segunda-feira, 27 de junho de 2022

personagem em construção


Ao quinto álbum, continuamos a acompanhar esta figura de papel, carvão e tinta criada pelo argumentista Yves H. e desenhada pelo pai deste, Hermann Huppen, um dos grandes mestres da BD franco-belga: Duke, ou melhor Morgan Finch, personagem reservada, pistoleiro a seu pesar. Atirador exímio, evita gostar demasiado de armas. Conhecemo-lo em A Lama e o Sangue (2017), numa pequena cidade do Colorado, construída em torno de uma mina. Era adjunto do xerife, fraco homem, bem necessitado de manter a ordem nas dissensões violentas entre mineiros e agricultores, sem contar com os aventureiros com faro para o ouro. O dono da mina, Mullins, é um déspota e ganancioso que não distingue os homens que para si trabalham dos animais ou das coisas Quando os assaltos a diligências começam a suceder-se, e Mullins necessita de alguém que leve até à Califórnia um montante de 100 mil dólares a um consórcio de que é devedor, já Morgan se prepara para um reencontro com o passado pouco cor-de-rosa e um director de um orfanato, onde ele e Clem, irmão mais novo, foram recolhidos.

Acompanhamos agora a progressão de Duke pelas zonas áridas do Colorado, na companhia de Swift, um representante do grupo de capitalistas californianos, indivíduo sobremaneira loquaz, mas também com grande dificuldades em conseguir que Duke emita um som; ainda mais quando estão na situação de perseguidos por um regimento de soldados negros renegados, no encalço daquela avultada quantia; e ao mesmo tempo, seguimos o rasto de Peg, uma prostituta de saloon que se tornou uma paixão de Duke, raptada por King, um homem que conhece o nosso pistoleiro tão bem quanto o próprio. Em sucessivas analepses, ficamos a saber que o agora King velho é o antigo director do orfanato, alguém que quando olhou nos olhos o jovem Morgan, percebeu que tinha ali um futuro matador, um igual… E a frase do álbum anterior, A Última Vez que Rezei (2020), começa assim a tomar forma e a fazer sentido: “Abandonados por Deus, era inevitável que o Diabo se interessasse por nós...” Este plural diz respeito ao irmão mais novo, Clem, chegado ao mesmo tempo ao orfanato, e que não virá a faltar ao apelo do crime.

Com os desertores do regimento dos Buffalo Soldiers no encalço, aliando à cupidez a necessidade de desforra pelos agravos sofridos enquanto afro-americanos – Duke e Swift esperarão por eles numa casa no meio do nada, habitada por uma família peculiar, cujo homem tem para com Duke uma dívida a que não pode eximir-se.

Narrativa lenta, a digressão exterior acompanha a itinerância interior, com grandes planos frontais equilibrados por vinhetas abertas para o espaço amplo em que as personagens demoradamente se movem.


Duke – Pistoleiro É o que Serás

texto: Yves H.

desenhos: Hermann

edição: Arte de Autor, Estoril, 2021

«Leitor de BD»

sexta-feira, 24 de junho de 2022

de A a Z: D, de Dylan Dog (Tiziano Sclavi e Angelo Stano, 1986)



Uma das mais populares séries dos fumetti italianos, Dylan Dog é um antigo e ex-alcoólico inspector da Scotland Yard, tornado detective do sobrenatural. Assistido por Groucho, sósia do Marx, e como este também piadista, o herói, agora abstémio, cultiva o clarinete (tocou com Woody Allen), e em cada história tem uma mulher, diz-se que à procura de um amor passado...

«Leitor de BD»

terça-feira, 14 de junho de 2022

O Comissário Ricciardi



Criado pelo escritor napolitano Maurizio de Giovanni, em 2005, Luigi Alfredo Ricciardi, filho dos barões de Malomonte, originário de Cilento, no sul de Itália, é uma personagem que se estreia em edição portuguesa, na «Colecção Aleph», a mesma que publica Dylan Dog, misturando, tal como sucede com o “detective do pesadelo”, o policial e o sobrenatural.

Ricciardi detém uma estranha faculdade, herdada da mãe, que lhe inferniza a existência: junto de um cadáver, consegue ver os últimos momentos dessa pessoa, desde que vítima de morte violenta, crime ou acidente… Esta revelação obteve-a aos cinco anos diante de alguém assassinado por motivos passionais. Vida marcada por um negrume insuportável, Ricciardi é um solitário melancólico, para quem viver um amor é impossível. Conta com os cuidados de uma velha criada; e apenas com o adjunto, o sargento bonacheirão Raffaele Maione, encontra os breves momentos de distensão que a vida lhe permite.

