terça-feira, 10 de setembro de 2019

a poesia dos quadradinhos - #7 José Emílio-Nelson


«[...] E sentes-te Tarzan, quando sentes / Na bunda as bolas de outro que se esfalfa. / E não tem nada a ver com Banda Desenhada.»

José Emílio-Nelson, A Festa do Asno, s.l., Editora Canto Escuro, 2005.

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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

BDteca: Alan Moore & Brian Bolland, BATMAN -- A PIADA MORTAL (1988): cara e coroa

          Os super-heróis aparecem nos anos 30, como reflexo da ausência de resposta satisfatória das autoridades à criminalidade. Espécie de vigilantes mascarados, operam ao lado ou à margem da lei, perseguindo delinquentes aterrorizados, o que lhes dá uma aura no imaginário popular com a qual um Dick Tracy não pode competir.
            Batman pertence a esse universo, mas tal como os seus colegas mais interessantes (Fantasma, Homem-Aranha, Demolidor) é demasiado humano. Em A Piada Mortal / The Killing Joke (1988), Alan Moore foge ao modelo maniqueísta do herói vs. vilão: o Joker, arqui-inimigo e personagem central desta história, ganha o estatuto de uma espécie de duplo do homem-morcego, cara e coroa de uma mesma moeda. Narrativa impecável, flui em dois planos: o da actualidade – a fuga do Asilo Arkham e a perseguição levada a cabo pelo caped crusader, em que o Joker faz todo o mal para ser encontrado; e uma acção pretérita que nos conta a origem do criminoso, presenciada pelo Batman. À subtileza do argumento junta-se o desenho superlativo de Brian Bolland: nunca o Joker pareceu tão horrível e tão frágil; e o Batman, saído há 80 anos do lápis de Bob Kane, está terrivelmente espectral, ao nível dos melhores artistas que o serviram, a começar por Neal Adams. (Editora Abril, São Paulo, 1988.)


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

José Carlos Fernandes & Roberto Gomes, MAR DE ARAL (2019): notícia do mar desértico

Outrora um dos maiores lagos do mundo, situado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o recuo do Mar de Aral é considerado uma das maiores tragédias ecológicas da nossa época. Consequência de políticas desenvolvimentistas erradas, para cuja concretização foram desviados os seus rios afluentes, a região envolvente é hoje descrita pelos autóctones como o deserto de Aral… É neste cenário que José Carlos Fernandes (Loulé, 1964) e Roberto Gomes (Silves, 1983) desenvolvem, a primeira história deste álbum, que lhe dá também o título: «Mar de Aral».
A capa é magnífica. Apresenta uma figura misteriosamente suspensa na âncora de um navio, imagem cujo significado só apreenderemos em todo o seu alcance depois de lida esta narrativa. As palavras de José Carlos Fernandes ganham um encantamento poético à medida da desolação que se nos depara: «O mar fugiu como um cavalo assustado. / O mar fugiu e deixou atrás de si barcos ferrugentos, planícies de sal e aldeias piscatórias encalhadas na areia.» Mas como estamos no domínio do fantástico, o argumento desenvolve-se em torno dos estratagemas de sobrevivência dos peixes desse habitat.
O desenho faz jus ao que a capa nos promete; a disposição das vinhetas realça os grandes espaços de solidão e abandono (notável a página dupla em que se representa a fímbria que une mar e deserto); nas cores, predominam o castanho, o sépia e os tons arenosos, contrastantes com as três pranchas finais, quando a acção passa a desenrolar-se numa viela nocturna de cidade velha, nas proximidades, carregando de negro a atmosfera de estranhamento que até aqui a narrativa nos transmitira.
É a mais extensa de cinco ficções inauditas, e a que de longe se destaca, mas todas se recomendam: do tom paródico de «Um boi sobre o telhado» e «Roupas de defunto», à melancolia de «A inauguração do Canal do Panamá» e «A arte esquecida de nadar rio acima».
Para não destoar, as notas biográficas dos autores participam da irrealidade geral: José Carlos Fernandes aparece identificado como um misterioso cientista cuja vida decorreu entre 1891 e 1938. Entusiasta da Revolução Russa de 1917, transfere-se para a pátria soviética, alterando o nome para Osip Ernantzev. A acreditar no biografema, e para sermos eufemísticos, não foi propriamente bem sucedido. Quanto a Roberto Gomes, é apresentado ao leitor como um peixe do Mar de Aral, «que escapou por pouco a ser transformado em suchi».
 
Mar de Aral
argumento: José Carlos Fernandes
desenhos: Roberto Gomes
G. Floy Studio e Comic Heart, 2019


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

BDteca: TINTIN NO PAÍS DOS SOVIETES (1929)...o Tintin de sempre!

