quarta-feira, 30 de outubro de 2019

um pequeno malcriado

Titeuf, abreviatura de 'petit œuf '' ('pequeno ovo', por óbvias razões anatómicas), é uma personagem criada em 1993 pelo autor suíço Zep (Philippe Chappuis, Onex, Genebra, 1967), pseudónimo que é uma homenagem aos Led Zeppelin. À partida, ‘Ovinho’ seria uma tradução aceitável para o nome da personagem, não fora esta ser por vezes um bocadito alarve: com cerca de oito anos, e um topete que parece uma hipérbole do cabelo de Tintin, Titeuf é um reguila desabusado, por vezes malcriado, que quer dar nas vistas para parecer mais importante e mais crescido do que na verdade é – e também para que as miúdas reparem em si. Um rapazelho como muitos outros, portanto... Até hoje foram editados 18 álbuns, com claro sucesso de público e crítica: tiragem de milhões de exemplares, adaptação a cinema de animação e o merchandising habitual.
Em Petit Poésie des Saisons (de 2005, agora reeditado com nova capa) assistimos ao decorrer das estações do ano, tal como Titeuf e os amigos as vivem; e claro que a poética a que o título alude não pode deixar de ser irónica: a areia da praia intromete-se nos mais recônditos e incómodos interstícios; o salpico de neve que lhe cai em cheio na roupa está longe de ser alvo e imaculado. Quanto ao mais: a escola, o cair da folha e o obrigatório Halloween, no Outono; escola, bonecos de neve, frio e o Natal, no Inverno; escola, o despertar da Natureza e das paixões, as partidas do 1.º de Abril, na Primavera; no Verão, as férias grandes, as festas... e a escola, a começar no início de Setembro, em eterno retorno de trapalhadas, triunfos e desaires à escala minorca, sempre acolitado pela família, a inevitável professora velha e feia, os indispensáveis compinchas, e uma certa Nadia, a quem Titeuf arrasta a asa, quando distraído das suas actividades mais sérias, ou seja, pregar partidas e fazer que estuda.
Em 2001, Zep e Hélène Bruller, então sua mulher, criaram um livro extra-série, Le Guide du Zizi Sexuel (Aparelho Sexual & C.ª, na tradução brasileira), obra pedagógica destinada aos pré-adolescentes, que teve a duvidosa distinção de ser apresentada por Bolsonaro, como exemplo do alegado 'kit gay' e incitamento à pedofilia...
A fórmula do gag é clássica: exposição, desenvolvimento e remate, sempre cómico e/ou inesperado. Há um, porém, que foge a esse esquema, o dedicado às mentiras do 1.º de Abril: em seis vinhetas Titeuf prega partidas em casa e na escola, rindo-se a bandeiras despregadas; na sétima, ao fim do dia, será a vez da televisão pregar a sua mentira aos telespectadores (assim acreditava o rapaz): uma intervenção militar no Iraque, diz o pivot, fará milhares de vítimas. Titeuf não viu onde estava a graça. Os mentirosos eram outros, já então se sabia.

Titeuf – Petite Poésie des Saisons
texto e desenhos: Zep
edição: Glénat, Grenoble, 2019


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

very british

A propósito de Raymond Macherot (1924-2008), um mestre da BD franco-belga, Hergé, que muito o admirava, foi um dia taxativo: «Macherot c'est Macherot...». Uma das suas personagens mais queridas, fruto do fascínio que sobre si exercia a Inglaterra, é o patusco Coronel Clifton – Harold Wilberforce Clifton, oficial reformado do MI5, detective amador, escoteiro graduado, com um fleumático bigode imperial, indumentária impecável, governanta previdente e um MG-Type Midget de fazer inveja, ideal para as deslocações entre Londres e a cidadezinha fictícia de Puddington, onde vive.
Macherot assinou apenas três álbuns – e com que sedutora simplicidade de linhas e eficácia narrativa. A transferência da revista Tintin para a rival Spirou obrigou-o a largar Clifton, bem como Clorofila, um rato do campo de quem oportunamente falaremos.
Em As Investigações do Coronel Clifton, publicadas em 1961, um emir das Arábias deposita o maior diamante do mundo no estabelecimento de dois honrados ourives da capital inglesa, para que estes lhe façam um exuberante anel. Assustados com o montante do seguro, optam por guardá-lo no cofre da casa, um impante «”Johnson” superblindado de tripla combinação», mas – estava-se mesmo a ver – no dia seguinte os honestos joalheiros darão de caras com o sítio... Para evitar o escândalo do assalto, recorrem aos serviços do famoso militar retirado.

