quarta-feira, 23 de abril de 2014

a poesia dos quadradinhos #5 - Teresa Rita Lopes

«Os Capitães de Abril são / para os mais novos / jovens heróis de lenda / como o Homem Aranha!»

vinheta de John Romita
imagem

«Poema de parabéns», JL #1136, Lisboa, 16.IV.2014.

domingo, 23 de março de 2014

bem escrito

«A 31 de Dezembro de 1995, Calvin dizia para o seu compincha Hobbes que valia a pena ir explorar o mundo lá fora, para lá dos claustrofóbicos limites de uma tira de BD e da necessidade diária de ser simples inovador, original e divertido.
E na passagem sem contornos da neve, ambos deslizavam num trenó para não mais voltarem.»
António Rodrigues, «O homem que soltou a criança em todos nós», Público / Ípsilon #8742, 21.III.2014

sexta-feira, 14 de março de 2014

50 álbuns: 15. Vernes 6 Forton, A ESPADA DO PALADINO (1967) -- Os rapazes tinham pressa.


A minha geração foi das últimas destinatárias de um certo tipo de produtos (para)literários juvenis assentes na aventura pura e dura, sem grandes pedagogismos à mistura. Havia uma designação que caravterizava muito bem esse segmento editorial: as "bibliotecas para rapazes". A Editorial Íbis, que publicou em álbum Astérix, Lucky Luke, Strapontam, tinha uma mais direccionada "Colecção Pilote", com as sagas de Bob Morane, Barba Ruiva, Tenente Blueberry (Fort Navajo) e Tanguy & Laverdure, ou seja: aventura e ficção científica; piratas; western; guerra, espionagem e aviação.
Embora o meu Bob Morane seja o de William Vance, A Espada do Paladino, história desenhada por Forton (com argumento de Vernes) foi uma das que marcou a minha infância. Começa no castelo de Morane na Dordonha, numa noite de bátega, em que, na companhia de Bill Ballantine, é surpreendido pela visita do seu conhecido Professor Hunter. Este, incapaz, devido a um acidente recente, de testar uma máquina do tempo de que é inventor, convida o herói para fazer o ensaio, com os riscos inerentes; convite aceite sem mais aquelas por Morane, para desespero de Ballantine, na última vinheta da segunda prancha (e que a abrir a narrativa se queixara de estarem ambos a enferrujar, pela inacção a que se tinham votado). Rapidez estonteante (na mesma prancha, o Prof. Hunter é recebido e o desafio aceite...). E tinha de ser mesmo assim, porque os rapazes que nós éramos, devoravam a revista ou o álbum (relidos muitas e muitas vezes nos anos que se seguiriam), para pegarem na bicicleta, dar toques na bola, descer uma rua num carrinho de rolamentos, dar um mergulho na praia (os que a tinham por perto) ou, até,  jogar à pedrada... Os rapazes tinham pressa, e os mestres que escreviam, desenhavam e publicavam estes universos de sonho, sabiam-no.    

Vernes & Forton, A Espada do Paladino, Venda Nova, Editorial Íbis, 1970, pranchas 1-2.

terça-feira, 4 de março de 2014

50 álbuns: 14. Godard, O EMIR DOS 7 BEDUÍNOS (1974) -- Às portas de Mandahmerh


Firmin Vestigue, detective privado, chega de jipe às imediações do palácio decrépito do recém-falecido soberano do ignoto emirado de mandahmerh, "não longe das portas de Omã". Recebe-o Ibrahim, o vizir, preocupado com a vacatura do modesto trono: dum lado, o poderoso vizinho de Kakh-Haweit, com ambições territoriais; nas montanhas do interior pululam rebeldes fortemente armados; Ibrahim, porém, está decidido a matar por suas próprias mãos quem se atrever a sentar-se indevidamente no trono de Mandahmerh...
Ainda é cedo para aparecer o fleumático Martin Milan, uma das mais sublimes criações da bd franco-belga, humanista e bem-humorada. Era mesmo daquelas que eu fazia questão de ter as histórias em duplicado, na revista Tintin, primeiro, e em álbum, depois.

Godard, Martin Milan -- O Emir dos 7 Beduínos, trad. Marília Alves, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1979, pranchas 1-2.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

50 álbuns: 13. J. C. Mézières & P. Christin, O EMBAIXADOR DAS SOMBRAS (1975) -- desenhar o "nada"

 A vinheta inicial de O Embaixador das Sombras, de Mézières e Christin mostra-nos um recuado "nada". Desde os tempos imemoriais em que o Universo não conhecia vida, até ao "Ponto Central", o âmago das encruzilhadas do espaço, corolário duma aspiração comum a todos os seres vivos inteligentes: explorar os céus.
Nunca fui adepto da ficção científica, demasiado gelada para mim. Excepção feita ao nobre agente espácio-temporal Valérian e a sua nada fria companheira, Lauréline.

