quinta-feira, 17 de outubro de 2019

uma folha de papel

Com Winsor McCay (1867-1934), os quadradinhos atingem a maturidade gráfica. Little Nemo in Slumberland, a sua mais célebre criação estreou-se a 15 de Outubro de 1905, no New York Herald. Cada prancha é um prodígio de imaginação e cor, e nunca mais se foi tão longe na disposição de uma narrativa em imagens. Jean Giraud / Moebius foi um dos muitos que aqui vieram beber.
         A página é encimada por uma vinheta a toda a largura, espécie de friso ao gosto Arte Nova, que dá o mote: Morfeus, rei do País dos Sonhos, envia emissários a Nemo; e lá vai ele, até acordar, por vezes no chão. Há ocasiões em que, em vez de quadradinhos estanques, o mesmo desenho se prolonga, dando a ilusão de vária vinhetas – por exemplo, entre os vãos dos pilares de uma ponte. Esta linguagem, hoje comum, era nova no dealbar do século XX. Aliás, como notam os críticos, o caminho fazia-se à medida que o caminhante vencia cada etapa. No álbum que temos em mãos, esse work in progress é particularmente visível: nas pranchas iniciais, McCay, embora recorresse à filactera (o ‘balão’), introduzia texto sob a vinheta, uma redundância que só atrapalhava a fruição da beleza dos desenhos, a riqueza da composição e a inventiva das histórias que pretendia contar. Ao fim de 20 pranchas, essa excrescência será eliminada, dando a margem indispensável ao leitor para seguir a narrativa sem outra condicionante que não fosse a materialidade sobre a qual se aplica uma história em quadradinhos: uma folha de papel.
 
O Pequeno Nemo no País dos Sonhos – vol. I:1905-1907
texto e desenhos: Winsor McCay
edição: Livros Horizonte, Lisboa, 1990
 


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

sonata para clarinete e explosivos

Depois do universo franco-belga, a Itália é o segundo centro europeu de criação e produção de BD com projecção global. Vieram dali, entre muitos outros, Corto Maltese, Tex, Valentina… e o Superpato.
         Dylan Dog, criado em 1986 por Tiziano Sclavi (Broni, Pavia, 1953), um escritor à procura de leitores, é uma personagem curiosa: antigo agente da Scotland Yard, passa a trabalhar por conta própria, deslindando casos em que o paranormal faz as suas aparições. Calmo (detesta armas) e morigerado (não bebe nem fuma), tem um fraco por mulheres, que se sucedem quase à cadência de uma por história. No mais, é um tipo reflexivo que gosta de ler e tocar clarinete, chegando a fazer um dueto com Woody Allen... Contudo, o seu tema preferido não está no dixieland mas na sonata Il Trillo del Diavolo, do compositor setecentista Giuseppe Tartini – ou melhor, da autoria do próprio Satanás, que em sonhos o visitou, executando a composição que ficaria também conhecida como a «Sonata do Diabo». Nada de admirar, para um detective do pesadelo. A acompanhar Dylan Dog, temos um auxiliar com cara, nome e chistes à Groucho Marx.
         Apesar de ser um dos fumetti mais populares em Itália, com cada revista a atingir um milhão de exemplares de tiragem nos tempos áureos, entre nós Dylan Dog é pouco conhecido, como a generalidade da BD italiana, com as assinaláveis excepções.
         Em Até que a Morte Vos Separe, de 1996, Sclavi desenvolveu uma ideia de Mauro Marcheselli, recuando aos tempos da polícia londrina e aos ataques e retaliações perpetrados pelo IRA na capital inglesa. Estava-se ainda a dois anos da assinatura do Acordo de Paz de Sexta-Feira Santa, e os atentados faziam vítimas, em especial entre os representantes do Estado, que por sua vez reprimia com condições carcerárias duríssimas, contra as quais se insurgiram Bobby Sands e outros prisioneiros independentistas irlandeses, numa greve de fome histórica e fatal. Dylan conhece Lillie Connolly, uma irlandesa do Ulster a viver em Londres, militante daquela força paramilitar, sob disfarce. No entanto, apesar das mortes e das prisões, o dramatismo é moderado q.b., não só porque a menina é assombrada por visões, o que opera uma quebra no realismo da narrativa, como há pormenores de série humorística – veja-se aquele ponto de interrogação desenhado sobre a cabeça dum rato, numa das cenas passadas nos esgotos da cidade. Os registos realista, onírico e humorístico interpenetram-se, o que não tem mal, desde que o leitor, como é de bom uso, estabeleça com os autores o pacto da suspensão voluntária da descrença.
         Bruno Brindisi (Salerno, 1964), não obstante algum tradicionalismo na disposição das vinhetas – convém lembrar que Dylan Dog se destina, antes de mais, ao grande público –, é um desenhador de assinaláveis recursos, como se verifica, logo na capa, no trabalho sobre o véu da noiva.
 
