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terça-feira, 5 de abril de 2022

Tintin em Portugal


Da exposição sobre Hergé (nome artístico de Georges Remi, 1907-1983), que esteve patente na Fundação Gulbenkian, fica um catálogo, que é basicamente um roteiro da mesma, concebido pelas Éditions Moulinsart, no formato de um álbum de Tintin. Inclui um texto de apresentação de Guilherme d'Oliveira Martins – aliás, um reconhecido bedéfilo – e, como bónus, um outro livro, coordenado por António Cabral, precioso pelas informações que compila a respeito da presença das personagens do autor belga no nosso país e, principalmente, pela documentação que reproduz, cremos que inédita: um desenho original e correspondência.

Quanto ao original, destacado na capa, um bacalhau entre Tintin e Oliveira da Figueira, orgulho dos portugueses no mundo de Hergé, que ainda nos presenteou com um anónimo jornalista do Diário de Lisboa, em Tintin no Congo, e o Prof. Pedro João dos Santos, da Universidade de Coimbra, um dos cientistas da expedição de cientistas de A Estrela Misteriosa. Este desenho foi motivado por uma visita de Francisco Hipólito Raposo e Pedro Emauz Silva aos Estúdios Hergé, em 1958. Na ausência do autor, deixaram um cartão de visita impresso, em que se lia: SENHOR/ OLIVEIRA DA FIGUEIRA / (ANTIQUAIRE, BIJOUTIER ET BRIC-À-BRAC) / LISBOA / AFRIQUE DU NORD. Mais tarde, Hergé enviará uma reconhecida carta de agradecimento e este desenho com a dedicatória aos seus amigos fiéis em Portugal – tal como “Tintin a pour fidèle dans le monde, le Senhor Oliveira da Figueira”...

Muito interessante é o resgate da figura do Padre Abel Varzim (1902-1964), o primeiro tintinófilo português e o responsável por o nosso país ter sido tambném o primeiro não-francófono em que as aventuras de Tintin se publicaram – em 1936, nas páginas de O Papagaio, revista dirigida por Adolfo Simões Müller, propriedade da Igreja – e pioneiro na colorização das histórias. Doutorando na Universidade de Lovaina e assinante do Vingtième Siécle, em cujo suplemento infantil se publicavam as aventuras do jovem repórter, entrou em contacto com Hergé por intermédio do jornal. A reacção deste aos primeiros exemplares publicados na revista portuguesa, foi ambivalente. Numa carta muito cordata, chamava a atenção para a supressão de vinhetas, truncando a narrativa, mas mostrava-se entusiasmado com a circunstância de ter as sua personagens coloridas: “estou encantado por ver aparecer os meus desenhos a cores.” Informa-nos António Cabral que enquanto O Papagaio publicou Tintin, a colorização foi sempre feita cá, mesmo quando os álbuns da Casterman já continham a cor original. Outros assuntos nos traz esta correspondência, como o conhecido episódio do pagamento em géneros, durante a ocupação da Bélgica na II Guerra, e o conflito entre Varzim e Simões Müller, quando este, despedido de O Papagaio, funda O Diabrete, pretendendo levar consigo Tim-Tim – como então era grafado – e as restantes personagens, que entre nós se estrearam com nomes (e sexo) diferentes: a cadela Rom-Rom (!), o Capitão Rosa, (Professor) Pintadinho de Fresco e os inefáveis X33 e X33 aspas aspas...


Hergé em Portugal

autor: António Cabral et alii

edição: Fundação Calouiste Gulbenkian, e Éditions Moulinsart, Lisboa, 2021


«Leitor de BD»

sábado, 25 de dezembro de 2021

É Natal!


Para crentes e não crentes, e para quantos têm um Norte, Com votos de Boas Festas, aqui fica um Presépio desenhado por Fernando Bento (1910-1996), um homem dos jornais e das revistas, do Diário de Lisboa ao Cavaleiro Andante – ambos de óptima memória – extraído do seu primeiro livro, A Última História da Xerazade (E.N.P., Lisboa,1944), em que deu brilho às palavras de Adolfo Simões Müller.

«Leitor de BD»

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

«O Mistério da Grande Pirâmide» (1)

 


Criada por Edgar Pierre Jacobs (1904-1987) e estreada em 1947 no número inaugural da revista Tintin, Blake e Mortimer é uma série que estará sempre na mão que conte pelos dedos as obras mais notáveis do género BD. Relatos de aventuras, envolvendo a espionagem, a ciência e também a História: ou como escreveu o sociólogo Jean-Bruno Renard, uma mistura de Júlio Verne, H. G. Wells e Maurice Leblanc, o criador de Arsène Lupin, faltando dizer que será isso tudo e algo mais, singularizado pela grande arte do autor, um antigo barítono cuja carreira fora interrompida pela guerra de 39-45.

Encontramos pela primeira vez os dois gentlemen britânicos – o Professor Phillip Angus Mortimer, escocês nascido na Índia, físico nuclear, inventor, arqueólogo amador, desportista, e o galês Sir Francis Percy Blake, capitão da RAF e futuro director do MI5 –, em O Segredo do Espadão, no Tibete, onde impera Basam-Damdu, o ditador que fará deflagrar a III Guerra Mundial, ainda a anterior terminara havia dois anos.… E contra eles, o Coronel Olrik, aventureiro e criminoso internacional, com provável origem nos países bálticos, cria Jacobs, criador de mais esta criatura cujo rosto em si mesmo fora inspirado...

Se todos as histórias se revestem de grande qualidade, os dois volumes de O Mistério da Grande Pirâmide (estreia em 1950 nas páginas daquela revista) e A Marca Amarela (publicada entre 1953 e 54) são consideradas as obras-primas. Em Portugal, ambas foram publicadas quase de seguida no Cavaleiro Andante, de Adolfo Simões Müller, cujos contactos com a Bélgica, vinham já de antes da guerra, nomeadamente com Hergé. Perfeccionista, Jacobs foi uma espécie de Flaubert da BD. O romancista francês esgotava os assuntos: para escrever Salammbô leu tudo sobre Cartago, autores antigos e modernos, consultou especialistas, foi à Tunísia, às ruínas púnicas. Jacobs procedia da mesma forma no que respeita à documentação e planificação do seu trabalho, que executava sempre sozinho. Há uma anedota reveladora dessa obsessão pela verosimilhança e rigor documental: em 1971, a revista publicava semanalmente As Três Fórmulas do Professor Sato, até que, para desespero da redacção, Jacobs resolveu que precisava de conhecer os modelos dos caixotes do lixo de Tóquio, imagens cujo acesso não era fácil à época – decerto que um guia regular da cidade não traria fotos da imundície urbana… Sem retomar o trabalho enquanto não chegassem imagens fiáveis, verá afinal que os nauseantes recipientes eram iguais aos de Nova Iorque, esses bem à mostra, até para quem os não quisesse ver... É à luz desta prática que o nosso autor situa Blake e Mortimer no Egipto do último faraó, Faruk I, um monarca manobrado pelos ingleses que controlavam o país, pálida sombra do fundador da sua dinastia, albanesa, Mohamed Ali, e um enigma envolvendo um outro soberano, a milénios de distância, o controverso Aquenáton mais um espólio que ficou por encontrar...

(continua)

O Mistério da Grande Pirâmide,

Vol. 1. O Papiro de Máneton

texto e desenhos: Edgar P. Jacobs

edição: Verbo, Lisboa, 1969

«Leitor de BD»