terça-feira, 13 de julho de 2021

...e «Os Miseráveis« de Salch.


Diferente é a adaptação de Os Miseráveis de Victor Hugo por Éric Salch, leitura e reinterpretação iconoclasta de um clássico da literatura mundial, que é também e seguramente uma outra forma de admiração e quantas vezes mais interessante homenagem. Jean Valjean, Cosette e Javert como nunca os víramos. Salch, Les Misérables, edição Glénat, Grenoble, 2021.

«Leitor de BD»

domingo, 11 de julho de 2021

'A Má-Sorte de Thomas Shaper'


 É o subtítulo de primeiro tomo de Jukebox Motel, de Tom Graffin, a partir da sua novela homónima, e desenhos de Marie Duvoisin. Estados Unidos '67, notado no meio underground, e por um encomendador anónimo que lhe faz exigências absurdas, Shaper refugia-se em meio redneck para trabalhar, mas em apuros. Pelo meio, conflito com o pai e relação confusa com a companheira. As agruras da criação, com aparições especiais de Andy Warhol e Johnny Cash.. Edição Grand Angle, 2021.

«Leitor de BD»

quarta-feira, 7 de julho de 2021

personagens de carne e sonho


 Duas órbitas vazadas miram-nos (!), na primeira vinheta... Tons escuros e um azul cinza por detrás, compõem a impressão soturna que nos é oferecida. O plano vai-se abrindo nos quadradinhos seguintes, mostrando num pardieiro, paredes de pedra musgosas e um raio de luz invadindo o espaço por uma janela diminuta. Aquelas órbitas pertenciam a uma foca cuja pele se dependura nas estacas interiores. Ao fundo, uma jaula onde se vislumbra um vulto humano acocorado. É Leuve, filha de Thorgal Aergison, raptada por marinheiros-comerciantes das Ilhas Ferozes – também conhecidas por Faroé –, situadas entre a Escócia e a Islândia.

Na prancha 04, em analepse, Thorgal olha embevecido a graça da filha, muito jovem adolescente caminhando rapidamente para mulher. Ao 38.º álbum, este falso víquingue goza o prazer da família reunida, ao fim de mil-e-uma peripécias a que vimos assistindo, desde que em 1977 se estreou nas páginas da revista Tintin, com desenhos de Grzegorsz Rosínski e argumento de Jean Van Hamme. Na prancha 08, uma vinheta de margem a margem mostra-nos Thorgal de semblante carregado ao comando de um knörr, no Mar do Norte, no encalço – na companhia do filho, Jolan – da filha, que já sabe estar nas mãos de Grimur, chefe da aldeia de Mikladalur, na ilha de Kolsoy. Entra então na narrativa lenda da mulher-foca, a sélquia: a uma data certa, as sélquias saíam do mar à noite, despiam as peles de foca e dançavam nuas, revelando esplêndidos corpos femininos. Um pescador escondido, que desviara a pele de uma delas, impedindo-a assim de regressar ao mar, leva-a para casa, tornando-a sua mulher, até um dia em que esta ela encontra a pele e foge. No seu habitat forma a família, que será destruída pelos habitantes de Mikladalur, numa surtida às focas. A vingança da sélquia é terrível, e uma maldição atrai os homens para os penhascos, lançando-os depois ao mar e à morte. Nem a construção de uma gigantesca estátua em bronze consegue desfazer a praga. Ao contrário, os barcos atraídos por um remoinho desfazem-se contra as rochas. Por isso, na época de acasalamento, os habitantes de Kalsoy, procedem ao massacre de todas as focas, esperando acabar com aquele sacrifício de homens. Thorgal e Jolan, logram contudo transpor a passagem guardada pela sélquia de bronze, e quando chegam a Mikladalur vêm a água do mar tingida de vermelho.

O engenho de Van Hamme, a mestria de Rosínski e o encontro da história com o maravilhoso das lendas nórdicas – a história encerra com os corvos de Odin, Huginn e Muninn, que informam o deus dos passos do protagonista – e um pouco de ficção científica, fez de Thorgal uma das séries mais populares da BD. Van Hamme largou-a em 2006, passando por Yves Sente, Xavier Dorison e Yann, a nata dos argumentistas actuais. Rosínski, fará o mesmo dez anos mais tarde, entregando a sua personagem a Fred Vignaux, não deixando, contudo, de supervisionar o trabalho do continuador.


Thorgal – La Selkie

texto: Yann

sesenhos: F. Vignaux

edição: Le Lombard, Bruxelas, 2020



domingo, 4 de julho de 2021

reflexões




Um Trovão no Caminho e Outras Histórias de ficção científica por António Rocha, uma estreia na BD portuguesa que reflecte sobre experiências como a morte, a perda, ausência e a solidão. Edição Escorpião Azul, Lisboa, 2021.

«Leitor de BD»

quinta-feira, 1 de julho de 2021

estórias "para rapazes"


 BD não é só feita de Tintin e Príncipe Valente, Peanuts e Gaston Lagaffe, Corto Maltese ou Calvin & Hobbes. Muito do encanto que determinadas publicações tiveram, e que se mantém, sem nostalgia, décadas após o encerramento, deve-se também a uma quantidade de séries secundárias que preenchiam as revistas, criando uma aura que era partilhada pelos leitores. Por cada obra-prima, há uma infinidade de trabalhos correctos, que contribuem decisivamente para a consistência de uma visão global do trabalho de um determinado autor ou de um período. Alguns, sendo um recurso para tapar-buracos ao tempo em que eram publicados, hoje são vistos como fragmentos indissociáveis de uma época.

