Também
edição de autor, em 2014, foi este Le
Voyage d'Abel,
texto de Isabelle Silvain e desenhos de Bruno Duhamel. Camponês,
único habitante de uma aldeia francesa, Reclesme, prisioneiro da
terra, Abel tem o sonho de conhecer o mundo, aspiração partilhada
com o cão e o tractor. Uma beleza pura, agora reeditada pela Grand
Angle.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
domingo, 29 de março de 2020
Zé do Telhado
Contado por Camilo
Castelo Branco, nas Memórias
do Cárcere (1862)
e cantado por José Afonso, no álbum Fura
Fura (1979),
posto na tela pela primeira vez por Rino Lupo (1929), vendido nas
feiras por esse país fora em literatura de cordel, o sargento de
Lanceiros condecorado por bravura com a Torre e Espada, bandoleiro
salteador, deportado para Angola, onde viria a morrer, José Teixeira
da Silva, mais conhecido por Zé do Telhado (1818-1875), vê agora a
sua vida em BD por Eugénio Silva, Zé
do Telhado – De Lanceiro a Salteador (Calçada
das Letras).
Billy The Kid
E
já que falamos de bandidos, completemos os círculo e voltemos ao
Oeste, com um dos mais coriáceos outlaws
daquelas terras sem lei, William Bonney, (1859-1881), nascido, quem o
diria, na ilha de Manhattan, e não em qualquer cidadezinha sem lei a
oeste de Pecos. Na colecção «West Legends», depois de Wyat Earp,
a legenda do pistoleiro celebrizado por outro xerife, Pat Garrett, o
homem que o matou e depois arranjou um ghost
writer
para lhe fazer a biografia. Este álbum, editado pela Soleil, relata
a participação de Billy numa dessas muitas guerras particulares,
provocadas por interesses contraditórios: a Guerra do Condado de
Lincoln, pomposa designação para uma escaramuça de sicários que
opôs comerciantes a fazendeiros, de que se fez a história da grande
nação americana.
quinta-feira, 26 de março de 2020
um clássico imediato
Há obras que nascem já
clássicas. É o caso desta longa narrativa de Émile Bravo em torno
das primícias de Spirou, L’Espoir Malgré Tout,
sobre cujo álbum inicial, Un Mauvais Départ,
já aqui falámos, em Setembro passado.
A
acção continua a decorrer na Bélgica ocupada pela Alemanha nazi,
um suplemento de miséria moral a acrescentar ao já difícil estado
de guerra, com o seu quotidiano de medo, carência e princípios
vacilantes, em parte devido à necessidade de sobrevivência… Os
motivos principais de Bravo: as consequências da guerra, a
subnutrição infantil; a perseguição ao judeus, desde a
obrigatoriedade do uso da estrela de David ao início das deportações
em massa para um lugar na Polónia, cujo nome maldito não fora ainda
apreendido por ninguém; finalmente, o amor, a ausência dele, a sua
quase impossibilidade em tempos de catástrofe e afastamento, numa
abordagem sóbria, clara e nada infantil, uma vez que Spirou, como
todas as grandes criações de BD, se destina a todos os públicos.
O
desenho minucioso, sendo tão assumidamente “linha clara” é
também absolutamente original. A cor, a cargo de Fanny Benoit, está
sabiamente doseada, tons frios neutralizados pela presença
reconfortante de Spirou e Fantásio em digressão de teatrinho de
marionetas contando as aventuras de… Spirou e Fantásio – uma
reconfiguração histórica das origens da personagem, cuja criação
e criador se perdem e confundem já noutro tempo e noutro mundo,
anterior à II Guerra…
Um
dos grandes méritos desta narrativa é a densidade psicológica dos
protagonistas. Fantásio – o Capitão Haddock de Spirou –, nas
suas contradições e fraquezas, postos por vezes em
situações-limite, mostra alguma evolução, nunca deixando de ser o
contraponto humorístico da generosidade, por vezes candura e
integridade do jovem groom a sair da adolescência. Bravo consegue o
prodígio, na releitura que empreendeu desta série canónica, a
proeza, só ao alcance dos grandes autores, de contagiar as versões
pretéritas de Spirou, de tal modo que será difícil pegar mesmo nos
maiores, como Franquin ou a dupla Tome & Janry, alheando-nos da
poderosa caracterização inscrita pelo autor.
Mesmo
em curso de publicação, com dois álbuns editados em quatro
previstos, apostamos a cabeça de leitor de BD na consagração
futura e absoluta de L’Espoir Malgré Tout
como uma obra maior da nona arte, enfileirando justamente com os
pares que a aguardam no lugar que lhe é devido: de O Lótus
Azul a Maus,
de Forte Navajo à
Balada do Mar Salgado.
Pode o leitor português
alegrar-se, pois esta excepcionalidade será garantia de que cedo ou
tarde ela aí estará para quantos não possam ler no original.