Dylan Dog – Até que a Morte Vos Separe
texto: Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
desenhos: Bruno Brindisi
edição: G-Floy Studio, 2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

traquinagens

Quim e Filipe (Quick et Flupke, no original) aparecem no jornal juvenil Le Petit Vingtième, em 1930, fazendo companhia a Tintin. Enquanto o repórter deambula pelo Congo, Hergé oferece semanalmente aos leitores histórias humorísticas de duas páginas, em que os protagonistas são dois garotos de Bruxelas. O seu grande desígnio é comum a todos os miúdos de todas as épocas: passar o dia a brincar, de preferência na rua, se possível com muitos amigos. Meninas, não há; parece que a rua não era lugar para elas nesse tempo, até porque jogar à pedrada, um dos entreténs da rapaziada de várias eras, não parecia ser muito do seu agrado. A comicidade é suave e inofensiva – quem nunca tocou a todas as campainhas de um prédio e depois deu à sola? Nos melhores momentos, reconhecemos o humor de Hergé, dos estatelanços aos quiproquós.
Série secundária em face da magnitude das aventuras de Tintin, lê-se com agrado pelo valor testemunhal: dos artefactos – quando a tecnologia de ponta se materializava num esplendoroso carrinho de rolamentos, fabrico próprio –, à pedagogia aplicada, a saber, uns açoites bem puxados quando as tropelias passavam das marcas, para não falar da falta de sentido de humor do polícia de giro (Quim e Filipe têm um problema com a autoridade…)
Os episódios cessam em 1941, ano que não é para graças. Numa das longas entrevistas que concedeu a Numa Sadoul, Hergé revelou que estava então assoberbado de trabalho com Tintin e Milou e ainda uma outra série de que também falaremos: Jo, Zette et Jocko.
 
Aventuras e Desventuras de Quim e Filipe- vol. I
Texto e desenhos: Hergé
Edição: Difusão Verbo, Lisboa, 2000.


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

os grandes mestres não desiludem


Hermann (Hermann Huppen, Bévercé, Ardenas, 1938) é um dos mais extraordinários autores de BD em actividade. Este terceiro álbum da série Duke, com argumento do seu filho, Yves H. (Bruxelas, 1967), aí está para o demonstrar.
Se a memória não atraiçoa, o nosso primeiro contacto com Hermann deu-se nas páginas da revista Tintin, com a série Jugurtha, com argumento de Jean-Luc Vernal, a desenrolar-se na Antiguidade. Mas foi na companhia de Greg que Hermann constituiu uma das duplas míticas da BD franco-belga, em torno da pura aventura de Bernard Prince e de Comanche, uma mulher cheia de fibra, dona do rancho «Triplo 6», western que foi uma excelente resposta do semanário belga ao concorrente francês Pilote, casa do Tenente Blueberry (Fort Navajo). Desfeita a dupla, Hermann avança por outros territórios ficcionais, de Jeremiah, fábula pós-nuclear, ao ciclo medieval de As Torres de Bois-Maury, além de vários one-shot (histórias publicadas num único álbum, sem sequência).
Há uns bons anos que Hermann tem em Yves H. um argumentista à altura do seu talento. Com Duke, o livro de que hoje nos ocupamos, esta colaboração pai-filho avança com uma série pensada de raiz, de que saíram já três tomos, todos publicados entre nós: A Lama e o Sangue, Aquele que Mata e Sou uma Sombra, editado este ano.
E quem é este “Duke”? Ao terceiro álbum ainda estamos a descobrir, aliás na companhia da própria personagem, Morgan Finch, de seu nome cristão, ex-adjunto do xerife da pequena cidade de Ogden, Colorado. Aqui quem manda é um potentado da mineração, com recursos financeiros, poder de fogo e sicários arregimentados para fazer valer os seus interesses contra os dos proprietários fundiários e reduzir a autoridade do estado a mero pró-forma. Esta situação obriga Duke –  menos contemporizador e mais jovem que o xerife, um hesitante – a afastar-se desse papel decorativo, o que só lhe trará problemas. Para simplificar diremos que  se trata de um pistoleiro que não gosta da  violência das armas – ou julga não gostar. É esta densidade ambivalente o maior trunfo da série no que ao argumento respeita, além de tratar-se de uma narrativa passada no oeste americano, topo com o melhor lugar cativo do nosso imaginário.
Sobre a arte de Hermann, o que escrever sem repisar os encómios? Atente-se na capa, um cowboy solitário na sua montada, de arma na mão, uma sombra no meio da noite de intempérie; no interior, os planos aguarelados da paisagem, a finura psicológica no tratamento das expressões, o grotesco por vezes quase simiesco dos corpos, em contraste com a beleza dos cavalos, o realismo dos trajes e dos edifícios. Veja-se a prancha 37 (pág. 39): dez vinhetas de tensão ao luar sem uma palavra. Mestria. É verdade: os grandes mestres nunca desiludem.