O que faz de Tintin uma série tão apreciada ao longo das gerações, perguntávamos na semana passada?
Desde logo, as características da personagem, herói moderno com virtudes antigas: Tintin é corajoso, é leal, é intrépido, é justo, é compassivo e é casto. E deve acrescentar-se a mestria de Hergé: um engenho aprimorado da narrativa, misturando o apelo da actualidade com uma visão humanista e um apurado sentido do gag. Milu é a perfeita personagem adjuvante, função que mais tarde repartirá com o Capitão Haddock.
Todas essas qualidades aparecem em Tintin no País dos Sovietes. Sim, é um trabalho dum jovem, mas o talento já se manifesta, apesar das puerilidades e da influência do catolicismo reaccionário. Se as pranchas são vulgares quanto à disposição das vinhetas, estão bem conseguidas no dinamismo da composição, contribuindo com eficácia para o ritmo vertiginoso da narrativa, nas suas 137 folhas: na segunda prancha deparamos com o primeiro vilão e a primeira explosão; na terceira, a primeira detenção; na quinta, a primeira cena de pancadaria e o primeiro disfarce; à sexta, a primeira perseguição automóvel…
Obra de propaganda, é verdade, mas se pesquisarmos os delírios propagandísticos que se seguiram, veremos que Tintin no País dos Sovietes é mesmo aquilo que é: uma brincadeira de crianças.

Texto e desenhos: Hergé
Difusão Verbo, Lisboa, 1999

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Arlindo Fagundes, O COLEGA DE SEVILHA (2019): a grande travessia

Arlindo Fagundes (Ovar, 1945) é um autor de BD veterano que milhares de portugueses conhecem, em especial pelas ilustrações da colecção «Uma Aventura». O terceiro álbum do seu herói, Pitanga, O Colega de Sevilha, coloca-o no centro de um dos maiores dramas dos dias de hoje: o tráfico de refugiados e migrantes ilegais, da costa de Marrocos às praias de Espanha.
Enquanto este texto é escrito, dezenas de refugiados e imigrantes, esperam há semanas, ao largo da ilha italiana de Lampedusa, autorização para desembarcar; alguns atiram-se ao mar, julgando que conseguem vencer as duas ou três milhas que os separam da costa; na ilha grega de Lesbos, milhares aguardam, numa espécie de limbo, que a vida prossiga, nos perigos que encerra um centro de refugiados... O Colega de Sevilha é, assim, um mergulho na actualidade que traz à tona uma velha discussão, a propósito doutras artes, mas também com cabimento na BD: a de esta poder ser igualmente bem servida se tratar de assuntos do nosso tempo. Hergé, de quem se fala aqui ao lado, é disso exemplo: boa parte da sua obra abordou temas candentes que lhe eram contemporâneos. E nem é necessário enveredar por vias panfletárias e politicamente comprometidas – basta tão-só mostrar. O livro de Arlindo Fagundes é, desse ponto de vista, extraordinariamente conseguido.                  
O protagonista desta história, Pitanga, “barbeiro de luxo ao domicílio” e motard aficionado, com o seu inconfundível cachecol branco às bolinhas pretas e t-shirt de riscas à Pat Metheny, tem laivos de anti-herói e um humor ligeiramente ácido. Pela pinta e pela pose, entra bem na categoria das personagens carismáticas da BD europeia, de Blueberry a Corto Maltese. Em bolandas em Tânger, e coagido por uma rede de traficantes a pilotar um desses pneumáticos a motor que costumamos ver sobrelotados nos telejornais, faz a travessia do Mediterrâneo com umas quantas dezenas de foragidos da África Subsaariana, muitos deles harragas, ou indocumentados – gente que queimou a identificação do país de origem, para que não se possa determinar se são refugiados de um estado em guerra ou meros migrantes económicos. São passageiros do desespero que não se limitam à parte negra do continente africano, mas também jovens magrebinos que fogem das suas aldeias, de um horizonte sem perspectivas de vida. Com Pitanga segue uma amizade recente, Mané, um simpático guineense com todo um passado de envolvimento na complicada e perigosa política da Guiné-Bissau – o tal colega de Sevilha
Trata-se de uma eficaz BD de formato clássico e muito bem documentada. A narrativa é fluida e aberta, deixando alguns pontos do argumento por esclarecer, quem sabe para outros assados, em próximo álbum. A organização das pranchas, oscilando entre oito e 14 vinhetas, não prejudica a fluência narrativa, para a qual contribui a desenvoltura do traço de Fagundes. Este é também o primeiro álbum a cores de Pitanga, com um óptimo trabalho de José Pedro Costa, tanto na garridice das claridades do sul, como no breu nevoento da travessia, páginas, aliás, de antologia no âmbito dos quadradinhos nacionais.

Texto e desenhos: Arlindo Fagundes
Cor: José Pedro Costa
Arcádia, Lisboa, 2019

uma vinheta de Arlindo Fagundes

O Colega de Sevilha (2019)

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

BDteca: Hergé, TINTIN NO PAÍS DOS SOVIETES (1929): O primeiro Tintin...

