Tintin no País dos Sovietes (1929)
domingo, 15 de setembro de 2019
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
oh as casas
A nossa
casa é, idealmente, o lugar por excelência onde melhor nos
sentimos, refúgio, castelo, recinto privilegiado em que assistimos
ao desenrolar das vidas dos que nos são próximos. Um edifício
abandonado ou em ruínas confronta-nos desapiedadamente com vida
vivida, para sempre desaparecida ali e, por consequência, com a
melancolia da finitude. É sobre isto que nos fala The
Building (O Edifício,
na tradução brasileira), de Will Eisner (1917-2005), dos autores
mais talentosos que a BD já conheceu, criador do Spirit,
e um dos pioneiros da graphic novel.
O
Edifício é uma história sobre um prédio
nova-iorquino situado no cruzamento de duas avenidas, que albergou
dezenas de famílias e indivíduos ao longo de décadas, silenciosa
testemunha de outras tantas existências. Uma epígrafe inicial de
John Ruskin, dá o tom: «Os edifícios antigos não nos pertencem.
Em parte são propriedade daqueles que os construíram; em parte das
gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre
eles: aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.»
Com o
desenho singular que o caracteriza, o tratamento opulento da prancha
como vinheta isolada ou superfície única para várias vinhetas, com
sem cercadura, Eisner consegue o pleno na arte combinatória da
novela gráfica.
Will Eisner, O Edifício
Will Eisner, O Edifício
Editora Abril, São
Paulo, 1987
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Emile Bravo, L'ESPOIR MALGRÉ TOUT - vol. 1: negrume na linha clara
Depois de Tintin, o outro
grande ícone belga da BD é Spirou, um adolescente, groom do Moustic
Hotel. Criado em 1938 por Rob Vel (1909-1991), para a revista que
leva o seu nome e ainda hoje se publica, tem pontos de contacto com a
personagem de Hergé: jovens que vão amadurecendo
imperceptivelmente, guiados por um sentido de justiça e pelo
companheirismo. Há uma mascote, o esquilo Spip; um amigo dilecto,
Fantásio, jornalista; um sábio, o conde de Champignac; só não há
Dupond & Dupont, mas em contrapartida uma criatura igualmente
esquipática: o Marsupilami. Enquanto Tintin, porém, não teve
continuidade, por vontade de Hergé, para Spirou trabalharam muitos
artistas, sendo o mais notável André Franquin (1924-1997). A série
foi, entretanto, confiada a diversos autores; um deles, Émile Bravo
(Paris, 1964), tem em curso de publicação uma extensa narrativa de
quatro tomos, L’Espoir Malgré Tout / A Esperança Apesar de
Tudo, continuando a inicial e brilhante incursão do autor nas
aventuras do nosso herói, em Le Journal d’un Ingénu
(2008).
O
primeiro volume, Un Mauvais Départ, coloca-nos em Bruxelas,
em Janeiro de 1940, meses antes da invasão da Bélgica. Spirou,
muito novo, mas com uma experiência de vida difícil é uma
personalidade forte, com dúvidas, paixões e uma candura própria da
idade, contornada pela inteligência. Um dos motores da narrativa é
a sua paixão por uma jovem comunista judia-alemã, do Komintern, de
quem recebe uma carta inquietante – a História a desenrolar-se ao
lado da vida, e a colher as suas vítimas.
Se
Spirou representa a ética em tempos bárbaros, Fantásio aparece-nos
como um indiferente e apatetado homem da rua, o que significa
uma desvalorização da personagem como a conhecíamos. O jornalista
originalmente é um obsessivo hiperactivo, o complemento de Spirou,
tal como Haddock o é de Tintin; mas como Bravo de alguma forma
refunda a série, é possível que Fantásio evolua com as provações
da guerra. A trama é, de resto, muito rica e claramente escrita para
os confusos dias de hoje.
Bravo
tinha duas dificuldades de monta nesta abordagem vincadamente
autoral: a primeira é a de se defrontar com um clássico; a outra, a
compatibilização do fundo humorístico de Spirou com refugiados de
guerra e crianças com fome. O que pareceria uma missão impossível,
é plenamente conseguido, à custa, claro, do pobre Fantásio, a que
se juntam, hilariantes, separatistas flamengos, vizinhos franceses,
escuteiros católicos, colaboracionistas… – estes geralmente
representados em tom cinzento, enquanto os nazis estão de negro
carregado, em (im)pura linha clara.
L’Espoir
Malgré Tout – vol. I
Texto
e desenho: Émile Bravo.
Dupuis,
Bruxelas, 2018
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Rob Vel,
Spirou,
Tintin
terça-feira, 10 de setembro de 2019
a poesia dos quadradinhos - #7 José Emílio-Nelson
«[...] E sentes-te Tarzan, quando sentes / Na bunda as bolas de outro que se esfalfa. / E não tem nada a ver com Banda Desenhada.»
José Emílio-Nelson, A Festa do Asno, s.l., Editora Canto Escuro, 2005.
