Entre Cegos e Invisíveis (2019)
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
uma folha de papel
Com Winsor McCay
(1867-1934), os quadradinhos atingem a maturidade gráfica. Little Nemo in Slumberland, a sua mais célebre criação estreou-se a
15 de Outubro de 1905, no New York Herald.
Cada prancha é um prodígio de imaginação e cor, e nunca mais se foi tão longe
na disposição de uma narrativa em imagens. Jean Giraud / Moebius foi um dos
muitos que aqui vieram beber.
A página é encimada por uma vinheta a toda a largura,
espécie de friso ao gosto Arte Nova, que dá o mote: Morfeus, rei do País dos
Sonhos, envia emissários a Nemo; e lá vai ele, até acordar, por vezes no chão.
Há ocasiões em que, em vez de quadradinhos estanques, o mesmo desenho se
prolonga, dando a ilusão de vária vinhetas – por exemplo, entre os vãos dos
pilares de uma ponte. Esta linguagem, hoje comum, era nova no dealbar do século
XX. Aliás, como notam os críticos, o caminho fazia-se à medida que o caminhante
vencia cada etapa. No álbum que temos em mãos, esse work in progress é particularmente visível: nas pranchas iniciais,
McCay, embora recorresse à filactera (o ‘balão’), introduzia texto sob a
vinheta, uma redundância que só atrapalhava a fruição da beleza dos desenhos, a
riqueza da composição e a inventiva das histórias que pretendia contar. Ao fim
de 20 pranchas, essa excrescência será eliminada, dando a margem indispensável
ao leitor para seguir a narrativa sem outra condicionante que não fosse a
materialidade sobre a qual se aplica uma história em quadradinhos: uma folha de
papel.
O Pequeno Nemo no País dos Sonhos – vol. I:1905-1907
texto e desenhos: Winsor McCay
edição: Livros Horizonte, Lisboa, 1990
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
sonata para clarinete e explosivos
Depois do universo franco-belga, a Itália é o segundo
centro europeu de criação e produção de BD com projecção global. Vieram dali,
entre muitos outros, Corto Maltese, Tex, Valentina… e o Superpato.
Dylan
Dog, criado em 1986 por Tiziano Sclavi (Broni, Pavia, 1953), um escritor à
procura de leitores, é uma personagem curiosa: antigo agente da Scotland Yard,
passa a trabalhar por conta própria, deslindando casos em que o paranormal faz
as suas aparições. Calmo (detesta armas) e morigerado (não bebe nem fuma), tem
um fraco por mulheres, que se sucedem quase à cadência de uma por história. No
mais, é um tipo reflexivo que gosta de ler e tocar clarinete, chegando a fazer
um dueto com Woody Allen... Contudo, o seu tema preferido não está no dixieland
mas na sonata Il Trillo del Diavolo, do compositor setecentista Giuseppe
Tartini – ou melhor, da autoria do próprio Satanás, que em sonhos o visitou,
executando a composição que ficaria também conhecida como a «Sonata do Diabo».
Nada de admirar, para um detective do pesadelo. A acompanhar Dylan Dog, temos
um auxiliar com cara, nome e chistes à Groucho Marx.
Apesar
de ser um dos fumetti mais populares em Itália, com cada revista a
atingir um milhão de exemplares de tiragem nos tempos áureos, entre nós Dylan
Dog é pouco conhecido, como a generalidade da BD italiana, com as assinaláveis
excepções.
Em Até
que a Morte Vos Separe, de 1996, Sclavi desenvolveu uma ideia de Mauro
Marcheselli, recuando aos tempos da polícia londrina e aos ataques e
retaliações perpetrados pelo IRA na capital inglesa. Estava-se ainda a dois
anos da assinatura do Acordo de Paz de Sexta-Feira Santa, e os atentados faziam
vítimas, em especial entre os representantes do Estado, que por sua vez
reprimia com condições carcerárias duríssimas, contra as quais se insurgiram
Bobby Sands e outros prisioneiros independentistas irlandeses, numa greve de
fome histórica e fatal. Dylan conhece Lillie Connolly, uma irlandesa do Ulster
a viver em Londres, militante daquela força paramilitar, sob disfarce. No
entanto, apesar das mortes e das prisões, o dramatismo é moderado q.b., não só
porque a menina é assombrada por visões, o que opera uma quebra no realismo da
narrativa, como há pormenores de série humorística – veja-se aquele ponto de
interrogação desenhado sobre a cabeça dum rato, numa das cenas passadas nos
esgotos da cidade. Os registos realista, onírico e humorístico
interpenetram-se, o que não tem mal, desde que o leitor, como é de bom uso,
estabeleça com os autores o pacto da suspensão voluntária da descrença.
