Entre Cegos e Invisíveis (2019)
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
uma folha de papel
Com Winsor McCay
(1867-1934), os quadradinhos atingem a maturidade gráfica. Little Nemo in Slumberland, a sua mais célebre criação estreou-se a
15 de Outubro de 1905, no New York Herald.
Cada prancha é um prodígio de imaginação e cor, e nunca mais se foi tão longe
na disposição de uma narrativa em imagens. Jean Giraud / Moebius foi um dos
muitos que aqui vieram beber.
A página é encimada por uma vinheta a toda a largura,
espécie de friso ao gosto Arte Nova, que dá o mote: Morfeus, rei do País dos
Sonhos, envia emissários a Nemo; e lá vai ele, até acordar, por vezes no chão.
Há ocasiões em que, em vez de quadradinhos estanques, o mesmo desenho se
prolonga, dando a ilusão de vária vinhetas – por exemplo, entre os vãos dos
pilares de uma ponte. Esta linguagem, hoje comum, era nova no dealbar do século
XX. Aliás, como notam os críticos, o caminho fazia-se à medida que o caminhante
vencia cada etapa. No álbum que temos em mãos, esse work in progress é particularmente visível: nas pranchas iniciais,
McCay, embora recorresse à filactera (o ‘balão’), introduzia texto sob a
vinheta, uma redundância que só atrapalhava a fruição da beleza dos desenhos, a
riqueza da composição e a inventiva das histórias que pretendia contar. Ao fim
de 20 pranchas, essa excrescência será eliminada, dando a margem indispensável
ao leitor para seguir a narrativa sem outra condicionante que não fosse a
materialidade sobre a qual se aplica uma história em quadradinhos: uma folha de
papel.
O Pequeno Nemo no País dos Sonhos – vol. I:1905-1907
texto e desenhos: Winsor McCay
edição: Livros Horizonte, Lisboa, 1990
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
sonata para clarinete e explosivos
Depois do universo franco-belga, a Itália é o segundo
centro europeu de criação e produção de BD com projecção global. Vieram dali,
entre muitos outros, Corto Maltese, Tex, Valentina… e o Superpato.
Dylan
Dog, criado em 1986 por Tiziano Sclavi (Broni, Pavia, 1953), um escritor à
procura de leitores, é uma personagem curiosa: antigo agente da Scotland Yard,
passa a trabalhar por conta própria, deslindando casos em que o paranormal faz
as suas aparições. Calmo (detesta armas) e morigerado (não bebe nem fuma), tem
um fraco por mulheres, que se sucedem quase à cadência de uma por história. No
mais, é um tipo reflexivo que gosta de ler e tocar clarinete, chegando a fazer
um dueto com Woody Allen... Contudo, o seu tema preferido não está no dixieland
mas na sonata Il Trillo del Diavolo, do compositor setecentista Giuseppe
Tartini – ou melhor, da autoria do próprio Satanás, que em sonhos o visitou,
executando a composição que ficaria também conhecida como a «Sonata do Diabo».
Nada de admirar, para um detective do pesadelo. A acompanhar Dylan Dog, temos
um auxiliar com cara, nome e chistes à Groucho Marx.
Apesar
de ser um dos fumetti mais populares em Itália, com cada revista a
atingir um milhão de exemplares de tiragem nos tempos áureos, entre nós Dylan
Dog é pouco conhecido, como a generalidade da BD italiana, com as assinaláveis
excepções.
Em Até
que a Morte Vos Separe, de 1996, Sclavi desenvolveu uma ideia de Mauro
Marcheselli, recuando aos tempos da polícia londrina e aos ataques e
retaliações perpetrados pelo IRA na capital inglesa. Estava-se ainda a dois
anos da assinatura do Acordo de Paz de Sexta-Feira Santa, e os atentados faziam
vítimas, em especial entre os representantes do Estado, que por sua vez
reprimia com condições carcerárias duríssimas, contra as quais se insurgiram
Bobby Sands e outros prisioneiros independentistas irlandeses, numa greve de
fome histórica e fatal. Dylan conhece Lillie Connolly, uma irlandesa do Ulster
a viver em Londres, militante daquela força paramilitar, sob disfarce. No
entanto, apesar das mortes e das prisões, o dramatismo é moderado q.b., não só
porque a menina é assombrada por visões, o que opera uma quebra no realismo da
narrativa, como há pormenores de série humorística – veja-se aquele ponto de
interrogação desenhado sobre a cabeça dum rato, numa das cenas passadas nos
esgotos da cidade. Os registos realista, onírico e humorístico
interpenetram-se, o que não tem mal, desde que o leitor, como é de bom uso,
estabeleça com os autores o pacto da suspensão voluntária da descrença.