A acção decorre no final dos anos 20, em pleno fascismo, que, nas três narrativas deste livro inaugural, apenas aparece de raspão (retratos do Duce e Vítor Manuel III, e uma alusão a um bando de rufias). Na primeira história, intitulada “Dez cêntimos”, recuamos uma década, para 1919, quando o jovem Luigi, chegado a Nápoles para cursar filosofia – a única disciplina que considera apropriada para o tormento em que vive --, se depara com a visão de uma criança doce que vendia flores na rua. Como não lhe bastasse ser pobre, era ainda indefesa; a maldade do mundo não lhe estava vedada; a narrativa seguinte, “Os vivos e os mortos”, temos a pedofilia escondida mas facilitada por quem se move livremente e sem suspeitas; finalmente, “Mammarella”, ou quando um menino-da- mamã – e que mamã... – deixa vir ao de cima anos de recalcamento.

O pano de fundo é a excessiva e luminosa Nápoles, estuante de vida e gente, cheia de uma buliçosa azáfama e, ao mesmo tempo, cenário de crime e morte. A cidade aparece como uma grande personagem, a verdadeira parceira das digressões quotidianas de Ricciardi, em cujos becos e encruzilhadas, desvãos e subterrâneos, fluem os dias, enquanto se desenrolam dramas junto a tabernas e salões aristocráticos, sacristias e bordéis, lugares nem sempre frequentáveis.

De Giovanni (Nápoles, 1958) não é um autor de fumetti; argumentistas adaptam a narrativa à linguagem BD; com que acerto, só conhecendo o texto matriz para o dizer; o trabalho dos desenhadores, mais expressionista Bigliardo, de traço mais aberto Siniscalchi, é eficaz na transposição para a imagem da atmosfera pesada de crime e morte numa cidade e país ruidosamente a caminho da guerra.


Comissário Ricciardi – Primeiros Inquéritos

textos: Sergio Brancato e Claudio Falco

desenhos: Daniele Bigliardo e Luigi Siniscalchi

edição: A Seita, Prior Velho, 2021.

«Leitor de BD»

quinta-feira, 9 de junho de 2022

de A a Z: B, de Boule & Bill (Roba, 1959)




Uma BD superlativa, do melhor que alguma vez se fez no género criança e mascote, ao nível de um Charlie Brown & Snoopy e Calvin & Hobbes. Boule é um rapazinho de uma família de classe média, inspirado no filho de Jean Roba; e Bill um cocker spaniel, que pensa connosco. A vida pura com as atribulações domésticas de todos os dias. Em Portugal a série nunca foi publicada em álbum, excepto em periódicos como os inevitáveis Cavaleiro Andante e Spirou, entre outros. Existem edições brasileiras, já da autoria de Laurent Verron, o continuador designado por Roba.

«Leitor de BD»

sexta-feira, 3 de junho de 2022

mundo fechado



Abrir um livro de André Diniz é saber de antemão que entraremos num universo pessoal servido por um poder de observação agudo, uma forte empatia e atenção ao outro, atributo dos grandes ficcionistas. Autor realista, do melhor realismo, aberto a todas as aventuras interiores que o ser humano comporta, André Diniz aparece-nos neste particular como um lídimo herdeiro do extraordinário Machado de Assis (1839-1908).

Matei o Meu Pai e Foi Estranho é o título peculiar da obra de hoje. Depois de Morro na Favela, Entre Cegos e Invisíveis e A Revolta da Vacina, esta é quarta vez que nos debruçamos sobre um livro deste autor brasileiro (Rio de Janeiro, 1975), residente em Portugal, com cuja BD tem estabelecido contacto e que homenageia num extratexto final. Nele reconhecemos um recriador de mundos, como é o mundo particular de Zaqueu.

Menino especial com génio de artista e algumas dificuldades relacionais, em casa e também com as raparigas. O seu confidente é um sem-abrigo na floresta de cimento, São Paulo. É, além disso, é um rapaz que sofre de albinismo, no seio de uma família de gente escura, da classe trabalhadora: pai motorista, mãe guarda prisional e ainda dois irmãos, o mais velho, rufia que se entretém a moer o juízo de Zaqueu – criador de alcunhas de calibre, de leite coalhado a esperma de cavalo, passando por branco de neve, Michael Jackson e hepatite c –, e ainda a irmã caçula, Tonha, o seu ai-jesus, a única com quem se entende plenamente, embora tente estabelecer vínculos mais estreitos, especialmente com os pais. Estes, contudo, desvalorizam-no, em especial o progenitor, um impreparado que o trata como um falhado. Mas Zaqueu é habitado por um génio, é um poeta que escreve como ninguém, impressionando a professora – característica inusitada e suficiente para que o patrão do pai pague os estudos num colégio, frequentado por gente rica, e no qual o rapaz se sente também deslocado. Ambiente opressivo e cinzento, em que tudo parece piorar, quando numa deambulação sem destino pela grande cidade, o míúdo topa com o pai e outra mulher, levando uma criança consigo – uma outra família, um irmão que desconhece. O desenrolar da narrativa será surpreendente.