Spirou
– L’Espoir Malgré Tout –
t. II – Un peau plus loin vers l’horreur
testo
e desenho: Émile Bravo
cor:
Fanny Benoit
edição:
Dupuis, Marcinelle, 2019
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Janry,
Leitor de BD-Jornal i,
Tome
terça-feira, 24 de março de 2020
a sultana jubilosa
Hürrem Sultan
(c.1502-1558), ou Roxelana, como é conhecida no Ocidente, antiga
escrava de origem ucraniana, favorita e depois consorte do califa e
sultão Solimão o Magnífico, foi a mulher mais influente do Império
Otomano, no período áureo do poder turco. Entre muitos retratos
seus que subsistem, avulta o de Ticiano, La
Sultana Rossa
(c. 1550). Com raízes na Ásia Central, e tendo penetrado bem dentro
da Europa – os turcos estiveram à beira de conquistar Viena no
século XVII – o resultado foi um mosaico cultural fascinante, em
que Oriente e Ocidente se misturam. Na colecção «Reignes de Sang»,
da Delcourt, saíu o primeiro tomo dedicado à sultana, Roxelane
la Joyeuse,
com texto de Virginie Gregnier e desenhos de Olivier Roman.
domingo, 22 de março de 2020
O álbum de que todos falam
Não se afigurava possível, mas parece que alguém “limpou” o
cowboy que atira mais rápido do que a própria sombra… Uma
homenagem de Matthieu Bonhomme, já de 2016, a Morris e à grande
personagem criada em 1946, agora em edição de A Seita, O
Homem que Matou Lucky Luke.
sábado, 21 de março de 2020
Boris Vian
Sexo, álcool, jazz e racismo no sul dos Estados Unidos, Irei
Cuspir-vos no Túmulo
(1946) livro agreste e cru de Vernon Sullivan, a.k.a. Boris Vian, que
à época se apresentou como “tradutor”, conhece agora uma
adaptação em BD por Jean-David Morvan, com desenhos de Rey Macutay,
Rafael Ortiz, Scientronc. Edição Glénat.
quarta-feira, 18 de março de 2020
Tarzan
Tarzan dos
Macacos, romance publicado em
1912 por Edgar Rice Burroughs (1875-1950), escritor de pulp
fiction, tornou-se o epítome de
uma certa visão do homem ocidental e da efectiva supremacia de
então. A história é conhecida: após um naufrágio ao largo da
costa ocidental de África, lord e lady Greystoke, aristocratas
britânicos, constroem uma cabana, procurando rodear-se dum mínimo
de conforto com os salvados do navio. John Clayton, nascido em plena
selva, não chegará a ter memória dos pais. Será Kala, uma fêmea
gorila quem descobrirá um bebé a quem chamará Tarzan, ‘o de pele
branca’, na sua língua simiesca… Dotado de grande inteligência,
destreza física, uma força sobre-humana e um grito de guerra que
atemoriza os outros animais, chegado à idade adulta, Tarzan virá a
tornar-se o ‘rei’ incontestado dos símios e, com magnanimidade,
ditará a lei naquele território.
Tarzan
combina a fantasia do bom
selvagem às
avessas com a do fardo
do homem branco,
polvilhada pelas imaginosas narrativas finisseculares. Nessa medida,
não estranha vê-lo em auxílio do rei Dalon, bem amado soberano
cujo reino com cenário medievo fora tomado de assalto por dois
aventureiros anglófonos, Flint e Gorrey. Se o monarca parece provir
do círculo arturiano, também a princesa Nakonia se assemelha a uma
estrela de Hollywood. Ingenuidades que atingem um patamar hilariante
quando Tarzan se dirige aos seus num inglês impecavelmente
traduzido: «Pois bem! – exclama Tarzan – apesar de ser uma
loucura, guiar-vos-ei!»... Narrativa de aventuras puras, verifica-se
uma quase paragem da História, quando, depois de expulsos pelo nosso
herói, os dois rufias, recorrendo ao financiamento de um magnata do
crime, Andol Rakka – o nome orientalizante é outro cliché –,
invadem de novo o reino com uma poderosa força de guerra, composta
por mercenários, blindados e aviões. Será o
homem-macaco
a liderar os animais da selva para o embate; os súbditos,
aparentemente, parecem incapazes de defender-se por si sós...
O
que há de particular interesse neste álbum, é a passagem de
testemunho de Hal Foster para Burne Hogarth – os dois maiores
desenhadores da série –, de um domingo para o outro: 2 e 9 de Maio
de 1937. Foster (1892-1982), vindo da publicidade, trabalha na
personagem de Burroughs durante oito anos, abandonando-a para criar o
Príncipe Valente,
uma das melhores bandas desenhadas de sempre; Hogarth (1911-1986)
responde a um concurso aberto pela UFS, com uns desenhos à maneira
de Foster, sendo contratado.
Se o primeiro é um
soberbo fisionomista e, conhecendo Valente, já o estamos a ver nas
vinhetas do homem-macaco, Hogarth, embora ainda muito colado ao
primeiro, revela um plasticidade superior no movimento e na anatomia,
qualidades que levará ao máximo na adaptação da história
original, em 1973.
