelo soberano a construir uma ponte numa região remota do país. O que ambos não sabem é que o seu vizir pretende dar um golpe e ser marajá no lugar do marajá…
Mesmo a seis mãos, trata-se de puro Hergé, dando ideia, ao virar de cada página, que Tintin vai aparecer por ali...
Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão – O Vale das Cobras
texto e desenhos: Hergé (com Jacques Martin e Bob de Moor)
edição: Difusão Verbo, Lisboa, 1981

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

toy stories

Alvitre ao leitor: quando estiver com este livro nas mãos, comece por não ler, mas observar; folheie demoradamente, deixe os olhos vogarem ao ritmo que o autor imprimiu a cada prancha, depois fixe as vinhetas, demore-se nas páginas, nos diversos e bem doseados planos dos quadradinhos, admire o excelente trabalho de claro-escuro, a partir, supomos, de vários tipos de canetas de feltro; chegue ao fim, e então comece a leitura. Está por sua conta.


Pum! / Qual Pum! É Bang! Isto é BD! / ? / Crack! à la Hugo Pratt. / Click! Vazio. // Toca a mexer malta, ou acabamos num caixote no sótão ou na Feira da Ladra.» Palavras iniciais deste livro de Filipe Abranches (Lisboa, 1965), Selva!!!: diálogos de soldadinhos de guerra em missão por floresta espessa ou sobre oceanos de mar revolto.


Todos quanto, rapazes (e raparigas, porque não?...), brincámos aos tiros com miniaturas, recordamo-nos dos incríveis teatros de guerra que criávamos. Índios e cowboys, aliados e nazis, unionistas e confederados, mouros e cruzados. Uns quantos livros de capa dura dispostos no chão do quarto dava para fazer um qualquer forte da cavalaria americana ou um castelo medieval, à falta de modelos de escala reduzida. Os bonecos eram da “Britains”, muito bem feitos, em resina de poliester com uma base verde, de metal; ou então uns bonecos da “Airfix”, para quem quisesse e tivesse paciência para pintá-los... Experimentavam-se as tácticas com a imaginação e a ajuda do cinema, televisão e revistas aos quadradinhos. Uma delas, aqui graficamente citada, o Falcão, com estupendas séries fixas, edições distribuídas pela Agência Portuguesa de Revistas: Sandor, Ogan, Oliver, Kalar e o Major Alvega.


História dentro da história, intromissão do real na ficção, uma vinheta em falta, pórticos que se atravessam, do mundo da imaginação ao mundo verdadeiro, onde a mentira é maior: a guerra tem sempre acoplada a palavra “Paz”, com maiúsculas e tudo. Ainda agora a vimos, na operação “Paz para a Primavera”, turcos contra curdos, uns que contemporizaram com o Daesh, outros que lutaram contra ele, também em nosso benefício. Parece que há mais verdade na BD, mesmo que os intervenientes sejam de poliester ou plástico.


No colofão, o autor lembra os pais, que lhe compravam saquetas com revistas aos quadradinhos para ler na praia, e agradece também ao “Buck Dany”, a quem roubou muitas vinhetas. Buck Dany, extraordinária BD de guerra e aviação criada pela dupla Jean-Michel Charlier – Victor Hubinon para a revista Spirou (os mesmos que conceberam o pirata Barba Ruiva para as páginas da Pilote). Sim, há aqui grandes quadr(ad)os inspirados na arte daquele mestre belga, homenagem com maturidade gráfica de quem já leva anos disto.


Selva!!!


