quinta-feira, 15 de abril de 2021

os insultos doutros capitão

 


Sabe o que é um zuavo?, um ectoplasma? e tchuc-thcuk nougat, também não? Estes e mais doestos do irascível Capitão Haddock numa nova edição do breviário Les Jurons du Capitaine, de Albert Algoud, tintinólogo, humorista e especialista em calão de marinheiros. Casterman, Tournai, 2020.

«Leitor de BD»

terça-feira, 13 de abril de 2021

«Charlie Hebdo»

 



Depois do massacre, em nome de Deus, perpetrado na redacção do jornal satírico Charlie Hebdo e noutras zonas de Paris, ocorrido em Janeiro de 2015, o processo que decorre confronta a sociedade francesa. Para a posteridade, o escritor Yannick Haenel e o desenhador François Boucq reportaram o que se passa em tribunal, numa experiência intensa e densa. Janvier 2015: Le Procésedição Charlie Hebdo / Les Échapés, Paris, 2021.

«Leitor de BD»

domingo, 11 de abril de 2021

o vírus

 

Coisa estranha, esta pandemia, que nem uma bica nos deixa beber ou os pais beijar. Organismo invisível a olho nu, que põe o planeta em polvorosa, arruína vidas, negócios, expectativas. Valott, cartoonista suíço de mão-cheia, explora essa estranheza pelo humor. Terrien, T'es Rien, edição Favre, Lausana, 2020.

«Leitor de BD»


quinta-feira, 8 de abril de 2021

uma troca de vogais


 


Ao contrário da literatura e do cinema, o tópico da emigração não tem particular relevo na BD. E no entanto, como fenómeno humano, ela está pejada de situações conflituais romanescas inesgotáveis, Num dos grandes romances portugueses do século XX, Emigrantes (1928), de Ferreira de Castro, há uma cena decisiva sobre a angústia do desterro voluntário, quando o rebanho vindo de vários pontos do território e já a bordo do barco que os leva ao Brasil, vê Lisboa a afastar-se, talvez até nunca mais: “eles sentiam, instintivamente, a ligação, nunca até ali compreendida, das aldeias em que nasceram com a cidade que se ia esfumando à popa do navio, entre céu e azul. E contemplavam-na, emocionados, vencidos pelo coração, como se nela se focassem os panoramas nativos, com as suas figuras e a sua saudade.”

A história de hoje fala-nos de Tonio, um jovem aldeão siciliano, afável, inteligente e bem-parecido, atingido pelo defeito congénito de um pé boto. No velório do avô, Ripponi, o proprietário para quem toda a família trabalha, decide atribuir-se a generosidade de custear metade da viagem do jovem para a América, devendo o resto da aldeia quotizar-se para o resto. Nada foi feito por desinteresse, sentimento que ao bicho-homem raro assiste, mas os desenvolvimentos, só nos tomos seguintes conheceremos.

Ellis Island, foi o histórico centro de acolhimento, fiscalização, internamento e por vezes devolução dos recém-chegados à América, terra do leite e do mel no imaginário dos pobres da Europa, e ainda hoje dos deserdados do mundo. Tonio deixara para trás a aldeia, a família e um amor inesperado. Ao largo de Manhattan, muda de vogais e de condição: passa agora a imigrante, e ao desconforto do que lhe é ignoto. À terceira prancha vemos o convés pejado da gente da terceira classe (título de um belo livro de José Rodrigues Miguéis) e os comentários desdenhosos atirados de cima pelos da primeira. Uma maravilhosa algaraviada do lumpen europeu, cujo olhar irradia esperançada expectativa, seja gaiato ou velho quase de pés para a cova. No interior, Tonio fez amizade com Giuseppe, italiano do norte, desempoeirado e expansivo. Os viajantes da primeira e segunda classes eram dispensados dos procedimentos, desembarcavam directamente em Nova Iorque. Neste confronto do rebanho com os burocratas de fronteira pela oportunidade de um lugar ao sol, entre a indiferença e a crueldade, com vária escória humana à mistura, o argumento de Philippe Charlot (autor da série O Comboio dos Órfãos, edição Arcádia) é particularmente conseguido no rastreio das misérias e grandezas humanas. O desenho aguarelado do polaco Miras, o tratamento das fisionomias, lembrando François Boucq, e a disposição das vinhetas potenciam o trabalho de Charlot.