Bruno Brindisi (Salerno, 1964), não obstante algum
tradicionalismo na disposição das vinhetas – convém lembrar que Dylan Dog se
destina, antes de mais, ao grande público –, é um desenhador de assinaláveis
recursos, como se verifica, logo na capa, no trabalho sobre o véu da noiva.
Dylan Dog – Até que a Morte Vos Separe
texto: Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
desenhos: Bruno Brindisi
edição: G-Floy Studio, 2019
Etiquetas:
Bobby Sands,
Bruno Brindisi,
Giuseppe Tartini,
Groucho Marx,
Leitor de BD-Jornal i,
Mauro Marcheselli,
Tiziano Sclavi,
Woody Allen
terça-feira, 15 de outubro de 2019
segunda-feira, 14 de outubro de 2019
domingo, 13 de outubro de 2019
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
traquinagens
Quim e Filipe (Quick et Flupke, no original) aparecem
no jornal juvenil Le Petit Vingtième,
em 1930, fazendo companhia a Tintin. Enquanto o repórter deambula pelo Congo,
Hergé oferece semanalmente aos leitores histórias humorísticas de duas páginas,
em que os protagonistas são dois garotos de Bruxelas. O seu grande desígnio é
comum a todos os miúdos de todas as épocas: passar o dia a brincar, de
preferência na rua, se possível com muitos amigos. Meninas, não há; parece que
a rua não era lugar para elas nesse tempo, até porque jogar à pedrada, um dos entreténs da rapaziada de várias eras, não
parecia ser muito do seu agrado. A comicidade é suave e inofensiva – quem nunca
tocou a todas as campainhas de um prédio e depois deu à sola? Nos melhores
momentos, reconhecemos o humor de Hergé, dos estatelanços aos quiproquós.
Série secundária em face da magnitude das aventuras de
Tintin, lê-se com agrado pelo valor testemunhal: dos artefactos – quando a
tecnologia de ponta se materializava num esplendoroso carrinho de rolamentos, fabrico
próprio –, à pedagogia aplicada, a saber, uns açoites bem puxados quando as
tropelias passavam das marcas, para não falar da falta de sentido de humor do
polícia de giro (Quim e Filipe têm um problema com a autoridade…)
Os episódios cessam em 1941, ano que não é para
graças. Numa das longas entrevistas que concedeu a Numa Sadoul, Hergé revelou
que estava então assoberbado de trabalho com Tintin e Milou e ainda uma outra
série de que também falaremos: Jo, Zette
et Jocko.
Aventuras
e Desventuras de Quim e Filipe- vol. I
Texto e desenhos: Hergé
Edição: Difusão Verbo, Lisboa, 2000.
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
os grandes mestres não desiludem
Hermann (Hermann Huppen, Bévercé, Ardenas, 1938) é um
dos mais extraordinários autores de BD em actividade. Este terceiro álbum da
série Duke, com argumento do seu filho, Yves H. (Bruxelas, 1967), aí está
para o demonstrar.
Se a
memória não atraiçoa, o nosso primeiro contacto com Hermann deu-se nas páginas
da revista Tintin, com a série Jugurtha, com argumento de
Jean-Luc Vernal, a desenrolar-se na Antiguidade. Mas foi na companhia de Greg que Hermann constituiu uma das
duplas míticas da BD franco-belga, em torno da pura aventura de Bernard
Prince e de Comanche, uma mulher cheia de fibra, dona do rancho
«Triplo 6», western que foi uma
excelente resposta do semanário belga ao concorrente francês Pilote,
casa do Tenente Blueberry (Fort Navajo). Desfeita a dupla, Hermann
avança por outros territórios ficcionais, de Jeremiah, fábula
pós-nuclear, ao ciclo medieval de As Torres de Bois-Maury, além de
vários one-shot (histórias publicadas num único álbum, sem sequência).
Há uns
bons anos que Hermann tem em Yves H. um argumentista à altura do seu talento.
Com Duke, o livro de que hoje nos ocupamos, esta colaboração pai-filho
avança com uma série pensada de raiz, de que saíram já três tomos, todos
publicados entre nós: A Lama e o Sangue, Aquele que Mata e Sou
uma Sombra, editado este ano.