texto e desenhos: Filipe Abranches


edição: Umbra Edições, 2019


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

o menino Ferreira de Castro

As terras têm o seu património, natural, etnográfico, arquitectónico. O legado literário em geral dá-lhes, porém, mais densidade. Amarante, com Pascoais, Vila do Conde tem Régio e o irmão Júlio/Saul Dias, Rio Maior e Ruy Belo, a Vila Franca de Xira de Alves Redol. Oliveira de Azeméis tem Ferreira de Castro, e a autarquia editou, no ano seguinte ao centenário do seu nascimento, uma BD para as crianças, da autoria do conterrâneo Manuel Matos Barbosa (1935), um nome do cinema de animação e do documentarismo.
Castro tem excesso de biografia: aos 12 anos emigrou sozinho para o Brasil, sendo enviado para um seringal na Amazónia. Dessas experiências extrairá matéria para dois extraordinários livros, que irão renovar o romance português, abrindo portas ao neo-realismo: Emigrantes (1928) e A Selva (1930). Porém, verdadeiro escritor, não se ficaria por aqui: Eternidade (1933) encerra um fundo existencialista numa narrativa de cunho social; A Lã e a Neve (1947), friso romanesco que é talvez o seu romance mais perfeito; ou A Missão (1954), uma novela que é uma jóia de problematização psicológica.
Como se fosse pouco, este autodidacta, foi durante décadas o escritor português mais traduzido, duas vezes proposto para o Nobel da Literatura, entre muitos outros factos que aqui não cabem. Mas o cerne dessa vocação está na primeira infância, na aldeia natal de Ossela, e Matos Barbosa, com um traço límpido e tons suaves, foi feliz em mostrá-lo.
O José Vai à Escola
texto e desenhos: Matos Barbosa
edição: Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, 1999


terça-feira, 19 de novembro de 2019

a malta é jovem

Um cínico diria que o magistério uma profissão extraordinária, não fora a existência dos alunos. Discorda-se do cínico: o problema não está nos discentes, mas na circunstância de alguns trazerem como bónus alguns pais muito pouco recomendáveis à saúde. Também há os simulacros de professores, cuja verdadeira missão é a de ganhar o ordenado enquanto sonham com uma reforma por invalidez. No princípio de tudo, porém, estão burocratas do ministério, entretidos com as suas carreiras e progressões nas ditas, trabalhando para as estatísticas que lhes são impostas pelos políticos de turno. Destes, uns são comissários do partido e outros, tipos bem intencionados, com ideias completamente diferentes dos antecessores no cargo, que as porá em prática até chegar quem lhe suceda. Por isso, os estudantes costumam ser as primeiras vítimas deste carnaval, seguindo-se os bons professores e os pais conscientes, espécie ameaçada.
Feito o exórdio, comece-se por dizer que o professor Álvaro é um baril, e houvesse necessidade de filho nosso precisar de explicações de Geometria Descritiva, já saberíamos a que porta bater. Mas o professor Álvaro é também autor de BD e cartunista (além de arquitecto de formação) e teve a boa ideia de se inspirar no seu ganha-pão para aplicar o talento que lhe assiste na recriação da sua circunstância profissional – embora tal esteja longe de ser o exclusivo da matéria-prima a que recorre para o trabalho bedéfilo.
Conversas com Putos e com os Professores Deles é o terceiro livro desta série. Deixamos os docentes em paz – os muito bons dificilmente são parodiáveis, os maus são paródia triste – e vamos à maralha de 15, 16, 17 anos e às suas lindezas: do acne, terror das miúdas, à javardolice flatulenta dos rapazes; dos futebóis aos jogos e consolas (ou as gajas); da seca da matéria e da cabulice – as cenas com os alunos passam-se normalmente em contexto de explicação –, a temas mais sérios de política e sociedade, sempre com o enviesamento da auto-suficiência das opiniões fortes e supostamente definitivas, pois os putos é que sabem...
Álvaro (Parede, 1970) é particularmente feliz na captação das expressões que resultam de diálogos que atingem o mirabolante (por vezes nem se trata de diálogo mas de resmungos, quando não grunhidos): do surprendido ao irritado, do facecioso ao conformado, do enfadado ao malicioso. Não se pense, porém, que o autor comete a feia acção de fazer nome e fortuna (pelo menos crítica) à custa daqueles infelizes. Não, ali há empatia e pundonor profissional, ambos especialmente necessários, quando aos professores de hoje (aos bons e até aos maus) é cometida pela sociedade não apenas a importante função de ensinar, mas também, quantas vezes, a ingrata tarefa de educar, competência que mingua a muitos paizinhos, sempre prontos a exigir dos docentes o suprimento do que a eles lhes falha.
Conversas com os Putos e com os Professores Deles
argumento e desenhos: Álvaro
edição: Insónia, São Domingos de Rana, 2019