domingo, 30 de agosto de 2020

tangerina

A Planeta Tangerina é uma das editoras mais criativas e agradáveis no trabalho editorial destinado à infância e juventude. É ao segundo segmento que se destina a novela gráfica Desvio, com texto de Ana Pessoa e desenhos de Bernardo P. Carvalho, em que se abordam encruzilhadas da adolescência. Uma incursão da casa na BD, espera-se que para prosseguir.

«Os Passageiros do Vento»

Série épica passada no século XVIII, combinando, no estilo único do autor, François Bourgeon, a aventura marítima, o comércio esclavagista, e um erotismo que era ousado em finais da década de 1970 para uma BD de largo público, A Ala dos Livros publica o oitavo álbum, o primeiro tomo de O Sangue das Cerejas, originalmente saído em 2018. Estamos no século seguinte, e a protagonista já não é Isa, mas uma sua bisneta.


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"Boca de Sapo"

BD franco-belga e automóveis de época é uma mistura irresistível. A Pacquet, editora de Genebra, publica a série Brian Bones, detective privado, e o enfoque do quarto tomo incide no glorioso Citroën DS, o conhecido “Boca de Sapo”, obra-prima conjunta do designer italiano Flaminio Bertoni e do engenheiro aeronáutico francês André Lefébvre. Argumento de Rodolphe e desenhos de Georges Van Linthout, põem Brian Bones a escoltar um modelo experimental, movido a suco de beterraba, prevenindo os golpes baixos do lóbi do petróleo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O Reizinho

Os monarcas que perduram no imaginário são os que passaram das medidas, sejam eles reais, de ficção ou mistos: Artur e a Távola Redonda, em Camelot; Lear, o louco que não reconheceu o (des)amor das filhas; Ivan o Terrível, na génese da Rússia de hoje; o Rei-Sol, que amansou as feras domésticas ensinando-lhes etiqueta. E que dizer de Afonso Henriques, ou Pedro I?…
O rei bonacheirão é mais raro. À memória ocorre de imediato o nosso D. Luís, “o Bom” ou “o Popular”, como ficou para a História, deixando correr o marfim da Regeneração, degenerando-se em “Rotativismo”, enquanto, na Cidadela de Cascais, traduzia Shakespeare (muito bem, ao contrário das más-línguas jacobinas) e tocava o seu violoncelo em trios e quartetos, muito mal, de acordo com a benevolência do médico da Cãmara real: “Senhor, é o quarteto mais ocidental da Europa!...”, não ousando outro qualificativo para elogiar… É claro que quem veio a pagar as favas foi o filho Carlos, contas, porém, doutro rosário.
Muitos reis há na BD, porém, talvez de nenhum emane tanto carisma quanto deste The Little King – O Reizinho, na acertada versão do Brasil, país em que teve grande sucesso, com direito a revista própria e a uma rábula nele inspirada, interpretada por Jô Soares. Criado por Otto Soglow (1900-1975), nascido num bairro modesto de Manhattan, a personagem a que deu asas é uma caricatura medieval em tempos modernos – em que dragões e castelos coexistem com uma real esquadrilha aérea –, com insígnias indispensáveis à majestade: o manto com gola de arminho, a coroa – que José Sobral, autor da introdução ao livro de hoje, compara a um cone de gelado invertido –, coroa futurista que não tira nem para dormir, e uma barba obstinada. Ceptro não tem, mais provável será segurar numa das mãos um papagaio de papel ou um chupa. Baixote, rotundo, é atento ao bem-estar dos súbditos, em especial vagabundos, mas sabe quais são as sua prerrogativas. Em mais de 40 anos de reinado – estreou-se na New Yorker em 1931, findou quando morreu o autor –, toda a sua facúndia era gestual, nas situações bem exploradas por Soglow em traços tão sumários quanto expressivos. Este, que era um bem disposto, transpôs o humor inato para a criatura que lhe deu fama e sustento, depois de um curso de desenho por correspondência, pensando provavelmente nas suas personagens preferidas: Little Nemo, de Winsor McCay e Panfúcio / Bringing Up Father, no original, de George McManus, de quem já aqui falámos. E nestes dois extremos, entre o onírico e o grotesco, construiu Otto Soglow um pequeno universo (rainha, ministros, lacaios, cidadãos...) que provoca a gargalhada franca ou um sorriso irónico e pensativo.
Uma coisa é certa, leitores: haja o que houver, o Reizinho não se deixa manietar pela chatice da realidade. Um exemplo.