É o caso da série e do álbum que hoje aqui trazemos: Os 3 A – Os Piratas do Nevoeiro. André, Alain e Aldebert (Al, para os amigos) são três jovens escuteiros de espírito aventuroso, surgidos em 1963 nas páginas da revista Tintin belga, com desenhos de Mittéï (1932-2001) e texto de um certo M. Vaseur, pseudónimo de um nome sonante da BD, A.-P. Duchâteau (1925-2020), o argumentista de Ric Hochet, o repórter-detective.

A história, simples e movimentada, conta-se de uma penada: convidados por um armador, tio de Alain, a passar umas semanas a bordo do arrastão “Le Hardi” numa companha na costa da Islândia, são surpreendidos por um cargueiro à deriva, aparentemente sem vivalma. Alcançado o navio, deparam-se com a “Jolly Roger” hasteada – a característica bandeira dos piratas – e dão com a tripulação presa no porão. Chegados à vila piscatória de Slandag, verificam que não se fala doutra coisa, com um clima de suspeição que se abate entre os homens do mar, em especial sobre os mestres dos rebocadores, que beneficiam financeiramente com o resgate dos barcos; e para mais, o modus operandi destes piratas modernos denuncia uma violência inquietante.

Típica série “para rapazes”, como então se dizia, em não se vê uma figura feminina – muito medo das mulheres tinha a católica Bélgica; será preciso esperar pelo Maio de 68 para maior arejamento –, o argumento de Duchâteau é mais do que escorreito; mas a estrela aqui é Mittéï, desenhador em processo de revalorização, que algo estranhamente optará essencialmente pelos quadradinhos humorísticos, como o Incrível Désiré, sendo um dos vários autores que pegaram em Modeste et Pompon, após Franquin ter abandonado a revista Tintin, regressando à Spirou. Mittéï (Jean Thomas Toussaint Mariette), na altura assistente de Tibet em Ric Hochet, apresenta um trabalho empolgante, no dinamismo do desenho e nos enquadramentos das vinhetas. A edição portuguesa, já com mais de meio século, é um desgraça: má impressão e ausência de qualquer referência aos autores. Com raras excepções – como então a Verbo, a União Gráfica ou a Bertrand, orientada por Vasco Granja –, a edição de BD estava geralmente entregue aos bichos.


Os 3 A – Os Piratas do Nevoeiro

texto: M. Vaseur [A.-P. Duchâteau]

desenhos: Mittéï

edição: Editorial Íbis, Lisboa. s.d. [1970]

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quarta-feira, 30 de junho de 2021

mais western e mais humor




Christophe Blain (Argenteuil, 1970), de quem já aqui anotámos uma reinterpretação do Tenente Blueberry, com argumento de Johan Sfar, é daqueles autores – como o Mittéï dos 3A e do Incrível Désiré, aí ao lado – que se dá bem tanto no registo realista como no humorístico. Gus e toda a parafernália do Oeste humorístico que gostamos de ver em Lucky Luke ou Chick Bill, mas com um espírito contemporâneo mais ácido, e um estilo reconhecível (Isaac o Pirata é também da sua autoria). Tomo 1, Nathalie, edição Gradiva, Lisboa, 2021.

«Leitor de BD»

quinta-feira, 24 de junho de 2021

o Spirou de Christian Durieux


Spirou está groom num hotel sóbrio à beira de um lago tranquilo. Ideal para ditadores fugidos querendo passar incógnitos. É o caso de Iliex Corda, o “Grande Guia” deposto do Karajan, pequeno país dos Balcãs, e agora também alvo de perseguição. Na comitiva está Elena, a filha, por quem Spirou irá apaixonar-se; e no hotel, Fantásio, jornalista desempregado a quem o amigo arranjou aquele emprego, põe o faro de repórter a funcionar, nem sempre com os melhores resultados. Uma narrativa diferente, como toda a série “O Spirou de...”. Intriga internacional e policiária, humor e uma atmosfera de algum modo etérea que se cria entre Spirou e Elena, perpassando por toda a narrativa, em que Durieux (Bruxelas, 1965) conjuga muito bem texto e desenho. Edição Dupuis, Marcinelle, 2021.

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quarta-feira, 23 de junho de 2021

Fernão de Magalhães, um homem com um plano


 “Magalhães é um enigma. É um dos maiores exploradores de todos os tempos, revolucionou a navegação mundial, e no entanto ninguém conhece a sua vida.” Assim escreve Christian Clot, explorador suíço (Neuchâtel, 1972) e argumentista de Magalhães – Até ao Fim do Mundo. A morte, às mãos de indígenas nas Filipinas, impediu que concluísse a viagem que acalentara durante anos, e que, no entanto, não lha puderam roubar, graças a Maximiliano Transilvano, que entrevistou os 18 sobreviventes dos 239 tripulantes iniciais da viagem de circum-navegação (1519-1522), e a Antonio Pigafetta, que a bordo anotou criteriosamente os sucessos da expedição.

