Daeninckx & Tardi, Varlot Soldado (1999)
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
BDteca - Didier Daeninckx e Jacques Tardi, VARLOT SOLDADO (1999): Desenhar a morte
Jacques
Tardi (n. 1946) é um dos mestres da banda desenhada europeia,
um estilo único; mais do que herdeiro da linha clara de Hergé
e Jacobs, foi alguém que a transfigurou, tornando-a marca pessoal
imediatamente reconhecível. Neto de um soldado das trincheiras, a
Grande Guerra é um tema obsidiante neste autor, que, logo no
verso do frontispício, avisa-nos ao que vem: «Tenho a
impressão de que não podemos fugir à guerra. Mesmo nós, mesmo
hoje. / A guerra que mostro não é mais que o décor de 14-18, os
uniformes. / Acho que continua actual, o que me inquieta.» Neste
álbum, com argumento do romancista Didier Daeninckx (n. 1949), a
insanidade da carnificina do conflito mundial de 1914-18 aparece
carregada na sua crueza pela utilização magistral do preto e
branco, com terra e carne humana retalhadas pelos projécteis
arremessados por todas as bocas de fogo, abrindo crateras
no lamaçal da Flandres. Duas vinhetas por página são quanto basta
para a respiração do texto de Daeninckx: «Uma tonelada de pólvora
da casa Krupp destruiu tudo: os mortos, o pelotão, a pocilga onde
nos tinham fechado.» A trama, sendo simples, é rica, explorando os
quiproquós em que a comédia humana é fértil, aqui exponenciados
pelos desencontros da guerra, à rectaguarda: o hospital de
campanha, o bordel, os desertores com destino marcado. (Edições
Polvo, 2001)
terça-feira, 6 de agosto de 2019
José Ruy, A ILHA DO CORVO QUE VENCEU OS PIRATAS (2018): croudwriting
Quando atravessamos
talvez o melhor momento de sempre da BD portuguesa, pela profusão e
qualidade de desenhadores e argumentistas, é de elementar justiça
lembrar aqui o último abencerragem dos tempos heróicos das
histórias aos quadradinhos nacionais: José Ruy (Amadora,
1930), das páginas de O Papagaio, O Mosquito,
Cavaleiro Andante, Tintin, Spirou – até hoje.
Apaixonado pela História e pela sua divulgação, não por acaso, a
principal personagem que criou é o navegador Porto
Bomvento, a singrar pelos cinco cantos do globo; e dois dos
seus trabalhos mais marcantes resultem das adaptações em banda
desenhada da Peregrinação,
de Fernão Mendes Pinto e Os Lusíadas,
de Luís de Camões, a que podemos acrescentar as muitas monografias
sobre cidades e vilas do país, sem esquecer as várias biografias,
de Charles Chaplin a Dimitrov, reveladoras desse interesse. No campo
humorístico, o artista deu o seu contributo na que foi talvez a
melhor revista que por cá se publicou, o semanário Tintin.
Quem lhe percorreu as páginas, decerto não esquece a dupla de
repórteres Clique e Flash
deambulando pela redacção do hebdomadário, caricaturando com
imensa graça quem a produzia semanalmente, em especial Dinis Machado
e Vasco Granja, que nela tiveram influência decisiva.
Se
o crowdfunding é uma prática normalizada pela
comunicação das redes sociais, com A Ilha do Corvo que Venceu os
Piratas (Âncora Editora, 2018), José Ruy tornou-se
pioneiro do que poderemos chamar croudwriting, uma vez que a
narrativa teve a participação activa dos corvinos, na composição
deste relato de história antiga. No século XVII, aquela população
isolada fez frente, com êxito, a um ataque duma frota de dez
embarcações de piratas barbarescos – assim eram chamados os
salteadores marítimos baseados em Argel e em Túnis –, que
frequentemente empreendiam razias nas ilhas e no continente, em
especial no Algarve, saqueando e fazendo cativos, vendidos nos
mercados de escravos do Norte de África.
A
narrativa parece seguir de perto as fontes documentais de que o autor
lançou mão, por vezes com excesso de didactismo. Trata-se, porém,
duma BD clássica de autor histórico, que à História e aos
clássicos consagrou uma boa parte do seu labor. O traço
ágil de José Ruy conserva-se inalterado. As vinhetas iniciais da
primeira prancha são esplêndidas em movimento e cor, dando em cheio
a solidão da pequena ilha, exposta à inconstância dos elementos
naturais no meio do Atlântico, e o insulamento daquela população
entregue a si própria e a Deus, apenas lembrada pelo donatário,
quando este exigia o tributo anual. (Âncora Editora, Lisboa, 2018)
«Leitor de BD», jornal i
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sexta-feira, 2 de agosto de 2019
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
terça-feira, 30 de julho de 2019
BDteca- José Abrantes & Miguel Rocha, O ENIGMA DIABÓLICO (1998): Mortimer encontra o Joker
O
pastiche e a paródia, sobretudo em forma de homenagem, é uma
prática comum em BD. Talvez o melhor exemplo seja a brincadeira de
Uderzo e Goscinny com o pirata Barba Ruiva e tripulação, que
vogavam nas páginas da revista Pilote, onde Jean-Michel
Charlier e Victor Hubinon faziam publicar as aventuras do bucaneiro
do 'Gavião Negro', as mesmas folhas que davam guarida a Astérix. E
tão bem sucedida foi a graça, que os piratas recorrentemente postos
a pique nos álbuns do pequeno gaulês se tornaram mais conhecidos
que as personagens originais... A paródia pode mesmo constituir-se
como subgénero: na revista Mad tem aí um dos seus pratos
fortes; no mundo franco-belga, está nas bancas, inclusive em edição
portuguesa, a bem sucedida charge a Blake e Mortimer, As
Aventuras de Philip e Francis, de Nicolas Barral e Pierre Veys.