Uma história de todos os dias num meio habitado por milhões, mas em que cada um tem direito à sua própria personagem. Em Matei o Meu Pai e Foi Estranho a interdependência de desenho e texto é ágil e flui, um exemplo seguro de como a 9.ª arte é uma forma de expressão artística singular. E André Diniz, desenhador único e narrador nato, um artista completo.


Matei o Meu Pai e Foi Estranho

Texto e desenhos: André Diniz

edição: Polvo, Lisboa, 2021

«Leitor de BD»

quarta-feira, 1 de junho de 2022

de A a Z: E, de Esther (Riad Sattouf, 2015).



Inspirada numa menina de carne e osso, Esther A. filha de amigos do autor, esta criaturinha de Riad Sattouf é cheia de personalidade, sonhos fantasias e questionamentos, que partilha com as amigas da escola e com a família: pai professor de ginástica, mãe bancária, irmão adolescente e avó. Em curso de publicação, iremos acompanhá-la no seu crescimento até aos 18 anos.

«Leitor de BD»

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Astérix atravessa o Donbass



Viajantes do Mundo Antigo, ainda não foi desta que os gauleses visitaram a Lusitânia, onde estavam os verdadeiros irredutíveis – “Não se governam nem se deixam governar”, escreveu a propósito Sérvio Sulpício Galba, a Júlio César. Quando pegámos no último Astérix, com o intuito de aligeirar o espírito da barbárie que nos ameaça e tolda os dias, com entrechoque de imperialismos, a carne para canhão em que foi transformado o povo ucraniano e o bombardeio maciço das opiniões públicas pelas mais desavergonhadas manipulações, verificámos que Ferri e Conrad nos transportam para a área geográfica do actual teatro de operações, a uma distância de dois mil anos.

Tudo começa quando o geógrafo Desorientadus propõe a Júlio César uma expedição ao Barbaricum, território vasto no leste da Europa e Ásia Central, com o fim de capturar um grifo – animal lendário, meio águia meio leão, com orelhas de cavalo –, descrito pelo viajante grego Dosamais de Colagénio. Um bicho daqueles em luta contra gladiadores aumentaria a popularidade de César, e para tal Desorientadus dispõe de informações de uma prisioneira amazona sármata (supostos antepassados dos eslavos), a bela Kalachnikovna. Ao mesmo tempo, Astérix, Obélix e Ideiafix acompanham Panoramix o druida, em deslocação à Sarmácia, ao encontro do colega xamã local Karnanteskeukine (adaptação não de todo feliz de Cékankondine – “c'est quand qu'on dine”, ou seja “quando é que se janta”...). Estamos, pois, no território que abrangia a actual Ucrânia, o sul da Rússia e o norte do Cazaquistão; tendo os autores concluído este 39º álbum da série ainda em 2020, embora o conflito permanecesse a baixa intensidade, não anteciparam a tragédia que se está a passar. As confusões étnicas sempre estiveram presentes nas histórias do pequeno gaulês, com muitos piscares de olhos à actualidade – quem não se lembra de Astérix e os Godos (1963) ou A Odisseia de Astérix (1981), este um dos melhores de Uderzo a solo, paródia da instabilidade perpétua no Médio Oriente? –; mas a verdade é que o momento não está para paródias, antes para recolhimento, solidariedade e espírito crítico afiado.

Trata-se de um álbum de sinal mais de Jean-Ives Ferri (argumento) e Didier Conrad (desenhos), o quinto da dupla, em que o mais conseguido, quanto a nós, continua a ser A Filha de Vercingétorix (2019). Os nomes de sonoridade russa são alguns deles esplêndidos, mesmo na tradução portuguesa: Gasodutine, o decano sármata; Botabaichine, o destilador; Wolverine, o lobo do xamã, companheiro de correria do Ideaifix; ou Klorokine, o anfitrião (aliás, a Covid-19 é a estrela no que respeita a gags). O desenho de Conrad, procura manter-se fiel a Uderzo.

Neste tempo de trevas, que São Goscinny continue a olhar por nós.


Astérix e o Grifo

texto: Jean-Ives Ferri

desenhos: Didier Conrad

edição: Asa, Alfragide, 2021

«Leitor de BD»

quinta-feira, 19 de maio de 2022

de A a Z: J, de Joker (Bob Kane / Jerry Robinson e Bill Finger, 1940)



Arqui-inimigo de Batman e sua perfeita némesis, louco ou psicopata, génio do mal, provoca calafrios aos leitores, pois é difícil outro vilão assim. O filme de Todd Philips com o desempenho de Joaquin Phoenix, guindaram-no definitivamente a personagem maior.