O Reizinho – Sua Majestade o Humor
texto e desenhos: Otto Soglow
edição: Opera Graphica, 2004.

domingo, 2 de agosto de 2020

imortalidade

Dos autores argentinos Diego Agrimbau (texto) e Pietro (desenhos), Cieloalto é uma cidade situada numa enorme ponte, cujo tabuleiro está a centenas de metros do solo. Os habitantes são imortais, e envelhecem ou rejuvenescem consoante a área da cidade para onde se desloquem. E, claro, devem estar confinados àquele perímetro urbano, para que a imortalidade não se vá. Mas a humanidade não se esgota na cidade; existem também os mortais, no fundo outra espécie, com a qual, os primeiros têm de relacionar-se. Um álbum suculento, publicado pela Grafito, Valencia, 2020.


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Casty

Pseudónimo de Andrea Castellan é um dos grandes autores actuais da BD Disney em Itália, nomeadamente das histórias do Mickey, a que veio dar um novo fôlego. A Panini Brasil editou A Ilha de Quandomai, história clássica de naufrágio e chegada a uma ilha ausente dos mapas, com todas as promessas de aventura que encerra.


quarta-feira, 29 de julho de 2020

vida e morte

Uma das qualidades de Maurício de Sousa é a forma com que desde cedo abordou assuntos não evidentes para o público infanto-juvenil a que se destinava. Penadinho e a turma do cemitério é um desses exemplos de humor bem conseguido, abordando um tema pesado. Na colecção Graphic MSP, também da Panini, a dupla Paulo Crumbim e Cristina Eiko reescreve este mundo fantasma, num livro intitulado Vida.



terça-feira, 28 de julho de 2020

um dia de fúria

Do Extremo-Oriente à Europa, o vírus foi mais rápido a chegar que as pulgas no lombo dos ratos da Peste Negra. Em Itália, caixões amontoados, médicos e enfermeiros esgotados; logo depois, a Espanha, razia nos lares; por cá, toda a gente em casa ainda antes de o Governo mandar. Só foi bom para os cães, nunca antes tão passeados; havia quem os tivesse para alugar àqueles que legalmente queriam desconfinar sem ter a polícia à perna.
Pelas páginas de A Batalha, “jornal de expressão anarquista” fundado há um século, chega-nos um encarte para dobrar e montar com uma BD de Max (Barcelona, 1956), um do nomes mais destacados da BD espanhola, desde os tempos do fanzine underground fotocopiado ao reconhecimento do Poder, atribuindo-lhe o primeiro Premio Nacional de Cómic, em 2007. Um luxo, portanto.
Desgastado, à terceira semana o autor amarrou a paciência diante da televisão e dos conteúdos gratuitos da internet e apresentou um panfleto e catarse sobre o efeito que estes dias desgraçados tiveram sobre si, desabafo “escrito depressa e mal em Abril de 2020, durante o Confinamento”.
Manifestamente Anormal transmite-nos toda a fúria duma personagem que se supõe ser alter ego de Max, e ninguém escapa: a começar pelo rei até aos reles concidadãos que deixavam bilhetes à porta da casa do vizinho profissional de saúde, para que se pusesse ao largo, depois de vir do trabalho onde arriscava a vida para salvar as dos outros; ou ainda os prestimosos denunciantes de varanda, que, após palminhas dirigidas aos heróicos médicos e enfermeiros (que certamente viviam noutro prédio), telefonavam à polícia apontando este e aquele que andavam na rua ilegalmente. Manifesto desapiedado contra a anormalidade do tempo pandémico, cáustico e vociferante com os que se iam esquecendo de ser pessoas para se transformarem em bichos acossados pelo medo.
O desenho minimalista é de grande eficácia e a “mensagem” acerta em cheio no alvo: nós, os confinantes até nova ordem de soltura, enchendo-nos de doestos e pontapés no traseiro, para que não nos esqueçamos que estar engaiolado é mais próprio de animais de capoeira.
Mas como a liberdade dos outros é pelo menos tão preciosa quanto a nossa – em especial a liberdade de poder andar livremente na rua sem que um desmascarado inconsciente nos faça a doação das suas gotículas, enviando-nos directamente para o cemItério, que fazer?, perguntamos.
O nosso herói esgotado de tanto vociferar, fica-se desapontado pelo alvéolo que lhe serve de habitação, e adormece.