 
Duke – Sou uma Sombra
texto: Yves H.
desenhos Hermann
edição: Arte de Autor, Estoril, 2019


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

nada está a salvo

Laerte Coutinho (São Paulo, 1951), de cuja mão saíram, entre outros, os iconoclastas Piratas do Tietê e Suriá, a Garota do Circo, para um público mais jovem, está na linha da frente dos grandes autores brasileiros de quadrinhos. As tiras humorísticas de BD implicam um espírito crítico apurado, capacidade de síntese e, naturalmente, o talento do humor. Essas qualidades tem-nas Laerte em elevado grau, lançando um olhar irónico e inteligente sobre a sociedade e as pessoas que nela se movem. Mordacidade de alto nível, que lança mão de todos os recursos para atingir o seu fim, o de fazer-nos rir; mas nunca é um riso gratuito ou grosseiro, antes uma provocação que nos faz pensar, em que recorre ao trocadilho e ao cómico de situação, entrando pelo absurdo. Em Laerte nada está, felizmente, a salvo: a vida social de manada, a História, o imaginário e a cultura populares, a publicidade, o sexo e as relações pessoais, a deficiência – tudo serve para o seu manejo exímio do inesperado e do contra-senso. Por vezes, lembra os norte-americanos Johnny Hart e Grant Parker (B.C. e O Mago de Id).
Classificados são tiras publicadas no caderno de anúncios da Folha de São Paulo, de grande prestígio na imprensa brasileira. Ou muito nos enganamos, ou as páginas de anúncios seriam das mais vistas pelos leitores: por cada tira, o sorriso estava garantido e a gargalhada era uma forte possibilidade.