Tarzan
na Cidade do Ouro
– 3.ª parte
desenhos: Hal
Foster e Burne Hogarth
edição: Futura,
Lisboa, 1987
segunda-feira, 16 de março de 2020
eles existem
A
vida cinzenta dos jovens nos subúrbios de Paris, a falta de
horizontes, a ausência de exemplo, o desengano, as estratégias de
sobrevivência de quem cresce na sombra, nos lugares que preferimos
não conhecer. En
Falsh,t. 1 – On Est Là,
trabalho soberbo de Oz e Bastien Sanchez, edição Delcourt.
quinta-feira, 12 de março de 2020
a verdadeira história verídica
É
o título de uma colecção humorística sobre líderes sanguinários,
com textos de Bernard Swysen e o concurso de vários desenhadores.:
Calígula, Átila, Torquemada, Drácula,
Robespierre, Hitler e agora Stálin, numa
BD animalista, com
o talento de Ptiluc nas
imagens:
o pai, sapateiro violento e alcoólico, é um rato, a mãe uma porca,
o médico uma ave pernalta, o padre ortodoxo um bode, o mestre—escola
um mocho, evidentemente. Stálin,
nesta fábula, aparece
como
um
rato anafado e próspero. Mais uma série que poderia ter edição
portuguesa.
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quarta-feira, 11 de março de 2020
à maneira de Alice
Melvina
é uma pré-adolescente um pouco aborrecida por nunca ser tida nem
achada pelos pais nas decisões que lhe dizem respeito.
O
gato Octavius é o principal confidente. Numa tarde de queixumes, o
bicho salta pelo telhado e
Melvina, no seu encalço é recebida por um velho afável, de longa
barba branca, que a conduz a uma sala, onde, tomando chá, a aguardam
um raposo, um mocho e uma texuga… Melvina,
de Rachele Aragno (Dargaud).
terça-feira, 10 de março de 2020
segunda-feira, 9 de março de 2020
domingo, 8 de março de 2020
feios, velhacos e (muito) divertidos
Edibar
da Silva é um extraordinário anti-herói: bebedolas, louco por
cerveja (uísque também serve) consumida em casa diante da televisão
ou no boteco do Bigode, de preferência na companhia do amigo
dilecto, Zé Manguaça. Só uma vez, neste livro inicial recentemente
editado, percebemos o que este zerói (obrigado,
Ziraldo!...) faz na vida: trabalha para o município, num
daqueles veículos pesados que fazem a recolha dos excrementos no
saneamento básico. Para evitar ferir susceptibilidades –
confirmámo-lo numa entrevista –, não sabemos qual o 'time' por
que torce. Aliás, política, religião e futebol, são temas que o
autor evita propositadamente; mas também não fazem grande falta: a
riqueza da velhacaria de Edibar, como a de, vez por outra, a de
muitos de nós, é tal, que não falta material ao autor, o
brasileiro Lucio Oliveira, natural do Paraná.
Da internet e da
imprensa local para o mundo lusófono (para já), Edibar é dono de
um Fusca (Carocha) de 1968, um cão chamado Gole – a criatura mais
inteligente da série – e consorte de “uma mulher chata”, nas
suas palavras e por esta ordem de importância… Trata-se da
abnegada Edimunda, moura de trabalho que sai do sério quando o
marido abusa da mandriice; um estafermo no que respeita à beleza,
não destoando do par, que, por sua vez, não se comove com as
tentativas falhadas de sedução, mesmo com recurso a lingerie
sensual, por parte da esposa. Edibar é uma espécia de casanova de
bairro com as mulheres dos vizinhos – Cornélio que o diga –, e
nem a esposa do médico, o Dr. Sarado, cujo armário do quarto Edibar
costuma frequentar, por vezes na companhia do Zé Manguaça, é
poupada, sem esquecer todo um lote de garotas de programa, não
admirando, pois, os queixumes de Edimunda. A família alarga-se à
sogra, a Dona Ana Conda, que nutre um correspondido ódio pelo genro,
Edipai e Edimãe, surdos que nem portas e velhos gaiteiros
nostálgicos, e o ainda o sobrinho Edinho, leva e traz de quiproquós.
Toda esta patota
reside na Vila Xurupita, uma homenagem ao Zé Carioca de Ivan
Saidenberg e Renato Canini, e a todos esses maravilhosos favelados,
Nestor, Pedrão & C.ª, madraços à medida do humor doutras
crianças, mais inocentes nesse então.
Edibar, com a sua
boçalidade, ignorância e leveza existencial lembra alguns
antecessores. Desde logo Andy Capp / Zé do Boné,
do inglês Reg Smythe, que O Primeiro de Janeiro
publicava – nesses tempos em que havia tiras aos magotes nos
jornais... –; ou ainda, fora do mundo dos quadradinhos, o especioso
Archie Bunker da série da CBS dos anos 70 All In The
Family. Politicamente
incorrecto, machista, grosseiro, tudo se conjuga neste cromo através
da perspicácia e agudeza de Lucio Oliveira.