Membro da pequena nobreza nortenha, sabemos que esteve no Oriente, primeiro sob o comando de D. Francisco de Almeida, depois de Afonso de Albuquerque, tomando parte em várias refregas militares, como as conquistas de Diu e Malaca. Em Lisboa conhece Rui Faleiro, cosmógrafo que virá a ser o organizador da empresa, sem nela, contudo, participar. Magalhães estivera envolvido em várias questões conflituais, na Índia, em Marrocos e também por cá. O crédito que dispunha junto de D. Manuel I não era grande, e à proposta que lhe fizera podia o rei dar de ombros: que a terra era redonda, já Pitágoras o aventara, e outros depois dele, apesar de nunca comprovado; mas que interessava ao rei chegar às Molucas por Ocidente, se as suas naus por lá navegavam? A questão é que as Molucas se situavam no lado espanhol do meridiano de Tordesilhas; e se Carlos V não poderia lá chegar pelos mares que os portugueses dominavam, a verdade é que se pudesse lá ir ter por uma passagem no sul da América – o futuro Estreito de Magalhães –, também o imperador podia podia aceder às cobiçadas especiarias que fizeram dos reis portugueses do século XVI uma espécie de nababos do Ocidente.

O interesse na narrativa de Clot reside no que não se sabe de certeza certa. Em lado nenhum vem escrito que Magalhães pretendera ser o primeiro homem a dar a volta ao mundo, mas para Clot o navegador não era uma espécie de caixeiro-viajante expedito, em busca de riqueza. A sua tese é a de que Magalhães tinha um desígnio e que a conversa de ir no encalço das especiarias serviu de engodo para tornar o projecto atractivo pelos potenciais proventos. E Carlos V não era parvo. O historiador e matemático Luís de Albuquerque (1917-1992), sempre rigoroso com as prosápias na historiografia dos Descobrimentos, admite claramente que Magalhães tinha um plano. Mas Clot marca ainda mais um ponto, que está no domínio da ficção, embora seja plausível: como morreu Magalhães? A resposta que nos dá é surpreendente e credível, mas nunca será demonstrável.

O trabalho de Thomas Verguet e Bastien Orenge é limpo, ganhando especial interesse nas cenas de navegação. A última prancha, o funeral do navegador sob o efeito da chuva forte, é particularmente boa.


Magalhães – Até ao Fim do Mundo

texto: Christian Clot

desenhos: Thomas Verguet e Bastien Orenge

edição: Gradiva, Lisboa, 2018

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terça-feira, 22 de junho de 2021

Beethoven, ainda a tempo


 O bicentenário já foi, mas Ludwig, por ter sido tanto do seu tempo, e rompido todos os cânones, o tempo só passa por si, porque Beethoven permanece, haja gente com ouvidos. O alemão Mikael Ross (Munique, 1984) procedeu, com personalidade autoral, a uma recriação da infância deste neto de compositor, filho de alcoólico endividado e aproveitador do precoce talento da criança. Um génio assertivo, revoltado, um revolucionário da música, um artista maior do que a vida, e ciente de tudo isso. Já nada tinha que ver com Haydn, seu mestre, empregado do príncipe Esterházy com estatuto de cozinheiro, nem tolerava à sua frente as vénias de Goethe até ao chão por qualquer barão. Ludwig et Beethoven, edição Dargaud, Paris, 2021.

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segunda-feira, 21 de junho de 2021

George Sand, fora de tempo




Fora da seu tempo, ajudou a moldar o tempo por vir. Nascer-se mulher em 1804, era sinónimo de que para pouco se servia, para além de parir (quase todas) e mourejar (a maioria). Amandine, nome de baptismo, não esteve pelos ajustes, tornando-se um ícone de Oitocentos para as mulheres que queriam algo mais do que a servidão. Mudou de nome, vestiu-se à homem, mas foi mulher e amante de Gautier e Chopin, respeitada e par de Balzac, Victor Hugo e Alexandre Dumas, com quem fundou a Societé des Gens de Lettres de Paris. Outra biografia em BD, com texto de Séverine Vidal e desenhos de Kim Consigny, edição Delcourt, 2021.

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sexta-feira, 18 de junho de 2021

um azul mais escuro


 

Willy Lambil desenha vagarosamente , nos seus 85 anos, o 64.º tomo dos Túnicas Azuis, série semi-humorística passada durante a Guerra da Secessão americana. Estreou-se ao quinto, após a morte prematura de Salverius, em 1972. O vagar não será tanto causado pela idade, antes algum desalento por saber que Raoul Cauvin – a escrever as histórias desde 1968 – decidiu-se suficientemente tirocinado em cargas de cavalaria, e achou por bem parar. A Dupuis não estava disposta a perder uma das suas âncoras (20 milhões de exemplares vendidos), e entrega o álbum seguinte a um trio: o casal BéKa (Caroline Roque e Bertrand Escaich), argumentistas de Champignac, e o desenhador espanhol (e aqui também co-argumentista) José Luis Munuera, um dos actuais autores de Spirou, e também doutra série paralela ao universo do groom, Zorglub. A demora de Lambil fez com que o tomo 65 tenha avançado antes do anterior.