O pequeno
volume da colecção «Quadradinho» #16, da autoria de Miguel
Abrantes (Lisboa, 1960) e Miguel Rocha (Lisboa, 1968) é um
despretensioso exemplo destas recriações. Título e capa remetem de
imediato para as personagens de E. P. Jacobs: o primeiro é um
divertido achado, combinando O Enigma da Atlântida e
A Armadilha Diabólica; o protagonista inominado, com
barba passa-piolho, lembra o Prof. Mortimer, enquanto que o
vilão não é o Coronel Olrik, mas um certo Conde Moloch, com
acentuados traços do insano Joker, deslocado de Gotham para o lugar
de Orelhos, onde se situa o solar lúgubre em que decorre a acção;
em perigo e a pedir salvação, uma frágil jovem parecida com Adèle
Blanc-Sec. Melhores os desenhos que o texto, mas o conjunto
funciona.
O
Enigma Diabólico (Associação Salão Internacional de
Banda Desenhada do Porto, 1998)
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Victor Hubinon
Pedro Moura & Marta Teives, OS REGRESSOS (2018): uma apologia da ruralidade
Madalena regressa à aldeia onde viveu parte da infância com a avó paterna, havia pouco falecida, num reencontro com o espaço e o tempo em que foi feliz. Criança diferente, aberta aos sinais da Natureza, girando de médico para psicólogo, os pais decidem-se a deixá-la aos cuidados da avó, a única que não a punha em questão, fazendo perguntas dolorosamente incrédulas a respeito dos relatos da pequena, após as sortidas à floresta, nas imediações da casa. A partir daqui, tece-se uma narrativa de rememorização e perda, até Madalena se integrar no seu derradeiro lugar.
A capa, comecemos por aí, em que predomina a cor verde, dá-nos a imagem de uma jovem mulher à beira-rio, fumando e lendo um livro -- que no interior saberemos tratar-se dos contos de Julio Cortázar, Todos os Fogos, o Fogo, e que ocasionalmente se atravessam na narrativa. O reflexo da água dá-nos a mesma Madalena, mas ainda criança. A imagem prolonga-se para a contracapa, e o tom da clorofila cede aos castanhos de um grosso tronco, provavelmente um carvalho, ao centro do qual lemos o mote, como que inscrito na casca: "Nunca regresses ao lugar onde já foste feliz."
Numa BD, a prancha inicial é tão importante quanto a primeira frase ou o primeiro parágrafo de um romance. Em Os Regressos, quatro vinhetas (uma dela funcionando como duas) incidindo sobre a linha de caminho-de-ferro, condensam o tom da história: a partir da vista aérea panorâmica, a imagem vai fechando-se progressivamente até ao pormenor da máquina sobre os carris, à beira de trucidar um pequeno pássaro campestre. Mas a narrativa começa ainda antes da primeira página, em quatro vinhetas dispostas no frontispício e no verso deste -- recurso repetido no fim --, revelando um cuidado com o detalhe narrativo, sem dúvida um dos aspectos fortes do livro.
Trata-se, em suma duma apologia do mundo rural, com o que este pode revelar para lá das evidências. Texto de Pedro Moura (Lisboa, 1973) que respira muito bem nas pranchas de Marta Teives (Lisboa, 1977), com recurso sabiamente doseado quer à elipse quer ao pormenor, como requer uma narrativa desenvolta, lograda pelos autores. O trabalho da autora mereceu, aliás, o prémio para o álbum com melhor desenho do Amadora BD em 2018. Dito isto, o autor destas linhas, talvez por defeito seu, está longe das visões idílicas da ruralidade, muito distante da estesia pagã que o livro veicula, pois nem o campo se constitui necessariamente como lugar de harmonia em que o todo universal se funde nem a cidade forçosamente obriga ao império do gadget e do prozac. Cidade, idealmente, é sinónimo de civilização; o campo, sê-lo-á, ou não. (Polvo, Lisboa, 2018)
domingo, 21 de julho de 2019
quarta-feira, 1 de maio de 2019
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