E quem é
este “Duke”? Ao terceiro álbum ainda estamos a descobrir, aliás na companhia da
própria personagem, Morgan Finch, de seu nome cristão, ex-adjunto do xerife da
pequena cidade de Ogden, Colorado. Aqui quem manda é um potentado da mineração,
com recursos financeiros, poder de fogo e sicários arregimentados para fazer
valer os seus interesses contra os dos proprietários fundiários e reduzir a
autoridade do estado a mero pró-forma. Esta situação obriga Duke – menos contemporizador e mais jovem que o
xerife, um hesitante – a afastar-se desse papel decorativo, o que só lhe trará
problemas. Para simplificar diremos que
se trata de um pistoleiro que não gosta da violência das armas – ou julga não gostar. É
esta densidade ambivalente o maior trunfo da série no que ao argumento
respeita, além de tratar-se de uma narrativa passada no oeste americano, topo
com o melhor lugar cativo do nosso imaginário.
Sobre a
arte de Hermann, o que escrever sem repisar os encómios? Atente-se na capa, um
cowboy solitário na sua montada, de arma na mão, uma sombra no meio da noite de
intempérie; no interior, os planos aguarelados da paisagem, a finura psicológica
no tratamento das expressões, o grotesco por vezes quase simiesco dos corpos,
em contraste com a beleza dos cavalos, o realismo dos trajes e dos edifícios.
Veja-se a prancha 37 (pág. 39): dez vinhetas de tensão ao luar sem uma palavra.
Mestria. É verdade: os grandes mestres nunca desiludem.
Duke – Sou uma Sombra
texto: Yves H.
desenhos Hermann
edição: Arte de Autor, Estoril, 2019
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
nada está a salvo
Laerte
Coutinho (São Paulo, 1951), de cuja mão saíram, entre outros, os
iconoclastas Piratas do Tietê
e Suriá, a Garota do Circo,
para um público mais jovem, está na linha da frente dos grandes
autores brasileiros de quadrinhos. As tiras humorísticas de BD
implicam um espírito crítico apurado, capacidade de síntese e,
naturalmente, o talento do humor. Essas qualidades tem-nas Laerte em
elevado grau, lançando um olhar irónico e inteligente sobre a
sociedade e as pessoas que nela se movem. Mordacidade
de alto nível, que lança mão de todos os recursos para atingir o
seu fim, o de fazer-nos rir; mas nunca é um riso gratuito ou
grosseiro, antes uma provocação que nos faz pensar, em que recorre
ao trocadilho e ao cómico de situação, entrando pelo absurdo. Em
Laerte nada está, felizmente, a salvo: a vida social de manada, a
História, o imaginário e a cultura populares, a publicidade, o sexo
e as relações pessoais, a deficiência – tudo serve para o seu
manejo exímio do inesperado e do contra-senso. Por vezes, lembra os
norte-americanos Johnny Hart e Grant Parker (B.C.
e O Mago de Id).
Classificados
são tiras publicadas no caderno de anúncios da Folha
de São Paulo, de grande prestígio na
imprensa brasileira. Ou muito nos enganamos, ou as páginas de
anúncios seriam das mais vistas pelos leitores: por cada tira, o
sorriso estava garantido e a gargalhada era uma forte possibilidade.
Classificados
texto
e desenhos: Laerte
edição:
Devir, Lisboa e São Paulo, 2001
terça-feira, 1 de outubro de 2019
a estrada
Funerais
com longos regressos de automóvel são sempre propícios à trama e
à efabulação. Assim este Entre Cegos e
Invisíveis, de André Diniz (Rio de Janeiro,
1975). O autor é um nome de referência dos quadrinhos brasileiros,
como desenhador e argumentista, estando actualmente radicado em
Portugal, onde tem vários livros publicados. O seu traço
pontilhista é pessoalíssimo e facilmente identificável, como é
apanágio duma forte personalidade artística. Para quem não está
habituado, o melhor será citar livremente o Pessoa publicitário:
pode estranhar-se primeiro, mas entranha-se rapidamente.