Jean-Claude Mézières & Pierre Christin, O Embaixador das Sombras [1975], tradutor não identificado, Lisboa, Meribérica, s.d., pranchas 1-2. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

50 álbuns: 12. Will Eisner, O EDIFÍCIO (1987) -- o espírito do lugar

A primeira prancha apresenta-nos, em vinheta única, um edifício de esquina com 14 pisos, construído em finais do século XIX, inícios do seguinte. Um edifício em que, por algumas gerações, se viveu, nasceu e morreu, com tudo o que isso implica. Até que o prédio foi demolido, e com ele o lastro imaterial de aspirações humanas que acolheu.
Tratam disto as duas primeiras pranchas de um dos livros da minha biblioteca de BD que mais prezo: O Edifício, do enorme Will Eisner (1907-2005). No prefácio a esta sua obra, Eisner diz-se convicto de que não é impunemente que estes imóveis acolhem vidas durante vidas: «[...] estou certo de que essas estruturas marcadas por risos e manchadas por lágrimas são mais do que edifícios inertes»; e o livro é também uma insurgência contra a depredação dum património cultural, arquitectónico, artístico e imaterial a que se assiste numa cidade. Nada mais eloquente do que a epígrafe de John Ruskin: «Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte, são propriedade daqueles que os construíram; em parte das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles: aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.» 

Will Eisner, O Edifício [The Building, 1987], tradução anónima, São Paulo, Editora Abril, 1989, pranchas 1-2.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

50 álbuns: 11. W. Vance & J. Van Hamme, O DIA DO SOL NEGRO (1984) -- um homem tatuado


Numa casa de praia na costa americana, Abe gasta as horas da reforma na pesca, em companhia do cão. Sally, a mulher, chama-o para o almoço, ao mesmo tempo que o cocker spaniel está inquieto, procurando atrair o dono para um local mais afastado das rochas, onde jaz o corpo de um homem ainda novo. Com ténues sinais vitais, Abe e Sally transportam-no até à moradia. O homem vai chamar uma médica, e Sally, procurando acomodar o estranho sinistrado o mais confortavelmente possível, detecta uma tatuagem por cima da clavícula.
Creio que, antes de XIII, apenas Fort Navajo, de Charlier e Gir, me haviam provocado tanto interesse nas categorias das bedês fleuve, de álbum para álbum, a ver como tudo aquilo se desenrolava. Não admira, pois, em ambos os casos estamos a falar de dois dos maiores argumentistas da bd franco-belga: Jean-Michel Charlier e Jean Van Hamme; e se Vance não é Giraud, teve a envergadura suficiente para lhe traçar um Blueberry.

W. Vance & J, Van Hamme, XIII -- O Dia do Sol Negro, tradução anónima, Lisboa, Meribérica / Liber, s.d., pranchas 1-2.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

repostagens: Boule, antes de Calvin

Boule e Bill, um rapazinho e o seu cocker spaniel, criação magnífica do belga Jean Roba, em 1959, foi uma das grandes séries da revista Spirou. Reli há pouco o primeiro álbum. Boule lembrou-me o seu congénere americano Calvin: ambos miúdos de palmo e meio, beneficiando da cumplicidade das respectivas mascotes, o bouleversement (desculpem, mas não resisti) do mundo adulto e dos seus códigos de conduta, uma notável disponibilidade do(s) autor(es) para estar(em) na pele duma criança, e simultaneamente uma grande inocência. Antes de se retirar, há cerca de dois anos, Roba escolheu Verron para lhe suceder. Boule e Bill são pouco conhecidos entre nós e estão inéditos em livro.
(publicado aqui)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

50 álbuns: 10. Derib, CHINOOK (1974) -- era novidade



Duas figuras minúsculas movimentam-se, ao longe, num qualquer sopé duma zona montanhosa do Oeste americano. Na segunda vinheta distinguimos uma raposa perseguindo uma lebre, até que (3.ª vinheta) "PUM", o predador é abatido, surgindo agachado por entre os arbustos um homem loiro, barba por fazer, chapéu de cowboy e rifle fumegante. Pelo último quadradinho da primeira prancha, verificamos que tem atavios de caçador. Virada a página, Buddy Longway (é dele que se trata) dirige-se para o seu acampamento. Caçador de peles, percebemos agora.
Buddy Longway é uma das grandes criações da BD francófona (Derib é suíço). Neste primeiro álbum (de 1974) o desenho, embora realista, mantém ainda resquícios de influências disneyana, ou por aí, e doutras séries do autor destinadas a público infantil, como Yakari.
Para nós, leitores da revista Tintin nos anos 70, era novidade a disposição narrativa na prancha, vinheta dentro da vinheta, recorrentemente. Novidade seria também assistirmos, nos livros seguintes, ao progressivo envelhecimento das personagens, à constituição de família, à morte...
Derib, Buddy Longway -- Chinook, tradução de Pedro Lopes d'Azevedo, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1978, pranchas 1-2.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

P&R [pergunta & resposta] -- José Eduardo Agualusa

Quem é o seu herói de ficção preferido?  Corto Maltese.

