quinta-feira, 31 de março de 2022

paródia de paródia



Pela quarta vez, um álbum de Lucky Luke. Não por falta de imaginação – espera-se – e muito menos ausência de material sobre que escrever, embora nem todo acessível. Depois de La Mine d'Or de Dick Digger (1949), título inicial em livro de um herói criado três anos antes, publicado entre nós pela Asa; Um Cowboy no Negócio do Algoidão (também na Asa), um muito conseguido trabalho de Achdé e Jul, continuando o percurso de Morris, mas enriquecendo-o, leu-se também por aqui O Homem que Matou Lucky Luke, editado por A Seita, obra-prima de Matthieu Bonhomme, uma releitura da personagem, indo aos seus fundamentos, recreação, como temos dito equiparável à que Émile Bravo faz com Spirou em Joutnal d'un Ingénu e L'Espoir Malgré Tout (quatro tomos na Dupuis, a casa editora que o viu nascer). Tratando-se de uma homenagem, Bonhomme não se limita a seguir os passos de Morris, o que sucede com Achdé, também, crê-se, por disposição contratual.

Hoje trata-se de um outro tipo de homenagem, uma paródia, semelhante às esplêndidas “Aventuras de Philip e Francis” Nicolas Barral e Pierre Veys (edições portuguesas na Gradiva e Arte de Autor), um gozo às excelsas figuras de Blake e Mortimer. Entre Lucky Luke Muda de Sela, de Mawil, e o já anunciado Choco-Boys, de Ralph König, A Seita publicou recentemente Jolly Jumper Já não Responde, de Bouzard (Paris, 1968), autor com larga colaboração em periódicos como Fluide Glacial, Spirou, Libértion ou Le Canard Echainé.

Este paralelo que fizemos com “As Aventuras de Philp e Francis” levanta uma questão: enquanto que Blake e Mortimer é uma série de perfil realista, Lucky Luke é já de si uma paródia ao imaginário do Oeste americano; e a dúvida é esta: pode a paródia de uma paródia funcionar? Sim, pode, não apenas pelo mérito de Bouzard, como o de Morris, cujo universo verosímil, potenciado posteriormente num sentido de maior comicidade por Goscinny, torna-o um dos melhores westerns dos quadradinhos, mesmo na sua vertente humorística. Todas as grandes figuras e toda a paisagem, ou seja a mundividência desse imaginário que se universalizou em grande parte graças ao cinema e o melting pot, têm lugar em Lucky Luke, o que explica também tanto o êxito como a longevidade da série, assim como as metamorfoses por que tem passado.

Em Jolly Jumper Já não Responde, Bouzard oferece-nos um desastrado Luke, a braços com o que parece ser uma depressão do bravo e inteligente cavalo, que não só já não se sente picado para uma partida de xadrez nem responde às deixas dos dono, algo que costumava fazer com uma verve aguda, atravessando apático a narrativa inteira. Pelo meio, múltiplas referências a aventuras passadas, a presença sempre marcante dos Dalton, desta vez com aparição da Mamã Dalton e de um dos vilões mais inesquecíveis destas histórias, Phil Depher, cujo fácies Morris foi buscar a Jack Palance, brincadeira que repetiria em O Caçador de Prémios. Obrigatório para luckylukófilos.


Jolly Jumper Já não Responde

texto e desenhos: Bouzard

edição: A Seita, Prior Velho, 2021

«Leitor de BD»

segunda-feira, 28 de março de 2022

de A a Z: V, de Valérian (Jean-Claude Mézières e Pierre Christin, 1967)


Agente espácio-temporal do século XXVIII, Valérian e a esplêndida Laureline, colega e companheira em pé de igualdade, paladinos da liberdade contra a tirania por esse Cosmos além. Antes de George Lucas já os bares intergalácticos por aqui andavam.

«Leitor de BD»

sexta-feira, 25 de março de 2022

mãos de ferro



André Diniz é um brasileiríssimo autor de BD, com tudo o que isso tem de bom – quadrinhos no Brasil é mesmo outra história... –, a residir em Portugal já há alguns anos. Dono de um traço único, uma visita à Lambiek (www.lambiek.net – esplêndido dicionário enciclopédico de BD online) –, lembra o óbvio ululante, mas que ainda não nos ocorrera: a influência da xilogravura no seu trabalho, técnica muito utilizada na ilustração da literatura de cordel no nordeste brasileiro, que o talento do autor naturalmente pessoaliza e enriquece. Para o público leitor europeu, pouco ou nada familiarizado com essa manifestação cultural tão específica, levada de cá para lá, de Portugal para o Brasil, onde foi sendo reelaborada, adquirindo um perfil próprio, esta característica de André Diniz, simultaneamente tão brasileira e tão pessoal, traz um frescor inusitado. A isto, que já seria muito, acresce um evidente estro narrativo transbordante, um comprazimento em contar história e expor situações.

