A Planeta Tangerina é uma das editoras mais criativas e agradáveis no trabalho editorial destinado à infância e juventude. É ao segundo segmento que se destina a novela gráfica Desvio, com texto de Ana Pessoa e desenhos de Bernardo P. Carvalho, em que se abordam encruzilhadas da adolescência. Uma incursão da casa na BD, espera-se que para prosseguir.
domingo, 30 de agosto de 2020
«Os Passageiros do Vento»
Série épica passada
no século XVIII, combinando, no estilo único do autor, François
Bourgeon, a aventura marítima, o comércio esclavagista, e um
erotismo que era ousado em finais da década de 1970 para uma BD de
largo público, A Ala dos Livros publica o oitavo álbum, o primeiro
tomo de O Sangue das Cerejas,
originalmente saído em 2018. Estamos no século seguinte, e a
protagonista já não é Isa, mas uma sua bisneta.
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
"Boca de Sapo"
BD
franco-belga e automóveis de época é uma mistura irresistível. A Pacquet,
editora de Genebra, publica a série Brian Bones, detective privado, e o enfoque
do quarto tomo incide no glorioso Citroën DS, o conhecido “Boca de Sapo”,
obra-prima conjunta do designer italiano Flaminio Bertoni e do engenheiro
aeronáutico francês André Lefébvre. Argumento de Rodolphe e desenhos de Georges
Van Linthout, põem Brian Bones a escoltar um modelo experimental, movido a suco
de beterraba, prevenindo os golpes baixos do lóbi do petróleo.
segunda-feira, 3 de agosto de 2020
O Reizinho
Os
monarcas que perduram no imaginário são os que passaram das
medidas, sejam eles reais, de ficção ou mistos: Artur e a Távola
Redonda, em Camelot; Lear, o louco que não reconheceu o (des)amor
das filhas; Ivan o Terrível, na génese da Rússia de hoje; o
Rei-Sol, que amansou as feras domésticas ensinando-lhes etiqueta. E
que dizer de Afonso Henriques, ou Pedro I?…
O rei bonacheirão
é mais raro. À memória ocorre de imediato o nosso D. Luís, “o
Bom” ou “o Popular”, como ficou para a História, deixando
correr o marfim da Regeneração, degenerando-se em “Rotativismo”,
enquanto, na Cidadela de Cascais, traduzia Shakespeare (muito bem, ao
contrário das más-línguas jacobinas) e tocava o seu violoncelo em
trios e quartetos, muito mal, de acordo com a benevolência do médico
da Cãmara real: “Senhor, é o quarteto mais ocidental da
Europa!...”, não ousando outro qualificativo para elogiar… É
claro que quem veio a pagar as favas foi o filho Carlos, contas,
porém, doutro rosário.
Muitos reis há na
BD, porém, talvez de nenhum emane tanto carisma quanto deste The
Little King – O
Reizinho, na acertada versão do
Brasil, país em que teve grande sucesso, com direito a revista
própria e a uma rábula nele inspirada, interpretada por Jô Soares.
Criado por Otto Soglow (1900-1975), nascido num bairro modesto de
Manhattan, a personagem a que deu asas é uma caricatura medieval em
tempos modernos – em que dragões e castelos coexistem com uma real
esquadrilha aérea –, com insígnias indispensáveis à majestade:
o manto com gola de arminho, a coroa – que José Sobral, autor da
introdução ao livro de hoje, compara a um cone de gelado invertido
–, coroa futurista que não tira nem para dormir, e uma barba
obstinada. Ceptro não tem, mais provável será segurar numa das
mãos um papagaio de papel ou um chupa. Baixote, rotundo, é atento
ao bem-estar dos súbditos, em especial vagabundos, mas sabe quais
são as sua prerrogativas. Em mais de 40 anos de reinado –
estreou-se na New Yorker
em 1931, findou quando morreu o autor –, toda a sua facúndia era
gestual, nas situações bem exploradas por Soglow em traços tão
sumários quanto expressivos. Este, que era um bem disposto, transpôs
o humor inato para a criatura que lhe deu fama e sustento, depois de
um curso de desenho por correspondência, pensando provavelmente nas
suas personagens preferidas: Little Nemo, de Winsor McCay e Panfúcio
/ Bringing Up Father,
no original, de George McManus, de quem já aqui falámos. E nestes
dois extremos, entre o onírico e o grotesco, construiu Otto Soglow
um pequeno universo (rainha, ministros, lacaios, cidadãos...) que
provoca a gargalhada franca ou um sorriso irónico e pensativo.