Esta
é uma narrativa de estrada. O espaço é uma rodovia interurbana que
liga dois aglomerados populacionais, percorrida por uma viatura em
que viajam um casal, Jonas e Maitê, a irmã daquele, Leona, além de
uma estranha figura cuja língua ninguém entende. Vêm do funeral do
pai dos dois irmãos, figura nacional, militar com altas
responsabilidades, chefe da polícia secreta; um pai ausente, pois os
filhos são fruto duma ligação extraconjugal, e nunca foram
reconhecidos. O tempo é 1971, no auge repressivo da ditadura
militar. No rádio do carro, as notícias com maior destaque versam
sobre o recém-falecido e a ocorrência nessa noite de um fenómeno
astronómico: uma lua cheia mais próxima da Terra do que o costume,
invulgar episódio celeste que terá repetição apenas em 2018.
Tudo
sobre rodas, mesmo com a reserva do quarto passageiro, de cuja boca
só saem sons que imaginamos guturais, até que o carro pára, por
falta de combustível. Um automóvel imobilizado numa estrada
interurbana em noite de lua cheia é uma circunstância que irá
propiciar um sem número de diálogos e situações, com revelações
inesperadas, temas sufocados, por vezes há muito tempo, e que vêm
ao de cima. As interacções e focos de tensão marido-mulher,
irmão-irmã e entre cunhadas são momentos fortes, complementados
pelo estranhamento do suposto gringo
que os acompanha e pelo aparecimento bem doseado doutros
intervenientes, pontuando a narrativa: um cão abandonado, crianças
sem eira nem beira, um casal de assaltantes, os empregados da área
de serviço e da gasolineira, uma coluna militar, parentes (da
família legítima)
com quem penosa e acidentalmente se cruzam. E, sob a falsa quietação
da noite, alguns espectros: a memória da mãe-amante do militar, uma
adopção falhada, a lembrança do morto a pairar; e ainda outdoors
enluarados, publicitários, mas também políticos, como o infame
“Brasil – ame-o ou deixe-o”, àquela hora sem função.
André
Diniz dá-nos um argumento bem urdido, intercalando diálogos e
pausas, que vão ganhando uma densidade acrescida. Chegamos a ouvir o
silêncio sob aquele luar tão próximo e pesado, em nocturno
claro-escuro.
Entre
Cegos e Invisíveis
texto
e desenhos: André Diniz
edição:
Polvo, 2019
domingo, 29 de setembro de 2019
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
um rapaz e o seu cocker
Criados em 1959, pelo belga Jean Roba
(1930-2006), Boule e Bill, um rapazinho de sete anos e o seu cocker spaniel, são das personagens mais
populares da BD francófona. As camadas de ternura aplicadas por Roba em cada vinheta, recriando um
universo idílico numa família de classe média, com pais disponíveis, mesmo
quando têm de impor regras, à criança (os tpc) e ao animal (o banho…),
conjugadas com um humor por vezes desenfreado, foram ingredientes seguros desse
êxito. Para Roba, o mundo já era suficientemente agreste para que os seus gags
não permitissem essa distensão de humor sobre um tempo em que a vida é um
recreio permanente, mesmo com vacinas e banhos obrigatórios…
As personagens inspiraram-se no filho
do autor e no cão da casa, o que explica a quase beatítude que a leitura destas
pequenas histórias proporciona, na procura duma inocência que só existiu no
tempo em que os animais falavam. Numa entrevista a Hugues Dayez (Le Duel
Tintin-Spirou, 1997), Roba afirmou: «acredito que o homem, num passado
longínquo, pôde falar com os animais, e que esse privilégio foi-lhe subtraído.
É isso uma maldição? Creio que sim.» Por vezes, encontram-se pontos de contacto
com o Calvin de Bill Watterson. Bill
não fala, mas pensa, e em pensamento dirige-se a nós, leitores.
A dupla continua, pelas mãos do
francês Verron (Grenoble, 1962). Os álbuns de Boule e Bill estão inéditos em
Portugal.
Roba, 60 Gags de Boule et Bill
edição: Dupuis, Marcinelle, 1962
edição: Dupuis, Marcinelle, 1962
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
Os derrotados da História
Pensar que em 1974 o país
estava num conflito militar com três frentes, perpetrando crimes de guerra em
nome de uma mentirola consubstanciada no slogan
“Portugal uno e indivisível, do Minho a Timor”, só não faz sorrir porque
muitas foram as vidas destruídas, portuguesas e africanas, em nome dessa
balela. No entanto, o tratamento dado aos ex-combatentes, que em nome deste
rudimento ideológico serviram de carne canhão, foi outra indignidade, aliás
muito portuguesa: varremos o que é incómodo para debaixo do tapete .