O argumento é rico, equilibrando a natureza híbrida e sem-realista da série. O substrato, sendo humorístico, nunca poderia sê-lo totalmente (estamos numa guerra, apesar de tudo), como, de resto, já acontecia com Cauvin. A intenção anti-racista e antimilitarista está como deve estar; e, neste tempo cacofónico, ideal para fazer passar manipulação e propaganda por informação, os autores foram buscar a personagem real de William Howard Russell (1820-1907), considerado o primeiro repórter de guerra, cobrindo conflitos como a Guerra da Crimeia e a Comuna de Paris. Russell é enviado especial do Times ao lado ianque, que espera boa imprensa para a nobre causa do antiesclavagismo. Escoltam-no os protagonistas, o sargento Chesterfield e o cabo Blutch, este, um misto de Quixote e Sancho, antimilitarista e matreiro, aquele, no fundo uma boa alma por vezes embriagada pelo brilho dos galões (não muito) superiores. O problema surge quando o comando nortista descobre, escarrapachado no jornal inglês, que não há assim tanta grandeza na guerra e que a miséria humana também mostra o focinho no lado dos libertadores. Se o papel de anfitriões impede a neutralização do repórter afinal abelhudo, ao mesmo não está obrigado o lado confederado... Com esta trama cruza-se a de Daisy, filha de um pastor severo, levada a casar com um herdeiro rico de uma plantação, quando está apaixonada por Jim, filho dos escravos do pai. Já casada, fogem ambos, arranjando guarida num asilo para órfãos de guerra. Daisy agora esposa adúltera e trânsfuga; Jim, à mercê do castigo que impende sobre os fugitivos, se apanhado.

Munuera, se por um lado respeita a tradição de Lambil no que respeita a Blutch e Chesterfield, nas passagens tensas e dramáticas de Daisy o registo torna-se mais realista e sombrio. E há ainda uma inspiração em Morris, os oficiais dos estados-maiores militares, e uma brincadeira com Cauvin e Lambil, eles próprios retratados, com uma piscadela de olho aos autores intrusos... Um álbum esplêndido, à espera de edição portuguesa.


Les Tuniques Bleues #65. L'Envoyé Spécial

texto: BéKa e Munuera

desenhos: Munuera

edição: Dupuis, Charleroi, 2020

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terça-feira, 15 de junho de 2021

em cada um de nós há um Erisictão

 


Conta-nos a mitologia que que Erisictão, rei da Tessália, era um ímpio que um dia devastou um bosque consagrado à deusa Deméter. Esta, como castigo, introduziu no estômago do soberano Éron, a fome. A partir daqui, a sua voracidade não tem freio: como tudo quanto tem, delapida os seus tesouros por comida, vende a filha, Mnestra, como escrava. Esta, que fora amante de Posídon, ganhara o poder da metamorfose. Quando lograva voltava a casa, o pai tornava a vendê-la. Nada o sacia, e enlouquece, devorando-se a si próprio. Em A Fábrica de Erisicton (edição Chili com Carne, Cascais, 2021), André Ferreira aborda a destruição dos solos no Alentejo, pela agricultura intensiva que se pratica, directamente para os nossos inconscientes e tranquilos pratos.

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segunda-feira, 14 de junho de 2021

o detective e o caçador

 


Dyland Dog, o detective do pesadelo, e Dampyr, caçador de vampiros, apesar de ser filho de um com uma mulher de carne e osso, Ambos juntos pela primeira vez, contra Lodbrock, o Senhor da Noite e as criaturas que engendra, em dois títulos: A Noite do Dampyr, por Roberto Recchioni, Giulio Antonio Gualtieri (texto) e Daniele Bigliardo (desenhos) e O Detective do Pesadelo, dos já nossos conhecidos Mauro Boselli e Bruno Brindidi. Edição A Seita, Prior Velho, 2021.

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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Undertaker

 


Poucas coisas nos dão tanto prazer como um belo western. O mercado anda generoso, embora retardado. A Covid-19 mata mais que qualquer pistoleiro. Já aqui falámos desta maravilha que é Undertaker, um cangalheiro alegado, uma máquina de matar a contragosto. A Ala dos Livros lançou recentemente o segundo tomo desta série obrigatória, ao nível do melhor Blueberry ou Comanche: A Dança dos Abutres. texto de Xavier Dorison, desenhos de Ralph Meyer, coloridos por Catherine Delabie.

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segunda-feira, 7 de junho de 2021

Duke

 


E como uma coisa boa nunca vem só, aqui temos o tomo 5 de Duke: Pistoleiro É o que Serás, desenhos de Hermann e texto de Yves H., publicado pela Arte de Autor, mas aqui a par com a edição belga original. A propósito do herói, usámos a seguinte formulação: Duke representa a luta individual da ética contra o instinto. Quando assim é, e um dos autores se chama Hermann Huppen (Bernard Prince, Comanche, Jeremiah, As Torres de Bois-Maury, etc....), não há alternativa senão ir atrás.

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quarta-feira, 2 de junho de 2021

Barelli

 


Acabamos como começámos, Bob de Moor e outra das suas personagens principais: Barelli, actor e detective amador. À história inicial, L'Énigmatique Mr. Barelli (1950), o autor acrescentou 14 pranchas em 1981, publicadas em álbum no final de 2020, comemorando os 70 anos da série. E ainda uma história concebida por Régric: Le Retour de Barelli e Le Retour en Scène, edição BD Must, Bruxelas.

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terça-feira, 1 de junho de 2021

Armada Invencível

 







É um dos grandes episódios da história da Europa, com repercussões mundiais. A 27 de Maio de 1588 uma formidável frota de cerca de 200 velas e 20 mil homens largou do estuário do Tejo, rumo à Grã-Bretanha. Missão: destronar Isabel I. A bordo da nau-capitânea, o galeão português São Martinho, estava o duque de Medina-Sidónia, nomeado por Felipe II, havia sete anos Felipe I de Portugal.