Edibar,
vol. 1
texto e desenhos:
Lucio Oliveira
edição: Polvo,
Lisboa, 2019
sexta-feira, 6 de março de 2020
Ric Hochet
Do melhor que a BD de
puro entretenimento nos deu, pela mão da dupla A.-P. Duchâteau e
Tibet. Os argumentos diabolicamente bem urdidos, o desenho único,
dinâmico, como se cada imagem ganhasse movimento… Com a morte de
Tibet e Duchâteau nonagenário, após quase 60 anos e perto de 80
álbuns (!), a série foi repegada por Zidrou no argumento e Van
Lient, estando o primeiro álbum publicado entre nós pela Asa. Na
Bélgica saiu há pouco o quarto volume, Tombé
pour la France (Le
Lombard). Ric Hochet, jornalista de La
Raffale, com o seu
blaser
branco com com pintas pretas e um Porsche amarelo; o comissário
Bourdon e a filha, Nadine, namorada de Ric, e ainda, por vezes, o pai
deste, Richard, um elegante vigarista, que põe o filho em apuros,
estão na base destes policiais magníficos.
quinta-feira, 5 de março de 2020
Integrais
Há muito que uma das
estratégias das grandes editoras de BD é a publicação da edição
integral das séries mais emblemáticas, juntando vários álbuns num
único volume. Outro tipo de edição integral é a dos Peanuts,
de Charles M. Schulz (Afrontamento), uma vez que estamos a falar de
reunião de material publicado inicialmente em tiras de jornal.
Quanto à BD franco-belga, em curso de publicação: Blueberry,
de Jean-Michel Charlier e Jean Giraud (tomo 9, Dargaud), Bob
Morane, de Vernes e
Coria (Le Lombard, t. 14); Capricorne,
de Andreas (t.2, Le Lombard); Magasin
Géneral , de Loisel e
Tripp (Casterman, 2 tomos), Martin
Milan, de Godard (Le
Lombard, t. 3), Nestor
Burma, de Malet e Tardi
(Casterman, tomo único), Thorgal,
de Rosinski e Van Hamme (preto e branco, Le Lombard, t. 5); Vasco,
de Chaillet (Le Lombard, t.9). Entre nós, a Arte de Autor acaba de
lançar o segundo volume a preto e branco do western de Hermann e
Greg, Comanche.
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Andreas,
Charles M. Schulz,
Christian Godard,
Coria,
Gilles Chaillet,
Grzegorz Rosínski,
Hermann Huppen,
Jacques Tardi,
Jean Giraud,
Jean Van Hamme,
Jean-Louis Tripp,
Jean-Michel Charlier,
Régis Loisel
quarta-feira, 4 de março de 2020
«O RAIO U»
Muitos
clássicos da BD mantêm o viço; outros têm um interesse
eminentemente histórico, como é o caso do livro de hoje. Isto para
dizer que, retomando o espírito inicial desta página, iremos
conjugando novas e velhas leituras.
O
Raio U marca a estreia nos
quadradinhos de largo fôlego de Edgar Pierre Jacobs (1904-1987), na
revista Bravo em 1943,
pertence sobremaneira à categoria da obra que ficou nos anais,
embora se situe uns bons furos abaixo da série que o consagrou,
Blake e Mortimer.
A
génese é conhecida: Jacobs, um homem da publicidade e da ilustração
com uma paixão pela ópera – fora barítono, sem espectáculos na
Bélgica ocupada – ingressara na revista Bravo,
especializada nos comics
americanos, com Flash Gordon no
principal cartaz. Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, o
material deixa de chegar; e em pânico, o chefe-de-redacção pede a
Jacobs para substituir o consagrado Alex Raymond. Na autobiografia,
Un Opera de Papier – Les Mémoires de Blake et Mortimer
(1981), revela que se sentiu lisonjeado, embora receoso, com o seu
pastiche Gordon l’Intrépide,
e também por isso nunca assinou a contrafacção, que tinha os dias
contados: os alemães proibiram as historietas americanas e foi assim
que surgiu O Raio U,
‘descaradamente’ inspirado no modelo americano, embora
recorrendo já a filacteras, bem como antecipando alguns tópicos que
irá retomar na série que o consagrou, e explorando também um
imaginário que fora desenvolvido por autores como Júlio Verne,
Conan Doyle ou H. G. Wells.
A
história, cheia de peripécias, é contudo linear: uma missão num
território remoto, em busca de um metal raro, necessário ao
desenvolvimento de uma arma pelos cientistas da Nordlândia, ‘os
bons’, tem um agente infiltrado da Austrádia, em trabalho de
sabotagem. Os primeiros fazem as vezes dos britânicos e aliados, os
outros são ‘os maus’, o que em 1943 só podia ter um significado
preciso.
Vale
a pena olhar a capa capa com atenção. Desde logo, a promessa de um
turbilhão de aventuras; e, no canto superior esquerdo, um
'aeropilha', nave aérea que aponta, não inocentemente, para o nome
do autor, E. P. Jacobs, o criador do 'espadão', fazendo-se desta
forma a ligação à aventura inaugural de Blake & Mortimer, de
todos conhecida.
O
ritmo é realmente alucinante – nas últimas vinhetas ocorre uma
batalha aérea... – e os jovens contemporâneos que liam a Bravo
devem-no ter sentido. Greg, que
assinou o prefácio, recordava: “toda uma geração de jovens
leitores se agarrava a este O Raio U
reluzente, para fugir, uma vez por semana, ao realismo cinzento e
negro da Ocupação.” A mestria de folhetinista de Jacobs deixava
os leitores em suspenso no último quadradinho de cada prancha,
fazendo a rapaziada ansiar pelo número seguinte.