«Leitor de BD»

segunda-feira, 16 de maio de 2022

outros mundos


“Se apanhares uma borboleta preta e a prenderes nas tuas mãos, e lhe sussurrares ao ouvido 'lugar nenhum', um tipo de óculos escuros aparece do nada para te bater com um fémur humano.” Palavras de um desconhecido dirigidas num bar a um dos protagonistas da narrativa de hoje – um homem não nomeado, mas de algum lugar –, que estava mais interessado em trocar olhares com uma jovem mulher.

Escrita por Tiago Barros (Lisboa, 1990), com desenhos de Fábio Veras (Lisboa, 1997) – de quem já aqui falámos a propósito de Filhos do Rato (2019, com texto de Luís Zhang –, O Homem de Lugar Nenhum é um dos bons lançamentos recentes da BD nacional, embora seja um pouco ingrato falar de uma obra de que saiu apenas o primeiro de dois volumes.

História de procura externa e interior, com uma dimensão também catárctica no que respeita ao argumentista, saído de uma cirurgia delicada, põe-nos em dois universos em simultâneo: o real, onde se move o homem de algum lugar e o outro, o de lugar nenhum, que pode ser a morada da morte, da inconsciência ou de um mundo que corre a par do nosso, ensaiando-se uma meditação sobre o tempo: finito ou infinito?; com princípio, meio e fim ou antes correndo numa linha circular, sendo “a vida um gradiente de experiências em paralelo?”

Esse lugar nenhum, solar, numa velha cabana à beira de um campo de morangueiros, onde jaz a carcaça de um comboio acidentado, é onde habita o homem de óculos escuros que acabará por bater com um fémur humano no homem de algum lugar, a eles se juntando um terceiro homem desesperado por uma perda (amorosa?) e um quarto elemento, desta vez uma mulher em busca do irmão, a única até aqui nomeada: Luxúria. Nesse outro lugar surgem uma espécie de gigantes mitológicos com quem o homem de óculos escuros se aconselha: Mike, Neil e Alan (uma homenagem a três demiurgos dos comics contemporâneos, Mignola, Gaiman e Moore).

Os quatro reunidos, empreendem assim uma busca na terra inóspita dos goblins, procurando cada um algo que lhes foi roubado pelo seu rei. Um destacamento desses seres fantásticos irá ao seu encontro, e é aí que o homem de lugar nenhum tem de decidir-se a enfrentá-los. Porquê? Por um graal particular, certamente, que ficaremos a conhecer no segundo volume, e que é insusceptível de não ser procurado, Quando estão em causa princípios inapeláveis, há que investir por eles, contra qualquer destacamento, real ou figurado, em nome de valores, que, segundo o narrador, nos permitem dormir à noite, olhar os outros nos olhos, esperar a morte com um sorriso pacificado. Porque, se abandonarmos esses princípios – escreve-se – “se os deixarmos cair, eles desfazem-se em pedaços. / Caminharias sobre os seus cacos durante o resto da vida.” Um texto com vários desafios, que Veras pôs em quadradinhos com inteligência e desenvoltura.


O Homem de Lugar Nenhum, vol. 1

texto: Tiago Barros

desenhos: Fábio Veras

edição: A Seita e Comic Heart, 2021

«Leitor de BD»

quinta-feira, 12 de maio de 2022

de A a Z: P, de Pitanga (Arlindo Fagundes, 1985)



Barbeiro de luxo ao domicílio e motard, eterno cachecol às bolinhas pretas e t-shit de riscas à Pat Metheny, Pitanga, homem de acção que enfrenta criminosos com estilo, é uma das mais carismáticas personagens da BD portuguesa, pese embora a fraca produtividade, apenas com três álbuns publicados.

«Leitor de BD»

quarta-feira, 11 de maio de 2022

o amor salva




Tolstói, conde e anarco-cristão excomungado pela igreja ortodoxa russa, acreditava que o amor salvava, praticava-o e escrevia-o: “Onde está o amor, também está Deus” (1885) é o título de um conto que fez seu, mais conhecido por “A festa de Natal do Avô Panov”. Eça de Queirós, cônsul e casado com a filha de um conde, também anarco-cristão e anticlerical, leitor do grande russo, acreditava igualmente nisso: leia-se, por exemplo, “O suave milagre” (1898). Amor ao outro, aos outros, uma boa ideia suscitada pela leitura desta narrativa em quadrinhos de Marcello Quintanilha (Niterói, 1971).

“Escuta, formosa Márcia” é o título de uma modinha de salão do Brasil imperial, de autor anónimo, que Márcia, protagonista desta história, enfermeira favelada, mãe solteira de um estafermo que dá pelo nome de Jaqueline, mas muito amada por Aluísio, um trolha que “é do bem” e pobre padrasto daquele estrupício, modinha que irá, romântica, adoptar como sua canção: “Escuta formosa Márcia / Tristes ais do teu pastor / São ais que a dar lhe ensinou / O tirano Deus Amor. // Eu nem suspirar sabia / Antes de te conhecer / Mas depois que vi teus olhos / Sei suspirar, sei morrer.”

