Um homem aparece inanimado numa praia, sendo recolhido por um casal de idosos. Amnésico, não sabe quem é; apenas um XIII tatuado num braço poderá servir como referência. História de um perseguido, trata-se da crème de la crème da BD belga.
quinta-feira, 7 de abril de 2022
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
cidadão Talon
De indumentária fora de moda, a que não falta chapéu, laço-borboleta e bengala, conduzindo um Achilles modelo1908, ventrudo, careca e com um nariz fenomenal, Achille Talon é o que se chama um cromo, características que herdou do pai, apesar de tudo mais distendido e grande bebedor de cerveja. Quando vê um antigo colega, é incapaz de dizer “Há quanto tempo!”. Um cumprimento para esta personagem consiste sempre num pequeno tratado: “Meu velho companheiro de escola, de quem a bifurcação das nossas admiráveis vidas de labor me separou tanto tempo!»... Talon não sabe falar de outro modo: uma colina nunca é um apenas um outeiro, mas “um pequeno monte de matéria carbonífera que resultou dos movimentos que agitam o nosso planeta há uns escassos 280 milhões de anos...” O seu discurso rendilhado é objecto de estudo e teses universitárias, bem como a destreza dos trocadilhos, a começar pelo próprio nome, uma guinada na expressão “calcanhar de Aquiles”, que começa no próprio lettering da série, ACH!LLE.
O impecável e perfunctório Achille Talon está, no seu pernosticismo, para a redacção da revista Pilote (que nos gagues aparece como “Polite”), como Gaston Lagaffe, de Franquin, no proverbial desmazelo criativo que lhe assiste, para o semanário Spirou: sem eles, levando directores e chefes-de redacção ao limiar do enfarte do miocárdio, aquilo não passaria de um escritório aborrecido. Goscinny, que dirigia a redacção da Pilote, surge sempre apopléctico, com os dentes cerrados e a espumar.
Tal não sucede no livrinho de hoje, assim como não teremos o prazer de vislumbrar a noiva, Virgule de Guillemets. As Férias de Achille Talon, edição original de 1977, é uma compilação de gagues, que na maioria decorrem num parque de campismo popular e no qual Chichille (como lhe chama o pai) encontra o marquês Constant d'Anlayreur (ou seja, constant dan l'érreur, o que em tradução literal poderia dar algo como “persistente na asneira”, mas que o tradutor anónimo optou, e bem, por um Constante d'Herros. A ânsia de impressionar o pobre marquês, que é um marquês pobre, origina uma série de páginas divertidas. Em alternativa, surge o vizinho Hilarion Lefuneste, com uma loquacidade de surdo-mudo, com quem o nosso anti-herói gosta de implicar.
Criado em 1963 por Greg (1931-1999), um dos grandes argumentistas da BD franco-belga – Bernard Prince, a pura aventura (com Hermann), Bruno Brazil, o thriller de espionagem no tempo da Guerra Fria (com William Vance), Comanche, um western excepcional (de novo com Hermann), Luc Orient, ficção-científica (com Eddy Paape), entre outras, este exímio efabulador aventurou-se também pelo humor retomando Zig e Puce, de Alain Saint-Ogan, ou Clorofila, de Raymond Macherot ambos com o traço de Dupa, o criador do cão Cubitus. Com Achille Talon, Greg mostrou ser também um desenhador inventivo e, por conseguinte, um autor de BD completo.
As Férias de Achille Talon
texto e desenhos: Greg
edição: Meribérica, Lisboa, s.d.
quarta-feira, 22 de setembro de 2021
Bob Morane através dos séculos
Civilizações esquecidas, selvas inexpugnáveis, vales perdidos, tesouros por resgatar, ilhas não assinaladas, o espaço sideral... ao cabo de 62 anos de BD, em todos esses lugares Bob Morane já esteve. E até no passado... Oriunda da literatura de entretenimento – o primeiro romance de bolso publicou-se em 1953 –, Bob Morane, personagem criada por Henri Vernes (Ath, Valónia, 1918) tem os seus indefectíveis, embora entre nós o acolhimento nunca tenha sido significativo: dois álbuns na Editorial Íbis e publicações em revistas, nomeadamente no semanário Tintin. Depois de mais de 200 álbuns – o próximo será publicado no fim do Verão pela Soleil –, Vernes mantém, aos 103 anos, um droit de regard sobre a série – mas apenas de autoridade, uma vez que alienou os direitos –, como indica a existência do prefácio que assina em Les 100 Démons de l'Ombre Jaune, argumento de Christophe Bec e Éric Corbeyran, com desenhos do italiano Paolo Grella, que sucede a nomes como Dino Attanasio (futuro criador, com Goscinny, de Il Signore Spaghetti), Forton, Vance, Coria e Leclerq.
