Temos visto como a editora de Spirou vai enriquecendo o filão do universo do simples groom, dotado de coragem e ética em tudo semelhante ao seu “rival”, Tintin. O velho sábio, o conde Pacómio de Champignac, criação de Franquin e Jean Darc em 1950, tem agora a juventude recriada por BéKa, com desenhos de David Etien, passada durante a II Guerra Mundial; e esta nova abordagem faz-se com um pressuposto aliciante: Champignac participou de alguma forma em todas as grandes realizações e descobertas científicas do seu tempo. Depois de no álbum inicial, Enigma (2019). conhecermos o contributo para o esforço dos Aliados, ao lado do célebre Alan Turing, no trabalho de desencriptação dos códigos nazis, e de uma jovem escocesa por quem se apaixona, Blair McKenzie, Pacómio, neste segundo tomo, recebe uma mensagem em código de cientistas belgas seus amigos, um químico e um biólogo, forçados a trabalhar para os alemães. Resgatá-los em Berlim será uma arriscada missão, levando o casal a cruzar-se com alguns protagonistas do III Reich, incluindo um certo “paciente A”, viciado em pervitina, uma droga desinibidora... Champignac – Le Patient A, texto de BéKa, desenhos de David Etien, edição Dupuis, Marcinelle, 2021.
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
sexta-feira, 6 de agosto de 2021
Robin dos Bosques é quem um autor quiser
Ricardo Coração-de-Leão, de regresso da Terceira Cruzada, foi preso por Henrique VI, imperador romano-germânico, inimigo que pede um resgate em troca da libertação do rei. Nesse então, os regentes que este nomeara, os arcebispos de Durham e de Rouen, e a mãe, Leonor da Aquitânia, procuram satisfazer a exigência do soberano austríaco. Estamos em 1195, e o monarca “inglês” era também senhor da Normandia, desde que, no século anterior (1066), Guilherme o Conquistador largara daquelas praias futuramente heróicas para ocupar o trono no outro lado da Mancha. Até hoje, 14 de Junho de 2021, resistindo a Felipe II, Napoleão e Hitler, a velha Albion nunca mais viu bota estrangeira assentar-lhe no solo.
Ricardo Coração-de-Leão evoca na nossa memória infantil João Sem-Terra, o irmão, futuro monarca que irá outorgar a Magna Carta. A memória histórica nem sempre é justa, ao contrário – deseja-se – da historiografia. Ricardo, grande guerreiro, sim, mas monumental patife que inaugura na Europa a modalidade da caça ao judeu para lhe extorquir os bens, inventando parvoíces para excitar a gentiaga, goza da admiração de todos os gentios, embalados por Walter Scott e Hollywood.
Os autores do álbum de hoje – Nottingham – O Resgate do Rei – mostra-nos um tradicional e malévolo príncipe João, que envia um seu homem de mão, Hughes de Morville, de condado em condado a arrecadar tributos para cumprir as exigências do imperador, mas, naturalmente, conluiado com o usurpador, que não está pelos ajustes. Até aqui, tudo by the book. Onde Vincent Brugeas e Emmanuel Herzet, os argumentistas, inovam é na identidade do famoso Robin dos Bosques, figura lendária de bandido ético que roubava os ricos para dar aos pobres, ao mesmo tempo que atormentava com o seu bando de sicários bonacheirões – em que avulta João Pequeno, e a cumplicidade do frei Tuck e de Lady Marian, afinal, uma mulher de armas – o xerife de Nottingham. E a história passa-se entre estes dois: uma castelã anglo-saxónica que vê os vassalos espoliados pelas autoridades anglo-normandas, de que fazem parte os xerifes, incluindo o de Nottingham, com jurisdição sobre a floresta de Sherwood. Sem querermos estragar a surpresa da leitura aos interessados, podemos avançar que do tal Robin dos Bosques nunca se ouvirá falar nesta história, e que a acção se desenrola no âmbito mais complexo da inimizade entre saxões e normandos, de que a luta pelo poder protagonizada entre o “Lionheart” e o “Lackland” é uma das expressões.
O tema, que pareceria batido, ganha com Brugeas e Herzet um novo interesse, para o qual contribui, e muito, o trabalho de Benoît Dellac. As sequências rápidas das pranchas mudas e enquadramentos lembram-nos Hermann, por exemplo o de As Torres de Boiis-Maury, numa narrativa movimentada, pelo meio dos troncos de Sherwood e dentro das muralhas de Nottingham, por entre emboscadas, assaltos, contendas, em que as figuras se movem velozes e as onomatopeias, linguagem BD por excelência, são usadas com generosidade.