Uma coisa é certa,
leitores: haja o que houver, o Reizinho não se deixa manietar pela
chatice da realidade. Um exemplo.
O
Reizinho – Sua Majestade o Humor
texto e desenhos:
Otto Soglow
edição: Opera
Graphica, 2004.
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domingo, 2 de agosto de 2020
imortalidade
Dos
autores argentinos Diego Agrimbau (texto) e Pietro (desenhos),
Cieloalto é
uma cidade situada numa enorme ponte, cujo tabuleiro está a centenas
de metros do solo. Os habitantes são imortais, e envelhecem ou
rejuvenescem consoante a área da cidade para onde se desloquem. E,
claro, devem estar confinados àquele perímetro urbano, para que a
imortalidade não se vá. Mas a humanidade não se esgota na cidade;
existem também os mortais, no fundo outra espécie,
com a qual, os primeiros têm de relacionar-se. Um álbum suculento,
publicado pela Grafito, Valencia, 2020.
quinta-feira, 30 de julho de 2020
Casty
Pseudónimo
de Andrea Castellan é um dos grandes autores actuais da BD Disney em
Itália, nomeadamente das histórias do Mickey, a que veio dar um
novo fôlego. A Panini Brasil editou A
Ilha de Quandomai,
história clássica de naufrágio e chegada a uma ilha ausente
dos mapas, com todas as promessas de aventura que encerra.
quarta-feira, 29 de julho de 2020
vida e morte
Uma
das qualidades de Maurício de Sousa é a forma com que desde cedo
abordou assuntos
não evidentes para o público infanto-juvenil a que se destinava.
Penadinho e a turma do cemitério é um desses exemplos de humor bem
conseguido, abordando um tema pesado. Na colecção Graphic MSP,
também da Panini, a dupla Paulo Crumbim e Cristina Eiko reescreve
este mundo fantasma, num livro intitulado Vida.
terça-feira, 28 de julho de 2020
um dia de fúria
Do Extremo-Oriente à Europa, o vírus foi mais rápido
a chegar que as pulgas no lombo dos ratos da Peste Negra. Em Itália,
caixões amontoados, médicos e enfermeiros esgotados; logo depois, a
Espanha, razia nos lares; por cá, toda a gente em casa ainda antes
de o Governo mandar. Só foi bom para os cães, nunca antes tão
passeados; havia quem os tivesse para alugar àqueles que legalmente
queriam desconfinar sem ter a polícia à perna.
Pelas páginas de A
Batalha, “jornal de expressão
anarquista” fundado há um século, chega-nos um encarte para
dobrar e montar com uma BD de Max (Barcelona, 1956), um do nomes mais
destacados da BD espanhola, desde os tempos do fanzine underground
fotocopiado ao reconhecimento do Poder, atribuindo-lhe o primeiro
Premio Nacional de Cómic, em 2007. Um luxo, portanto.
Desgastado,
à terceira semana o autor amarrou a paciência diante da televisão
e dos conteúdos gratuitos da internet e apresentou um panfleto
e catarse sobre o efeito que
estes dias desgraçados tiveram sobre si, desabafo “escrito
depressa e mal em Abril de 2020, durante o Confinamento”.
Manifestamente
Anormal transmite-nos toda a
fúria duma personagem que se supõe ser alter ego de Max, e ninguém
escapa: a começar pelo rei até aos reles concidadãos que deixavam
bilhetes à porta da casa do vizinho profissional de saúde, para que
se pusesse ao largo, depois de vir do trabalho onde arriscava a vida
para salvar as dos outros; ou ainda os prestimosos denunciantes de
varanda, que, após palminhas dirigidas aos heróicos médicos e
enfermeiros (que certamente viviam noutro prédio), telefonavam à
polícia apontando este e aquele que andavam na rua ilegalmente.
Manifesto desapiedado contra a anormalidade do tempo pandémico,
cáustico e vociferante com os que se iam esquecendo de ser pessoas
para se transformarem em bichos acossados pelo medo.