Entre a favela, o hospital, com passagem por um condomínio privilegiado na zona sul do Rio, a narrativa é a vários títulos notável, desde logo pela empatia que demonstra, sem qualquer dose de maniqueísmo barato e primário, que poderia advir num episódio de vida numa sociedade desgovernada e iníqua, pela desigualdade. Onde estão os bons e os maus? Em todo o lado, certamente. O mal, exercido por pequenos delinquentes que coagem os moradores dos bairros pobres, traz sempre com ele um maior espalhafato (excepto no Carnaval), extensões do polvo organizado que por ali não pára, nem os sicários engravatados que dos seus escritórios nas zonas nobres da cidade exercem verdadeiramente o poder que oprime o povo. Mas no meio daquela selva, em que o ser humano luta para se manter à tona e sobreviver, o Amor pode ser francamente libertador. Pelo menos é o que nos ensina esta formosa Márcia de Quintanilha, cujos olhos doces não desmerecem a sua homónima da canção, que por amor maternal não desiste da desgraçada que pariu, e que há-de ter – presume-se, pois a narrativa é aberta – uma recompensa pela perseverança cuidadora que demonstra. Algo que aprendeu com Aluísio, o trolha.

Viver no Rio de Janeiro, sem ser favelado ou pertencer à bolha privilegiada que se entrincheira em condomínios fechados guardados por seguranças privados, deve ser uma experiência de vida que a classe média desta Lisboa tão amena e luso-tropical terá dificuldade em imaginar. História densa, com diálogos vivíssimos na linguagem de todos os dias e pranchas a abarrotar de vinhetas que acomodam o comércio do quotidiano – família, vizinhos, colegas, clientes, cúmplices, malfeitores e gente de bem – compõem o edifício narrativo desta novela gráfica de cores vivas, com as expressões humaníssimas saídas da mão de Marcello Quintanilha.


Escuta, Formosa Márcia

Texto e desenhos de Marcello Quintanilha

Edição: Polvo, Lisboa, 2021

«Leitor de BD»

quarta-feira, 4 de maio de 2022

de A a Z - S, de (Os) Sobrinhos do Capitão / The Katzenjammer Kids (Rudolph Dirks, 1897)



Considerada a primeira banda desenhada digna desse nome, recorrendo sistematicamente às filacteras de diálogo, fala-nos de uma dupla de miúdos terríveis, Hans e Fritz, de origem alemã, tal como o autor, que se entretêm a fazer a cabeça em água mãe, Dona Chucrutz, e a dois figurões já entrados em idade, o Capitão e o Inspector. A balbúrdia originada pelos dois diabretes atinge proporções épicas. O carisma irresistível das personagens, o exótico do cenário, tornaram-nos apetecíveis para os desenhos animados, realizados em finais da década de 1930 por nomes como Friz Freleng (Porky Pig, Pantera Cor-de-Rosa) ou a dupla Hanna-Barbera (Tom e Jerry, Flintstones).

«Leitor de BD»


terça-feira, 26 de abril de 2022

um super-herói bissexto


Assim de repente, tiras humorísticas nacionais nos jornais, só estamos a ver Luís Afonso, repartindo o talento pela imprensa geral económica e desportiva. Fora isso, alguns clássicos lá de fora,
os Peanuts do Charles Schulz e a Mafalda do Quino, do melhor que já se fez, e Macanudo, do argentino Liniers, série actual e distribuída para vários países pela velha King Features Syndicate (agência que representa dezenas de personagens, do Popeye ao Baby Blues). Mais do que o cartoon, ou mesmo a ilustração, a crise tem sido devastadora, e a internet é um pau de dois bicos: se permite, por um lado, que muitos jovens autores divulguem o seu trabalho sem limites, por outro, a transumância para o online fez com que novos e velhos percam espaço no papel. Se as empresas perdem receitas, uma das primeiras sacrificadas é a tira de BD. Mas, por enquanto, não há melhor que o papel, como se verá a propósito do livro de hoje, Homem Voador, de José Pinto Carneiro e Álvaro, os mesmo autores de No Presépio... (2003)

Certo dia, um funcionário das finanças – cujo nome desconhecemos, mas a quem poderemos chamar Arménio – recolheu um cão que tinha a particularidade de falar. Em sinal de agradecimento, concede a Arménio um desejo, qualquer que ele fosse. Pensando que Zé Manel – assim se chama o cão – estivesse a gozar consigo, pede-lhe que o faça voar. E foi assim que nasceu mais um super-herói dos quadradinhos. Herói sem grandes qualidades, diga-se, pois não serve para muita coisa, a não ser proporcionar diferentes voos à mulher e orientar o trânsito lá em cima, quando não está ocupado a lidar com um drone do Pentágono ou da CIA, exemplos da argúcia daquelas fardas. Apesar de ter tirado uma selfie com o Homem-Aranha, o Homem Voador tem dificuldade em fazer-se aceitar pela confraria dos super-heróis, não obstante máscara, capa e fato a preceito, obrigando-o a biscates pouco dignificantes, o que o leva ao divã do Doutor Freud....