É o que acontece com o livro de hoje, a edição portuguesa de A Revolta da Vacina, que, podendo ser lida como uma piscadela de olhos aos dias que correm – que também é –, é também muito mais que isso. Em 1904, o Rio de Janeiro sofria os efeitos de uma epidemia de varíola, com medidas tomadas pelo poder de compulsão vacinal, sob pena de multas e penalizações várias, originando motins populares na então capital federal, com a qual o governo lidou com mão de ferro – nada que ver, por enquanto, com o arbítrio deixado à liberdade dos cidadãos a que assistimos por quase toda a parte com a Covid-19; uma liberdade, de resto, muitíssimo questionável em certos casos, sempre que interfere com a liberdade dos outros, tema que para aqui não é chamado, também por falta de espaço.

A Revolta da Vacina ultrapassa, porém, as peripécias em torno da questão sanitária, servindo como pano de fundo para a narrativa principal: o percurso de Zelito, jovem adulto de Fortaleza que se desloca para o Rio, sonhando com um trabalho como desenhador de imprensa, contra a vontade do pai, um comerciante rígido que não crê que tal profissão tenha futuro; ainda para mais, o irmão, preferido pelo progenitor, filho modelo de curso superior tirado e já noivo, com um plano de vida promissor, acabara de morrer. Zelito, que passa a arcar com a expectativas de filho único relativamente a uns pais pouco confiantes, sabe o que quer, mas é também uma pessoa atenciosa, lamentando essa divergência que pode hipotecar as suas aspirações e a vida futura. Acertará com pai um período de seis meses no Rio, para provar o que vale, voltando ao negócio familiar em caso de falhanço. E é assim que vamos assistir à difícil adaptação do protagonista em a busca de trabalho e ao nascer de uma relação que parecia promissora, numa cidade em tumulto epidémico, mas também perturbada por um amplo plano de renovação urbanística na faixa costeira, que atrapalha a vida de todas. E neste contexto se dará a metamorfose do homem em fera.


A Revolta da Vacina

texto e desenhos: André Diniz

edição: Polvo, Lisboa, 2021

«Leitor de BD»

terça-feira, 22 de março de 2022

de A a Z: U, de Urtigão / Hard Haid Moe (Dick Kinney e Al Hubbard, 1964).



De longa barba, espingarda à mão na companhia do cão “Cão”, Urtigão é um parolo das montanhas (Apalaches e Ozark), um hillbilly, como o nome indica, espécie de saloio violento e bronco que fez as delícias dos leitores dos “Patinhas”, quando interagia com os citadinos de Patópolis. Uma das raras personagens dos quadradinhos Disney que é verdadeiramente humana, e não um animal antropomorfizado. Tornou-se muito popular no Brasil e em Itália, trabalhado por autores locais.

«Leitor de BD»

domingo, 13 de março de 2022

a vida brusca



Tomás é um escritor em crise, bloqueado, tal como a sua relação com Elsa, pintora e trepadeira social – conhecer as pessoas certas, frequentar os lugares certos, mote e modo de vida –; Marvel é o parceiro de Tomás para este trabalho que não desata. Argumentista de BD, esforça-se por explicar (ainda em 2000, data da primeira edição deste livro...) que escrever uma BD para adultos não implica fazer pornografia. Como na literatura, a BD explora todos os universos, uma vezes melhor, outras, pior – como em tudo, incluindo a literatura...

Pedro Brito (Barreiro, 1975) também desenhador, assina o argumento, estando o desenho a cargo de João Fazenda (Lisboa, 1979), dois autores então muito jovens e que contribuíram, cada um a seu modo, para que os quadradinhos nacionais dessem um salto assinalável nas últimas duas décadas.

Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, a obra de hoje, é uma história desenhada que se desenvolve entre a crise criativa e a crise conjugal de Tomás, temas recorrentes, grandes temas, tendo obtido um assinalável eco há vinte anos, com o Prémio Amadora BD para o melhor álbum português, no acanhado meio bedéfilo nacional, notoriedade a a que não é alheio o já então singular talento de João Fazenda, como o tempo se encarregou de comprovar, não apenas como autor de BD, mas também como ilustrador e grafista.

Muito mais do que uma obra auto-referencial, Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos deixa testemunho de um tempo, que continua a ser o nosso, de precariedades várias: a relacional, em que tudo é provisório, breve e egoísta, a começar pelo relacionamento amoroso, e a precariedade da BD em particular, mas também o logro duma nebulosa que dá pelo nome de arte contemporânea, em que o rei tantas vezes vai nu, a irritante afectação que se lhe associa, para não falar, permita-se a bucha, da mercadoria em que se tornou, aparente garante de investimento seguro para a vampiragem da finança. O descrédito é grande e a irrelevância também. Todas as lagostas de Berardo não valem a moldura que encaixilha o Bruegel de Salgado, em boa hora transitado para o Museu de Évora.