O
Raio U
texto
e desenhos: E. P. Jacobs
Livraria
Bertrand, Amadora, 1978
segunda-feira, 2 de março de 2020
os 'Patinhas'...
Pelos quadradinhos Disney,
nem sempre bem tratados e muitas vezes malquistos, passou do melhor:
de Floyd Gottfredson a Ub Iwerks, de Carl Barks a Paul Murry, sem
falar nas equipas espalhadas por esse mundo, de Itália ao Brasil, de
Romano Scarpa a Ivan Saidenberg, o inventor do genial Morcego
Vermelho. Em França, a
Glénat lançou uma colecção em que este universo encantatório é
abordado, com a participação de grande nomes da BD francófona,
como Cosey, o criador de Johnatan,
Lewis Trondheim (A Mosca)
ou Régis Loisel (Armazém
Central), entre outros.
O mais recente, saído no final do ano passado, é de Cosey e
intitula-se Minnie et le
Secret de Tante Miranda.
O poético Cosey dedicou-se a desenhar uma aventura da namorada do
Mickey na companhia da amiga dilecta, a vaca Clarabela… As
paisagens nevosas que conhecíamos de Johnatan regressam agora, e
acreditem que é muito bom de se ver.
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Carl Barks,
Cosey,
Floyd Gottefredson,
Ivan Saidenberg,
Leitor de BD-Jornal i,
Lewis Trondheim,
Paul Murry,
Regis Loisel,
Romano Scarpa,
Ub Iwerks,
Walt Disney
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
irredutíveis
Espécie de aldeia gaulesa da
língua, o mirandês resistiu a séculos de assédio do seu primitivo
vizinho, o galaico-português, tornado idioma imperial. Em 1999
passou a segunda língua oficial do país, falada por pouco mais de
dez mil pessoas. Língua que quer afirma-se tem de escrever-se e
publicar-se. Astérix, já
a fala há vários anos. La
Filha de Bercingetorix é
o quinto álbum do pequeno gaulês para aqueles irredutíveis
transmontanos, e também para os curiosos.
domingo, 23 de fevereiro de 2020
a intimidade da dor
Não
há respostas simples para o terrorismo islâmico, duas palavras que
se contaminam e degradam, apesar da colecção de crimes do Ocidente
(o Iraque ainda ontem) e de os próprios muçulmanos se contarem
entre as principais vítimas: o fanatismo sectário e assassino é a
casca grosseira resultante de um longo processo histórico de acção
e reacção, ressentimento e revolta, em que os únicos inocentes são
quantos foram abatidos.
Como
enfrentar a morte estúpida de um ente querido, na sua inesperada
aleatoriedade? Como gerir a impotência diante da súbita perda
irreparável? Como lidar com a própria dor? Como desenhar a
carnificina sem ceder ao mau gosto? Para um problema tão complexo e
de difícil resolução (?), será sempre avisado encará-lo de
frente, sem um maniqueísmo simplório. Foi o que tentou fazer a
editora Des ronds dans l’O, de Vincennes, ao convidar seis autores
de BD a desenhar número igual de depoimentos de familiares de
vítimas do atentado de Nice, ocorrido a 14 de Julho de 2016. Nessa
noite de celebração, um camião conduzido por um zombie fanatizado
levou à frente tantos quantos pôde, massacrando 86 pessoas e
ferindo 458.
O
álbum Promenade de la Mémoire
sairá em Março; no entanto, L’Immanquable,
no seu último número, pré-publicou duas das seis narrativas, com
entrevistas às respectivas autoras, histórias tocantes que
perscrutam a intimidade da dor.
Em
“Palavras para Aldjia – o relato de Seloua”, a irmã da
narradora perde a vida no Passeio dos Ingleses, sob o olhar da filha,
que não tem coragem de dar ela própria a notícia aos adultos da
morte da mãe, numa intuitiva atitude de autoprotecção em face de
expectáveis traumas futuros. Será a tia, Seloua, quem procurará
saber de notícias de Aldjia, nessa aflição tendo defrontar-se com
a fúria horrorizada dos franceses europeus, que a vêem, sendo
magrebina, não como mais uma vítima, mas cúmplice. O trabalho de
Jeanne Puchol é extraordinário, com todas as pranchas a preto e
branco, excepto a última, funcionado a cor como virar de página em
direcção ao apaziguamento, mas com a memória presente. As imagens
relativas ao momento do atentado são todas indirectas, numa prancha
com múltiplas vinhetas.
A
segunda história, “A dor das palavras – O relato de Anne”,
concebida por Céline Wagner em tons esfumados, fala-nos de uma
pintora que à hora do atentado em Nice está com o marido e o filho
num cruzeiro nos fiordes noruegueses, longamente preparado. Aí sabem
do sucedido, com a preocupação de a filha, regressada havia pouco
do estrangeiro, estar também ela na Promenade. Será ainda em solo
norueguês que irão saber da sua morte, pelas notícias do jornal
Nice-Matin. O desgosto
insuportável interferirá no trabalho da pintora, em especial no
quadro que deixara planeado para responder a um pedido daquela a quem
dera a vida. Vida roubada assim, sem porquê .