Na última vinheta, olhando para Manhattan, depois de mais uma prova posta ao seu humanismo, Tonio pergunta(-se): “Em que nos estaremos a tornar, Giuseppe?” E a resposta não tarda: “Em americanos, Tonio, em sacanas de americanos.”


Ellis Island – 1. Bienvenu en Amérique!

Texto: Philippe Charlot

Desenhos: Miras

edição: Grand Angle, Charnay Les Mâcon, 2020.

«Leitor de BD»

domingo, 4 de abril de 2021

'erotica'

 


Jean-David Morvan (Reims, 1969), outro dos mais destacados argumentistas de BD, é um apaixonado pelo Extremo Oriente. O leitor português pode verificá-lo em Spirou e Fantásio em Tóquio (Asa) e Mao Tsé-Tung (Gradiva). Em Gaijin, com desenhos de Damien Henceval, temos uma BD erótica, género que tem conhecido um aumento de procura em tempo de confinamento. Manami é uma estudante japonesa que tem um fetiche por estrangeiros – gaijin, em japonês. O encontro com um estudante francês, a quem convida para passar a noite, será o primeiro em que concretizará as suas fantasias. Edição Glénat, Grenoble, 2021.

«Leitor de BD»

Guerra da Secessão


 

O general Robert E. Lee dizia que era positivo a guerra ser uma coisa terrível, caso contrário ainda lhe tomaríamos o gosto.... Nas adjacências do género western, a Guerra Civil Americana, pelas implicações e sequelas que deixou até aos nossos dias, pela violência até então inaudita e por ter sido o primeiro grande conflito a ter cobertura mediática ampla, nunca deixou de intrigar. A frase de Lee serve de epígrafe a mais uma série, Ennemis, texto de Kid Toussaint e desenhos de Tristan Josse, como sucede nestas circunstâncias heroísmo e insanidade vêm a par. Tomo I: Noir, edição Grand Angle, Charnay Les Mâcon, 20121.

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terça-feira, 30 de março de 2021

o animal



Pegue-se numa personagem popular de BD criada há quase 70 anos (1952) destinada a um público infanto-juvenil, hoje a caminho da terceira idade, cpm características inusitadas: de indefinição morfológica e problemática classificação taxonómica, entre o símio e o felino, com pelagem às manchas, como um leopardo, cauda preênsil com mais de oito metros, e além disso marsupial...; a ferocidade aterradora se hostilizado, torna-o o rei da floresta da fictícia Palómbia; mas é dócil por temperamento e senhor dum apetite voraz e omnívoro. Um marsupilami, não é verdade?

André Franquin (1924-1977) introduziu-o no álbum de Spirou e Fantásio, Os Herdeiros, um clássico, e, a partir de então tornou-se omnipresente até o autor abandonar a série. Spirou prosseguiu sem este extraordinário coadjuvante até a Dupuis comprar os direitos da personagem, integrando-a de novo em 2015, em La Colère du Marsupilami, de Yoann e Vehlmann.