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
BDteca: Alan Moore & Brian Bolland, BATMAN -- A PIADA MORTAL (1988): cara e coroa
Batman
pertence a esse universo, mas tal como os seus colegas mais interessantes
(Fantasma, Homem-Aranha, Demolidor) é demasiado humano. Em A Piada Mortal / The Killing Joke (1988), Alan Moore foge ao modelo
maniqueísta do herói vs. vilão: o Joker, arqui-inimigo e personagem central
desta história, ganha o estatuto de uma espécie de duplo do homem-morcego, cara e coroa de uma mesma moeda. Narrativa
impecável, flui em dois planos: o da actualidade – a fuga do Asilo Arkham e a
perseguição levada a cabo pelo caped
crusader, em que o Joker faz todo o mal para ser encontrado; e uma acção
pretérita que nos conta a origem do criminoso, presenciada pelo Batman. À
subtileza do argumento junta-se o desenho superlativo de Brian Bolland: nunca o
Joker pareceu tão horrível e tão frágil; e o Batman, saído há 80 anos do lápis
de Bob Kane, está terrivelmente espectral, ao nível dos melhores artistas que o
serviram, a começar por Neal Adams. (Editora Abril,
São Paulo, 1988.)
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
José Carlos Fernandes & Roberto Gomes, MAR DE ARAL (2019): notícia do mar desértico
Outrora um dos maiores lagos do mundo,
situado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o recuo do Mar de Aral é
considerado uma das maiores tragédias ecológicas da nossa época. Consequência
de políticas desenvolvimentistas erradas, para cuja concretização foram
desviados os seus rios afluentes, a região envolvente é hoje descrita pelos
autóctones como o deserto de Aral… É
neste cenário que José Carlos Fernandes (Loulé, 1964) e Roberto Gomes (Silves,
1983) desenvolvem, a primeira história deste álbum, que lhe dá também o título:
«Mar de Aral».
A capa é magnífica. Apresenta uma figura
misteriosamente suspensa na âncora de um navio, imagem cujo significado só
apreenderemos em todo o seu alcance depois de lida esta narrativa. As palavras
de José Carlos Fernandes ganham um encantamento poético à medida da desolação
que se nos depara: «O mar fugiu como um cavalo assustado. / O mar fugiu e
deixou atrás de si barcos ferrugentos, planícies de sal e aldeias piscatórias
encalhadas na areia.» Mas como estamos no domínio do fantástico, o argumento
desenvolve-se em torno dos estratagemas de sobrevivência dos peixes desse
habitat.
O desenho faz jus ao que a capa nos promete;
a disposição das vinhetas realça os grandes espaços de solidão e abandono
(notável a página dupla em que se representa a fímbria que une mar e deserto);
nas cores, predominam o castanho, o sépia e os tons arenosos, contrastantes com
as três pranchas finais, quando a acção passa a desenrolar-se numa viela
nocturna de cidade velha, nas proximidades, carregando de negro a atmosfera de
estranhamento que até aqui a narrativa nos transmitira.
É a mais extensa de cinco ficções inauditas,
e a que de longe se destaca, mas todas se recomendam: do tom paródico de «Um
boi sobre o telhado» e «Roupas de defunto», à melancolia de «A inauguração do
Canal do Panamá» e «A arte esquecida de nadar rio acima».
Para não destoar, as notas biográficas dos
autores participam da irrealidade geral: José Carlos Fernandes aparece
identificado como um misterioso cientista cuja vida decorreu entre 1891 e 1938.
Entusiasta da Revolução Russa de 1917, transfere-se para a pátria soviética,
alterando o nome para Osip Ernantzev. A acreditar no biografema, e para sermos
eufemísticos, não foi propriamente bem sucedido. Quanto a Roberto Gomes, é
apresentado ao leitor como um peixe do Mar de Aral, «que escapou por pouco a
ser transformado em suchi».
Mar de Aral
argumento:
José Carlos Fernandes
desenhos:
Roberto Gomes
G.
Floy Studio e Comic Heart, 2019
terça-feira, 3 de setembro de 2019
uma vinheta de Brian Bolland
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
BDteca: TINTIN NO PAÍS DOS SOVIETES (1929)...o Tintin de sempre!
Desde logo, as características da personagem,
herói moderno com virtudes antigas: Tintin é corajoso, é leal, é intrépido, é
justo, é compassivo e é casto. E deve acrescentar-se a mestria de Hergé: um
engenho aprimorado da narrativa, misturando o apelo da actualidade com uma
visão humanista e um apurado sentido do gag.
Milu é a perfeita personagem adjuvante, função que mais tarde repartirá com o
Capitão Haddock.
Todas
essas qualidades aparecem em Tintin no
País dos Sovietes. Sim, é um trabalho dum jovem, mas o talento já se
manifesta, apesar das puerilidades e da influência do catolicismo reaccionário.
Se as pranchas são vulgares quanto à disposição das vinhetas, estão bem
conseguidas no dinamismo da composição, contribuindo com eficácia para o ritmo
vertiginoso da narrativa, nas suas 137 folhas: na segunda prancha deparamos com
o primeiro vilão e a primeira explosão; na terceira, a primeira detenção; na
quinta, a primeira cena de pancadaria e o primeiro disfarce; à sexta, a
primeira perseguição automóvel…
Obra
de propaganda, é verdade, mas se pesquisarmos os delírios propagandísticos que
se seguiram, veremos que Tintin no País
dos Sovietes é mesmo aquilo que é: uma brincadeira de crianças.