As Investigações do Coronel Clifton
texto e desenhos: Raymond Macherot
edição: Editorial Íbis, Venda Nova, 1969


terça-feira, 22 de outubro de 2019

mais olhos que barriga

Criado em 1991 pelo norte-americano Rob Liefeld e o argentino Fabian Nicieza, Deadpool é mais um elemento da parafernália de superentidades da Marvel: vilão mutante cujas características notórias são a capacidade de auto-regeneração dos órgãos e tecidos, alguma esquizofrenia, pois tanto combate como admira as grandes figuras mascaradas, e uma incontida tagarelice. A propensão para o cómico é evidente, facilitando a criação da série paralela intitulada Killogy,  imaginada por Cullen Bunn e Matteo Lolli.
A ideia até é boa: depois de chacinar os heróis da Marvel (Deadpool Kills The Marvel Universe, 2011), com o fito altruísta de libertá-los dos caprichos dos seus criadores – mas na verdade manobrado por um qualquer génio do mal –, e antes de matar-se a si mesmo (Deadpool Kills Deadpool, 1913), o vilão é persuadido pela Brigada dos Cientistas Loucos a liquidar as maiores personagens da literatura, fonte de todos os super-heróis, e a única forma de acabar com eles definitivamente. Por exemplo, a morte da Sereiazinha inviabilizará Namor, o príncipe submarino, e o fim dos Três Mosqueteiros ou das Mulherzinhas impedirá a formação de futuras equipas de heróis e heroínas...
Boa a ideia, mas demasiado ambiciosa. Graças a um dispositivo de Reed Richards, do Quarteto Fantástico, Deadpool conseguirá viajar no espaço e no tempo. Da Odisseia à Metamorfose, do D. Quixote ao Sr. Scrooge, passando pelo Pinóquio (saído do interior de Moby Dick), contámos 23 referências, mais ou menos desenvolvidas, número certamente excessivo para as 80 páginas disponíveis. Podemos meter Gulliver ou Macbeth numa única vinheta, mas fazer o mesmo ou parecido com as sucessivas obras denota o propósito de citar o mais possível, em sacrifício da fluência narrativa. Além disso, a carnificina é sem descanso, como um videojogo para adolescentes retardados, em maçador acumular de pancadaria e larachas.
O trabalho de Lolli tem bons momentos: o massacre da tripulação do “Pequod”, a tareia das Mulherzinhas, Deadpool trespassado pelo chuço do Quixote. Mas o melhor mesmo está nas capas de Mike del Mundo.
Um dos aspectos mais desagradáveis dos comics é o imperativo de fazer dinheiro a todo o transe, sujeitando os pobres super-heróis a inenarráveis tratos de polé: matam-nos, ressuscitam-nos, casam-nos, mudam-lhes a fatiota, a cor da pele e até o sexo, criam séries paralelas em mundos alternativos, deixando à nora o desgraçado leitor que não seja um incondicional... Ao mesmo tempo, criam-se mais heróis e vilões, com as suas evoluções e especificidades, assim à maneira dos pokémons. O que importa é fazer render o peixe. O coitado do Homem-Aranha tem sido a principal vítima deste festival de ganância, o que não é de admirar, tratando-se a mais icónica e portanto a mais rentável marca da sua editora. É verdade que, por vezes, surgem pepitas, mas este não é o caso.
 
Deadpool Mata os Clássicos!
texto: Cullen Bunn
desenos: Matteo Lolli
edição: G. Floy Studio, 2019