No livro desta semana, La Bête / O Animal, trata-se dum outro marsupilami. No porto de Antuérpia, em finais de Novembro de 1955, um barco atracado carrega no bojo um cenário de pesadelo: animais exóticos traficados da América do Sul não resistiram na maioria às condições do transporte decorrentes de uma avaria que obrigou o navio a parar duas semanas ao largo do Brasil. Entre os sobreviventes, uma estranha criatura que não se deixa ver, confinado a um canto escuro. Como matou a fome e a sede? Não sabemos. E o capitão, o armador e o secretário que desceram ao porão também não saíram para contar. Evade-se o animal que erra até aos arredores de Bruxelas. Aí, desfalecido, será encontrado por Franz, ou François para os demais, um rapaz de dez anos que tem uma especial habilidade para lidar com todos os bichos, que recolhe quando os encontra maltratados. Talvez por François, filho de mãe solteira e fruto da união desta com um soldado germânico durante a ocupação, ser alvo de bullying, como agora se diz, por parte dos colegas, tal como a mãe é olhada de lado no mercado onde ganha a vida a vender bivalves. Sabemos como foi a purga das mulheres que dormiram com o inimigo, imagens que ninguém esquece. Há porém o Professor Bonifácio, bonacheirão com os traços de Franquin (uma homenagem), heterodoxo na pedagogia, também ele vítima da guerra, por outra razão: a jovem noiva cansou-se de esperar quando os soldados belgas derrotados partiram em cativeiro. A BD mudou muito desde há 70 anos...

A forma como Zidrou (Bruxelas, 1962 – temos falado nele) pegou neste ícone é apanágio só dos grandes argumentistas; Já Frank Pé (Ixelles, 1956) é um artista com um lápis abençoado, fazendo o que quer dos seus riscos. Notável cada vinheta, num traço semi-realista, com cor directa suavíssima.

La Bête é um livro excepcional que bem merece uma edição portuguesa, assim as grande editoras não andem a dormir ou as pequenas tenham algum oxigénio durante o estrangulamento viral que nos assola.


La Bête

texto: Zidrou

desenhos: Frank Pé

edição: Dupuis, Charleroi, 2020

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segunda-feira, 29 de março de 2021

mais Franquin



E já que falámos de André Franquin, criador não apenas do Marsupilami, como de Gaston Lagaffe e Modeste e Ponpom, refira-se a edição integral completa das incríveis Ideias Negras, obra-prima do humor negro, com colaboração de Yvan Delporte, chefe-de-redacção da revista Spirou, para o suplemento semiclandestino e mais adulto Le Trombone Illustré, idealizado por ambos como nicho mais adulto e subversivo de uma revista ainda muito conservadora, publicado em 1977, e de que saíram apenas 30 números. Às Idées Noires voltaremos. Edição Fluide Glacial, Paris, 2020.

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domingo, 28 de março de 2021

a viagem do Comodoro Anson

 




Em 1740, em guerra com a Espanha, Jorge II de Inglaterra confia ao Comodoro George Anson o comando de uma frota de oito navios e dois mil homens para fustigar o transporte do ouro e da prata do Chile e do Peru, que enchiam os cofres e pagavam o esforço bélico do país ibérico, e também capturar o Galeão Real, que largava de Manila carregado de riquezas. Uma missão arriscada que vai obrigar a esquadra britânica a fazer a volta ao mundo, dobrando o Cabo da Boa Esperança e o Cabo Horn. Um contratempo no recrutamento da tripulação, atrasará a partida em meio ano, baralhando as contas a Anson, que se encontrará no Cabo Horn no pico do Inverno. Le Voyage du Commodore Anson, desenhos de Mathieu Blanchin, texto de Christian Perrissin, baseado no relato de viagem do capelão da expedição, Richard Walter, publicado em 1748. Edição Futuropolis, Paris, 2021.

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quinta-feira, 25 de março de 2021

a vida como "infindável desenrascanço"




Literatura popular, de acção e sem grande profundidade, cobrindo uma multiplicidade de géneros, a ficção pulp deixou esquecidas pelas hemerotecas uma longa galeria de personagens, algumas das quais sobreviveram graças ao cinema e à banda desenhada: Buck Rogers, Conan o Bárbaro, Tarzan ou Zorro imprimiram-se primeiro nessas páginas de fraco papel e preço barato nos quiosques.

Em Pulp, a ideia de Ed Brubaker (Bethesda, Maryland, 1966) é esplêndida: no ano de 1939, em Nova Iorque, um homem de idade avançada ganha a vida a escrever pulp stories para uma revista popular, inspirando-se na própria juventude como fora-da-lei. Mas Pulp, está longe de ser uma pulp fiction.