Um anti-herói sem nenhum mérito, mas cheio de potencialidades como este Homem Voador, estreia-se num magro voluminho de 60 páginas e cerca de 100 tiras. Considerando o tempo que medeia entre as mais antigas, datadas de 2012, e as últimas, de 2021, a média que resulta é de dez tiras por ano. Ora Álvaro é um dos nossos melhores e mais prolíficos autores: os três volumes da série Conversas com os Putos – sobre a qual já aqui se escreveu – aí estão para o comprovar. O que não seria desta criatura se os criadores estivessem obrigados a bulir diariamente, oferta houvesse para tal?... É verdade que não há entre nós grande tradição de tiras humorísticas: O Guarda Ricardo, essa grande figura criada por Sam, e mais recentemente José Bandeira, com Cravo & Ferradura. A obrigação quotidiana é o melhor desbloqueador do engenho. E aí está Luís Afonso, sempre fresco e sem mãos a medir...


Homem Voador

textos: José Pinto Carneiro

desenhos: Álvaro

edição: Insónia, São Domingos de Rana, 2021

«Leitor de BD»


quarta-feira, 20 de abril de 2022

de A a Z: Z, de Zig e Puce (Alain Saint-Ogan, 1925)



Clássico da BD francesa e a primeira série franco-belga a usar filacteras, Zig e Puce são dois adolescentes – um esguio, anafado o outro – que vivem peripécias em todos os azimutes: do inevitável espaço sideral à Índia e ao Pólo Norte, onde adoptaram o pinguim Alfred. Saint-Ogan pensou inicialmente que os rapazes iriam comê-lo, mas não teve coragem para sacrificar o boneco, no que fez bem, pois este viria a ser um dos ícones da BD e o primeiro símbolo do Festival de Angoulême. Nas décadas de 60 e 70, Greg, sempre ele, deu-lhes novo fòlego.

«Leitor de BD»


segunda-feira, 18 de abril de 2022

Dylan Dog: primeiro estranha-se...




Dylan Dog, o “detective do pesadelo” criado por Tiziano Sclavi, estreou-se em 1986 com desenhos de Angelo Stano. As particularidades da personagem e as intersecções do policial com o fantástico resultaram num êxito popular, sendo o fumetto (história aos quadradinhos) mais vendido em Itália depois de Tex, adaptado já ao cinema nos Estados Unidos, onde é publicado pela Dark Horse, e traduzido em inúmeros países entre os quais, desde há pouco, Portugal.

Os fumetti nunca lograram entre nós uma popularidade comparável à BD franco-belga, exceptuando os autores que nos chegavam por essa via: Hugo Pratt, Milo Manara, Vittorio Giardino, ou através do circuito alternativo, como Guido Crepax, com excepção feita aos autores Disney – Romano Scarpa e todos os outros – que nos chegavam embrulhados na panóplia multinacional da companhia. Mesmo um grande mestre como Franco Caprioli (1912-1974) teve uma presença modesta por cá. Uma das explicações pode ser a de o público português, pelo menos o que anda pelos 50-60 anos, habituado desde muito cedo a edições a cores – ainda há semanas vimos como as aventuras de Tintin eram coloridas na revista O Papagaio, enquanto que no país de origem saíam a preto e branco –, fosse pouco atreito ao preto e branco. Quem se lembra da “revolta” dos leitores da revista Tintin, quando Vasco Granja passou a publicar o Corto Maltese conforme o original?... Nos dias de hoje, porém, com a grande diversidade de oferta, a conversa será outra.

Dylan Dog (DD), antigo agente da Scotland Yard, dando ares ao actor Rupert Everett, é uma personagem desempoeirada, com algumas excentricidades: tal como Sherlock Holmes toca violino, à espera do seu eureka, também DD se deixa ir enquanto sopra um clarinete. Tem aversão à bebida e ao tabaco, em contrapartida é um sedutor, com uma nova conquista a cada aventura. Na sua caça a zombies e outras criaturas conta com o auxílio de Groucho, também mordomo e parceiro multifunções, sósia de Groucho Marx, piadista contumaz até ao insuportável, e do inspector Bloch, o antigo chefe de DD na polícia.