Enfim, uma oportuna reedição, enriquecida com entrevista aos autores por André Oliveira, posfácio de Pedro Moura, esboços e composição de pranchas; um argumento que não envelheceu, realista com um toque de maravilhoso – a mulher dos sonhos dele, Tomás, e o estranho papel de uma planta tão feia quanto benfazeja. É feia? Sim, mas como disse num verso o divino Carlos Drummond de Andrade, a propósito duma flor pouco galharda: “Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” Últimas palavras para o trabalho de Fazenda: cores (apenas duas) fulgurantes, um desenho irresistivelmente dinâmico e pessoal, um traço brusco, como o podem ser a vida, as relações, os sentimentos, os desafios,


Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos

texto: Pedro Brito

desenhos: João Fazenda

2.ª edição, Comic Heart e A Seita, Prior Velho, 2021

«Leitor de BD»

quinta-feira, 10 de março de 2022

de A a Z - T, de Tintin (Hergé, 1929)


A caminho do centenário – e com exposição do autor na Gulbenkian –, o repórter que não escreve, trotamundos na companhia do inseparável fox-terrier Milu; um jovem íntegro, a própria face da pureza que não se exime a aplicar um uppercut bem puxado num qualquer patife. De Tintin no País dos Sovietes até Tintin no Tibete ou As Jóias da Castafiore, que extraordinário percurso.

«Leitor de BD»

sexta-feira, 4 de março de 2022

um pícaro épico



Não tenhamos medo das palavras: O Burlão nas Índias, de Ayrolles e Guarnido, é obra-prima da narrativa sequencial por imagens, vulgo banda desenhada (ou quadradinhos). O ponto de partida é uma novela de Francisco de Quevedo, La Vida del Buscón (1626), escrita no Século de Ouro (entre os reinados de Carlos V e Felipe IV), em que a Espanha é a maior potência universal. É o tempo de Cervantes e do Dom Quixote, que representa o estertor do ideal medieval cavaleiresco, quando o comércio burguês conhece um definitivo impulso (muito bem retratado no livro), e o mundo é uma vasta Barataria sem lugar para cavaleiros-andantes. Reflexo disso mesmo é o surgimento da novela picaresca, com o Lazarilho de Tormes (1554), de autor anónimo, inaugurando um género propriamente castelhano – embora com algumas extensões fora de portas, como entre nós o do grande Aquilino Ribeiro com o seu Malhadinhas (1922) –, em que o protagonista é um descarado e triunfador vigarista. Por isso, um pensador notável como Gregorio Marañón podia confessar no fim da vida, num prefácio ao Lazarilho, que embora tocada pelo génio, execrava a novela picaresca pelo que continha de glorificação dos maiores patifes: “«É uma das misérias da arte”, escreveu a propósito. Mas o picaresco ganharia o favor do público e do Tempo, e não é difícil saber porquê: num mundo socialmente estratificado, em que a uns poucos, a nobreza e os príncipes da Igreja, estava reservada a opulência dada pelo comércio e pela rapina nas Índias (as Américas), uma imensa mole humana esgatanhava-se das alfurjas de onde provinham, simplesmente para não morrer de fome – outro aspecto muito bem focado aqui.

O Burlão nas Índias tem um argumento original brilhantíssimo do occitano Alain Ayrolles (Saint-Ceré, 1968) e desenhos de grande mestria do espanhol Juanjo Guarnido (Granada, 1967) – ou não estivéssemos a falar do co-autor da série Blacksad, vindo do campo da animação, dos Estúdios Disney, tendo trabalhado em filmes como “O Corcunda de Notre Dame”, “Hércules” e “Tarzan”. A obra de Quevedo conta a história de Pablos, um jovem natural de Segóvia, filho de um barbeiro e ladrão e de uma curandeira ou bruxa, que se faz escudeiro de um nobre, com vários incidentes de percurso, levando-o a embarcar para as Índias Ocidentais, para refazer a vida. O dramaturgo espanhol anunciou uma sequela que nunca chegou a escrever; fizeram-no Ayrolles e Guarnido, situando a acção em Cuzco, no Peru, depois da conquista de Pizarro, derrotando o Império Inca. O Peru do ouro e da prata e do mirífico Eldorado, que oportunidades para um vigarista! Pablos vai comportar-se como esperamos, mas nem uma linha mais escreveremos a propósito. Apenas que se trata de uma obra superior no que respeita à ideia, aos recursos narrativos, à composição, ao desenho e á cor. O preço não é convidativo, mas as suas 219 páginas valem cada cêntimo.


O Burlão nas Índias

texto: Ayroles

desenhos: Guarnido

edição: Ala dos Livros, Benavente, 2021

«Leitor de BD»

sábado, 26 de fevereiro de 2022

De A a Z: S,, de Spirou (Rob-Vel, 1938).



Jovem e voluntarioso groom do Moustic Hôtel, Spirou deu nome a uma revista que ainda hoje se publica, e com enorme qualidade. Ao contrário de Tintin, Spirou conheceu uma série de autores, todos de categoria, entre os quais se contam Jijé, Franquin, Tome & Janry ou Émile Bravo. De Spip, o inseparável esquilo de estimação, ao grande amigo Fantásio, jornalista, passando pelo Barão de Champignac ou o Marsupilami, sem esquecer os bandidos como Zantáfio e Zorglub, Spirou rivaliza com Tintin não apenas no carácter como no contributo que deu a uma aura muito própria da 9.ª Arte. 