O desenho
minimalista é de grande eficácia e a “mensagem” acerta em cheio
no alvo: nós, os confinantes até nova ordem de soltura,
enchendo-nos de doestos e pontapés no traseiro, para que não nos
esqueçamos que estar engaiolado é mais próprio de animais de
capoeira.
Mas como a
liberdade dos outros é pelo menos tão preciosa quanto a nossa –
em especial a liberdade de poder andar livremente na rua sem que um
desmascarado inconsciente nos faça a doação das suas gotículas,
enviando-nos directamente para o cemItério, que fazer?, perguntamos.
O nosso herói
esgotado de tanto vociferar, fica-se desapontado pelo alvéolo que
lhe serve de habitação, e adormece.
Manifestamente
Anormal
texto e desenhos:
Max
encarte de A
Batalha #288-289
Lisboa, Centro de
Estudos Libertários, Mar/Jun 2020
segunda-feira, 27 de julho de 2020
errância
Théo é um jovem
marinheiro do porta-helicópteros “Jeanne d’Arc”, com a paixão
do mar e o apelo da viagem. R97 é o registo da embarcação, mas os
habitantes de Brest, onde se situa a base naval que o acolhe
chamam-lhe “La Jeanne”. O grumete foi influenciado pela leitura
de Robert Louis Stevenson, Herman Melville e Joseph Conrad, e anseia
por vencer os oceanos, atingir outros portos, outros cheiros, outras
cores. Mas o próprio navio é um microcosmos em si, daí o título
principal deste romance gráfico editado na colecção “Air Libre”
da Dupuis, com texto de Bernard Giraudeaux e desenhos de Christian
Cailleaux: R97 – Les
Hommes de la Terre,
Marcinelle, 2020.
domingo, 26 de julho de 2020
armadilha no Mar Vermelho
Escritora
e jornalista inglesa, Renée Stone desloca-se à Etiópia em Outubro
de 1930, para fazer a reportagem da coroação do imperador Hailé
Selassié. Na velha Abissínia conhecerá um arqueólogo John
Mallowan, tão voluntarioso quanto desajeitado, formando um duo
demasiado curioso e original para passar incólume num mundo à beira
da extinção, pelos interesses contraditórios das grandes
potências. No segundo tomo, texto de Julie Birmant e desenhos de
Clément Oubrerie, uma tabuinha de argila com inscrições do rei
assírio Assurbanípal, detentor da maior biblioteca da antiga
Mesopotâmia, levam-nos à velha Nínive. Edição Dargaud, Paris,
2020.
sexta-feira, 24 de julho de 2020
«A Lei do Trabuco e do Punhal»
Um
país que sobrevive às razias que Portugal sofreu em boa parte do
século XIX, aguenta tudo, incluindo troikas e covides. Vejamos: três
invasões francesas, retirada estratégica da corte para o Brasil,
regência britânica, revolução constitucional, guerra civil
devastadora entre liberais e absolutistas, 3-Constituições-3,
ingerência externa armada, as estradas do país tomados de assalto
do Minho ao Algarve – do Remexido à Maria da Fonte e Padre
Casimiro...
É neste período
dramático e fascinante, em que era mais seguro viajar de Lisboa ao
Porto por mar que por terra, o tempo de Garrett e Herculano, que se
situa a acção de Mataram-no Duas Vezes
(1987), primeiro álbum da projectada série A Lei do
Trabuco e do Punhal,
infelizmente sem continuidade, com texto de Luís Avelar (n. 1955) e
desenhos de Pedro Massano (Lisboa, 1948).
O território é o
interior beirão, Avô, Benfeita, Midões – nomes que hoje só
dizem algo a poucos mais que aos que lá vivem, terras de Oliveira do
Hospital, Arganil, Tábua... e a personagem central é João Brandão
(1825-1880), o “régulo” ou “o terror das Beiras”, misto de
bandoleiro e político, um cacique dentro e fora da lei.
O álbum dá-nos um
bom enquadramento histórico inicial, sequenciado por três
narrativas em que o pretexto é a caça a João Nunes, o Ferreiro,
aquele que virá a morrer “duas vezes”, inimigo jurado, pessoal e
“político” – passe o exagero de atribuir qualquer desígnio
político à cacicagem – deste salteador letrado, que permaneceu no
imaginário popular.