Nottingham – 1. La
Rançon du Roi
texto: Vincent Brugeas e Emmanuel Herzet
desenhos: Benoît Dellac
edição: Le Lombard, Bruxelas, 2021
segunda-feira, 22 de março de 2021
Champignac
Com uma série só sua que remonta aos tempos de juventude, o velho cientista Conde de Champignac, amigo de Spirou e Fantásio surge-nos agora como o jovem Pacómio Ladislau, sempre audaz e também romântico. Mas o tempo é de guerra, e enquanto que no primeiro tomo, como vimos, Champignac e a namorada, Blair, cooperam activamente com Alan Touring, desta feita são enviados em missão a Berlim para resgatar dois cientistas forçados a trabalhar no programa de pesquisas nazis. Além de encontrarem von Braun, o homem das bombas V (1 e 2), darão por si nos jardins do retiro de Hitler, em Berchtesgaden... Champignac – Le Patient A, por Etien e BeKa, edição Dupuis, 2021.
«Leitor de BD»
quarta-feira, 3 de março de 2021
um "herói" que voa baixo
Nos idos de 1993 aparecia nas bancas, pelo preço módico de 500 escudos (2,5 euros), um álbum brochado com uma capa apelativa, ao estilo da Escola de Bruxelas, a chamada linha clara. Num cenário nocturno, um piloto acobertado pelos arbustos esconde-se de um par de oficiais alemães – estamos na II Guerra, o fardamento não engana e o lettering com uma silhueta de um Spitfire, também não –; ao fundo, uma rampa de lançamento, as célebres V2 (o 'v' é inicial de Vergeltungswaffe – arma de vingança); no canto inferior direito um logótipo de umas desconhecidas Éditions Sorg, embora o texto estivesse em português. Foi folhear e andar com o livro debaixo do braço. Uma boa surpresa, apesar da fraca qualidade da impressão e letragem por vezes catastrófica, além de um, digamos, divertido lapso na página 14, o texto todo em castelhano... Trata-de de uma edição publicada em França, em 1988, com versões noutras línguas.
Estamos em 1943, o vento está a soprar em desfavor dos países do Eixo, e a aquela arma seria o último trunfo de Hitler, que Churchill quer neutralizar. Num aeródromo inglês, aguarda-se a chegada do capitão Harris, da USAF, que virá observar o ataque da RAF às instalações secretas alemãs onde são produzidas as V2, na cidade costeira de Peenemünde, no Báltico. A recebê-lo, dois militares: o general Carrington, em prévio diálogo avisa: “Ponha-se na retranca, tenente Tenton, o capitão Harris tem fama de engatatão. Casou três vezes, não sei se me entende?!”; e a tenente Tenton, das Informações, em resposta fleumática: “”Aviões, cerveja e miúdas, o lema de todos os pilotos de combate, Sir!”
Apesar da acção dinâmica e bem encadeada, o argumento falha rotundamente. Harris, um duro acowboyado, é um poltrão, um violador na forma tentada, o que é mostrado com ligeireza, para não dizer condescendência; depois, verifica-se uma oscilação nunca resolvida entre um registo de erotismo brejeiro, os quadros de batalha aérea e a angústia de quem levanta voo sem saber se estará de regresso, portanto, nem carne nem peixe. Jacques Sorg (1954) é um argumentista modesto, com meia dúzia de álbuns auto-editados.
O desenho é muito outra coisa. Percebe-se a juventude do autor, um traço já pessoal mas ainda inseguro, porém, criatividade na construção das pranchas e personalidade tudo isso tem o jovem E. Bravo, de 24 anos, estreando-se aqui em álbum. Neste ano desgraçado de 2021, é um dos mais notáveis autores de BD franco-belga: Émile Bravo (Paris, 1964), de quem já aqui falámos a propósito da recreação da história de Spirou, a partir de 2011 com Le Journal d'un Ingénu e L´Espoir malgré tout, de que já saíram dois dos quatro álbuns planeados.
Este Fighters foi um belo tirocínio para Bravo, mas porque o “herói” era rasante, a série não teve continuidade.
Fighters – Operação Peenemünde
texto: J. Sorg
desenhos: E. Bravo
edição: Éditions Sorg, Boulogne, 1988