Texto e desenhos: Hergé
Difusão Verbo, Lisboa, 1999
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
Arlindo Fagundes, O COLEGA DE SEVILHA (2019): a grande travessia
Arlindo Fagundes (Ovar, 1945) é um autor de
BD veterano que milhares de portugueses conhecem, em especial pelas ilustrações
da colecção «Uma Aventura». O terceiro álbum do seu herói, Pitanga, O Colega de Sevilha, coloca-o no centro
de um dos maiores dramas dos dias de hoje: o tráfico de refugiados e migrantes ilegais, da costa de Marrocos às praias
de Espanha.
Enquanto este texto é escrito, dezenas de
refugiados e imigrantes, esperam há semanas, ao largo da ilha italiana de
Lampedusa, autorização para desembarcar; alguns atiram-se ao mar, julgando que
conseguem vencer as duas ou três milhas que os separam da costa; na ilha grega
de Lesbos, milhares aguardam, numa espécie de limbo, que a vida prossiga, nos
perigos que encerra um centro de refugiados... O Colega de Sevilha é, assim, um mergulho na actualidade que traz à
tona uma velha discussão, a propósito doutras artes, mas também com cabimento
na BD: a de esta poder ser igualmente bem servida se tratar de assuntos do
nosso tempo. Hergé, de quem se fala aqui ao lado, é disso exemplo: boa parte da
sua obra abordou temas candentes que lhe eram contemporâneos. E nem é
necessário enveredar por vias panfletárias e politicamente comprometidas –
basta tão-só mostrar. O livro de Arlindo Fagundes é, desse ponto de vista,
extraordinariamente conseguido.
O protagonista desta história, Pitanga,
“barbeiro de luxo ao domicílio” e motard
aficionado, com o seu inconfundível cachecol branco às bolinhas pretas e
t-shirt de riscas à Pat Metheny, tem laivos de anti-herói e um humor
ligeiramente ácido. Pela pinta e pela pose, entra bem na categoria das
personagens carismáticas da BD europeia, de Blueberry a Corto Maltese. Em
bolandas em Tânger, e coagido por uma rede de traficantes a pilotar um desses
pneumáticos a motor que costumamos ver sobrelotados nos telejornais, faz a
travessia do Mediterrâneo com umas quantas dezenas de foragidos da África
Subsaariana, muitos deles harragas,
ou indocumentados – gente que queimou a identificação do país de origem, para
que não se possa determinar se são refugiados de um estado em guerra ou meros migrantes económicos. São
passageiros do desespero que não se limitam à parte negra do continente
africano, mas também jovens magrebinos que fogem das suas aldeias, de um
horizonte sem perspectivas de vida. Com Pitanga segue uma amizade recente,
Mané, um simpático guineense com todo um passado de envolvimento na complicada
e perigosa política da Guiné-Bissau – o tal colega
de Sevilha…
Trata-se de uma eficaz BD de formato clássico
e muito bem documentada. A narrativa é fluida e aberta, deixando alguns pontos
do argumento por esclarecer, quem sabe para outros assados, em próximo álbum. A
organização das pranchas, oscilando entre oito e 14 vinhetas, não prejudica a
fluência narrativa, para a qual contribui a desenvoltura do traço de Fagundes.
Este é também o primeiro álbum a cores de Pitanga, com um óptimo trabalho de
José Pedro Costa, tanto na garridice das claridades do sul, como no breu
nevoento da travessia, páginas, aliás, de antologia no âmbito dos quadradinhos
nacionais.
Texto e desenhos: Arlindo Fagundes
Cor: José Pedro Costa
Arcádia, Lisboa, 2019
uma vinheta de Arlindo Fagundes
sábado, 24 de agosto de 2019
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
BDteca: Hergé, TINTIN NO PAÍS DOS SOVIETES (1929): O primeiro Tintin...
Lisboa,
1925. Durante as semanas em que o Repórter X enviava as suas reportagens de
Moscovo, o interesse dos leitores era tal, que a revista ABC publicava
uma segunda edição e acrescentava na capa: “Revista Portuguesa na Rússia”. Não
se sabe se Reinaldo Ferreira, o homem por detrás do ‘X’, esteve de facto na
pátria dos sovietes, os historiadores dividem-se; no entanto, pela
verosimilhança do relato, o mais famoso enviado do jornalismo português sabia
do que falava.
Também
o jovem Hergé (1907-1983) nunca pusera os pés na pátria de Lénine, mas o relato
do recém-criado Tintin foi um enorme êxito popular. Surgido no Petit
Vingtième, suplemento infantil do jornal católico Le Vingtième Siècle,
de Bruxelas, a partir de Janeiro de 1929, Tintin
no País dos Sovietes conheceu uma edição em álbum, logo se esgotando; no
entanto, só em 1973 a editora Casterman faz sair uma nova edição, com Tintin
no Congo e Tintin na América, sob a designação de «Archives Hergé».