Classificados
texto e desenhos: Laerte
edição: Devir, Lisboa e São Paulo, 2001

terça-feira, 1 de outubro de 2019

a estrada

Funerais com longos regressos de automóvel são sempre propícios à trama e à efabulação. Assim este Entre Cegos e Invisíveis, de André Diniz (Rio de Janeiro, 1975). O autor é um nome de referência dos quadrinhos brasileiros, como desenhador e argumentista, estando actualmente radicado em Portugal, onde tem vários livros publicados. O seu traço pontilhista é pessoalíssimo e facilmente identificável, como é apanágio duma forte personalidade artística. Para quem não está habituado, o melhor será citar livremente o Pessoa publicitário: pode estranhar-se primeiro, mas entranha-se rapidamente.
Esta é uma narrativa de estrada. O espaço é uma rodovia interurbana que liga dois aglomerados populacionais, percorrida por uma viatura em que viajam um casal, Jonas e Maitê, a irmã daquele, Leona, além de uma estranha figura cuja língua ninguém entende. Vêm do funeral do pai dos dois irmãos, figura nacional, militar com altas responsabilidades, chefe da polícia secreta; um pai ausente, pois os filhos são fruto duma ligação extraconjugal, e nunca foram reconhecidos. O tempo é 1971, no auge repressivo da ditadura militar. No rádio do carro, as notícias com maior destaque versam sobre o recém-falecido e a ocorrência nessa noite de um fenómeno astronómico: uma lua cheia mais próxima da Terra do que o costume, invulgar episódio celeste que terá repetição apenas em 2018.
Tudo sobre rodas, mesmo com a reserva do quarto passageiro, de cuja boca só saem sons que imaginamos guturais, até que o carro pára, por falta de combustível. Um automóvel imobilizado numa estrada interurbana em noite de lua cheia é uma circunstância que irá propiciar um sem número de diálogos e situações, com revelações inesperadas, temas sufocados, por vezes há muito tempo, e que vêm ao de cima. As interacções e focos de tensão marido-mulher, irmão-irmã e entre cunhadas são momentos fortes, complementados pelo estranhamento do suposto gringo que os acompanha e pelo aparecimento bem doseado doutros intervenientes, pontuando a narrativa: um cão abandonado, crianças sem eira nem beira, um casal de assaltantes, os empregados da área de serviço e da gasolineira, uma coluna militar, parentes (da família legítima) com quem penosa e acidentalmente se cruzam. E, sob a falsa quietação da noite, alguns espectros: a memória da mãe-amante do militar, uma adopção falhada, a lembrança do morto a pairar; e ainda outdoors enluarados, publicitários, mas também políticos, como o infame “Brasil – ame-o ou deixe-o”, àquela hora sem função.
André Diniz dá-nos um argumento bem urdido, intercalando diálogos e pausas, que vão ganhando uma densidade acrescida. Chegamos a ouvir o silêncio sob aquele luar tão próximo e pesado, em nocturno claro-escuro.

Entre Cegos e Invisíveis
texto e desenhos: André Diniz
edição: Polvo, 2019

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

um rapaz e o seu cocker

Criados em 1959, pelo belga Jean Roba (1930-2006), Boule e Bill, um rapazinho de sete anos e o seu cocker spaniel, são das personagens mais populares da BD francófona. As camadas de ternura aplicadas por Roba em cada vinheta, recriando um universo idílico numa família de classe média, com pais disponíveis, mesmo quando têm de impor regras, à criança (os tpc) e ao animal (o banho…), conjugadas com um humor por vezes desenfreado, foram ingredientes seguros desse êxito. Para Roba, o mundo já era suficientemente agreste para que os seus gags não permitissem essa distensão de humor sobre um tempo em que a vida é um recreio permanente, mesmo com vacinas e banhos obrigatórios…
As personagens inspiraram-se no filho do autor e no cão da casa, o que explica a quase beatítude que a leitura destas pequenas histórias proporciona, na procura duma inocência que só existiu no tempo em que os animais falavam. Numa entrevista a Hugues Dayez (Le Duel Tintin-Spirou, 1997), Roba afirmou: «acredito que o homem, num passado longínquo, pôde falar com os animais, e que esse privilégio foi-lhe subtraído. É isso uma maldição? Creio que sim.» Por vezes, encontram-se pontos de contacto com o Calvin de Bill Watterson. Bill não fala, mas pensa, e em pensamento dirige-se a nós, leitores.
A dupla continua, pelas mãos do francês Verron (Grenoble, 1962). Os álbuns de Boule e Bill estão inéditos em Portugal.
 