Promenade
de la Mémoire
Des
Ronds dans l’O, Vincennes, 2020
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
Livros que me apetecem - a partir de Simenon
Há
jovens prostitutas a serem mortas em Nogales, cidade dupla dos dois
lados da fronteira entre o Arizona (Estados Unidos) e Sonora
(México), quando François Colombe, escritor de policiais, aí se
desloca na companhia da secretária, Kay. Uma BD de Philippe Berthet
e Jean-Luc Fromental, a partir de uma história de Georges Simenon. A
publicar pela Dargaud em Março.De l'Autre Cotê de la Frontière, Dargaud.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
Livros que me apetecem - «Super Groom»
Dir-se-ia
quase inevitável, com tanta recriação e sequelas e séries
paralelas: Spirou transforma-se no Supergroom, para “rivalizar”
com os super-heróis americanos. Aparição em 2017 numa história
curta paródica, da dupla Vehlmann & Yoann, parece que caiu no
goto dos leitores, e assim a Dupuis acaba de editar novo álbum, cujo
título diz muito: Justicier
Malgré Lui.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
Champignac apaixona-se
A guerra traz um manancial de histórias em que, do heroísmo individual à miséria humana, em campo de batalha ou num habitat de sobrevivência racionada, o ser humano é posto à prova. Mesmo no inferno há momentos de pequena felicidade ou evasão: Jaime Cortesão, Augusto Casimiro e Sousa Lopes arranjaram tempo e espaço, no meio da carnificina da Flandres, para um repasto de bacalhau, com couves e batatas numa horta improvisada por entre as trincheiras, assim descreve o primeiro nas Memórias da Grande Guerra (1919). O mesmo Cortesão que, «entre duas granadas», tirava do bolso um livro de poemas de Vigny, tal como Stefan, protagonista do Bosque Proibido (1971), de Mircea Eliade, levava os sonetos de Shakespeare para os subterrâneos, quando o blitz tomava conta do céu de Londres, para não se esquecer do obscurecido esplendor da humanidade em cada um de nós.
Pacómio
de Champignac (Pacôme Hégésippe Adélard Stanislas, conde de
Champignac), o excêntrico sábio das aventuras de Spirou e Fantásio
criado por André Franquin e Jijé (o autor de Jerry Sping),
encontrou o amor na guerra. A acção remete-nos para 1940.
Champignac, vila fictícia situada perto da fronteira da França com
a Bélgica, acaba de ser ocupada pelos invasores alemães,
alojando-se o comando na morada o jovem conde. Trazem consigo uma
misteriosa máquina chamada “Enigma”, que, com três módulos de
encriptação diariamente alterados, tornam virtualmente impossível
a decifração pelos ingleses dos códigos secretos. Ao mesmo tempo,
Pacómio recebia um pedido de auxílio do cientista chefe de
Bletchley Park, complexo a norte de Londres onde secretamente os
serviços secretos britânicos reuniram um escol de matemáticos,
linguistas, xadrezistas, campeões de palavras cruzadas e amantes de
puzzles, procurando antecipar-se aos ataques desferidos pelas forças
alemãs, decifrando-lhes os códigos. Aqui conhecerá uma adorável
escocesa, e ambos vão trabalhar com Alan Touring, o génio da
computação, perseguido no pós-guerra pela sua homossexualidade;
irão também em missão com Ian Fleming, episódio em que ficamos a
saber que os gadgets
de James Bond foram na realidade inspirados pela mente engenhocas de
Champignac…, e, naturalmente, serão recebidos pelo próprio
Churchill.
Não
sendo esmagadora, trata-se de um história escorreita e bem pensada
pelo casal BéKa (Bertrand Escaich e Caroline Roque), desenhada e
colorida, com notório entusiasmo por David Etien, cujas pranchas têm
um excelente dinamismo. Destaque também para as piscadelas de olho à
série-mãe: do soporífero cogumelo, com papel acrescido na série
canónica, que o acompanha à Grã-Bretanha, aos provincianos
champignacenses, em especial o risível e pernóstico presidente da
câmara, terminando no Moustic Hotel, em Bruxelas, com uma discreta
aparição do próprio Spirou.
Champignac
– Énigma
texto:
BéKa
desenho:
David Etien
edição:
Dupuis, Marcinelle, 2019
Etiquetas:
Alan Touring,
André Franquin,
Augusto Casimiro,
BéKa,
David Etien,
Ian Fleming,
Jaime Cortesão,
Jijé,
Leitor de BD-Jornal i,
Mircea Eliade,
Sousa Lopes,
William Shakespare,
Winston Churchill
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
livros que me apetecem - «Andrómeda ou o longo caminho para casa»
Outro
acontecimento editorial é a novela gráfica de Zé Burnay (1991),
Andrómeda
ou o Longo Caminho para Casa,
uma história de viagem de regresso, fora do tempo presente.