Por um lado, o pendor antibolchevique não caía bem na intelligentsia ocidental
complacente com o regime, com a designação de anticomunista a
revestir-se de anátema incómodo; por outro, a circunstância de Hergé,
simpatizante do movimento rexista belga, ser detido após a libertação sob a
acusação de colaboracionismo, também não facilitara as coisas. No início da
década de 1970, porém, Hergé já era consensual, e Tintin uma personagem
reconhecidamente humanista. Além disso,
o prestígio que a União Soviética exercera na década de trinta, vinha ruindo paulatinamente,
também por obra de escritores como Koestler, Orwell e Soljenítsin.
O
que há do Tintin que todos amamos neste trabalho de juventude é o que veremos
na próxima semana.
Tintin no País
dos Sovietes
texto e desenhos:
Hergé
Difusão Verbo,
Lisboa, 1999
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«Tintin no País dos Sovietes»,
Aleksandr Soljenítsin,
Arthur Koestler,
George Orwell,
Hergé,
Leitor de BD-Jornal i,
Reinaldo Ferreira-Repórter X
Takashi Murakami, O CÃO QUE GUARDA AS ESTRELAS (2008): amor cão
A manga japonesa era, até ao fim do século passado, uma excentricidade no trabalho dos artistas de BD ocidentais. Hoje, pelo contrário, ganhou o seu espaço, e muitos são os desenhadores da Europa e das Américas que adoptaram esse estilo peculiar, a que os leitores mais tradicionalistas vão torcendo o nariz: aquelas pupilas anormalmente dilatadas ou ‘buracos’ no lugar das bocas, são por vezes desagradáveis. É verdade que grande parte da manga se publica no âmbito da produção massificada, como, de resto, os comics norte-americanos; nas mãos de grandes autores, porém, e com um lastro secular remontando ao Japão medieval, a manga de qualidade compara com o melhor que se faz em qualquer latitude.
O
Cão que Guarda as Estrelas (2008), da autoria de Takashi Murakami não
participa da categoria da obra-prima, mas bem merece uma leitura. Fala-nos de
um homem solitário e doente, um peso para a mulher, que entretanto pede o
divórcio; e conta-nos também do cão dessa família e narrador desta história,
chamado «Happy», prenda para a criança da casa, que, uma vez chegada à
adolescência, deixa de achar graça ao bicho. Dono e cão, dois abandonados,
empreendem então uma longa viagem de automóvel pela costa japonesa, em busca de
uma solução para uma existência a partir de agora sem grandes saídas, salvo
talvez no país da infância, ou seja, a terra natal do dono – “sou da infância
como se é de um país”, escreveu Antoine de Saint-Exupéry, já piloto de guerra,
não muito antes de juntar-se
definitivamente ao Principezinho... Só que o leitor é confrontado desde a
primeira prancha com a descoberta macabra pela polícia de um carro abandonado
num campo de girassóis, onde jazem os corpos de um homem e um cão. Esta
informação prévia não retira nenhum interesse à história, pelo contrário: o
aliciante é o confronto com o caminho realizado pelas duas personagens, os
encontros e as peripécias da viagem, até ao seu desenlace.
”O
cão que guarda [olha] as estrelas” é uma expressão popular no Japão,
correspondente ao nosso “fazer castelos no ar”, significando a aspiração
utópica a algo irrealizável; expressão com que o pessimista Takashi Murakami
nos oferece esta crónica de uma felicidade perdida e nunca reencontrada.
Uma
segunda narrativa, intitulada Girassóis, com outras personagens (cão e
dono), também elas solitárias, acrescenta alguma poesia à situação inicial,
correndo, porém, o risco da redundância. Fica, no entanto, vincada a intenção
do autor, trabalhada em torno da importância dos animais de estimação nas
nossas vidas cada vez mais atomizadas, e de como eles acabam por funcionar como
um último vínculo na desesperança do abandono e da solidão.
Uma
nota final para uma característica editorial, que se normaliza à medida que a
publicação de BD japonesa vai ganhando mercado: esta manga lê-se de acordo com
o padrão original, ou seja, da direita para a esquerda, iniciando-se a leitura
pelo que seria a contracapa nas edições ocidentais, o mesmo sucedendo com a
disposição das vinhetas em cada página.
O Cão que
Guarda as Estrelas
texto e desenho:
Takashi Murakami
edição: JBC
Portugal, Lisboa, 2018
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
uma viheta de Takashi Murakami
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
BDteca. Joe Musial, OS SOBRINHOS DO CAPITÃO: a grande rebaldaria.
The Katzenjammer
Kids / Os Sobrinhos do
Capitão surgem em 1897 no New
York Journal. William Randolph
Hearst, magnata da imprensa, cometera a Rudolph Dirks (1877-1968) a
criação de uma série inspirada no livro de infantil de Wilhelm
Busch, Max und Moritz (1865).
Quando mais tarde Dirks se passa para o grupo do rival Joseph
Pulitzer, levando as personagens consigo, Hearst contratou Harold
Knerr (1883-1949) como substituto. E assim, dois jornais concorrentes
publicavam ao mesmo tempo e com o mesmo título as tropelias das mesmas personagens,
mas com autores diferentes – uma proeza digna de Hans e Fritz, os
dois sobrinhos... Em
tribunal, o juiz permitiu que ambas continuassem, mas obrigou Dirks
a mudar o nome, e The Captain and the Kids
ficou.
