
Se a
memória não atraiçoa, o nosso primeiro contacto com Hermann deu-se nas páginas
da revista Tintin, com a série Jugurtha, com argumento de
Jean-Luc Vernal, a desenrolar-se na Antiguidade. Mas foi na companhia de Greg que Hermann constituiu uma das
duplas míticas da BD franco-belga, em torno da pura aventura de Bernard
Prince e de Comanche, uma mulher cheia de fibra, dona do rancho
«Triplo 6», western que foi uma
excelente resposta do semanário belga ao concorrente francês Pilote,
casa do Tenente Blueberry (Fort Navajo). Desfeita a dupla, Hermann
avança por outros territórios ficcionais, de Jeremiah, fábula
pós-nuclear, ao ciclo medieval de As Torres de Bois-Maury, além de
vários one-shot (histórias publicadas num único álbum, sem sequência).
Há uns
bons anos que Hermann tem em Yves H. um argumentista à altura do seu talento.
Com Duke, o livro de que hoje nos ocupamos, esta colaboração pai-filho
avança com uma série pensada de raiz, de que saíram já três tomos, todos
publicados entre nós: A Lama e o Sangue, Aquele que Mata e Sou
uma Sombra, editado este ano.
E quem é
este “Duke”? Ao terceiro álbum ainda estamos a descobrir, aliás na companhia da
própria personagem, Morgan Finch, de seu nome cristão, ex-adjunto do xerife da
pequena cidade de Ogden, Colorado. Aqui quem manda é um potentado da mineração,
com recursos financeiros, poder de fogo e sicários arregimentados para fazer
valer os seus interesses contra os dos proprietários fundiários e reduzir a
autoridade do estado a mero pró-forma. Esta situação obriga Duke – menos contemporizador e mais jovem que o
xerife, um hesitante – a afastar-se desse papel decorativo, o que só lhe trará
problemas. Para simplificar diremos que
se trata de um pistoleiro que não gosta da violência das armas – ou julga não gostar. É
esta densidade ambivalente o maior trunfo da série no que ao argumento
respeita, além de tratar-se de uma narrativa passada no oeste americano, topo
com o melhor lugar cativo do nosso imaginário.
Sobre a
arte de Hermann, o que escrever sem repisar os encómios? Atente-se na capa, um
cowboy solitário na sua montada, de arma na mão, uma sombra no meio da noite de
intempérie; no interior, os planos aguarelados da paisagem, a finura psicológica
no tratamento das expressões, o grotesco por vezes quase simiesco dos corpos,
em contraste com a beleza dos cavalos, o realismo dos trajes e dos edifícios.
Veja-se a prancha 37 (pág. 39): dez vinhetas de tensão ao luar sem uma palavra.
Mestria. É verdade: os grandes mestres nunca desiludem.
Duke – Sou uma Sombra
texto: Yves H.
desenhos Hermann
edição: Arte de Autor, Estoril, 2019
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