Previamente lançada em inglês surge agora com a chancela de A
Seita, numa edição cuidada, com esboços e ilustrações de outros
artistas, entre os quais Mike Mignola (Hellboy),
admirador do artista português. Também músico, Burnay compôs uma
banda sonora para a sua narrativa.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
livros que me apetecem - «Parícutin»
Gonçalo
Duarte (Setúbal, 1990), músico – é guitarrista dos Equation, uma
entusiasmante banda do Porto, com um som
para além do psicadélico e do rock progressivo – e
autor de BD, até agora em obras colectivas, publica um primeiro
livro a solo, o romance gráfico Parícutin,
na Chili com Carne. E como o texto de apresentação da editora é um
esmero, aqui vai ele: «
Não
admira que se sinta nesta obra uma vibração eléctrica, nervosa e
onírica, uma leitura universal que nos conta como o espírito
individual sai sempre quebrado quando se questiona o urbanismo e a
vivência comunitária no século XXI».
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Vasco Granja
Na
BDteca da Amadora, uma exposição extraordinária sobre um dos
grandes divulgadores dos quadrinhos, como ele gostava de escrever, e
do cinema de animação, tendo por base a que esteve patente no
último Amadora BD, mas aumentada. Documentos, cartas, memorabilia e
desenhos originais. Até 2 de Maio.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2020
uma Batalha de Stuart
As
histórias aos quadradinhos têm uma tipologia que desde cedo foi
infringida: imagens sequenciais contando uma história mais ou menos
circunstancial, em que o discurso directo é reproduzido através de
filacteras, os ‘balões’ com um apêndice indicando o locutor.
Narrativas por imagens existem desde a Suméria, se não quisermos
porventura ir ainda mais longe, às cenas rupestres…, e filacteras,
pelo menos desde a Idade Média – mas só se pode falar
apropriadamente da existência da banda desenhada, quando esta ganhou
uma dupla realidade, editorial e social, com a sua difusão através
da imprensa, no século XIX. O cartoon poderá, eventualmente, ser
considerado como um subgénero, ou não. Há argumentos para ambas as
posições, que se deixam aos teóricos, não sem lembrar que uma
série tão emblemática como Príncipe Valente,
de Harold Foster, não tem filacteras, tal como não é raro
verificar-se num gag ou numa tira a ocorrência de uma única
vinheta, em que o talento do autor aí concentra tudo o que pretendeu
dizer. Assim o cartoon.
Interessa
é justificar que para nós faz sentido a presença dos cartoons de
Stuart Carvalhais (Vila Real, 1887- Lisboa, 1961), numa rubrica de
BD, tanto mais que se trata do pioneiro da 9.º Arte em Portugal, com
as aventuras de Quim e Manecas (1915), além de muitas outras áreas
em que aplicou o seu extraordinário talento, da pintura (Jazz,
da Colecção de Arte Moderna da Gulbenkian) ao cartaz (o
Fado, enfiado nas mãos dos
turistas, que nunca saberão quem foi o Stuart), da ilustração ao
design gráfico: são suas as capas de dois grandes romances
portugueses da década de 1920: Andam Faunos pelos Bosques
(1926), de Aquilino Ribeiro e
Emigrantes (1928), de
Ferreira de Castro.
A
Batalha, jornal diário da
Confederação Geral do Trabalho (CGT), foi fundado em 1919, e chegou
a ser o terceiro com maior difusão nacional, depois do Diário
de Notícias e de O
Século. Em 1923 lançou um
suplemento literário, que saía todas as segundas-feiras, por forma
a dar o descanso dominical aos tipógrafos. Ali escreveu o escol do
publicismo anarquista do tempo, parte do qual estará na génese do
histórico semanário O Diabo,
em 1934.
A
traço rápido e contorno grosso, estes desenhos de Stuart estão
dentro do espírito do jornal, feito por trabalhadores, para
trabalhadores e pelos trabalhadores; e o alvo era o sistema de poder:
a falcatrua financista, a amoralidade burguesa, e os seus
instrumentos: a cozinha política, a autoridade fardada e a Igreja,
com um humor umas vezes áspero, outras irónico. E uma impressiva
atenção aos ‘humilhados e ofendidos’, expressão que tanto
enfado causa aos yuppies
e aos nenúfares das letras & das artes, à direita e à
esquerda.
Renda
Barata – e outros cartoons de Stuart Carvalhais n’A Batalha
apresentação
e notas de António Baião
edição:
A Batalha e Chili com Carne, 2019
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
livros que me apetecem - Léna
Uma
jovem mulher que pede à errância respostas para o seu desencontro
interior. O terceiro e derradeiro álbum, publicado pela Dargaud,
põe-na agora nos bastidores de uma conferência internacional,
durante a Guerra Fria. O desenho é de André Juillard, que, entre
outros trabalhos, conhecemos de Blake & Mortimer, e Pierre Christin, o argumentista de Valérian, agente espácio-temporal e de
algumas narrativas com Enki Bilal. Quem se lembra de A
Caçada,
certamente não quererá deixar escapar este.
sábado, 8 de fevereiro de 2020
livros que me apetecem - Milo Manara
O
triestino septuagenário tem coisas boas, e coisas muito boas. Tanta
bondade, que o indulta doutras não tão boas, é motivo mais do que
suficiente para espiolhar estas Quimeras
Fascinantes,
colectânea de histórias curtas e frisos impressionantes, com
homenagens a Hugo Pratt, com quem assinou obras extraordinárias, e a
Jean-Claude Forest, criador de Barbarella, uma Brigitte Bardot
tornada Jane Fonda, e cantada por Gilberto Gil. Edição: Arte de
Autor.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
livros que me apetecem: «Mais où est Kiki?»