Joaquim Veríssimo Serrão, um dos mais informados historiadores deste período, dá-nos várias razões para a expedição contra a monarca Tudor, todas de peso, a nosso ver: deposição de uma soberana herege, repondo o catolicismo – Felipe fora rei consorte de Inglaterra, viúvo da Bloody Mary (Maria Tudor, assim alcunhada pelo furor com que perseguiu o anglicanismo), vingando também a católica Maria Stuart, rainha da Escócia, mandada executar por Isabel; punir os ataques corsários de Francis Drake e outros contra as possessões e barcos espanhóis; aproveitando ainda para neutralizar a acção dos rebeldes portugueses em torno de D. António, Prior do Crato, aclamado rei em Santarém (1580). Além disso, a Felipe que era filho de Carlos V – em cujo império o solo nunca se punha – e de Isabel de Portugal, oferecia-se-lhe o ensejo de engrandecer mais a Casa de Habsburgo, com a bem sucedida inclusão do reino português e respectivo império, que ele próprio afirmara ter herdado, pago e conquistado... E, já agora convém acrescentar, também respeitado, pois cumpriu todas as promessas feitas nas Cortes de Tomar, em 1581. Aliás, ele gostava de Portugal, por várias razões, a menor das quais não será o facto de a mãe ser portuguesa, filha de D. Manuel I; e por cá se demorou durante dois anos após a coroação. O brasão da União Ibérica, em que o maior destaque é dado ao escudo, com os sete castelos em ouro e as cinco quinas com as chagas de Cristo, tal como a bandeira portuguesa ainda hoje apresenta, é eloquente.

Mas havia outro motivo que levava Felipe II a querer remover Isabel I: o apoio aos holandeses, em rebelião havia duas décadas – a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos –, protestantes calvinistas, guerreiros, comerciantes e piratas quando era preciso, apoiados pela Inglaterra. Nacionalismo, religião, riqueza que levaram a 80 anos de guerra contra os espanhóis. E já entrámos na BD de hoje: Cori o Grumete, um extraordinário fresco aos quadradinhos que decorre entre os séculos XVI e XVII, criado em 1951 por Bob de Moor (1925-1993), um mestre da “linha clara” e o principal assistente de Hergé na segunda fase do período do criador de Tintin. Cori é um muito jovem grumete holandês, espião ao serviço de Isabel I, em missão em Espanha, potência ocupante do seu país. Como se desempenhou neste complicado xadrez geo-político, é o que veremos na próxima semana, pretexto para continuar com os clássicos.

Aos 25 anos, Bob de Moor (1925-1992) entra directamente nos Studios Hergé como assistente principal de Hergé, ocupando o lugar de Jacobs, cujos Blake e Mortimer não se compadeciam com meios tempos. O jovem parece assimilar à vez o estilo dos mestres belgas que lhe precederam: João e Estêvão (entre nós, no Cavaleiro Andante) evoca Willy Wandersteen (criador de Bob e Bobette), Barelli (na revista Tintin). Hergé; e em Cori o Grumete vemos muito de Jacobs. Balthasar, uma colecção magnífica de gags protagonizada por um velho bonacheirão, criação fresquíssima chumbada pelos leitores da revista Tintin belga, é um caso à parte: aí Bob de Moor segue apenas o seu espírito jovial – talvez demasiado, em paragens cinzentas.

Cori o Grumete, criado em 1951, é um adolescente (como o eram Tintin e Alix, de Jacques Martin, outro homem da casa). Em A Invencível Armada, Cori e Harn de Vroom são espiões holandeses em Cádis, a soldo de Isabel I, disfarçados de fabricantes de velas. Os Países Baixos eram, como vimos, uma possessão espanhola em rebelião, contando com a Inglaterra como principal aliada. Cori apodera-se dos planos secretos para a invasão espanhola do reino inglês; mas serão de seguida desmascarados. A monte, na companhia de marginais, uma emboscada surpreende-os, separando os amigos. Cori, chega a França, devastada pelas Guerras de Religião (1562-1598), salva François, criança huguenote das garras dos “papistas”, levando-a consigo para Inglaterra. Quanto a Harn, ferido e socorrido por um nobre espanhol, que será o número dois da Armada, seguirá para Lisboa.

Como Hergé, Jacobs e Martin, maníacos da documentação, Bob de Moor, estudou a fundo este complexo episódio naval, militar e político: falta de vento no início, apodrecimento de víveres, tempestade inesperada na embocadura da Corunha, cheia de escolhos. À aproximação a Inglaterra o moral já não era o mesmo. Dá-nos também as características dos dois comandantes: Medina-Sidónia, um indeciso cumprindo burocraticamente todas as indicações dos despachos de Felipe II em vez de aproveitar as oportunidades que pudessem surgir – até porque a “Felicíssima Armada” era superior em poder de fogo; do outro lado, o sanguíneo Drake, “El Draque”, chamavam-lhe os espanhóis, o oposto em génio táctico. O desastre é rematado quando uma embarcação carregada de explosivos deflagra de encontro aos barcos espanhóis.

Este tomo 2, intitulado O Dragão dos Mares (alusão a Francis Drake) é esplendoroso. De Moor compraz-se no desenho de todo o tipo de embarcações; o olhar demora-se em cada vinheta, cada prancha aproveitada ao pormenor, não raro com frisos de margem a margem, ou splashes de página inteira quando não se espera. Um estilo muito próprio de uma época, em “linha clara”, Escola de Bruxelas.