«Uma verdadeira
saga de destruição», escreveu o crítico brasileiro Marco Aurélio
Lucchetti na introdução a este livro de páginas dominicais saídas
entre 1957 e 1960, da autoria de Joe Musial (1905-1977). Cada página
com Hans e Fritz, Dona Chucrutz, a mãe, o Capitão e o Inspector é
um atentado à tranquilidade dos últimos, dois aposentados, com
doses equilibradas de estupidez e maldade. Bem sucedidos muitas
vezes, noutras os rapazes não se livram de uma tareia à antiga. O
êxito deve-se ainda ao exotismo do cenário – palmeiras e
coqueiros são omnipresentes –, situado numa colónia alemã da
África Oriental, onde não faltava um régulo sabido e, no original,
um inglês arrevesado com alemão, que exponencia o cómico das
situações. Com ingredientes politicamente letais, a série perdeu
espaço na América de hoje, terminando em 2006.
Os
Sobrinhos do Capitão
texto e desenhos:
Joe Musial
Editora Oprea
Graphica, São Paulo, s.d.
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«Os Sobrinhos do Capitão»,
Harold Knerr,
Joe Musial,
Joseph Pulitzer,
Leitor de BD-Jornal i,
Marco Aurélio Lucchetti,
Rudolph Dirks,
Wilhelm Busch,
William Randolph Hearst
terça-feira, 13 de agosto de 2019
André Oliveira & vários autores, ALMANAQUE (2018): verdades essenciais
Noutros tempos, quando o país era eminentemente rural, um almanaque era, depois do missal, o breviário que encontrava guarida em todos os lares, concentrando numa mesma publicação tudo quanto era necessário à travessia do ano sem percalços, da meteorologia aos dias santos a guardar. Eça de Queirós, que escreveu sobre o assunto como ninguém, na apresentação do Almanaque Enciclopédico para 1896, falava de como estes livrinhos singelos mas profusos guardavam as «verdades essenciais que a humanidade necessita saber, e constantemente rememorar».
André Oliveira (Lisboa, 1982) – um
dos mais prolíficos argumentistas da BD portuguesa –, ao escolher para esta
colectânea o título Almanaque, teve, por certo, a intenção de espelhar
a diversidade de que o volume se compõe. São 24 «curtas de BD», algumas
inéditas, outras publicadas na revista Cais, em parceria com
outros tantos desenhadores: André Diniz, Rui Lacas, Phermad, Bernardo Majer,
Pedro Serpa, João Lam, Nuno Frias, Afonso Ferreira, João Vasco Leal, Luís
Louro, Patrícia Furtado, Miguel Andrade, Daniel Viçoso, Tiago Lobo Pimentel,
Selma Pimentel, Filipe Andrade, Darsy Fernandes, Catarina Paulo, João Sequeira,
David Cerqueira, Susana Resende, Susa Monteiro e Marta Teives. Parte destas
narrativas caracterizam-se pelo humor, cujos melhores exemplos serão
o nonsense garoto do díptico «Coisas que
o t-rex não consegue fazer» e «Coisas que o dentes-de-sabre não consegue
fazer», com desenhos de Pedro Serpa; ou ainda «Se Janeiro deixar» (com João
Sequeira), a lembrar os Gato Fedorento.
Mas o melhor André Oliveira surge,
quanto a nós, naqueles relatos em que perpassa uma melancolia fina, uma
angústia existencial insistente, em confronto com o sentimento
trágico da vida, a sua fragilidade, e que por isso mesmo procura
valorizar o que é verdadeiramente importante para si, denunciando um romantismo
que não vai bem com a modernidade suicidária que vivemos: a constância no amor,
os vínculos familiares, a fidelidade a si próprio, a memória da inocência,
quantas vezes ao sabor dos caprichos do acaso – outras verdades essenciais
que Eça estava longe de desconhecer, mas
que não tinham a primazia para o público, numa época que ainda não voltara
costas ao campo e se orientava pela regularidade das estações. «Mesmo assim,
abandonei-te» (com desenhos de Rui Lacas), «No meu lugar» (Filipe Andrade),
«Saudade» (Darsy Fernandes), «Nina» (Catarina Paulo) ou «Narciso» (Susa
Monteiro, também autora da capa), são alguns dos momentos inexcedíveis
deste livro.