O álbum que fomos buscar, A Espada do Paladino (1967), oitavo da série e primeiro em Portugal, tem desenhos de Gérald Forton (Bruxelas, 1931). Num tempo em que os quadradinhos estavam a mudar – Corto Maltese, Martin Milan, Valérian apareceram nesse ano –, o registo é o da pura aventura sem grandes introspecções. No entanto, quem teve a sorte de lê-lo na idade certa, guarda uma volúpia de encantamento e descoberta: o vigor dos desenhos, as vinhetas de margem a margem, mesmo que de pequenas dimensões, os pormenores, as cores suaves, dão brilho a uma narrativa já de si empolgante,
O major Morane repousa da última aventura junto dos índios apaches, na companhia do indefectível parceiro, Bill Ballantine, escocês um pouco telhudo, dotado de força hercúlea e permanente apetência por uísque, quando é procurado pelo Prof. Hunter, criador de uma máquina do tempo, cujo ensaio experimental pretende seja feito pela parelha. Há sempre um cientista visionário nestas histórias, assim como um agente a soldo de qualquer potência, prestes a sabotar ou a apropriar-se de planos secretos. Pondo-se à socapa dentro do engenho, eis que o trio é transportado, sem saír do mesmo lugar, para o século XIV, no período da Guerra dos 100 anos, Surge então a bela condessa Yolande de Mauregard, vítima da lenda negra que a dá como descendente do homem que traiu Carlos Magno no estreito de Roncesvales, dizimando a rectaguarda comandada por Rolando. Aqui, a narrativa segue a tradição, pondo os mouros no lugar dos atacantes, quando na verdade quem dizimou os francos foram os bascos, esses verdadeiros irredutíveis... Para alguma coisa a máquina do tempo teria de servir, e assim Morane e Ballantine recuam a 778 para pôr tudo em pratos limpos com o founding father da Europa, e isentar a donzela do opróbrio... Pelo meio algum humor: involuntário, como a máquina do Tempo avistando a cavalaria franca; ou propositado: o inimigo de Morane de armadura e cota de malha com a cabeça coberta por um borsalino – o que não deixa de ser um achado.
Uma Aventura de Bob Morane – A Espada do Paladino
texto: Henri Vernes
desenhos: Gérald Forton
edição: Editorial Íbis, Amadora, s.d.
segunda-feira, 13 de setembro de 2021
da continuidade das séries
É escasso o número de séries populares dos quadradinhos que não tenham continuidade após o autor dar por findo o seu trabalho. Nos Estados Unidos é a regra, apesar dos Peanuts e de Calvin and Hobbes. O mesmo, não sendo inteira novidade, está a ocorrer na BD francófona. Tal pode trazer do melhor, seja os Batman de Frank Miller, Alan Moore, Grant Morrison, Jeph Loeb, ou os Spirou, de Jijé e Franquin a Tome & Janry; mas com ela poderá vir o descalabro, como sucedeu com o pobre Homem-Aranha, com tantas identidades e universos ficcionais que só um iniciado sabe quem é quem. O vil metal não respeita nada nem ninguém, muito menos um super-herói. Na tradição europeia, não chega tentar fazer igual. É por isso que o Spirou de Émile Bravo ou o Lucky Luke de Matthieu Bonhomme, escavando e redefinindo, têm pouco que se lhe compare.
Quando, há pouco mais de um ano, escrevemos sobre o tomo I de Black Program, de “As Novas Aventuras de Bruno Brazil”, por Aymond e Bollée, fazíamos votos para que os autores com a árdua tarefa de pegar no trabalho de Greg e William Vance ousassem ir além do epigonismo. Encerrado o segundo e último tomo, essa expectativa não foi completamente satisfeita. O argumento procura explorar os traumas da “Brigada Caimão”, substancialmente chacinada quando os criadores decidiram terminar a série, em Tudo ou Nada para Alak 6 (1977). O relacionamento entre os sobreviventes, alguns com sequelas físicas graves, outros com mazelas psicológicas, revela-se o aspecto mais interessante desta também sequela de BD. O nosso olhar adolescente persiste, e não acolhe como gostaria esta segunda vida de Bruno Brazil; o acumular de leituras e anos de vida tolera mal a ocorrência de visionários enlouquecidos que detêm meios que talvez nem as próprias super-potências militares disponham, numa série apesar de tudo com um de cunho realista, e, além disso, os riscos de Vance são difíceis de substituir.
Uma base secreta algures no Mato Grosso esconde um delirante ex-astronauta de uma missão secreta a Marte, realizada em 1973. O homem, que pisara o planeta vermelho, com o adn carregado de gigas de dados sensíveis, crê-se investido de uma missão superior de salvamento da Humanidade em perigo. Ali comanda centenas de acólitos (pois duma espécie de seita de trata), em que se encontram cientistas e outra gente impecavelmente caucasiana, incluindo um corpo de segurança armada, num esconderijo que alberga novíssima tecnologia, nomeadamente uma nave que lembra um space shuttle, levantando e ocultando-se na brenha amazónica. Enfim, para isso já tínhamos a “fortaleza da solidão”, no Árctico, ou as expedições a civilizações perdidas, para onde Carl Barks costumava mandar os seus patos. Com o Super-Homem ou o Tio Patinhas podemos proceder à suspensão temporária da descrença; assim, não é carne nem peixe. No entanto, com um desenlace em aberto, pode ser que haja oportunidade para corrigir o trajecto, ou não.
Bruno Brazil – Black Program – t.2
texto: Laurent-Frédéric Bollée
desenhos: Philippe Aymond
edição: Gradiva, Lisboa, 2020
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
conspirações
O sétimo álbum do segundo ciclo da série XIII, criada por Jean Van Hamme e William Vance, agora a cargo de Yves Sente (argumento) e Iuri Jigunov (desenhos). Jason MacLane, aliás 'XIII', infiltrou-se na Fundação Mayflower, uma organização ultraconservadora que pretende assenhorear-se da presidência dos Estados Unidos. O conluio passa por um atentado ao Papa, em visita ao país, que XIII é compelido a perpetrar e a liquidação do presidente americano. Na chefia do Estado está agora o presidente do Senado, implicado na conspiração. Resta assim à Fundação Mayflower reprogramar XIII e torná-lo indefectível à causa. Mémoire Rechargée, edição Dargaud, Paris 2020.