Cori o Grumete – A Armada Invencível -- I. Os Espiões de Rainha II. O Dragão dos Mares

texto e desenhos: Bob de Moor

edição: Meribérica, Lisboa, s.d.

«Leitor de BD», 

jornal I



segunda-feira, 31 de maio de 2021

até ao último homem

 


Russell pendura as esporas de cowboy e estabelece-se como rancheiro no Montana. De passagem por Sundance, um rapaz seu protegido, com problemas cognitivos aparece morto. Perante a indiferença das autoridades, que alegam acidente, seguida de hostilidade, expulsando-o da cidade. Russell regressa, mas não sozinho, O que se passou terá de saber-se. Um western a que voltaremos, O Último Homem..., argumento de Jérôme Félix e desenhos de Paul Gastine, Gradiva, 2021.

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domingo, 30 de maio de 2021

três mulheres para Lucky Luke


Depois do maravilhoso O Homemque Matou Lucky Luke, publicado originalmente para celebrar a personagem criada por Morris, Matthieu Bonhomme regressa com Procura-se Lucky Luke. E por quem é ele wanted? Por bandidos, decerto, mas também por três-mulheres-três, pondo à prova o vezo solitário do cowboy. Também a este pretendemos regressar. Edição A Seita, 2021.

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quarta-feira, 26 de maio de 2021

o regresso de Dex Parios



A dona da Stumptown Investigations, viciada em jogo, bissexual e com sex-appeal, em diligência particular: num jogo dos Portland Timbers, um seu amigo é espancado, e Dex irá no encalço dos agressores, na única oportunidade que terá para caçá-los. Para tal, contará com a ajuda de CK Banes, uma detective privada negra de Seattle. O Caso do Rei de Paus, de Greg Rucka e Justin Greenwood, edição G-Floy, 2021.

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quarta-feira, 19 de maio de 2021

demasiado humanos

 


Todas as civilizações têm as suas cosmogonias. No caso do Ocidente, ela é compósita e sincrética: o Génesis bíblico bebe da Mesopotâmia, quando não do Indo; os mitos de origem na Grécia Antiga têm também fonte oriental, embora o seu conhecimento escrito, através da Teogonia de Hesíodo (séc. VIII), seja anterior ao das tabuinhas em argila em escrita cuneiforme, decifrada pelos arqueólogos do século XIX. O Cristianismo, que cobriu a mitologia europeia com os seus anjos, santos e datas festivas foi menos sucedido nessa ocultação com a Grécia, por causa de Roma, sobre a qual assentou o edifício que até hoje perdura. Diga-se, porém, que muitos espíritos cultos da Antiguidade olhavam já com bonomia para estas fantasias de deuses e heróis. A religião, então como agora, era para os simples e para os místicos; mas do ponto de vista da estética e do imaginário, todo aquele panteão olímpico pejado de divindades demasiado humanas nos seus defeitos e qualidades, era maravilhosamente sugestiva para se deitar fora – de Camões a Stan Lee... Assim o entendeu Frei Bartolomeu Ferreira, o esclarecido censor dos Lusíadas, que muito se deve ter divertido ao ver os seus portugueses como povo dilecto de Vénus: “Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poetico não tiuemos por inconueniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salua a verdade de nossa sancta fe”. A cosmogonia grega, pois, como um dos fundamentos da nossa cultura, que deveria ser aprendida desde cedo na escola, uma utopia.

O didactismo em BD tem perigos e as adaptações requerem quem maneje a linguagem dos quadradinhos. O projecto “A Sabedoria dos Mitos” do filósofo e político Luc Ferry (Colombes, 1951), tem como guionista Clotilde Bruneau (Paris, 1987), com uma obra já vasta neste domínio. Da origem de tudo (“No início era o caos”) ao surgimento da Terra (Gaia, gerada se si própria), em cópula permanente com o Céu (Urano); da geração dos Titãs, dos Ciclopes e dos Hecatonquiros, todos aprisionados por Urano no ventre de Gaia por temor daquele, à revolta de Cronos/Saturno, castrando o pai, mas que, pelas mesmas razões devora os filhos que tem de Reia/Cibele. A este destino escapa um, graças a Reia: Zeus/Júpiter. Tornado adulto, Zeus desafia Cronos. Todos sabemos quem foi o vencedor. O como é-nos dado de forma épica.

Uma curiosidade: as primeiras pranchas, do Caos à afirmação de Cronos, estão a cargo de Dim. D (Paris, 1977), ou a BD influenciada por Turner ou Friedrich, grandes pintores pré-românticos; as pranchas seguintes, num registo necessariamente tradicional, são do italiano Federico Santagati, não por acaso um nome da Marvel.


O Nascimento dos Deuses

texto Luc Ferry, Clotilde Bruneau

desenhos: . D, Federico Sanatagati

edição: Gradiva, Lisboa, 2020

«Leitor de BD»

terça-feira, 18 de maio de 2021

Tex

 


O ranger criado pelos italianos Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini em 1948 continua a ter apreciadores por todo o lado. Entre nós, durante muitos anos fornecidos por revistas brasileiras, temos duas editoras com colecções que lhe são dedicadas: a Polvo e A Seita. Desta, saiu recentemente A Chicotada, uma história de fronteira, de Pasquale Rujo (argumento) e Mario Milano (desenhos).


quinta-feira, 13 de maio de 2021

o retorno do náufrago

 


Narcisse Pelletier foi um marinheiro da Vendeia, que ao 14 anos naufragou ao largo da Austrália, Ao fim de 17 anos de convívio e integrado pelos aborígenes, foi resgatado pelos ingleses. Regressado ao país natal, sente dificuldades de adaptação e é visto com desconfiança pelos conterrâneos. O relato das suas vivências foi recolhido por um sábio local. A partir desta história, Chanouga escreveu e desenhou Narcisse em três albuns, agora publicados em conjunto pela Paquet.