«Leitor de BD»

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

heróis portugueses



 O livro de hoje, Macho-Alfa, primeiro de quatro volumes sobre as desventuras de um super-herói português, de Filipe Duarte Pires e Osvaldo Medina, suscita-nos duas micro-reflexões, a primeira das quais tem que ver com a ausência de personagens da BD portuguesa no nosso imaginário colectivo. É verdade que elas não são muitas, e na sua maioria, inconsistentes; mas, quanto a nós, o que determina esse vazio é a inexistência de uma indústria editorial, a exemplo do que sucede nos Estados Unidos, no universo franco-belga, em Itália e no Brasil. Por cá, são os pequenos editores que arriscam e não se lhes pode exigir milagres. Por outro lado, a imprensa, também ela em dificuldades, não ajuda; exemplos como o Bartoon (1993), de Luís Afonso, nunca foram muitos. Mas sempre somos dez milhões, que diabo, e os poucos mas bons que temos, fosse a BD portuguesa outra realidade que não um quase passatempo de nicho, e a história poderia ser diferente; acresce, para o bem e para o mal, que todos estes heróis de papel desaparecem quando os autores se retiram.

Alguns deles bem poderiam continuar por aí, no espaço público, fôssemos nós outra coisa: Quim e Manecas (Stuart Carvalhais, 1915); Zé Pacóvio e Grilinho (Cardoso Lopes, 1924); Tomahawk Tom (Vítor Péon e Roussado Pinto, 1950); O Guarda Ricardo (Sam, 1971), O Espião Acácio (Fernando Relvas, 1978), Jim del Mónaco (Louro & Simões, 1985) e Porto Bonvento (José Ruy, 1988), sem falar nos que ainda mexem: Pitanga (Arlindo Fagundes, 1985), O Corvo (Luís Louro, 2005), Super Pig (Mário Freitas e Carlos Pedro, 2006) Dog Mendonça (Filipe Melo e Juan Cavia, 2010), Homem Voador (2011, Álvaro e José Pinto Carneiro).

Macho-Alfa tem a particularidade de ser português e o único super-herói do (seu) universo. Desajeitado e mortífero, também despacha inocentes, sem querer. David Ferreira – nome de baptismo – é pois um super-herói no desemprego que se aluga a um reality show como modo de vida, para desespero do pai, António Martins, comissário de polícia, e da namorada, raquel Bastos, jornalista e blogger. A ideia é interessante, o desenho cumpre, a sequência prancha a prancha é conseguida, mas precisa arriscar no humor, evitar o lugar-comum, a piada inofensiva (dizer palavrões não é especialmente ousado). Jim del Mónaco, de Luís Louro e ToZé Simões é hoje impublicável por qualquer editor que queira evitar problemas com os novos inquisidores da cultura do cancelamento. (Quem se lembra as copiosa Gina e do negro Tião?) Se há coisa que os fanáticos desconhecem é a ironia, e têm em demasia a acrimónia, tanto quanto lhe falece o sentido de humor. Fazer humor fino e não malicioso é difícil por estes dias. E vem-nos sempre à memória um texto do grande José Régio (1901-1969), um dos espírito mais livres do século XX, o poeta de Cântico Negro (“não vou por aí”), que num ensaio escreveu algo como isto: não me contento em criticar o meu tempo, mas em ser contra o meu tempo – um tempo de totalitarismo, entenda-se. Segunda micro-reflexão: o humor ou ousa ou é inofensivo, e como tal, irrelevante. Aguardemos os álbuns seguintes.


Macho-Alfa, vol. 1

texto: Filipe Duarte Pina

desenhos: Osvaldo Medina

«Leitor de BD»

de A a Z - R, de Recruta Zero / Beetle Bailey (Mort Walker, 1950)



É uma espécie de Gaston Lagaffe dos comics. As histórias decorrem no aquartelamento de Camp Swampy, e todo o regimento é protagonista, do Sargento Tainha e seu cão Otto, ao Tenente Mironga, militar negro com simpatias pelo black power. Uma vasta galeria de uma das melhores séries humorísticas norte-americanas, em que pontifica um soldado raso, desleixado e mandrião, cujo lema é: “Não deixes para amanhã o que podes fazer depois de amanhã.”

«Leitor de BD»

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Will Eisner, um escolhido


Filho de imigrantes judeus, nado e criado no Bronx, Will Eisner (1917-2005) é um dos nomes maiores da 9ª Arte, sendo-lhe atribuído a cunhagem do termo graphic novel (novela ou romance gráfico). Enquanto autor, o longo percurso é marcado pela criação de Sheena, Rainha da Selva (1937), uma versão feminina de Tarzan, e, principalmente, The Spirit, publicado entre 1940 e 1952, um esplêndido policial de que falaremos em breve, que firmou Eisner como um autor de primeiríssima água. Após um período dilatado de afastamento da BD comercial, em 1978 publica um conjunto de quatro narrativas, Um Contrato com Deus e Outras Histórias de um Prédio, o livro que aqui nos traz.