Se
não se trata de uma obra-prima, Mataram-nos Duas Vezes
é uma assinalável realização da BD portuguesa. Ao contrário do
que se via em muitas das suas congéneres, a informação histórica
prestada ao leitor não é metida a martelo na boca das personagens,
soando tantas vezes a falso, mas assumidamente fornecida através de
asteriscos ou em vinhetas próprias para o efeito. Se o trabalho de
Pedro Massano respeitante às fisionomias nem sempre nos agrada, é
notável o tratamento dado a cada prancha, com planos visualmente
muito fortes e um saudável desrespeito pelos limites das vinhetas.
Lembrando
uma carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins, entusiasmado após
a leitura de Os Filhos de D. João I (1891),
exortando o historiador a pegar nas incontáveis personagens sedentas
de biografia e outras abordagens que povoam o nosso passado, este
podia e pode ser um dos caminhos para os quadradinhos portugueses.
Uma das pranchas mais notáveis é a que identifica, desfilando a
cavalo, os sicários de João Brandão: o Juliana, a ferocidade em
forma de homem; o Gralha, fala-barato, sempre com um corvo ao ombro;
o Anjinho, alcunha apropriada para um violador; o Palaio, muito
religioso, benzia-se antes de matar; o Venta Larga, feio como o nome,
mas de tiro certeiro; o Faca de Mato, sempre munido dum cutelo de
magarefe, com que extirpava quem lhe fizesse frente. Criaturas que só
esperam um argumentista à Charlier ou à Dorison que os venha
chamar do Inferno, o seu habitat natural.
A
Lei do Trabuco e do Punhal – Mataram-no Duas Vezes
texto: Luís
Avelar
desenhos: Pedro
Massano
edição:
Europress, Odivelas, 1987
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quinta-feira, 23 de julho de 2020
Léonard
Uma
paródia a Leonardo da Vinci esta série criada em 1975 por Turk e de
Groot. As invenções são múltiplas algumas inesperadas, como
sucedia com as do próprio Leonardo. A dupla Turk & de Groot,
vinda desde o início dos anos 70 com o genial Robin Dubois (ou Robin
da Mata, entre nós) desfez-se e desde 2016 que é Zidrou a assegurar
os argumentos. Neste 51.º álbum, Léonard inventa… o crime
organizado. Léonard
– Génie du Crime,
Le Lombard, Bruxelas, 2020.
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quarta-feira, 22 de julho de 2020
o melhor amigo do cão
O
autor espanhol José Fonollosa é voluntário numa associação de
abrigo e protecção canina. A experiência de cuidar destes animais
carentes é-nos dado num álbum ternurento e de traço suave.
Refugio,
Grafito Editorial, Valência, 2020.
segunda-feira, 20 de julho de 2020
a nossa companheira morte
À
morte, o melhor será olhá-la de esguelha, pois sabemos que ela está
sempre por perto, à espera, à espreita. E esse olhar convém que
seja gelidamente irónico. L. L. de Mars, suíço, também escritor e
ilustrador, publica uma série de tiras que a mostra na faina diária
junto dos mais ou menos incautos. Com humor, como podemos ver na
capa, fazendo uma selfie junto a uma das suas telas preferidas, A
Ilha dos Mortos (1880)
do também suíço Arnold Böcklin.
um amor à face da exclusão
“Favela”:
sabemos o que é, mas não a origem da palavra... O Morro da
Providência, também conhecido por Morro da Favela é a mais antiga
aglomeração do género no Rio de Janeiro, iniciado por veteranos da
Guerra de Canudos, a quem foram prometidas casas quando regressassem
das operações. Fartos de esperar, ocuparam uma elevação no local
da Providência, lembrando o morro da Bahia – onde vicejava a
favela, tipo de arbusto endémico –, de onde faziam pontaria aos
homens de Antônio Conselheiro, “profeta” milenarista que
sublevou os miseráveis da região, dando origem às campanhas de
Canudos, descrita numa obra-prima da nossa língua, Os Sertões
(1902), de Euclides da Cunha, e também motivo do extraordinário
romance de Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo
(1981).