Mais
de vinte anos após o último álbum, regressa a dupla Tif e Tondu,
dois investigadores criminais particulares, defrontando um recorrente
arquinimimigo, Monsieur Choc, alguém que aparece acobertado por um
capacete de armadura medieval – uma espécie de Olrik, mas mais
assutador. Criada em 1938 para a revista Spirou,
a série celebrizada por Will, é retomada pelos irmãos Blutch &
Robber. Mais ou
Est Kiki?,
publicado pela Dupuis, foi lançado no Festival de Angoulême, que
encerrou ontem.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
um digesto de BD
Já
há muitos anos que a revista Spirou
é o verdadeiro “hebdomadário dos jovens dos 7 aos 77 anos”,
desde que a rival Tintin,
que ostentava essa frase na capa, cessou a publicação, em 1988.
Spirou sai desde 1938,
e não conhecemos melhor com semelhante modelo. Trimestralmente, a
editora de Marcinelle lança também um grosso volume de quase 200
páginas, intitulado Méga Spirou,
que, pelo preço módico de 5,90€ (mais um euro porcá), oferece o
equivalente a dois álbuns completos e todo o seu arsenal de gags,
tiras e histórias curtas de pendor humorístico, destinados à faixa
etária em que também se encontra este leitor...
Neste
n.º 20, as narrativas longas são Louca,
de Bruno Dequier, série que conjuga o mundo do futebol com o
fantástico, e Champignac,
de BéKa e Etien, já referido na semana passada e a que queremos
voltar.
Algumas
das outras: Kid Paddle,
de Midam, na capa edição, ao pé de quem o insuportável Titeuf faz
figura de bem comportado; do mesmo Midam, com desenhos de Adam, o
hilariante Game Over,
com um desaustinado guerreiro de fantasia medieval e a sua 'bela'
dama, sempre ameaçados pelos terríveis blorks, monstros que são
uma espécie de coisos; e acrescentemos Nelson (de
Bertschy), um demónio endiabrado acolhido por uma rapariga e o seu
cão; o ternurento Dad (de
Nob), pai celibatário de quatro filhas, das fraldas à adolescência;
Mamma Mia!, texto do
grande Lewis Trondheim, e desenhos de Obion, em que observamos o
universo feminino multiplicado por quatro, da bisavó à bisneta;
Tamara, jovem com
romantismo e peso a mais, de Zidrou, outro grande autor, com traço
de Darasse e Boss; e Les Vacheries des Nombrils,
do casal Dubuc e Delaf, grupo de três teenagers,
em que Vicky e Jenny tentam aproveitar-se da ingenuidade benfazeja de
Karinne, com resultados nem sempre os esperados. A não perder, os
conhecidos em edição portuguesa: O Pequeno Spirou,
da extraordinária dupla Tome & Janry (o primeiro, falecido em
Outubro, é aqui homenageado); o patusco Agente 212,
de Cauvin e Kox; e Cédric, do mesmo Cauvin, com desenhos de Laudec,
uma criança como todas as outras, que, dada a avançada idade do seu
criador, continua a brincar com os amigos na rua, algo que a
selvajaria social que nos submerge deixou de permitir.
O
veterano Raoul Cauvin (Antoing, 1938) é, de resto, uma figura que
marca presença triplamente neste Méga Spirou,
uma vez que assinalando, com o desenhador Willy Lambil (Tamines,
1936), 50 álbuns dos Túnicas Azuis,
cujo palco da Guerra da Secessão é pretexto para muito mais do que
uma série humorística, concede entrevista conjunta, retratando-se a
si mesmos num gag.
Nessa conversa ficamos a saber que, durante o meio século de
trabalho, em conjunto estiveram cinco anos de relações cortadas,
cabendo à redacção fazer a ponte entre argumentista e
desenhador...
Méga
Spirou #20
edição:
Dupuis, Marcinelle, Dezembro de 2019
Etiquetas:
Adam,
BéKa,
Bertschy,
Boss,
Bruno Déquier,
Darasse,
Delaf,
Dubuc,
Janry,
Kox,
Laudec,
Leitor de BD-Jornal i,
Lewis Trondheim,
Midam,
Nob,
Obion,
Raoul Cauvin,
Tome,
Willy Lambil,
Zidrou
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
livros que me apetecem -- .. e Duke, outra vez
Já saiu no país de origem o quarto álbum do
processo de auto-descoberta de Morgan Finch, aliás Duke, um western
extraordinário de Hermann, com argumento do filho, Yves H. A edição
portuguesa não deve tardar. Duke
– La Dernière Fois que J’ai Prié,
Le (Le Lombard, 2020).
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