Entre os comics infantis, as sagas de super-heróis exploradas à outrance e uma resposta underground e satirizante, havia na América pouco ou nenhum espaço para uma forma de expressão madura, não obstante nomes como Winsor McCay (Little Nemo), Harold Foster (Príncipe Valente) ou Charles M. Schulz (Peanuts), autores cujo génio fazia com que as respectivas obras atravessassem as fronteiras espessas dos quadradinhos. Eisner tinha consciência da especificidade da arte sequencial, que não se confundia com qualquer outra, começando assim a explorar uma forma de comics literários, até então quase um oxímoro, como salienta num prefácio de 2004. Através dela tudo podia dizer-se, como num filme ou um romance, na sua gramática própria.

Em Um Contrato com Deus (o resto do título perdeu-se na edição portuguesa), o autor oferece-nos evocações infanto-juvenis da vivência num prédio do Bronx, na ressaca da Grande Depressão de 1929. Um prédio, como um paquete de longo-curso ou até uma composição num caminho-de-ferro continental, é um habitat extraordinário para a criação literária, como se sabe, uma mina para quantos observam e trabalham o comportamento humano. E ele aí está, cru e humaníssimo a desfilar diante dos olhos. Na história que dá título ao livro, Frimme Hersch era um rapaz de tal modo altruísta que os aldeões vizinhos julgavam-no um escolhido de Deus. E assim, após mais um pogrom nessa Santa Mãe Rússia que periodicamente se dedicava a massacrar judeus, aqueles quotizam-se e enviam-no para a América. Antes, Frimme fixara na pedra um contrato com a divindade, em que se comprometia a dedicar a vida ao Bem. Um dia, já no Bronx, uma menina recém-nascida é depositada à sua porta, acomodada numa caixa de laranjas. Um sinal, certamente, e Frimme cria-a extremosamente como filha, até que uma doença arrebata-a, na flor da idade. O homem faz então a mesma pergunta que tantos judeus dirigiram ao longo da História à cruel potestade, da expulsão e conversão forçada nos reinos peninsulares, passando pelo suplício do Capitão Dreyfus, ao limiar das câmara de gás: “Se Deus exige que os homens honrem os seus compromissos / não está ele também sob compromisso??” Eisner perdera a única filha, de dezasseis anos; a agonia de Hersch é a sua, com um final perturbador. Mas o encantamento não acaba aqui: na próxima semana haverá mais Eisner.

O melhor realismo, desde Balzac e Dickens, (o primeiro, semideus de Eça de Queirós, o outro, nas palavras do escritor português, deus e semi), foi sempre o que considerou o homem como um amontoado visceral composto por coração, cabeça, estômago e espírito – o espírito que tudo aquilo misteriosamente produz, e que nalguns seres acontece suscitar o que um maravilhoso filósofo um pouco mais antigo qualificou como “necessidade metafísica” – algo que também assiste (ainda mais?…) aos ateus.

Will Eisner, ao assumir-se como repórter gráfico que documenta a angústia da existência e da subsistência, oferece uma obra que cala mais fundo em todos quantos pensam que a arte deve ter coisas a dizer para além de uma auto-referenciação excessiva, narcísica ou comiserada. “Gosto do realismo ou da realidade.” – escreveu Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999), romancista e crítico de convicções fortes, por vezes erradas, e que não era para brincadeiras – “Sabe-me a maçã. Como quatro por dia.” Falar do outro é sempre uma forma de empatia; o que não interessa se despreza, ignora-se. Nesse recanto da Grande Maçã que foi e é o Bronx, Eisner conduz-nos pelas aspirações dos seus bonecos tão reais, sempre com empatia.

Três narrativas seguem-se a “Um contrato com Deus”, todas esplêndidas. Em “O cantor de rua”, Eisner mostra como a vida prega partidas a quem fica a vê-la passar. Durante a Grande Depressão, havia homens a cantar árias nos becos dos prédios, esperando que lhes atirassem moedas. Figura perturbadora da infância que sensibilizava o coração romântico das mulheres, enquanto os maridos desconfiavam tratar-se de um qualquer batedor dum bando de larápios, Eddie é um desgraçado marcado pelo álcool e sem emprego,sequer para marido e pai. Um dia, o acaso cruza-o com uma “diva” decadente e retirada, que crê poder regressar à ribalta apadrinhando aquela bela voz. Mas, para Eddie, mesmo com o acaso a ajudar, os bolsos estão sempre rotos. “O zelador”, figura que representava o senhorio perante os locatários, por isso normalmente malquista, é uma história pungente de miséria moral, das coisas mais sórdidas que já nos foi dado ler, dum zelador alemão num prédio habitado por judeus. E é claro que a sordidez não está apenas num dos lados. Finalmente “Cookalein”, uma narrativa autobiográfica ternurenta e melancólica, deliciosa comédia de enganos, fala-nos das férias dos pobres, quando este iam para o campo passar uma semanas em casas particulares – como as dos Waltons (quem se lembra?…) –, cujos quartos eram arrendados por família e a cozinha era de uso comum, onde se faziam conhecimentos, tentava pescar-se noivos ricos e uns quantos adolescentes de sorte viviam a iniciação sexual.