O Número 200, com texto da milanesa Paola Barbato (1971) e desenhos do já nosso conhecido Bruno Brindisi, no extraordinário Até que a Morte Vos Separe, vai às origens da personagem, ainda na polícia, e ao primeiro caso como detective particular, à relação com Bloch e ao surgimento de Groucho. E ficamos a saber os motivos da aversão a álcoois e fumos, assim como as prováveis causas da pulsão de conquistador instável, entre outras curiosidades, como o surgimento do modelo do galeão que nunca é terminado. Para quem ainda não conhece DD sugerimos sem reservas o já referido Até que a Morte Vos Separe e Trevas Profundas, enquanto esperamos pelo crossover DD / Batman (ou Groucho / Afred; Bloch / Gordon...). Como escreveu um conhecido poeta, a propósito doutras ingestões, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.


Dylan Dog – O Número 200

texto: Paola Barbato

desenhos: Bruno Brindisi

edição: A Seita, Prior Velho, 2021


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quarta-feira, 13 de abril de 2022

de A a Z: Y, de Yellow Kid (Richard F. Outcault, 1894)


De seu nome Mickey Dugan, o rapaz amarelo era um miúdo de um bairro pobre de Nova Iorque, careca, orelhas de abano e traços orientais, que interagia com os habitantes do bairro, bem disposto e a falar em calão. As falas começaram por ser escritas nessa túnica ou camisa de noite que envergava; apenas no ano seguinte à sua aparição, Outcault, dando-lhe protagonismo, inicia a utilização das filacteras, um dos códigos distintivos da banda desenhada.

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sexta-feira, 8 de abril de 2022

das vidas confináveis




Também a BD, a exemplo de outras artes, foi apanhada pelo influxo pandémico, e certamente muito também os autores que por esse vasto mundo não desperdiçaram a oportunidade. Por aqui já passou o catalão Max com o explosivo Manifestamente Anormal, separata de 2020 do jornal A Batalha. No Brasil, Alberto Alpino publicou Diário da Pandemia, em formato e-book; por cá, Nuno Saraiva, Diário de uma Quarentena em Risco (Pim! Edições) e Luís Louro, Os Covidiotas, (Ala dos Livros), que não tivemos o ensejo de ler, ao contrário dos títulos de que falaremos hoje, duas abordagens muito diferentes aos efeitos da Covid-19 no quotidiano.

Os Quarentugas – Testemunhos de Loucura Pandémica, textos de André Oliveira (Lisboa, 1982) e desenhos de Pedro Carvalho (Barcelos, 1978), é uma série de tiras humorísticas muito bem esgalhadas sobre os cromos do confinamento: do Júlio da Brandoa, solteirão e desempregado, até ao Pai Natal – gravemente prejudicado no fabrico de brinquedos, pela interrupção das cadeias de abastecimento –, vários heróis dos quadradinhos, personagens do cinema e dos jogos de computador, e principalmente gente comum, uma forma de os autores se rirem de nós todos, inclusive de si mesmos e também do vizinho de Oliveira, que aproveitou a quarentena para fazer obras no apartamento... Batman confinado em casa de uma tia, em Paderne; o Super-Homem, isolado em Paio Pires, a passar o tempo à janela, usando a visão raio-x para para práticas pouco ortodoxas; o perfil de risco do asmático Darth Vader; o Incrível Hulk partilhando o lar com dois trolhas no Barreiro Velho. Até os marcianos de A Guerra dos Mundos tiveram de abortar o plano de nova invasão, por causa da Covid, aguardando instruções numa pensão de duas estrelas em Figueiró dos Vinhos... Episódios impagáveis: a Maria do Carmo, de Bicesse, com os oito filhos num T2 e o marido a monte; Virgílio Matos, “analista informático residente num T3 com boas áreas em Abrantes”, sempre preocupado com o arfar asmático da mulher; as delícias da família Moreira, do Carregado, no primeiro almoço de domingo, sem máscara, entre muito outras estórias da loucura normal.

De uma muito jovem autora, Ana Margarida Matos (1999), Hoje Não (bom título), vencedora do concurso “Toma lá 500 paus e faz uma BD!”, da Associação Chili com Carne. Trata-se de um livro que cumpre pela metade, entre o forte e o fraco. O melhor é o conceito: regra geral, uma prancha, como se folha de calendário se tratasse, rematada na maior parte por um texto breve em rodapé; umas vezes tomando a forma de um template, outras avançando para a dupla página, ou alterando o sentido da visualização. Os ensaios de auto-retrato ou o hiperpreenchimento da página, dando a ideia da restrição rotineira da vida num pequeno espaço, são outros bons momentos desta narrativa por imagens e texto. É aqui, porém, que as coisas se complicam: impregnadíssimo pelo ar do tempo – seria estranho se assim não fosse –, e pela ausência de referências; apenas má televisão, de que é crítica, mas não chega. Melhor quando se projecta no que está fora: o rapaz imigrante do metro, o vizinho que passeia o cão. Há, no entanto, personalidade e substância – o resto virá com o tempo.