No último quartel do século XIX, no pequeno rancho do jovem Max Winter, este, o irmão e um amigo são apanhados no meio de uma guerra entre grandes proprietários fundiários. Quando se recompõem, após a morte de um deles, e vendo-se sem nada, enveredam pelo banditismo, assaltando primeiro o transporte de dinheiro destinado aos grandes rancheiros. Tomaram-lhe o gosto, até assentarem no México para uma vida tranquila que não durou para sempre.

Voltamos a 1939, no escritório da Six Gun Western, revista que acolhe as histórias de Max. O publisher elogia o trabalho mas corta-lhe as asas: o escritor queria mostrar os últimos anos dessa dupla turbulenta, as suas vidas “como uma tapeçaria”. Péssima ideia para quem zela pelo interesse dos leitores que querem aventuras com heróis triunfantes e vilões castigados. Metafísica não paga contas...

Max vivia os últimos anos não sem dificuldades, mas encontrara em Rosa, a mulher das limpezas do prédio, o conforto de um coração puro, devolvendo-lhe algum gosto pela vida. Mesmo depois de roubado no metro, por ser humanista e quixote, o assalto que fora perpetrado pela revista, roubando-lhe a personagem graças a umas letras minúsculas do contrato, provoca um choque que lhe será familiar, em jovem também o haviam espoliado. Max, coração forte mas doente, decide remediar as coisas da maneira que bem conhece, embora a idade não seja a mesma. Eis senão quando é desviado do intento por Jeremiah Goldman, um ex-Pinkerton que andara no seu encalço pelo Oeste. Manhattan não é a pradaria, e os bandidos agora usam uniformes nazis da Bund, temível organização criada sob os auspícios de Rudolph Hess. Se esmurrar nazis é bom, mas não para velhos, roubá-los ou expor os financiadores será melhor. Goldman, um judeu, pensou em tudo.

O desenho de Phillips cumpre; as pranchas são conservadoras, sobressaindo o trabalho da cor, a cargo do filho, Jacob Phillips, em especial nas cenas que relatam a história de Max, chapadas ao longo das vinhetas, sem cuidar dos contornos dos desenhos. Brubaker dá-nos uma história com arranques sucessivos, como num ritornelo musical, em que a repetição afinal não o é.


Pulp

texto: Ed Brubaker

desenhos: Sean Phillips

cores: Jacob Phillips

edição: G-Floy, Varsóvia, 2020

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terça-feira, 23 de março de 2021

um homem requintado

 


Um homem sem pressas, que gosta de comer, descobrir novos pratos, embora tenha um fraco pela cozinha simples dos restaurantes populares. Pela gastronomia se aprecia a cultura. Também cultua as mulheres. Para se saber como e por que ordem: O Gourmet Solitário, de Jiro Taniguchi e Masayuki Kosumi, edição Devir, 2020.

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colour my world

 


 A Herança das Cores é um livro maravilhoso de David Revoy, um ilustrador que avançou para a novela gráfica, para nos contar como o mundo colorido e puro de uma criança pode ser poluído pelo mau ambiente familiar, quando os pais se disputam. Edição FA, 2021.

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segunda-feira, 22 de março de 2021

Champignac

 

Com uma série só sua que remonta aos tempos de juventude, o velho cientista Conde de Champignac, amigo de Spirou e Fantásio surge-nos agora como o jovem Pacómio Ladislau, sempre audaz e também romântico. Mas o tempo é de guerra, e enquanto que no primeiro tomo, como vimos, Champignac e a namorada, Blair, cooperam activamente com Alan Touring, desta feita são enviados em missão a Berlim para resgatar dois cientistas forçados a trabalhar no programa de pesquisas nazis. Além de encontrarem von Braun, o homem das bombas V (1 e 2), darão por si nos jardins do retiro de Hitler, em Berchtesgaden... Champignac – Le Patient A, por Etien e BeKa, edição Dupuis, 2021.