Will Eisner retrata-se com os traços do Spirit – e a idade de ouro dos comics revive nestas páginas.


Um Contrato com Deus

texto e desenhos: Will Eisner

edição: Levoir, Lisboa, 2015

«Leitor de BD»,

aqui e aqui


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

de A a Z - Q, de Quim e Felipe / Quick et Flupke (Hergé, 1930)




Dois miúdos de Bruxelas, mais concentrados nas brincadeiras de rua e nas maquinetas de diversão que engendram que nos estudos, o que lhes traz por vezes dissabores vindos do mundo dos adultos – pais, professores, polícia de giro –, sempre postos em situações cómicas, próximas das que Hergé ensaiava nas histórias do repórter, esse Tintin que Quim e Felipe aguardam junto da multidão, no apoteótico regresso do Congo.

«Leitor de BD»

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

de A a Z - P, de Peanuts (Charles M. Schulz, 1950)


Um grupo de crianças do
Middle West norte-americano, conhecidas no mundo inteiro graças à sensibilidade de um autor cujo alter ego infantil, é cheio de insegurança e vontade desajeitada de ser querido, para impaciência tantas vezes do resto da malta. Mas, ao fim de todo este tempo e desde sempre, “nós amamos-te, Charlie Brown!”

«Leitor de BD»

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

palavras a mais



 Na BD existem os artesãos, os artistas e os fora-de-série, inimitáveis, apesar das tentativas de emulação ou cópia, cuja marca permanece para sempre. Nos quadradinhos há centenas de bons ou muito bons artistas; mas um Will Eisner ou um Jean Giraud estão num patamar a que a maioria não acede.

Giraud (1938-2012), explode em 1963 com a abreviatura Gir, assinando um grande fresco intitulado Fort Navajo, cujo protagonista é o célebre Tenente Blueberry – tantas vezes já por aqui referido, mas ainda não aprofundado. Assistente de Jijé (1914-1980), na série Jerry Spring, que indica o nome de Giraud para trabalhar o argumento de Jean-Michel Charlier (1924-1989), dele dirá Tibet (Chick Bill, Ric Hochet), numa entrevista já aqui referida, que Gir fazia Jijé melhor que o próprio...

Moebius, é o pseudónimo que adopta na mesma época, mas só na década seguinte é assumido como uma via paralela, principalmente com o esplêndido Arzach (1975), com a prevalência de um onirismo liberto, que se contrapõe ao realismo cada vez mais sujo, cada vez mais belo, de Blueberry. Mas apesar de os dois trajectos se distinguirem bem, é interessante ver como, ao mesmo tempo, Gir importa de Moebius alguma tonalidade e fluidez. Embora se desempenhasse bem como argumentista, inclusivamente em Blueberry, após a morte de Charlier, o encontro com o chileno Alejandro Jodorowsky (Tocopilla, 1929) ocorre pouco depois de Arzach, e vem dar a Moebius o nefelibata que lhe faltava, e com quem assinará, entre outros trabalhos, O Incal (1981), que nos é dado a conhecer através da prospecção atenta de Jorge Magalhães, na Editorial Futura.

Os Olhos do Gato (1978) é Moebius no seu esplendor, a partir de um texto minimalista de Jodorowsky, Publicado como brinde destinado aos leitores fiéis dos Humanoïdes Associés, que publicava a Métal Hurlant, foi objecto da avidez desses bichos estranhos que são os coleccionadores, suscitando ainda uma edição pirata por outros marginais da edição, bem-humorados, que se autodesignaram por “Androïdes Dissociés”... Tornado um livro de culto, os humanóides lançariam a edição comercial em 1981. São 48 ilustrações-BD e um frontispício num permanente campo e contracampo: nas páginas pares projecta-se a figura de um rapaz de costas e sempre na sombra com contornos de Yellow Kid (a obra pioneira de Richard F. Outcault, criada em 1896), “mirando” o skyline de uma cidade que dir-se-ia um misto de Metrópolis e Urbicanda. Nas ímpares, uma vinheta/ilustração cheia, em que o cenário parece ruinoso e pós-apocalíptico. “Mirando” veio atrás entre aspas, uma vez que a criatura tem os olhos vazados, comunicando telepaticamente com a águia Meduz, cuja missão bem definida é a de prover um novo e fresco par de olhos ao suposto tutor. Moebius é aqui o tal fora-de-série. Uma filactera final chegava e sobrava para acomodar os murmúrios do argumentista, se houvessem conhecido e meditado no dístico do poeta Alberto de Lacerda (1928-2007): “Palavras / Quase todas a mais”.


Os Olhos do Gato

Desenhos: Moebius.

Texto: Jodorowsky.