Almanaque, Bicho
Carpinteiro, Lisboa, 2018
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Eça de Queirós,
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Pedro Serpa,
Rui Lacas,
Susa Monteiro
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
uma vinheta de Tardi
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
uma vinheta de José Ruy

A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas (2018)
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
BDteca - Didier Daeninckx e Jacques Tardi, VARLOT SOLDADO (1999): Desenhar a morte
Jacques
Tardi (n. 1946) é um dos mestres da banda desenhada europeia,
um estilo único; mais do que herdeiro da linha clara de Hergé
e Jacobs, foi alguém que a transfigurou, tornando-a marca pessoal
imediatamente reconhecível. Neto de um soldado das trincheiras, a
Grande Guerra é um tema obsidiante neste autor, que, logo no
verso do frontispício, avisa-nos ao que vem: «Tenho a
impressão de que não podemos fugir à guerra. Mesmo nós, mesmo
hoje. / A guerra que mostro não é mais que o décor de 14-18, os
uniformes. / Acho que continua actual, o que me inquieta.» Neste
álbum, com argumento do romancista Didier Daeninckx (n. 1949), a
insanidade da carnificina do conflito mundial de 1914-18 aparece
carregada na sua crueza pela utilização magistral do preto e
branco, com terra e carne humana retalhadas pelos projécteis
arremessados por todas as bocas de fogo, abrindo crateras
no lamaçal da Flandres. Duas vinhetas por página são quanto basta
para a respiração do texto de Daeninckx: «Uma tonelada de pólvora
da casa Krupp destruiu tudo: os mortos, o pelotão, a pocilga onde
nos tinham fechado.» A trama, sendo simples, é rica, explorando os
quiproquós em que a comédia humana é fértil, aqui exponenciados
pelos desencontros da guerra, à rectaguarda: o hospital de
campanha, o bordel, os desertores com destino marcado. (Edições
Polvo, 2001)
terça-feira, 6 de agosto de 2019
José Ruy, A ILHA DO CORVO QUE VENCEU OS PIRATAS (2018): croudwriting
Quando atravessamos
talvez o melhor momento de sempre da BD portuguesa, pela profusão e
qualidade de desenhadores e argumentistas, é de elementar justiça
lembrar aqui o último abencerragem dos tempos heróicos das
histórias aos quadradinhos nacionais: José Ruy (Amadora,
1930), das páginas de O Papagaio, O Mosquito,
Cavaleiro Andante, Tintin, Spirou – até hoje.
Apaixonado pela História e pela sua divulgação, não por acaso, a
principal personagem que criou é o navegador Porto
Bomvento, a singrar pelos cinco cantos do globo; e dois dos
seus trabalhos mais marcantes resultem das adaptações em banda
desenhada da Peregrinação,
de Fernão Mendes Pinto e Os Lusíadas,
de Luís de Camões, a que podemos acrescentar as muitas monografias
sobre cidades e vilas do país, sem esquecer as várias biografias,
de Charles Chaplin a Dimitrov, reveladoras desse interesse. No campo
humorístico, o artista deu o seu contributo na que foi talvez a
melhor revista que por cá se publicou, o semanário Tintin.
Quem lhe percorreu as páginas, decerto não esquece a dupla de
repórteres Clique e Flash
deambulando pela redacção do hebdomadário, caricaturando com
imensa graça quem a produzia semanalmente, em especial Dinis Machado
e Vasco Granja, que nela tiveram influência decisiva.
Se
o crowdfunding é uma prática normalizada pela
comunicação das redes sociais, com A Ilha do Corvo que Venceu os
Piratas (Âncora Editora, 2018), José Ruy tornou-se
pioneiro do que poderemos chamar croudwriting, uma vez que a
narrativa teve a participação activa dos corvinos, na composição
deste relato de história antiga. No século XVII, aquela população
isolada fez frente, com êxito, a um ataque duma frota de dez
embarcações de piratas barbarescos – assim eram chamados os
salteadores marítimos baseados em Argel e em Túnis –, que
frequentemente empreendiam razias nas ilhas e no continente, em
especial no Algarve, saqueando e fazendo cativos, vendidos nos
mercados de escravos do Norte de África.
A
narrativa parece seguir de perto as fontes documentais de que o autor
lançou mão, por vezes com excesso de didactismo. Trata-se, porém,
duma BD clássica de autor histórico, que à História e aos
clássicos consagrou uma boa parte do seu labor. O traço
ágil de José Ruy conserva-se inalterado. As vinhetas iniciais da
primeira prancha são esplêndidas em movimento e cor, dando em cheio
a solidão da pequena ilha, exposta à inconstância dos elementos
naturais no meio do Atlântico, e o insulamento daquela população
entregue a si própria e a Deus, apenas lembrada pelo donatário,
quando este exigia o tributo anual. (Âncora Editora, Lisboa, 2018)
«Leitor de BD», jornal i
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
uma vinheta de Miguel Rocha
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
uma vinheta de Marta Teives
terça-feira, 30 de julho de 2019
BDteca- José Abrantes & Miguel Rocha, O ENIGMA DIABÓLICO (1998): Mortimer encontra o Joker
O
pastiche e a paródia, sobretudo em forma de homenagem, é uma
prática comum em BD. Talvez o melhor exemplo seja a brincadeira de
Uderzo e Goscinny com o pirata Barba Ruiva e tripulação, que
vogavam nas páginas da revista Pilote, onde Jean-Michel
Charlier e Victor Hubinon faziam publicar as aventuras do bucaneiro
do 'Gavião Negro', as mesmas folhas que davam guarida a Astérix. E
tão bem sucedida foi a graça, que os piratas recorrentemente postos
a pique nos álbuns do pequeno gaulês se tornaram mais conhecidos
que as personagens originais... A paródia pode mesmo constituir-se
como subgénero: na revista Mad tem aí um dos seus pratos
fortes; no mundo franco-belga, está nas bancas, inclusive em edição
portuguesa, a bem sucedida charge a Blake e Mortimer, As
Aventuras de Philip e Francis, de Nicolas Barral e Pierre Veys.