José Eduardo Agualusa, "Questionário de Proust", Somos Livros #5, Novembro, 2013.




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

50 álbuns: 9. - Jean Graton, OS CAVALEIROS DE KOENIGSFELD (1967) -- VROOAP

Este álbum preencheu uma boa parte do meu imaginário infantil. Lembro-me de que ainda estava na primária quando o recebi. A capa, estranha, o piloto de espada na mão em luta com um cavaleiro medieval embuçado e envergando uma cota de malha; a vinheta do frontispício, três bólides subindo uma rampa em direcção a um castelo penumbroso, causava também sensação... Mas as duas primeiras pranchas eram do mais trivial Vaillant: uma panorâmica do circuito de Nurburgring, Michel Vaillant e o inevitável Steve Warson no meio de ases do volante da vida real e o deslumbramento um bocado cabotino de Jean Graton pelo glamour dos circuitos. Salvam-se os carros (o Mercedes descapotável da menina que aparece na última vinheta da prancha 2 justifica-se, como se verá), mais as características onomatopeias dos motores a rugir: VROOAP VROOAP !...

Jean Graton, Michel Vaillant -- Os Cavaleiros de Koenigsfeld [1967], trad. C. Rodrigues, Venda Nova, Livraria Bertrand, s.d., pranchas 1-2.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

a poesia dos quadradinhos #4 -- Paulo Abrunhosa

B.D.

"Quero ser alcatifa,
no lugar do Califa",
sibilou o Grão-Vizir,
descaradamente a mentir.
Paulo Abrunhosa, Diário de um Dromedário, Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2000.
(Iznogoud, criação de Jean Tabary e René Goscinny)




sexta-feira, 15 de novembro de 2013

repostagens -- Don Rosa: pura aventura

Deu uma qualidade à BD Disney que há muito lhe faltava. Herdeiro espiritual do magnífico Carl Barks, foi influenciado pelo sortilégio das suas narrativas, aventuras puras. Com Rosa, as personagens ganharam densidade psicológica (a imagem do Tio Patinhas/Scrooge McDuck recolhido junto das campas dos pais, na Escócia natal*, seria impensável antes dele), deixando, contudo, de apresentar aquela frescura ingénua que víamos nas estórias de Barks. A trama, porém, é sempre bem urdida, e com verdeiro enlevo para com os nossos conhecidos cidadãos de Patópolis/Duckburg.
*«Uma carta de casa», Tio Patinhas nº 231, Março de 2005.
[27 de Abril de 2005, aqui]

a poesia dos quadradinhos #3 -- Rui Knopfli

[...] Havia também / Marina, filha mais velha do pianista / do casino, pernas magras enfeitiçando, / qual deusa na selva dos comic books, / o meu desejo obscuro. [...]

Rui Knopfli, «Rua de Coolela», O Monhé das Cobras  (1997), 2.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1998.


uma capa de Will Eisner


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

50 álbuns: 8. Frank Le Gall, CAPITÃO STEENE (1987) -- invitation au voyage

Contrariando o meu proverbial sedentarismo, o imaginário portuário sempre me fascinou. Na literatura, no cinema, na pintura, na música e, obviamente, na bd. O apelo da distância, do desconhecido, do diferente, dos lugares de fronteira -- tudo sonhado no remanso do meu sofá: Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Manhã cedo em Dunquerque (ao melhor estilo da revista Spirou), na primeira vinheta, 2 de Dezembro de 1927, janelas dum edifício centrado numa espécie de praça à beira do cais, ainda com luz artificial , um carro deambula ensonado, no porto dormem pesadamente os rebocadores e restantes embarcações.
No interior desse escritório de "carregadores marítimos", uma personagem empunhando uma caneta de aparo, sorri deleitadamente ante os topónimos que se lhe deparam e o fazem sonhar: "Dacar, Buenos Aires, Changai". É Théodore Poussin (Teodoro Pintainho, na tradução portuguesa anónima) sentado à secretária, que assim vai nutrindo essa vontade de ver mundo. Um telefone desperta-o dessa evasão, e o Senhor Sénard, o chefe, conhecendo esse anseio de Teodoro, comunica-lhe que no início do ano irá, a serviço da empresa, a bordo do "Cabo Padaran" com destino à Indochina.  

Frank Le Gall, Teodoro Pintainho -- Capitão Steene, Lisboa, Méribérica/Liber, s.d., pranchas #1 e 2.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Os fumetti de Fellini

Os quadradinhos da infância de Fellini: «Adora fumetti  (bandas desenhadas populares), nomeadamente as que são publicadas em Il Corrieri dei Piccoli e cujas personagens, Mickey, Mandrake, o Mágico, Flash Gordon, O Gato Félix ou Buck Rogers povoam a sua imaginação.» (Àngel Quintana, Federico Fellini, Lisboa, Público, 2008).
Mandrake, que fará encarnar por Marcello Mastroianni; bd, para a qual foi dotado e homenageado, entre outros por Milo Manara, e que nunca abandonou.