[Abre-se propositadamente um
parênteses sobre o debate em curso, a propósito da falsa questão dos
Descobrimentos: estes estão confinados aos séculos XIV e XVI; misturá-los com o
imperialismo do Euromundo é um anacronismo grosseiro e uma mistura de
conceitos. O século XV não é o século XIX.]
Mas há mais: africanos que
pegaram em armas contra os movimentos de libertação – e já estamos a entrar no
livro de hoje –, tiveram, muitos deles, um triste fim: Spínola, quando chega à
Guiné, em 1968, muda de táctica, envolvendo as populações e criando forças
africanas para combater o PAIGC, enquadradas pelas Forças Armadas – o velho
‘dividir para reinar’. Já era tarde, porém, tanto eticamente como do ponto de
vista estratégico e político, para os obstinados do Império, que aguardava
apenas uma rajada mais forte dos ventos da História para se escaqueirar.
BD que só sirva para dela
falar, não interessa, perdoe-se o lugar-comum. Filhos do Rato, de Luís Zhang (Lisboa, 1986) e Fábio Veras (Lisboa,
1997), é um óptimo exemplo do bom momento por que passa a BD portuguesa. Belo
texto (apesar de alguns anacronismos evitáveis…) para um dos dramas mais
pesados da nossa história recente. A acção decorre na Guiné em dois momentos –
Inverno de 1975, com um extenso flashback
para um período que antecede a independência, Verão de 1973 – e conta-nos da
amizade travada no mato por dois homens: Camões, um militar negro, e Joaquim,
soldado duma aldeia perdida em Trás-os-Montes, amizade que vai subsistir ainda
para além da morte. A certa altura da narrativa, uma ratazana é vista a comer
mantimentos no barracão do acampamento; atingida em cheio por uma lata de
conserva, foge e deixa no local embriões de ratos que serão esmagados, com
nojo. Uma metáfora para esses anos da guerra na Guiné: sabemos quem são os filhos do rato; e também o que
representa a ratazana. Para bom entendedor – é melhor confirmar pela leitura…
A opção da coexistência da
cor e do preto e branco na mesma prancha é muito interessante; e o desenho de
Fábio Veras, por vezes expressionista, passa ao papel, com o nervo intenso e
necessário, os momentos desesperantes do tédio de uma longa inacção na espera
do inimigo ou da ocorrência da emboscada, com a mata a ferro e fogo.
Sim, a BD é uma coisa séria.
Luís Zhang & Fábio Veras, Filhos do Rato
Edição: Comic Heart e G. Floy Studio, 2019
Edição: Comic Heart e G. Floy Studio, 2019
sábado, 21 de setembro de 2019
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
História e BD
Os quase 900 anos de
História de Portugal são uma mina que a BD por cá aproveitou quase sempre para
obras de teor essencialmente didáctico, mas de pouco brilho narrativo. O que
não seria, se este filão fosse aproveitado por argumentistas da craveira de
Charlier, Greg ou Van Hamme, que por cá não houve, não se sabe bem porquê? Há
excepções, claro; e uma delas foi a do saudoso Jorge Magalhães (1938-2018), que
fez o que pôde. Em Giraldo o Sem Pavor (1986),
Magalhães deixa brilhar um talento com 20 anos, à data da elaboração destas
páginas: José Projecto (Évora, 1962), apregoado e evidente admirador de
desenhadores como Auclair, Rosinski e Segrelles.
Geraldo Geraldes, “o Sem
Pavor”, é uma dessas figuras reais cobertas pelo mito, uma das muitas
personagens dum passado a pedir autores. Cavaleiro nobre, mercenário, chefe de
salteadores, quando lhe convinha guerreava ao lado dos mouros contra os
cristãos como ele. Praticante do fossado, incursão relâmpago no reduto inimigo,
tinha, qual guerrilheiro, rectaguardas inexpugnáveis.
Estamos diante duma caça ao
homem: depois de matar um cavaleiro de D. Afonso Henriques, Geraldo é
perseguido até alcançar refúgio entre os sicários que comanda, não sem antes
pernoitar numa casa isolada, onde uma mulher o aguarda. Um pretexto para
desenhar cenas de combate, belas figuras humanas e animais de vário tipo, algo
que Projecto faz com verificável gosto e competência.