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sexta-feira, 19 de março de 2021

erros de percepção

 




Quando, no reinado de Luís Filipe (1830-1848), a França se expandiu para o Norte de África, para contrabalançar a hegemonia inglesa, aproveitando para empreender uma acção civilizadora – um termo sempre bonito para ocupar territórios de povos que não contavam para nada –, estava a comprar um senhor problema, ainda em curso nos nossos dias e a agravar-se. Por ocasião dos atentados de Paris, o saudoso Arnaldo Matos aduziu, forçando a nota, que se tratou dum “acto legítimo de guerra contra o imperialismo francês”. Legítimo não foi certamente, mas não é de admirar que os muitos crimes cometidos pelo Ocidente, maxime a Guerra do Iraque, não suscitassem, à escala possível, a resposta em moeda semelhante, ainda para mais num ambiente de ressentimentos vários – como apontou Amin Maalouf –, pelo atraso objectivo em face a esse Ocidente que séculos antes ajoelhara pela força das armas e fora impregnado, com requinte, pela civilização então dominante no Mediterrâneo. E no entanto, à hora que escrevemos, milhões de pessoas de todos os credos e sem credo algum apenas querem viver em paz, sem que um veneno ideológico qualquer, que não dominam nem lhes interessa, faça de si carne para qualquer canhão.

Vem esta melancolia a propósito da BD de hoje, um thriller passado em Marselha, urbe desde a Antiguidade e também coio de máfias, pequenos e grandes traficantes, proselitismo islamita junto das hordas de desocupados, jovens entregues a si mesmos até caírem sob a alçada dum capo ou dum imã, com promessas de vingança e paraíso. Todo o clima deste policial negro aponta para aí, com a nota política dada subtilmente por Lewis Trondheim (Fontainebleau, 1964), no meio de tiroteio, pancadaria e coacções várias. Neste particular, a vinheta central do livro situa-se algures na prancha 27: Karmela Krimm, a protagonista, dizendo ao primo: “Se queres vencer na vida, tens de aprender a ser paciente.”, obtendo como resposta: “Se quiser vencer na vida, melhor seria não me chamar Farid.”

Karmela, meio magrebina, é uma ex-agente de polícia, expulsa após uma operação correr mal e assumir a responsabilidade por inteiro para salvaguardar a colega de equipa, mãe de família. Só sabendo ser polícia, recorre a um emprego nas vizinhanças, o de detective privado, experimentando a pouco edificante tarefa de investigar infidelidades conjugais. Até que a viúva de um presidente de um clube da cidade, entretanto assassinado, a contrata. Ciente de estar a pedir a uma mulher que mergulhe onde o crime violento é mais fundo, cede-lhe o guarda-costas, Tadj, homenzarrão com ar de assassino, mas no fundo um bom gigante, bom muçulmano das Comores, pai e marido atento. A desconfiança inicial dilui-se rapidamente, e aí temos uma nova dupla pronta a funcionar num habitat ameaçado, em que o que parece muitas vezes não é. O traço de Franck Biancarelli (Marselha, 1967) é áspero no que respeita à figura humana, mas funcional no cenário citadino. A densidade das personagens e a boa sequência narrativa são um claro triunfo desta série, com mais dois álbuns anunciados.


Karmela Krimm – Ramdam Blues

texto: Lewis Trondhein

desenhos: Franck Biancarelli

edição: Lombard, Bruxelas, 2020

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segunda-feira, 15 de março de 2021

a ladra

 


Paris medieval e Paris dos nossos dias, a mesma jovem em dois mundos paralelos. Linn, inadaptada e sobredotada é uma ladra talentosa que se apodera de uma medalha do deus Aton, de que não se conhecia qualquer representação desde que Amenófis IV ou Akhenaton (sempre ele) operara a revolução monoteísta no Antigo Egipto... Les Rivières du Passé – La Voleuse, texto de Stephen Desberg, desenhos de Yannick Corboz, Éditions Daniel Maghen, Paris, 2021.

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"Preferia não o fazer."