Os Quarentugas – Testemunhos de Loucura Pandémica

texto: André Oliveira

desenhos: Pedro Carvalho

edição: Polvo, Lisboa, 2021


Hoje Não

texto e desenhos: Ana Margarida Matos

edição: Chili com Carne, Cascais, 2021

«Leitor de BD»

quinta-feira, 7 de abril de 2022

de A a Z: X, de XIII ( Jean Van Hamme e William Vance, 1984)



Um homem aparece inanimado numa praia, sendo recolhido por um casal de idosos. Amnésico, não sabe quem é; apenas um XIII tatuado num braço poderá servir como referência. História de um perseguido, trata-se da crème de la crème da BD belga.

«Leitor de BD»

terça-feira, 5 de abril de 2022

Tintin em Portugal


Da exposição sobre Hergé (nome artístico de Georges Remi, 1907-1983), que esteve patente na Fundação Gulbenkian, fica um catálogo, que é basicamente um roteiro da mesma, concebido pelas Éditions Moulinsart, no formato de um álbum de Tintin. Inclui um texto de apresentação de Guilherme d'Oliveira Martins – aliás, um reconhecido bedéfilo – e, como bónus, um outro livro, coordenado por António Cabral, precioso pelas informações que compila a respeito da presença das personagens do autor belga no nosso país e, principalmente, pela documentação que reproduz, cremos que inédita: um desenho original e correspondência.

Quanto ao original, destacado na capa, um bacalhau entre Tintin e Oliveira da Figueira, orgulho dos portugueses no mundo de Hergé, que ainda nos presenteou com um anónimo jornalista do Diário de Lisboa, em Tintin no Congo, e o Prof. Pedro João dos Santos, da Universidade de Coimbra, um dos cientistas da expedição de cientistas de A Estrela Misteriosa. Este desenho foi motivado por uma visita de Francisco Hipólito Raposo e Pedro Emauz Silva aos Estúdios Hergé, em 1958. Na ausência do autor, deixaram um cartão de visita impresso, em que se lia: “SENHOR/ OLIVEIRA DA FIGUEIRA / (ANTIQUAIRE, BIJOUTIER ET BRIC-À-BRAC) / LISBOA / AFRIQUE DU NORD”. Mais tarde, Hergé enviará uma reconhecida carta de agradecimento e este desenho com a dedicatória aos seus amigos fiéis em Portugal – tal como “Tintin a pour fidèle dans le monde, le Senhor Oliveira da Figueira”...

Muito interessante é o resgate da figura do Padre Abel Varzim (1902-1964), o primeiro tintinófilo português e o responsável por o nosso país ter sido tambném o primeiro não-francófono em que as aventuras de Tintin se publicaram – em 1936, nas páginas de O Papagaio, revista dirigida por Adolfo Simões Müller, propriedade da Igreja – e pioneiro na colorização das histórias. Doutorando na Universidade de Lovaina e assinante do Vingtième Siécle, em cujo suplemento infantil se publicavam as aventuras do jovem repórter, entrou em contacto com Hergé por intermédio do jornal. A reacção deste aos primeiros exemplares publicados na revista portuguesa, foi ambivalente. Numa carta muito cordata, chamava a atenção para a supressão de vinhetas, truncando a narrativa, mas mostrava-se entusiasmado com a circunstância de ter as sua personagens coloridas: “estou encantado por ver aparecer os meus desenhos a cores.” Informa-nos António Cabral que enquanto O Papagaio publicou Tintin, a colorização foi sempre feita cá, mesmo quando os álbuns da Casterman já continham a cor original. Outros assuntos nos traz esta correspondência, como o conhecido episódio do pagamento em géneros, durante a ocupação da Bélgica na II Guerra, e o conflito entre Varzim e Simões Müller, quando este, despedido de O Papagaio, funda O Diabrete, pretendendo levar consigo Tim-Tim – como então era grafado – e as restantes personagens, que entre nós se estrearam com nomes (e sexo) diferentes: a cadela Rom-Rom (!), o Capitão Rosa, (Professor) Pintadinho de Fresco e os inefáveis X33 e X33 aspas aspas...


Hergé em Portugal

autor: António Cabral et alii

edição: Fundação Calouiste Gulbenkian, e Éditions Moulinsart, Lisboa, 2021


«Leitor de BD»

sexta-feira, 1 de abril de 2022

de A a Z: W, de Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons, 1986)



Um passo em frente no universo dos comics. Num mundo paralelo, em que os Estados Unidos ganharam a Guerra do Vietname, Nixon continua presidente e um conflito com a União Soviética está iminente, os super-heróis tornaram-se indesejáveis. Há porém um grupo que vive numa semiclandestinidade, não só em torno de memórias do passado como de pendências e contas a ajustar.

«Leitor de BD»