Edição: A Seita e Ala dos Livros, Prior Velho e Estoril, 2021

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domingo, 30 de janeiro de 2022

de A a Z: O, de Olivier Rameau (Dany & Greg, 1970)



Um jovem ajudante de notário do Mundo-onde-todos-se-aborrecem, embarca com um colega à beira da reforma, Alphonse Pertinent, num eléctrico que conduz a um estranho país. Em Rêverose, não há pressas nem dinheiro, e até os espantalhos são amigos dos pássaros. Além disso, há também a menina Colombe, esplendorosa, por quem Olivier Rameau se apaixona. Um paraíso, que só é ameaçado quando alguém deste mundo em que nos aborrecemos lá vai parar. Uma grata fantasia utópica que ainda não disse tudo.

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

cidadão Talon


De indumentária fora de moda, a que não falta chapéu, laço-borboleta e bengala, conduzindo um Achilles modelo1908, ventrudo, careca e com um nariz fenomenal, Achille Talon é o que se chama um cromo, características que herdou do pai, apesar de tudo mais distendido e grande bebedor de cerveja. Quando vê um antigo colega, é incapaz de dizer “Há quanto tempo!”. Um cumprimento para esta personagem consiste sempre num pequeno tratado: “Meu velho companheiro de escola, de quem a bifurcação das nossas admiráveis vidas de labor me separou tanto tempo!»... Talon não sabe falar de outro modo: uma colina nunca é um apenas um outeiro, mas “um pequeno monte de matéria carbonífera que resultou dos movimentos que agitam o nosso planeta há uns escassos 280 milhões de anos...” O seu discurso rendilhado é objecto de estudo e teses universitárias, bem como a destreza dos trocadilhos, a começar pelo próprio nome, uma guinada na expressão “calcanhar de Aquiles”, que começa no próprio lettering da série, ACH!LLE.

O impecável e perfunctório Achille Talon está, no seu pernosticismo, para a redacção da revista Pilote (que nos gagues aparece como “Polite”), como Gaston Lagaffe, de Franquin, no proverbial desmazelo criativo que lhe assiste, para o semanário Spirou: sem eles, levando directores e chefes-de redacção ao limiar do enfarte do miocárdio, aquilo não passaria de um escritório aborrecido. Goscinny, que dirigia a redacção da Pilote, surge sempre apopléctico, com os dentes cerrados e a espumar.

Tal não sucede no livrinho de hoje, assim como não teremos o prazer de vislumbrar a noiva, Virgule de Guillemets. As Férias de Achille Talon, edição original de 1977, é uma compilação de gagues, que na maioria decorrem num parque de campismo popular e no qual Chichille (como lhe chama o pai) encontra o marquês Constant d'Anlayreur (ou seja, constant dan l'érreur, o que em tradução literal poderia dar algo como “persistente na asneira”, mas que o tradutor anónimo optou, e bem, por um Constante d'Herros. A ânsia de impressionar o pobre marquês, que é um marquês pobre, origina uma série de páginas divertidas. Em alternativa, surge o vizinho Hilarion Lefuneste, com uma loquacidade de surdo-mudo, com quem o nosso anti-herói gosta de implicar.

Criado em 1963 por Greg (1931-1999), um dos grandes argumentistas da BD franco-belga – Bernard Prince, a pura aventura (com Hermann), Bruno Brazil, o thriller de espionagem no tempo da Guerra Fria (com William Vance), Comanche, um western excepcional (de novo com Hermann), Luc Orient, ficção-científica (com Eddy Paape), entre outras, este exímio efabulador aventurou-se também pelo humor retomando Zig e Puce, de Alain Saint-Ogan, ou Clorofila, de Raymond Macherot ambos com o traço de Dupa, o criador do cão Cubitus. Com Achille Talon, Greg mostrou ser também um desenhador inventivo e, por conseguinte, um autor de BD completo.


As Férias de Achille Talon

texto e desenhos: Greg

edição: Meribérica, Lisboa, s.d.

«Leitor de BD»

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

de A a Z - N, de Natacha (François Walthéry & Gos, 1969)



Os efeitos do Maio de 68 chegavam à BD. Natacha, hospedeira do ar, sobrevoando o mundo, é a primeira heroína adulta para o grande público a ser a titular de um série, coadjuvada por um homem, Walt, comissário de bordo, e logo na recatada Spirou... À medida que os anos passaram, Natacha foi-avolumando as formas e encurtando a roupa, tornando-se , obviamente, objecto de pastiches eróticos, quando não de ensaios à margem, no mesmo sentido, do próprio Walthéry.