Roba, 60 Gags de Boule et Bill
edição: Dupuis, Marcinelle, 1962


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Os derrotados da História

Pensar que em 1974 o país estava num conflito militar com três frentes, perpetrando crimes de guerra em nome de uma mentirola consubstanciada no slogan “Portugal uno e indivisível, do Minho a Timor”, só não faz sorrir porque muitas foram as vidas destruídas, portuguesas e africanas, em nome dessa balela. No entanto, o tratamento dado aos ex-combatentes, que em nome deste rudimento ideológico serviram de carne canhão, foi outra indignidade, aliás muito portuguesa: varremos o que é incómodo para debaixo do tapete .
[Abre-se propositadamente um parênteses sobre o debate em curso, a propósito da falsa questão dos Descobrimentos: estes estão confinados aos séculos XIV e XVI; misturá-los com o imperialismo do Euromundo é um anacronismo grosseiro e uma mistura de conceitos. O século XV não é o século XIX.]
Mas há mais: africanos que pegaram em armas contra os movimentos de libertação – e já estamos a entrar no livro de hoje –, tiveram, muitos deles, um triste fim: Spínola, quando chega à Guiné, em 1968, muda de táctica, envolvendo as populações e criando forças africanas para combater o PAIGC, enquadradas pelas Forças Armadas – o velho ‘dividir para reinar’. Já era tarde, porém, tanto eticamente como do ponto de vista estratégico e político, para os obstinados do Império, que aguardava apenas uma rajada mais forte dos ventos da História para se escaqueirar.
BD que só sirva para dela falar, não interessa, perdoe-se o lugar-comum. Filhos do Rato, de Luís Zhang (Lisboa, 1986) e Fábio Veras (Lisboa, 1997), é um óptimo exemplo do bom momento por que passa a BD portuguesa. Belo texto (apesar de alguns anacronismos evitáveis…) para um dos dramas mais pesados da nossa história recente. A acção decorre na Guiné em dois momentos – Inverno de 1975, com um extenso flashback para um período que antecede a independência, Verão de 1973 – e conta-nos da amizade travada no mato por dois homens: Camões, um militar negro, e Joaquim, soldado duma aldeia perdida em Trás-os-Montes, amizade que vai subsistir ainda para além da morte. A certa altura da narrativa, uma ratazana é vista a comer mantimentos no barracão do acampamento; atingida em cheio por uma lata de conserva, foge e deixa no local embriões de ratos que serão esmagados, com nojo. Uma metáfora para esses anos da guerra na Guiné: sabemos quem são os filhos do rato; e também o que representa a ratazana. Para bom entendedor – é melhor confirmar pela leitura…
A opção da coexistência da cor e do preto e branco na mesma prancha é muito interessante; e o desenho de Fábio Veras, por vezes expressionista, passa ao papel, com o nervo intenso e necessário, os momentos desesperantes do tédio de uma longa inacção na espera do inimigo ou da ocorrência da emboscada, com a mata a ferro e fogo.
Sim, a BD é uma coisa séria.

Luís Zhang & Fábio Veras, Filhos do Rato
Edição: Comic Heart e G. Floy Studio, 2019



sexta-feira, 20 de setembro de 2019

História e BD

Os quase 900 anos de História de Portugal são uma mina que a BD por cá aproveitou quase sempre para obras de teor essencialmente didáctico, mas de pouco brilho narrativo. O que não seria, se este filão fosse aproveitado por argumentistas da craveira de Charlier, Greg ou Van Hamme, que por cá não houve, não se sabe bem porquê? Há excepções, claro; e uma delas foi a do saudoso Jorge Magalhães (1938-2018), que fez o que pôde. Em Giraldo o Sem Pavor (1986), Magalhães deixa brilhar um talento com 20 anos, à data da elaboração destas páginas: José Projecto (Évora, 1962), apregoado e evidente admirador de desenhadores como Auclair, Rosinski e Segrelles.
Geraldo Geraldes, “o Sem Pavor”, é uma dessas figuras reais cobertas pelo mito, uma das muitas personagens dum passado a pedir autores. Cavaleiro nobre, mercenário, chefe de salteadores, quando lhe convinha guerreava ao lado dos mouros contra os cristãos como ele. Praticante do fossado, incursão relâmpago no reduto inimigo, tinha, qual guerrilheiro, rectaguardas inexpugnáveis.
Estamos diante duma caça ao homem: depois de matar um cavaleiro de D. Afonso Henriques, Geraldo é perseguido até alcançar refúgio entre os sicários que comanda, não sem antes pernoitar numa casa isolada, onde uma mulher o aguarda. Um pretexto para desenhar cenas de combate, belas figuras humanas e animais de vário tipo, algo que Projecto faz com verificável gosto e competência.
José Projecto & Jorge Magalhães, Giraldo o sem Pavor
 edição: Futura, Lisboa, 1986