Bruno Brindisi (Salerno, 1964), não obstante algum
tradicionalismo na disposição das vinhetas – convém lembrar que Dylan Dog se
destina, antes de mais, ao grande público –, é um desenhador de assinaláveis
recursos, como se verifica, logo na capa, no trabalho sobre o véu da noiva.
Dylan Dog – Até que a Morte Vos Separe
texto: Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
desenhos: Bruno Brindisi
edição: G-Floy Studio, 2019
Etiquetas:
Bobby Sands,
Bruno Brindisi,
Giuseppe Tartini,
Groucho Marx,
Leitor de BD-Jornal i,
Mauro Marcheselli,
Tiziano Sclavi,
Woody Allen
terça-feira, 15 de outubro de 2019
segunda-feira, 14 de outubro de 2019
domingo, 13 de outubro de 2019
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
traquinagens
Quim e Filipe (Quick et Flupke, no original) aparecem
no jornal juvenil Le Petit Vingtième,
em 1930, fazendo companhia a Tintin. Enquanto o repórter deambula pelo Congo,
Hergé oferece semanalmente aos leitores histórias humorísticas de duas páginas,
em que os protagonistas são dois garotos de Bruxelas. O seu grande desígnio é
comum a todos os miúdos de todas as épocas: passar o dia a brincar, de
preferência na rua, se possível com muitos amigos. Meninas, não há; parece que
a rua não era lugar para elas nesse tempo, até porque jogar à pedrada, um dos entreténs da rapaziada de várias eras, não
parecia ser muito do seu agrado. A comicidade é suave e inofensiva – quem nunca
tocou a todas as campainhas de um prédio e depois deu à sola? Nos melhores
momentos, reconhecemos o humor de Hergé, dos estatelanços aos quiproquós.
Série secundária em face da magnitude das aventuras de
Tintin, lê-se com agrado pelo valor testemunhal: dos artefactos – quando a
tecnologia de ponta se materializava num esplendoroso carrinho de rolamentos, fabrico
próprio –, à pedagogia aplicada, a saber, uns açoites bem puxados quando as
tropelias passavam das marcas, para não falar da falta de sentido de humor do
polícia de giro (Quim e Filipe têm um problema com a autoridade…)
Os episódios cessam em 1941, ano que não é para
graças. Numa das longas entrevistas que concedeu a Numa Sadoul, Hergé revelou
que estava então assoberbado de trabalho com Tintin e Milou e ainda uma outra
série de que também falaremos: Jo, Zette
et Jocko.
Aventuras
e Desventuras de Quim e Filipe- vol. I
Texto e desenhos: Hergé
Edição: Difusão Verbo, Lisboa, 2000.
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
os grandes mestres não desiludem
Hermann (Hermann Huppen, Bévercé, Ardenas, 1938) é um
dos mais extraordinários autores de BD em actividade. Este terceiro álbum da
série Duke, com argumento do seu filho, Yves H. (Bruxelas, 1967), aí está
para o demonstrar.
Se a
memória não atraiçoa, o nosso primeiro contacto com Hermann deu-se nas páginas
da revista Tintin, com a série Jugurtha, com argumento de
Jean-Luc Vernal, a desenrolar-se na Antiguidade. Mas foi na companhia de Greg que Hermann constituiu uma das
duplas míticas da BD franco-belga, em torno da pura aventura de Bernard
Prince e de Comanche, uma mulher cheia de fibra, dona do rancho
«Triplo 6», western que foi uma
excelente resposta do semanário belga ao concorrente francês Pilote,
casa do Tenente Blueberry (Fort Navajo). Desfeita a dupla, Hermann
avança por outros territórios ficcionais, de Jeremiah, fábula
pós-nuclear, ao ciclo medieval de As Torres de Bois-Maury, além de
vários one-shot (histórias publicadas num único álbum, sem sequência).