Morro da Favela,
de André Diniz, agora em segunda edição portuguesa, aumentada, é
a quadrinização (palavra horrível) do relato autobiográfico do
fotógrafo Maurício Hora (1968), nado e criado no morro, filho de um
bicheiro tornado um dos primeiros traficantes de maconha do local,
que, após duas prisões, decide poupar-se e à família, passando a
trabalhar na estiva. De acordo com os critérios de hoje, Maurício
cresceu numa família disfuncional. Pai pouco dado a rotinas, mas
sempre presente quando não estava preso, mãe com episódios
esquizóides, irmãos, além dos avós, referências de estabilidade.
O que Maurício Hora transmite através dos quadrinhos de André
Diniz, traduz-se, por paradoxal que pareça, numa certa felicidade,
uma nostalgia por esse país da infância,
em que o amor existia, apesar dos crimes, do medo, em particular da
polícia, boa parte comportando-se como bandidos com farda e melhor
armados. Acima de tudo, Maurício veicula uma grande empatia, sempre
vizinha do amor, que preenche também o coração de Maurício –
demonstra-o o fotógrafo e o activista sócio-cultural. Na Favela há
gente como todas as outras, gente boa e de trabalho, quantas vezes
alvo da violência do Estado, ou capturadas pelo tráfico, que ali
dita a lei; e há sobretudo uma invisibilidade para quem vive no
asfalto, junto à linha de costa, circunstância que o fotógrafo tem
vindo a contrariar, como artista e dinamizador social, procurando dar
voz a quem a não tem.
Se a matéria de
que se faz esta narrativa – o depoimento de Maurício Hora – é
só por si de primeira grandeza, que dizer do trabalho de André
Diniz? Em primeiro lugar a estrutura narrativa disposta como uma
espécie de romance de formação. Do ponto de vista gráfico, a
opção pelo fundo negro realça as linhas dos desenhos, os espaços
em branco, as notáveis expressões das figuras, integralmente num
preto e branco que nos faz colar os olhos às páginas, um percurso
que termina com uma única vinheta colorida, o sorriso de Dona
Iracema e o lado bom e fraterno da entreajuda em comunidade.
André Diniz e
Maurício Hora pertencem àquela família de artistas cuja estética
é servida por uma ética. O mundo é demasiado interessante na sua
complexidade para confinar-se aos arredores do umbigo.
Morro
da Favela
texto e desenhos:
André Diniz
fotografias:
Maurício Hora e
Augusto Malta /
Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
2.ª edição,
Polvo, Lisboa, 2020
sexta-feira, 17 de julho de 2020
The Lisbon Studios Series
Vários
autores que integram o colectivo The Lisbon Studios associaram-se em
álbuns sujeitos a mote. Depois de Cidades,
Silêncio
e Viagens,
vem agora a lume o quarto título, sobre as Raízes.
“Onde estão as raízes de cada um? No passado, nas memórias? Num
sítio? Numa família ou grupo? Em que se enraízam as palavras e
imagens?”– lê-se no press
release.
Autores: Ana Branco, Bárbara Lopes, Filipe Andrade, Marta Teives,
Nuno Saraiva, Pedro Moura, Quico Nogueira e Ricardo Cabral; prefácios
de André Diniz e Patrícia Furtado. Edição: A Seita, Lisboa, 2020.
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Marta Teives,
Nuno Saraiva,
Patrícia Furtado,
Pedro Moura,
Quico Nogueira,
Ricardo Cabral
quarta-feira, 15 de julho de 2020
30 anos de História com Spirou
Depois
de números consagrados a Uderzo e a Morris, a publicação Historia
BD
#3 dedica as suas páginas a Franquin, passando em revista o tempo e
os tempos que acompanharam o genial autor belga, no período em que
se dedicou às histórias do groom do Hotel Moustique: Spirou
par Franquin et les Trente Glorieuses – 1945-1975,
Paris, Julho de 2020.
terça-feira, 14 de julho de 2020
Schtroumpfs
Com
argumento de Alain Jost e Thierry Culliford (filho de Peyo), desenhos
de Miguel Díaz Vizoso e cores de Nina Culliford, os Schtroumpfs
chegaram ao 38.º álbum. Quando têm de deslocar-se a paragens
longínquas, estes pequenos seres azuis da floresta dispõem de
linhas áreas próprias para o efeito: as cegonhas… Após uma
visita ao mago Homnibus, por ocasião do seu aniversário, algo
sucedeu quando se preparavam para regressar. Les
Schtroumpfs et le Vol des Cigognes,
Le Lombard, Bruxelas, 2020.