Escrivão num escritório de advogados que se recusa educadamente executar o trabalho que lhe é pedido, sem outra explicação que não seja um polido “Preferia não o fazer”, Bartleby, personagem de Herman Melville, deixa-nos à beira dum ataque de nervos pela audácia com que escolhe o nada para os seus dias, com adaptação e desenho, esplêndido, de José Luis Munuera. Bartleby l'Écrivain, edição Dargaud, Paris, 2021.

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sábado, 13 de março de 2021

peladinha

 


Estádios vazios, azias várias, comentadores a escalpelizar, a encher chouriços. E o futebol no meio disto? Um problema que não têm os praticantes de domingo de manhã, o gozo do convívio e do jogar por jogar. Tronchet, um nome que nos remete para as revistas L'Écho des Savannes e Fluide Glacial, joga nestas peladinhas semanais, motivo para um álbum de gags: Footballeur du Dimanche, Delcourt, 2020.

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quinta-feira, 11 de março de 2021

Lucky Luke: a terra a quem a trabalha!

 



O cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra regressa ao Sul dos Estados Unidos, 84 álbuns depois de Subindo o Mississípi (1959/61), em Um Cowboy no Negócio do Algodão, o 123.º livro de Lucky Luke (sem as homenagens e os pastiches).

Em Nitchevonada, cidadezeca perdida no Kansas, Luke carrega baterias no saloon local, quando vê entrar os Dalton aprisionados por um velho amigo e mentor: Bass Reeves, personagem histórica (1838-1910), o primeiro marshall negro dos Estados Unidos, até há pouco razoavelmente ignorado nas façanhas do Oeste, não obstante os mais de três mil bandidos aprisionados, além dos catorze abatidos, vamos supor que em legítima defesa. Nessa ocasião, um telegrama faz com que o nosso cowboy se saiba proprietário da maior plantação de algodão do Luisiana, que uma admiradora dos seus feitos legou em testamento. Compelido a aceitar, em prol do sustento das centenas de trabalhadores e suas famílias, é neste contexto que o argumento de Jul (Vale do Marne, 1974) é bem conseguido no que respeita à situação dos negros americanos depois da Guerra da Secessão (1861-1865). Após a derrota do Sul rural e esclavagista, as elites brancas trataram de garantir que os quatro milhões de negros formalmente livres continuariam a ser mão-de-obra barata, submissa e ignara. O Ku-Klux-Klan foi criado nesta altura por um oficial da Confederação, e a segregação racial, instituída de jure através das famigeradas Leis de Jim Crow, prevaleceu até aos anos sessenta do século passado, isto é: até há bocado. Martin Luther King é nosso contemporâneo e a voz insubmissa de Mavis Staples anda aí a lembrar-nos o quanto a luta contra a infâmia é sempre gloriosa. Neste particular, cinco estrelas para o álbum.

Lucky Luke chega à plantação, não apenas com o firme propósito de ver-se livre dela, como passá-la para as mãos dos seus trabalhadores, o que suscita incredulidades várias, dos futuros beneficiários deste arrojo revolucionário e dos restantes proprietários dos campos de algodão. As alusões mais ou menos explícitas a E Tudo o Vento Levou, a Barack Obama (e a Trump...) ou a Oprah Winfrey; uma presença bem aguerrida duma jovem chamada Angela (a Davis, pois claro...) e a evocação dum certo Deep South, com a aparição balburdiosa de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, vem na melhor tradição Morris & Goscinny. É claro que Jul não é Goscinny, mas atentai no encontro dos Dalton com os mascarados do Klan, humor de antologia...

Outra boa surpresa é-nos dada por Achdé (Lyon, 1961), que trabalhou directamente com Morris, e foi por este escolhido para dar continuidade à série. Boa surpresa porque, ao nono álbum, se distancia cada vez mais do seu mentor, e assim é que deve ser: a personalidade do autor expande-se, ganhando mais liberdade.


Lucky Luke – Um Cowboy no Negócio do Algodão

texto: Jul

desenhos: Achdé

edição: Asa, Alfragide, 2020

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