O pequeno
volume da colecção «Quadradinho» #16, da autoria de Miguel
Abrantes (Lisboa, 1960) e Miguel Rocha (Lisboa, 1968) é um
despretensioso exemplo destas recriações. Título e capa remetem de
imediato para as personagens de E. P. Jacobs: o primeiro é um
divertido achado, combinando O Enigma da Atlântida e
A Armadilha Diabólica; o protagonista inominado, com
barba passa-piolho, lembra o Prof. Mortimer, enquanto que o
vilão não é o Coronel Olrik, mas um certo Conde Moloch, com
acentuados traços do insano Joker, deslocado de Gotham para o lugar
de Orelhos, onde se situa o solar lúgubre em que decorre a acção;
em perigo e a pedir salvação, uma frágil jovem parecida com Adèle
Blanc-Sec. Melhores os desenhos que o texto, mas o conjunto
funciona.
O
Enigma Diabólico (Associação Salão Internacional de
Banda Desenhada do Porto, 1998)
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Pedro Moura & Marta Teives, OS REGRESSOS (2018): uma apologia da ruralidade
Madalena regressa à aldeia onde viveu parte da infância com a avó paterna, havia pouco falecida, num reencontro com o espaço e o tempo em que foi feliz. Criança diferente, aberta aos sinais da Natureza, girando de médico para psicólogo, os pais decidem-se a deixá-la aos cuidados da avó, a única que não a punha em questão, fazendo perguntas dolorosamente incrédulas a respeito dos relatos da pequena, após as sortidas à floresta, nas imediações da casa. A partir daqui, tece-se uma narrativa de rememorização e perda, até Madalena se integrar no seu derradeiro lugar.
A capa, comecemos por aí, em que predomina a cor verde, dá-nos a imagem de uma jovem mulher à beira-rio, fumando e lendo um livro -- que no interior saberemos tratar-se dos contos de Julio Cortázar, Todos os Fogos, o Fogo, e que ocasionalmente se atravessam na narrativa. O reflexo da água dá-nos a mesma Madalena, mas ainda criança. A imagem prolonga-se para a contracapa, e o tom da clorofila cede aos castanhos de um grosso tronco, provavelmente um carvalho, ao centro do qual lemos o mote, como que inscrito na casca: "Nunca regresses ao lugar onde já foste feliz."
Numa BD, a prancha inicial é tão importante quanto a primeira frase ou o primeiro parágrafo de um romance. Em Os Regressos, quatro vinhetas (uma dela funcionando como duas) incidindo sobre a linha de caminho-de-ferro, condensam o tom da história: a partir da vista aérea panorâmica, a imagem vai fechando-se progressivamente até ao pormenor da máquina sobre os carris, à beira de trucidar um pequeno pássaro campestre. Mas a narrativa começa ainda antes da primeira página, em quatro vinhetas dispostas no frontispício e no verso deste -- recurso repetido no fim --, revelando um cuidado com o detalhe narrativo, sem dúvida um dos aspectos fortes do livro.
Trata-se, em suma duma apologia do mundo rural, com o que este pode revelar para lá das evidências. Texto de Pedro Moura (Lisboa, 1973) que respira muito bem nas pranchas de Marta Teives (Lisboa, 1977), com recurso sabiamente doseado quer à elipse quer ao pormenor, como requer uma narrativa desenvolta, lograda pelos autores. O trabalho da autora mereceu, aliás, o prémio para o álbum com melhor desenho do Amadora BD em 2018. Dito isto, o autor destas linhas, talvez por defeito seu, está longe das visões idílicas da ruralidade, muito distante da estesia pagã que o livro veicula, pois nem o campo se constitui necessariamente como lugar de harmonia em que o todo universal se funde nem a cidade forçosamente obriga ao império do gadget e do prozac. Cidade, idealmente, é sinónimo de civilização; o campo, sê-lo-á, ou não. (Polvo, Lisboa, 2018)
domingo, 21 de julho de 2019
quarta-feira, 1 de maio de 2019
sábado, 27 de abril de 2019
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
Rómulo de Carvalho / António Gedeão, leitor dO Reizinho
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| imagem |
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
sábado, 29 de dezembro de 2018
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
S-H & LL
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«A sala foi modificada. Os seus livros e as suas fotografias desapareceram, deixando as paredes despidas excepto pela ampliação de um herói da banda-desenhada: o Super-homem inclinando a cabeça enquanto é recriminado por Lois Lane.» J. M. Coetzee, Desgraça (1999)
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Lois Lane
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| Ryan Sook, daqui |
«Quem lhe dera perder a visão de raio X que em tempos tanto invejou! Se ao menos fosse como o Super-Homem, que na presença de Lois Lane se tornava um ser normal!» Carlos Querido, «Real bodies«, Insanus, Lisboa, Abysmo, 2017, p. 68
sexta-feira, 20 de julho de 2018
esmurrar o Mickey
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| Paul Murry |
«"Há muito mais", disse Austin, "havia um amigo da família que tinha o Rato Mickey tatuado no peito e que pedia ao rapaz para bater na tatuagem, bate com força, com mais força, agora uma esquerda, agora uma direita, mete um crochet, mete um uppercut.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
António Franco Alexandre, o poeta enquanto Ignatz
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| George Herriman - imagem |
No preâmbulo de uma entrevista já com uns anos, a partir de alguns tópicos previamente enunciados, defende-se que a poesia de António Franco Alexandre «chama a si a fábula de Ignatz, o rato e Krazy Kat, a gata. A imensa distância que se disse sem palavras nem coisas faz do tijolo uma mensagem.» Posto diante do problema, o futuro poeta de Aracne assente: «Bom, o tijolo de Krazy Kat é a mais interessante forma de mensagem na garrafa, não é?» Inimigo Rumor #11, 201, entrevista de Américo António Lindeza Diogo e Pedro Serra.