«Leitor de BD»

o Homem de Neaderthal não desapareceu

 


Pelo menos no universo criado por Nicolas Puzenat, passando-se período tardo-medieval, em que as relações sempre difíceis entre as duas raças humana, Sapiens e Neandertal, atingem um ponto baixo. Será um jovem médico, Timóleon de Veyres, nomeado pelo príncipe como emissário junto desses homens estranhos e primitivos. Na sua companhia vai Pontus, amigo fiel mas cobardolas. Edição Sarbacane, Paris, 20121.

«Leitor de BD»


quarta-feira, 12 de maio de 2021

uma arqueologia do Zorro

 



Zorro, nome espanhol para raposo, bicho astuto, é uma personagem criada por Johnston McCulley (1883-1958), surgido em 1919 na revista pulp All-Story Weekly, inspirada noutra figura embuçada, o Pimpinela Escarlate, gentleman inglês que salvava nobres franceses da guilhotina, durante a Revolução – criação da Baronesa Orczy em 1903 –, e em Joaquín Murieta (1829-1853), bandoleiro ou resistente ao domínio gringo da Califórnia, integrada nos Estados Unidos, a partir de 1848. A carreira é longa no cinema, na televisão e, obviamente, nos quadradinhos, através de uma multidão de desenhadores e argumentistas, como Warren Tufts, autor dos westerns Casey Ruggles e Lance, e Alex Toth, um dos criadores de Torpedo, esplêndida série noire. Por cá, Zorro chegava-nos dentro dos Patinhas, também com o concurso de autores do Brasil, argumentos de Ivan Saidenberg, o criador do Morcego Vermelho, e Primaggio Mantovi, autor de uma notável série humorística sobre o circo, Sacarrolha. e desenhos de Walmir Amaral e Rodolfo Zalla.

Don Diego de La Vega é filho de um grande proprietário na Califórnia espanhola. Mantendo um perfil discreto de dândi despreocupado e até cobarde, esconde a identidade secreta de um justiceiro mascarado, atlético e exímio no uso da espada, pistolas e chicote. Vestido de negro e com um cavalo do mesmo tom, “Tornado”, parece figura satânica pondo em sentido a guarnição de lanceiros do rei de Espanha aquartelada em Los Angeles, chefiadas pelo pérfido Capitão Monastério, oprimindo o povo miúdo com exacções de impostos e brutalidades várias. Don Alejandro, o pai, Bernardo, criado mudo, e o pitoresco Sargento García, o melhor amigo de Diego que odeia o Zorro, fazem o elenco principal desta espécie de Batman/Bruce Wayne avant-la-lettre, cuja marca não é um morcego projectado ao luar, mas um Z golpeado a lâmina na farda, quando não no rosto dos contendores...

Em Don Vega, o francês Pierre Alary (1970) avança no tempo histórico, mas recua no da narrativa, milagres da ficção. Estamos já numa Califórnia pós-mexicana, em que as vastas terras dos Vega foram tomadas por um Capitão Gomez, explorando os homens dos povoados abrangidos no trabalho das minas, mancomunado com um ex-militar, Borrow, antigo mestre de esgrima de Don Vega. Este é chamado de Espanha pelo padre, afim de acorrer à situação calamitosa da família e do povo. Aí chegado, vai encontrar um território dominado pelo terror, em que os populares alimentam uma crença salvífica numa personagem lendária a que chamam Zorro, defensor dos fracos e oprimidos, mito que Don Vega irá corporizar. Não é, pois, ainda o Zorro que conhecemos. Um álbum com bons achados, uma montagem dinâmica, com recurso generoso a grandes vinhetas, nas suas 89 pranchas, e uma boa opção pelos tons amarelados e azuis para cenas diurnas e nocturnas, de acordo com a aridez do meio. Só é pena Alary, ali ao lado de Espanha, não saber que Don é um tratamento distintivo nos países de língua castelhana aplicado ao nome próprio e não ao apelido.


Don Vega

Texto, desenhos e cores: Pierre Alary

edição: Dargaud, Paris, 2020

«Leitor de BD»

terça-feira, 11 de maio de 2021

sexo e BD

 


Não há nada mais belo e desejável em toda a Criação do que as mulheres. Ponto de vista de um homem, claro está. Parece que parece mal, mas é para o lado que este leitor dorme melhor, pois não as objectifica – calão de meia-tigela, muito útil para exercer censura ou promover extravagâncias mais ou menos inconfessáveis. Curiosamente, é neste activismo castrador, não por acaso, que vamos encontrar a maior complacência para com a situação das mulheres no Islão, da obrigatoriedade do uso do véu à polémica estrambótica em torno do “burquini”. Não há muito, num sítio belga web, que se dizia anarquista (!), a proibição do niqab e da burca era vituperada como um atentado à liberdade da mulher muçulmana. A estupidez à solta... Que a condição da mulher no mundo, e também em Portugal está longe do admissível e desejável é um facto; e um homem digno desse nome só pode conceber a mulher em paridade, a começar no campo sexual; a decência reclama o feminismo. Quem parece estar-se nas tintas é a revista L'Immanquable, que periodicamente lança números especiais com esta temática. O n.º 23 – esqueçamos o título parolo, Creátures de Rêve – oferece trabalhos de Sankha Banerjee, Joël Alessandra e a dupla Marwan Kahil/Mitsuko Swan, dossiers Milo Manara e André Juillard e um terceiro sobre as mais belas raparigas da BD erótica. L'Immanquable – Hors-Série Sexe et BD #23, Boulogne, Março de 2021.