Há uns
bons anos que Hermann tem em Yves H. um argumentista à altura do seu talento.
Com Duke, o livro de que hoje nos ocupamos, esta colaboração pai-filho
avança com uma série pensada de raiz, de que saíram já três tomos, todos
publicados entre nós: A Lama e o Sangue, Aquele que Mata e Sou
uma Sombra, editado este ano.
E quem é
este “Duke”? Ao terceiro álbum ainda estamos a descobrir, aliás na companhia da
própria personagem, Morgan Finch, de seu nome cristão, ex-adjunto do xerife da
pequena cidade de Ogden, Colorado. Aqui quem manda é um potentado da mineração,
com recursos financeiros, poder de fogo e sicários arregimentados para fazer
valer os seus interesses contra os dos proprietários fundiários e reduzir a
autoridade do estado a mero pró-forma. Esta situação obriga Duke – menos contemporizador e mais jovem que o
xerife, um hesitante – a afastar-se desse papel decorativo, o que só lhe trará
problemas. Para simplificar diremos que
se trata de um pistoleiro que não gosta da violência das armas – ou julga não gostar. É
esta densidade ambivalente o maior trunfo da série no que ao argumento
respeita, além de tratar-se de uma narrativa passada no oeste americano, topo
com o melhor lugar cativo do nosso imaginário.
Sobre a
arte de Hermann, o que escrever sem repisar os encómios? Atente-se na capa, um
cowboy solitário na sua montada, de arma na mão, uma sombra no meio da noite de
intempérie; no interior, os planos aguarelados da paisagem, a finura psicológica
no tratamento das expressões, o grotesco por vezes quase simiesco dos corpos,
em contraste com a beleza dos cavalos, o realismo dos trajes e dos edifícios.
Veja-se a prancha 37 (pág. 39): dez vinhetas de tensão ao luar sem uma palavra.
Mestria. É verdade: os grandes mestres nunca desiludem.
Duke – Sou uma Sombra
texto: Yves H.
desenhos Hermann
edição: Arte de Autor, Estoril, 2019
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
nada está a salvo
Laerte
Coutinho (São Paulo, 1951), de cuja mão saíram, entre outros, os
iconoclastas Piratas do Tietê
e Suriá, a Garota do Circo,
para um público mais jovem, está na linha da frente dos grandes
autores brasileiros de quadrinhos. As tiras humorísticas de BD
implicam um espírito crítico apurado, capacidade de síntese e,
naturalmente, o talento do humor. Essas qualidades tem-nas Laerte em
elevado grau, lançando um olhar irónico e inteligente sobre a
sociedade e as pessoas que nela se movem. Mordacidade
de alto nível, que lança mão de todos os recursos para atingir o
seu fim, o de fazer-nos rir; mas nunca é um riso gratuito ou
grosseiro, antes uma provocação que nos faz pensar, em que recorre
ao trocadilho e ao cómico de situação, entrando pelo absurdo. Em
Laerte nada está, felizmente, a salvo: a vida social de manada, a
História, o imaginário e a cultura populares, a publicidade, o sexo
e as relações pessoais, a deficiência – tudo serve para o seu
manejo exímio do inesperado e do contra-senso. Por vezes, lembra os
norte-americanos Johnny Hart e Grant Parker (B.C.
e O Mago de Id).
Classificados
são tiras publicadas no caderno de anúncios da Folha
de São Paulo, de grande prestígio na
imprensa brasileira. Ou muito nos enganamos, ou as páginas de
anúncios seriam das mais vistas pelos leitores: por cada tira, o
sorriso estava garantido e a gargalhada era uma forte possibilidade.
Classificados
texto
e desenhos: Laerte
edição:
Devir, Lisboa e São Paulo, 2001
Subscrever:
Mensagens (Atom)