Lisboa, 1925. Durante as semanas em que o Repórter X enviava as suas reportagens de Moscovo, o interesse dos leitores era tal, que a revista ABC publicava uma segunda edição e acrescentava na capa: “Revista Portuguesa na Rússia”. Não se sabe se Reinaldo Ferreira, o homem por detrás do ‘X’, esteve de facto na pátria dos sovietes, os historiadores dividem-se; no entanto, pela verosimilhança do relato, o mais famoso enviado do jornalismo português sabia do que falava.
Também o jovem Hergé (1907-1983) nunca pusera os pés na pátria de Lénine, mas o relato do recém-criado Tintin foi um enorme êxito popular. Surgido no Petit Vingtième, suplemento infantil do jornal católico Le Vingtième Siècle, de Bruxelas, a partir de Janeiro de 1929, Tintin no País dos Sovietes conheceu uma edição em álbum, logo se esgotando; no entanto, só em 1973 a editora Casterman faz sair uma nova edição, com Tintin no Congo e Tintin na América, sob a designação de «Archives Hergé». Por um lado, o pendor antibolchevique não caía bem na intelligentsia ocidental complacente com o regime, com a designação de anticomunista a revestir-se de anátema incómodo; por outro, a circunstância de Hergé, simpatizante do movimento rexista belga, ser detido após a libertação sob a acusação de colaboracionismo, também não facilitara as coisas. No início da década de 1970, porém, Hergé já era consensual, e Tintin uma personagem reconhecidamente humanista.  Além disso, o prestígio que a União Soviética exercera na década de trinta, vinha ruindo paulatinamente, também por obra de escritores como Koestler, Orwell e Soljenítsin.
O que há do Tintin que todos amamos neste trabalho de juventude é o que veremos na próxima semana.

Tintin no País dos Sovietes
texto e desenhos: Hergé
Difusão Verbo, Lisboa, 1999

Takashi Murakami, O CÃO QUE GUARDA AS ESTRELAS (2008): amor cão


A manga japonesa era, até ao fim do século passado, uma excentricidade no trabalho dos artistas de BD ocidentais. Hoje, pelo contrário, ganhou o seu espaço, e muitos são os desenhadores da Europa e das Américas que adoptaram esse estilo peculiar, a que os leitores mais tradicionalistas vão torcendo o nariz: aquelas pupilas anormalmente dilatadas ou ‘buracos’ no lugar das bocas, são por vezes desagradáveis. É verdade que grande parte da manga se publica no âmbito da produção massificada, como, de resto, os comics norte-americanos; nas mãos de grandes autores, porém, e com um lastro secular remontando ao Japão medieval, a manga de qualidade compara com o melhor que se faz em qualquer latitude.
O Cão que Guarda as Estrelas (2008), da autoria de Takashi Murakami não participa da categoria da obra-prima, mas bem merece uma leitura. Fala-nos de um homem solitário e doente, um peso para a mulher, que entretanto pede o divórcio; e conta-nos também do cão dessa família e narrador desta história, chamado «Happy», prenda para a criança da casa, que, uma vez chegada à adolescência, deixa de achar graça ao bicho. Dono e cão, dois abandonados, empreendem então uma longa viagem de automóvel pela costa japonesa, em busca de uma solução para uma existência a partir de agora sem grandes saídas, salvo talvez no país da infância, ou seja, a terra natal do dono – “sou da infância como se é de um país”, escreveu Antoine de Saint-Exupéry, já piloto de guerra, não muito antes de juntar-se  definitivamente ao Principezinho...   Só que o leitor é confrontado desde a primeira prancha com a descoberta macabra pela polícia de um carro abandonado num campo de girassóis, onde jazem os corpos de um homem e um cão. Esta informação prévia não retira nenhum interesse à história, pelo contrário: o aliciante é o confronto com o caminho realizado pelas duas personagens, os encontros e as peripécias da viagem, até ao seu desenlace.
”O cão que guarda [olha] as estrelas” é uma expressão popular no Japão, correspondente ao nosso “fazer castelos no ar”, significando a aspiração utópica a algo irrealizável; expressão com que o pessimista Takashi Murakami nos oferece esta crónica de uma felicidade perdida e nunca reencontrada.
Uma segunda narrativa, intitulada Girassóis, com outras personagens (cão e dono), também elas solitárias, acrescenta alguma poesia à situação inicial, correndo, porém, o risco da redundância. Fica, no entanto, vincada a intenção do autor, trabalhada em torno da importância dos animais de estimação nas nossas vidas cada vez mais atomizadas, e de como eles acabam por funcionar como um último vínculo na desesperança do abandono e da solidão.
Uma nota final para uma característica editorial, que se normaliza à medida que a publicação de BD japonesa vai ganhando mercado: esta manga lê-se de acordo com o padrão original, ou seja, da direita para a esquerda, iniciando-se a leitura pelo que seria a contracapa nas edições ocidentais, o mesmo sucedendo com a disposição das vinhetas em cada página.

O Cão que Guarda as Estrelas
texto e desenho: Takashi Murakami
edição: JBC Portugal, Lisboa, 2018