«Leitor de BD»


sexta-feira, 7 de maio de 2021

Popeye, um vencedor do último século


 

Os anos fizeram com que raras personagens centenárias, ou quase, tenham caído nos esquecimento; e talvez apenas uma possa ter um reconhecimento planetário. Vejamos: de finais do Século XIX a até à década de 1920, os dedos de uma mão chegam para contar as séries ainda hoje susceptíveis de interessar a um público mais vasto: Os Sobrinhos do Capitão, de Rudolph Dirks (1897), enquanto houver rapazes endiabrados; Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay (1905) e Krazy Kat, de George Herriman (1909), continuam a alcançar leitores fervorosos, embora com critérios mais apertados. Os anos dez são um deserto, deste ponto de vista; nem mesmo o Panfúcio de Bringing Up Father, de George McManus (1913), teria pernas para andar só por si, a não ser destinado a nichos de coleccionadores. Depois há um gato e um rato, Félix (1919) e Mickey (1928), mas ambos nasceram para as telas, não são criações originais dos quadradinhos; e Tarzan, desenhado em 1929 por Hal Foster, procede, por sua vez, dos romances de aventuras. O que restará então? Dois bonecos desse mesmo ano, que os historiadores consideram como o início da “idade de ouro” da 9.ª Arte: rm escala apesar de tudo mais modesta, de proveniência belga, Tintin, de Hergé; e Popeye, o campeão de facto do século que se completará esta década.

Popeye, que na sua divertida crueza dir-se-ia precursor de um tom underground, é todo ele uma deformidade, do corpo à fala, excepto no carácter. Alma pura e destemida, sempre de cachimbo, os espinafres dão-lhe uma energia que aumentam a já notável força. A primeira aparição ocorre nas tiras de Thimble Theatre, que se publicava havia dez anos, tendo como protagonistas a família de Olive Oyl (Olívia Palito). Em breve, Popeye torna-se a estrela, e com ele Wimpy. um pequeno escroque obcecado por hambúrgueres, Swee' Pea (Ervilha de Cheiro), filho adoptivo, o mais inteligente do elenco, e Bluto, inimigo e rival, disputando as atenções da bela Olívia; acrescente-se ainda Poopdeck Pappy, pouco exemplar nos seus 96 anos; Sea Hag, a Bruxa do Mar, ainda mais pavorosa que a da Branca de Neve, e Eugénio o Jeep, estranho animal vindo dos confins da África Negra.

Em Popeye e o Jipe (1936), Olívia Palito recebe dum tio um caixote com o estranho bicho, muito dócil, com o dispendioso hábito de nutrir-se de orquídeas. A quadridimensionalidade (!) do cérebro permite-lhe actuar sobre o espaço e o tempo: desmaterializa-se e prevê o futuro... A têmpera de Popeye e os atributos de Eugénio (como se captura algo que se volatiliza?), fazem gorar os planos de um ambicioso para comprar e raptar o animal; e como adivinhava o futuro, um trafulha como Wimpy e uma flausina como Olívia vêem-se milionários, apostando em corridas de cavalos e combates de boxe. Quando chega a vez do embate entre o marinheiro e o colosso James J. Jab, o jeep prevê, supostamente, que Popeye o perderá. Ao ver a namorada e o amigo apostarem contra si, o moral do marinheiro desaba. Livro que nos acompanha desde 1978, relido agora, mantém a graça e o viço. Popeye tem carisma, por isso continua por aí, de saúde.


Popeye e o Jipe

texto e desenhos: E. C. Segar

edição: Editorial Presença, Lisboa, 1973 

«Leitor de BD»

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Don Rosa

 


Se quando falamos nas sempre entusiasmantes aventuras do Tio Patinhas por montes e vales, apesar de ser o pato mais rico do mundo, lembramos o seu criador, Carl Barks (1901-2000) e o gosto das narrativas empolgantes, nenhum outro autor como Don Rosa justifica mais o epíteto de seu herdeiro. A Panini Brasil inicia a edição da «Biblioteca Don Rosa»: Tio Patinhas e Pato Donald – O Filho do Sol, São Paulo, 2021.

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domingo, 2 de maio de 2021

desenhar, sempre

 



Em 7 de Janeiro de 2015, Coco saíra da redacção do Charlie Hebdo, depois de estar à conversa com Cabu, Charb e o cronista Bernard Maris, quando é apanhada pelos dois terroristas que vão perpetrar o massacre, obrigando-a a conduzi-los às instalações do semanário satírico. Será ela a autora da capa histórica “Ils ont les armes, on les emmerde, on a le champagne!”. Sobrevivente, pois, traumatizada, é através do desenho que fará a catarse. Coco, Dessiner Encore, Les Arênes, 2021.

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