«Leitor de BD»

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Méga Spirou #28 (Dezembro 2021)



Já por diversas vezes nos referimos ao semanário Spirou, não apenas pela veterania (desde 1938...), mas pela excelente qualidade visível a cada semana, infelizmente apenas acessível ao leitor português por assinatura, Apesar de tradicionalmente orientado para um público infanto-juvenil, o lastro de décadas que carrega no bojo permite recrear um património que tem nomes tão significativos como Lucky Luke ou Gaston Lagaffe. cultivando um espírito de revista-companhia que praticamente desapareceu. Mas alegre-se quem tem interesse em reencontrar este universo e dar a conhecê-lo aos mais novos da família, desde que não tenha grandes dificuldades com o francês: a editora Dupuis publica trimestralmente um volume – este sim, disponível nas nossas bancas – de quase 200 páginas, com dois álbuns, clássicos ou recentes no interior e uma antologia de gags com as personagens da actualidade, do Pequeno Spirou e Cédric, até aos recentes Dad e L'Imbatable - “o único verdadeiro super-herói de banda desenhada” - da autoria de Pascal Jousselin – e é verdade que é mesmo o único... Dentro do espírito de Natal, as histórias completas são A Flauta de Seis Schtroumpfs, por Peyo, uma aventura do já nossos conhecidos heróis medievais João e Pirolito, de 1958, em que pela primeira vez aparecem os pequenos seres azuis da floresta; e O Cosmoschtroumpf (1969). Este número está enriquecido pelos textos do crítico Hughes Dayez, e uma curiosidade de antanho, “O schtroumpf sem esforço”, um método eficaz para aprendizagem daquela língua estranha, da autoria de Peyo e do argumentista Yvan Delporte.

«Leitor de BD»

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

de A a Z - L, de Lucky Luke (Morris, 1946)




O cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra tornou-se para muitos a epítome do western em BD; e não apenas caricatural, tal a recriação profunda desse imaginário que logrou – sem esquecer Goscinny –, e que Matthieu Bonhomme recentemete certificou. Deixou de fumar, no que fez bem.

«Leitor de BD»

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

um pequeno país

Um país pequeno como a Bélgica, que em anteriores encarnações políticas foi pátria de van Eyck, van der Weyden, Bruegel, Rubens, van Dyck até, na figuração actual, Ensor, Magritte ou Delvaux, entre muitos outros, só encontra na opulenta Itália nação que com ela se meça com vantagem; assim também na BD a Bélgica na Europa, pese a França – Uderzo e Goscinny, por exemplo, afirmaram-se primeiro lá e só depois no país natal; ou Jacques Martin... – ou ainda a Itália, a terceira potência do Velho Continente. Historicamente, em face da Bélgica, só os Estados Unidos, com os seus comics.

Régine Vandamme (Bruges, 1961) uma escritora que se assume leitora, seleccionou, em 2003, 19 autores para um mimoso mini coffee table book, e escolhendo, também deixou de fora, inevitavelmente: Hermann (Bernard Prince, Comanche, Duke), a ausência mais gritante, mas ainda o próprio Greg (Achille Talon), E. Aidans (Tounga), François Craenhals (Chevalier Ardent) William Vance (Bruno Brazil, Ramiro, XIII) ou Dany (Olivier Rameau). Dito isto, as escolhas são todas respeitáveis e incontroversas na quase totalidade. Por ordem de nascimento, o livro abre com Edgar P. Jacobs (Blake e Mortimer), o “génio do estilo narrativo rigoroso e grafismo magistral”; em Hergé (Tintin), aponta o contraste entre a perfeição do herói com os múltiplos defeitos das restantes personagens, aliado à grande legibilidade do desenho. Willy Wandersteen (Bob e Bobette), apesar de Hergé lhe chamar o Bruegel da BD, está, quanto a nós, num patamar abaixo. Segue-se o grande Jijé (Jerry Spring), autor do primeiro western humanista, com grandes cenários e enquadramentos audaciosos; Morris (Lucky Luke), o pai da expressão 9.ª Arte; Paul Cuvelier (Corentin), desenho minucioso e sensual; Raymond Macherot (Clorofila, Coronel Clifton, Sibylinne), o animalismo negro da primeira série, a autora fala-nos da espantosa paleta do desenhador; André Franquim (Gaston Lagaffe, Ideias Negras), de quem Hergé dizia que era ele o grande artista; Peyo (João e Pirolito, Schtroumpfs), a clareza imaculada; Guy Peellaert (Jodelle), com a aproximação à Pop Art; Louis Joos e a paixão pelo jazz e o claro-escuro em técnica mista; Comès (Silêncio), a grande tradição do preto-e-branco, na esteira de Milton Caniff, Hugo Pratt e José Muñoz; Claude Renard (Galileu, Diário de um Herético), dum virtuosismo deslumbrante; Sokal (Canardo), um antropomorfismo em policial desbragado; Philippe Gelluck (O Gato), ou o triunfo do nonsense; o abençoado Frank Pé (La Bête), entre Franquin e Egon Schiele; François Schuitten (As Cidades Obscuras), entre Winsor McCay e Moebius; Yslaire (Sambre), uma das mais perturbantes criações da BD, e, por fim, Thierry Van Hasselt, cujas influências vão de Alberto Breccia a Francis Baco, ou a BD a reinventar-se como pintura e talvez a fugir dela própria.

Livro de uma senhora leitora, felizes os autores que são lidos com este amor.


Régine Vandamme, Les Maîtres de la BD Belge

Tournai, La Renaissance du Livre, 2003

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