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
a poesia dos quadradinhos #6 - José Luís Costa
«[...] Confesso que subtraí / da dita máquina / umas verbas para comprar // Homens-Aranhas, Incríveis Hulques, até / Superaventuras Marvel. // (Uma superaventura / é uma aventura / que precisa de mais páginas.) [...]
José Luís Costa, «Da Infância - 2. No Juiz da Fome», Da Madragoa a Meca, Lisboa, & etc., 2013
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| Mark Bagley (2013) |
ou
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| Daddy Q Ball (Fred Quihuis) (2003) |
domingo, 24 de janeiro de 2016
jogo de máscaras
Divertidíssimo, começar pelo título, um jogo de máscaras paródico da literatura policial negra / fantástica, pelas mãos de dois grandes nomes da BD franco-belga actual -- ambos já vencedores do Alph-Art do Festival de Angoulême --, Lewis Trondheim (A Mosca, entre outros) e Frank Le Gall (Teodoro Pintainho, entre outros). Eficácia narrativa em economia de meios.
Lewis Trondheim & Frank Le Gall, As Aventuras do Fim do Episódio, tradução de Rui Ricardo, Porto, Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, 1996.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
«um Zé Carioca»
| Zé Carioca, por Paul Murry |
«O carioca de hoje é uma declinação barroca do verdadeiro carioca: olheirento, falsamente festivo, mortificado pela obrigação de ser um carioca by the book, um Zé Carioca.»
Bruno Vieira Amaral, «Viver para sempre em Budapeste», Ler #138, 2015
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
à maneira do Lucky luke
| Lucky Luke, por Morris |
Paulo Castilho, Fora de Horas (1989)
terça-feira, 4 de agosto de 2015
12 linhas até ao Guarda Ricardo
«[...] No fim da tarde, Alexandra procura o seu carro e acaba "por descobri-lo em cima do passeio e junto à mesma árvore onde o deixara há quase um eternidade. Tinha uma multa por estacionamento proibido, afixada no "pára-brisas" (pag. 352). Tudo o que aconteceu foi real e tão pleno que o tempo se distendeu à aparência de eternidade; mas, por sob isso, há um quotidiano mesquinho, vigiado, impermeável à transgressão, que remete a eternidade mais jubilosa à eterna idade da ordem. Pelo menos, da ordem portuguesa -- porque não deve ser difícil adivinhar que o autuante deve ter sido o portuguesíssimo Guarda Ricardo.»
Luís Mourão, Um Romance de Impoder -- A Paragem da História na Ficção Portuguesa Contemporânea, Braga e Coimbra, Angelus Novus Editora, 1996.
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| Sam, O Guarda Ricardo (1975) |
quarta-feira, 24 de junho de 2015
17 linhas para Snoopy
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| Charles Schulz |
Mário de Carvalho, Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão, Porto, Porto Editora, 2014.
(imagem)
(imagem)
domingo, 22 de fevereiro de 2015
6 linhas para Corto Maltese
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| Hugo Pratt |
«Esta é a cidade do espectro de Corto Maltese nas pontes suspensas e nos becos soturnos, do prenúncio de morte e da elegia do deboche, das gôndolas, dos senegaleses e dos pombos, dos japoneses e dos gondoleiros de boné, das arcadas vazias e das bacarie a rebentar pelas costuras, do improviso de andar perdido e ter sempre um ponto cardeal no fim do caminho.»
Tiago Salazar, As Rotas do Sonho (2010)
domingo, 8 de fevereiro de 2015
domingo, 1 de fevereiro de 2015
música & bd: Gilberto Gil, «Retiros espirituais»
Nos meus retiros espirituais descubro certas coisas tão normais / Como estar defronte de uma coisa e ficar / Horas à fio com ela, bárbara, bela, tela de TV / Você há de achar gozado Barbarela dita assim dessa maneira / Brincadeira sem nexo que gente maluca gosta de fazer / [...]
É claro que Gil se refere à Barbarella de Vadim (Jane Fonda) e não a esta Brigitte Bardot estilizada. A verdade é que tudo começou com ela e com Jean-Claude Forest, em 1962. A música integra o esplêndido álbum Refazenda (1975).
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