segunda-feira, 13 de julho de 2020
«Kim Kebranoz e os Táxis Vemelhos»
“Bento
Torceferro” poderia seu uma tradução literal do nome da
personagem de hoje, Benoît Brisefer;
porém, o tradutor optou pelo mais sonante “Kim Kebranoz”, e está
certo. “Torce” ou “quebra”, porque o nosso herói, apesar de
miúdo educado e gentil, muito atilado em sua indumentária, calções
pretos, casaco vermelho, cachecol e boina basca de que nunca se
separa, é um inusitado detentor de superpoderes. Mais forte que
Sansão, mais rápido que o Flash da DC, pulmão tão devastador
quanto o de Éolo, deus dos Ventos, salta, quase em voo, como se
usasse botas de sete léguas. Apesar de nunca ter crescido, desde que
em 1960 apareceu nas páginas da revista Spirou,
julgamo-lo também imortal, como o Super-Homem, tendo também o seu
calcanhar de Aquiles, não a kryptonite, mas o vírus da gripe, pois
quando se constipa, Kim Kebranoz volta a ser uma criança igual às
outras; mas ao contrário dos super-heróis, não faz questão de ter
identidade secreta, só que o seu melhor amigo e companheiro de
aventuras, o Sr. Vicente, velho taxista e ex-músico de jazz, nunca
presencia os feitos do rapaz, atribuindo-lhe os relatos à imaginação
fértil.
O
autor é Pierre Culliford (1928-1992), mais conhecido por Peyo, já
então autor da bela série medieval humorística Johan et
Pirlouit, de onde surgirão os
Schtroumpfs, – duns
e doutros também aqui falaremos. Assoberbado pelos compromissos com
várias séries a cargo, irá socorrer-se do seu camarada Will (Willy
Maltaite, 1927-2000), desenhador da série Tif et Tondu,
que se encarregou dos cenários, em particular dos edifícios, ruas e
jardins da Vila Girassol (Vivejoie-la-Grande, no original).
Em Kim Kebranoz
e os Táxis Vermelhos, primeiro titulo, uma moderna empresa de
rádio-táxis instala-se na localidade. O negócio é porém uma
fachada para um golpe épico sobre os bancos e demais comércio de
valores da Vila Girassol, além de arruinarem o pobre do Sr. Vicente
com concorrência desleal e sabotagem. O plano seria perfeito, mas
não contavam com o fenómeno Kim Kebranoz – ele bem tentara avisar
os adultos, que obviamente não lhe ligaram nenhuma –, que porá
todos os grãos de areia na engrenagem, conseguindo ainda, pelo meio
de todas peripécias, fazer-se raptar, indo parar a uma ilha, quase
deserta, do outro lado do Atlântico.
Um
álbum infanto-juvenil na sua génese, hoje irresistível para a
faixa de “todas as idades”, ou “dos 7 aos 77”, para citar o
semanário rival... O talento de Peyo, o dinamismo das vinhetas,
sulcando e desarrumando o alinhamento clássico em prancha é bom de
se ver, a que devemos acrescentar a destreza narrativa “folhetinesca”
da história em continuação, ao longo dos meses em que se foi
publicando, cada semana terminando em suspense
ou com um gag.
Acrescente-se
a curiosidade de esta edição portuguesa, de 1962, com a chancela da
União Gráfica, editora ligada à Igreja Católica, ocorrer no mesmo
ano da publicação do original na Bélgica, pela Dupuis.
Kim
Kebranoz e os Táxis Vermelhos
Texto: Peyo
Desenhos: Peyo e
Will
Edição: União
Gráfica, Lisboa, 1962
sexta-feira, 10 de julho de 2020
Louro & Simões
Na
década de 1980, num meio editorial quase desértico a Editorial
Futura, sempre pela mão diligente e culta de Jorge Magalhães,
trazia aos quadradinhos portugueses uma das suas personagens
humorísticas mais emblemáticas: Jim del Mónaco, da autoria de uma
dupla que só por esta série ficará na história: Luís Louro e
Tozé Simões. Louro, entretanto, empreendeu um percurso
profissional, sendo um dos mais destacados autores da actualidade.
Anuncia-se agora a recolha doutras história da dupla, dispersas por
antigas publicações, com o humor mordaz que era seu apanágio.
Universo Negro,
edição Escorpião Azul, 2020.
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