José Projecto & Jorge Magalhães, Giraldo o sem Pavor
José Projecto & Jorge Magalhães, Giraldo o sem Pavor
edição: Futura, Lisboa, 1986
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Riad Sattouf, O DIÁRIO DE ESTHER -- HISTÓRIAS DOS MEUS 10 ANOS (2016)
As
crianças estão na BD desde o princípio, e com momentos altos –
lembremos os Peanuts,
de Charles M. Schulz. Para o franco-sírio Riad Sattouf (Paris,
1978), criador do auto-referencial O Árabe do
Futuro (2014) e também realizador,
nomeadamente da excelente comédia Les Beaux
Gosses (2009), o mundo da infância e da
juventude é um tema persistente.
Cheia
de carisma e adorável criancice,
Esther, nascida nas
páginas do semanário L’Obs,
em 2015, não é só mais uma criança nos quadradinhos; antes da
personagem de papel, está Esther A., a menina de carne e osso,
informante e filha de amigos do autor. Todo o espanto, toda a
fantasia, todos os sonhos improváveis e todos os ‘amores’
impossíveis são maravilhosamente recriados por Sattouf: Esther tem
como grandes aspirações ser loura, famosa e possuir um ipad,
artefacto que o pai, um professor de ginástica com espírito
crítico, lhe nega, por evidente despropósito para quem ainda nem
completou os dez anos. Infelizmente para Esther, a maioria dos outros
progenitores não têm a mesma opinião. Um
pequeno apartamento, em que partilha o quarto com o irritante
António, o irmão de 14 anos, é o seu lar. A família, remediada,
completa-se com a mãe, empregada bancária e doméstica
em regime pós-laboral, por isso muitas vezes cansada, e a avó, cuja
casa na Bretanha é local de férias. Outro palco privilegiado é a
escola, em especial o recreio. Esther tem duas amigas dilectas:
Eugénia, criança rica e por vezes pretensiosa, e Cassandra, menina
negra cujo pai certo dia partiu para não mais voltar.
As
circunstâncias da série são as expectáveis: a recriação
recorrente dos maneirismos dos adultos, a relutância pelas
grosserias dos rapazes, cuja missão parece ser a de maçá-las com o
seu gozo e a sua má-criação – se bem que por vezes haja qualquer
coisa que as desperta. Introduzido com leveza
e sempre a propósito pelo autor, a incompreensão do vasto mundo
adulto da política, as manifestações incipientes de discriminação
social e racial, que ainda não assimilam inteiramente, e as questões
de género são alguns tópicos obrigatórios. Esther, contudo, não
é a Mafalda do Quino,
contestatária no
seio de uma família conformista, que muitas vezes parece uma mulher
pequena; Esther é sempre criança (o gag
sobre o atentado ao Charlie Hebdo é
um bom exemplo). A série acompanhará o crescimento da miúda, pelo
que teremos oportunidade de assistir à evolução desta família.
Organizado
graficamente sob a forma de gag
(história humorística de uma prancha), dividido em duas páginas, o
livro tem o formato de uma edição de tiras de BD. O texto, além de
reproduzir as falas das personagens em filacteras (os ‘balões’),
é acrescentado por geniais comentários de Esther em cursivo, que
acentuam o tom humorístico.
domingo, 15 de setembro de 2019
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
oh as casas
A nossa
casa é, idealmente, o lugar por excelência onde melhor nos
sentimos, refúgio, castelo, recinto privilegiado em que assistimos
ao desenrolar das vidas dos que nos são próximos. Um edifício
abandonado ou em ruínas confronta-nos desapiedadamente com vida
vivida, para sempre desaparecida ali e, por consequência, com a
melancolia da finitude. É sobre isto que nos fala The
Building (O Edifício,
na tradução brasileira), de Will Eisner (1917-2005), dos autores
mais talentosos que a BD já conheceu, criador do Spirit,
e um dos pioneiros da graphic novel.
O
Edifício é uma história sobre um prédio
nova-iorquino situado no cruzamento de duas avenidas, que albergou
dezenas de famílias e indivíduos ao longo de décadas, silenciosa
testemunha de outras tantas existências. Uma epígrafe inicial de
John Ruskin, dá o tom: «Os edifícios antigos não nos pertencem.
Em parte são propriedade daqueles que os construíram; em parte das
gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre
eles: aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.»
Com o
desenho singular que o caracteriza, o tratamento opulento da prancha
como vinheta isolada ou superfície única para várias vinhetas, com
sem cercadura, Eisner consegue o pleno na arte combinatória da
novela gráfica.
Will Eisner, O Edifício
Will Eisner, O Edifício
Editora Abril, São
Paulo, 1987
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