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Riad Sattouf, O DIÁRIO DE ESTHER -- HISTÓRIAS DOS MEUS 10 ANOS (2016)

As crianças estão na BD desde o princípio, e com momentos altos – lembremos os Peanuts, de Charles M. Schulz. Para o franco-sírio Riad Sattouf (Paris, 1978), criador do auto-referencial O Árabe do Futuro (2014) e também realizador, nomeadamente da excelente comédia Les Beaux Gosses (2009), o mundo da infância e da juventude é um tema persistente.
Cheia de carisma e adorável criancice, Esther, nascida nas páginas do semanário L’Obs, em 2015, não é só mais uma criança nos quadradinhos; antes da personagem de papel, está Esther A., a menina de carne e osso, informante e filha de amigos do autor. Todo o espanto, toda a fantasia, todos os sonhos improváveis e todos os ‘amores’ impossíveis são maravilhosamente recriados por Sattouf: Esther tem como grandes aspirações ser loura, famosa e possuir um ipad, artefacto que o pai, um professor de ginástica com espírito crítico, lhe nega, por evidente despropósito para quem ainda nem completou os dez anos. Infelizmente para Esther, a maioria dos outros progenitores não têm a mesma opinião. Um pequeno apartamento, em que partilha o quarto com o irritante António, o irmão de 14 anos, é o seu lar. A família, remediada, completa-se com a mãe, empregada bancária e doméstica em regime pós-laboral, por isso muitas vezes cansada, e a avó, cuja casa na Bretanha é local de férias. Outro palco privilegiado é a escola, em especial o recreio. Esther tem duas amigas dilectas: Eugénia, criança rica e por vezes pretensiosa, e Cassandra, menina negra cujo pai certo dia partiu para não mais voltar.
As circunstâncias da série são as expectáveis: a recriação recorrente dos maneirismos dos adultos, a relutância pelas grosserias dos rapazes, cuja missão parece ser a de maçá-las com o seu gozo e a sua má-criação – se bem que por vezes haja qualquer coisa que as desperta. Introduzido com leveza e sempre a propósito pelo autor, a incompreensão do vasto mundo adulto da política, as manifestações incipientes de discriminação social e racial, que ainda não assimilam inteiramente, e as questões de género são alguns tópicos obrigatórios. Esther, contudo, não é a Mafalda do Quino, contestatária no seio de uma família conformista, que muitas vezes parece uma mulher pequena; Esther é sempre criança (o gag sobre o atentado ao Charlie Hebdo é um bom exemplo). A série acompanhará o crescimento da miúda, pelo que teremos oportunidade de assistir à evolução desta família.
Organizado graficamente sob a forma de gag (história humorística de uma prancha), dividido em duas páginas, o livro tem o formato de uma edição de tiras de BD. O texto, além de reproduzir as falas das personagens em filacteras (os ‘balões’), é acrescentado por geniais comentários de Esther em cursivo, que acentuam o tom humorístico.

edição: Gradiva, Lisboa, 2019


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

oh as casas

A nossa casa é, idealmente, o lugar por excelência onde melhor nos sentimos, refúgio, castelo, recinto privilegiado em que assistimos ao desenrolar das vidas dos que nos são próximos. Um edifício abandonado ou em ruínas confronta-nos desapiedadamente com vida vivida, para sempre desaparecida ali e, por consequência, com a melancolia da finitude. É sobre isto que nos fala The Building (O Edifício, na tradução brasileira), de Will Eisner (1917-2005), dos autores mais talentosos que a BD já conheceu, criador do Spirit, e um dos pioneiros da graphic novel.
O Edifício é uma história sobre um prédio nova-iorquino situado no cruzamento de duas avenidas, que albergou dezenas de famílias e indivíduos ao longo de décadas, silenciosa testemunha de outras tantas existências. Uma epígrafe inicial de John Ruskin, dá o tom: «Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte são propriedade daqueles que os construíram; em parte das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles: aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.»
Com o desenho singular que o caracteriza, o tratamento opulento da prancha como vinheta isolada ou superfície única para várias vinhetas, com sem cercadura, Eisner consegue o pleno na arte combinatória da novela gráfica.
Will Eisner, O Edifício

Editora Abril, São Paulo, 1987