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

uma folha de papel

Com Winsor McCay (1867-1934), os quadradinhos atingem a maturidade gráfica. Little Nemo in Slumberland, a sua mais célebre criação estreou-se a 15 de Outubro de 1905, no New York Herald. Cada prancha é um prodígio de imaginação e cor, e nunca mais se foi tão longe na disposição de uma narrativa em imagens. Jean Giraud / Moebius foi um dos muitos que aqui vieram beber.
         A página é encimada por uma vinheta a toda a largura, espécie de friso ao gosto Arte Nova, que dá o mote: Morfeus, rei do País dos Sonhos, envia emissários a Nemo; e lá vai ele, até acordar, por vezes no chão. Há ocasiões em que, em vez de quadradinhos estanques, o mesmo desenho se prolonga, dando a ilusão de vária vinhetas – por exemplo, entre os vãos dos pilares de uma ponte. Esta linguagem, hoje comum, era nova no dealbar do século XX. Aliás, como notam os críticos, o caminho fazia-se à medida que o caminhante vencia cada etapa. No álbum que temos em mãos, esse work in progress é particularmente visível: nas pranchas iniciais, McCay, embora recorresse à filactera (o ‘balão’), introduzia texto sob a vinheta, uma redundância que só atrapalhava a fruição da beleza dos desenhos, a riqueza da composição e a inventiva das histórias que pretendia contar. Ao fim de 20 pranchas, essa excrescência será eliminada, dando a margem indispensável ao leitor para seguir a narrativa sem outra condicionante que não fosse a materialidade sobre a qual se aplica uma história em quadradinhos: uma folha de papel.
 
O Pequeno Nemo no País dos Sonhos – vol. I:1905-1907
texto e desenhos: Winsor McCay
edição: Livros Horizonte, Lisboa, 1990
 


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

sonata para clarinete e explosivos

Depois do universo franco-belga, a Itália é o segundo centro europeu de criação e produção de BD com projecção global. Vieram dali, entre muitos outros, Corto Maltese, Tex, Valentina… e o Superpato.
         Dylan Dog, criado em 1986 por Tiziano Sclavi (Broni, Pavia, 1953), um escritor à procura de leitores, é uma personagem curiosa: antigo agente da Scotland Yard, passa a trabalhar por conta própria, deslindando casos em que o paranormal faz as suas aparições. Calmo (detesta armas) e morigerado (não bebe nem fuma), tem um fraco por mulheres, que se sucedem quase à cadência de uma por história. No mais, é um tipo reflexivo que gosta de ler e tocar clarinete, chegando a fazer um dueto com Woody Allen... Contudo, o seu tema preferido não está no dixieland mas na sonata Il Trillo del Diavolo, do compositor setecentista Giuseppe Tartini – ou melhor, da autoria do próprio Satanás, que em sonhos o visitou, executando a composição que ficaria também conhecida como a «Sonata do Diabo». Nada de admirar, para um detective do pesadelo. A acompanhar Dylan Dog, temos um auxiliar com cara, nome e chistes à Groucho Marx.
         Apesar de ser um dos fumetti mais populares em Itália, com cada revista a atingir um milhão de exemplares de tiragem nos tempos áureos, entre nós Dylan Dog é pouco conhecido, como a generalidade da BD italiana, com as assinaláveis excepções.
         Em Até que a Morte Vos Separe, de 1996, Sclavi desenvolveu uma ideia de Mauro Marcheselli, recuando aos tempos da polícia londrina e aos ataques e retaliações perpetrados pelo IRA na capital inglesa. Estava-se ainda a dois anos da assinatura do Acordo de Paz de Sexta-Feira Santa, e os atentados faziam vítimas, em especial entre os representantes do Estado, que por sua vez reprimia com condições carcerárias duríssimas, contra as quais se insurgiram Bobby Sands e outros prisioneiros independentistas irlandeses, numa greve de fome histórica e fatal. Dylan conhece Lillie Connolly, uma irlandesa do Ulster a viver em Londres, militante daquela força paramilitar, sob disfarce. No entanto, apesar das mortes e das prisões, o dramatismo é moderado q.b., não só porque a menina é assombrada por visões, o que opera uma quebra no realismo da narrativa, como há pormenores de série humorística – veja-se aquele ponto de interrogação desenhado sobre a cabeça dum rato, numa das cenas passadas nos esgotos da cidade. Os registos realista, onírico e humorístico interpenetram-se, o que não tem mal, desde que o leitor, como é de bom uso, estabeleça com os autores o pacto da suspensão voluntária da descrença.
         Bruno Brindisi (Salerno, 1964), não obstante algum tradicionalismo na disposição das vinhetas – convém lembrar que Dylan Dog se destina, antes de mais, ao grande público –, é um desenhador de assinaláveis recursos, como se verifica, logo na capa, no trabalho sobre o véu da noiva.
 
Dylan Dog – Até que a Morte Vos Separe
texto: Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
desenhos: Bruno Brindisi
edição: G-Floy Studio, 2019