Manifestamente Anormal
texto e desenhos: Max
encarte de A Batalha #288-289
Lisboa, Centro de Estudos Libertários, Mar/Jun 2020

segunda-feira, 27 de julho de 2020

errância


Théo é um jovem marinheiro do porta-helicópteros “Jeanne d’Arc”, com a paixão do mar e o apelo da viagem. R97 é o registo da embarcação, mas os habitantes de Brest, onde se situa a base naval que o acolhe chamam-lhe “La Jeanne”. O grumete foi influenciado pela leitura de Robert Louis Stevenson, Herman Melville e Joseph Conrad, e anseia por vencer os oceanos, atingir outros portos, outros cheiros, outras cores. Mas o próprio navio é um microcosmos em si, daí o título principal deste romance gráfico editado na colecção “Air Libre” da Dupuis, com texto de Bernard Giraudeaux e desenhos de Christian Cailleaux: R97 – Les Hommes de la Terre, Marcinelle, 2020.


domingo, 26 de julho de 2020

armadilha no Mar Vermelho

Escritora e jornalista inglesa, Renée Stone desloca-se à Etiópia em Outubro de 1930, para fazer a reportagem da coroação do imperador Hailé Selassié. Na velha Abissínia conhecerá um arqueólogo John Mallowan, tão voluntarioso quanto desajeitado, formando um duo demasiado curioso e original para passar incólume num mundo à beira da extinção, pelos interesses contraditórios das grandes potências. No segundo tomo, texto de Julie Birmant e desenhos de Clément Oubrerie, uma tabuinha de argila com inscrições do rei assírio Assurbanípal, detentor da maior biblioteca da antiga Mesopotâmia, levam-nos à velha Nínive. Edição Dargaud, Paris, 2020.


sexta-feira, 24 de julho de 2020

«A Lei do Trabuco e do Punhal»


Um país que sobrevive às razias que Portugal sofreu em boa parte do século XIX, aguenta tudo, incluindo troikas e covides. Vejamos: três invasões francesas, retirada estratégica da corte para o Brasil, regência britânica, revolução constitucional, guerra civil devastadora entre liberais e absolutistas, 3-Constituições-3, ingerência externa armada, as estradas do país tomados de assalto do Minho ao Algarve – do Remexido à Maria da Fonte e Padre Casimiro...
É neste período dramático e fascinante, em que era mais seguro viajar de Lisboa ao Porto por mar que por terra, o tempo de Garrett e Herculano, que se situa a acção de Mataram-no Duas Vezes (1987), primeiro álbum da projectada série A Lei do Trabuco e do Punhal, infelizmente sem continuidade, com texto de Luís Avelar (n. 1955) e desenhos de Pedro Massano (Lisboa, 1948).
O território é o interior beirão, Avô, Benfeita, Midões – nomes que hoje só dizem algo a poucos mais que aos que lá vivem, terras de Oliveira do Hospital, Arganil, Tábua... e a personagem central é João Brandão (1825-1880), o “régulo” ou “o terror das Beiras”, misto de bandoleiro e político, um cacique dentro e fora da lei.
O álbum dá-nos um bom enquadramento histórico inicial, sequenciado por três narrativas em que o pretexto é a caça a João Nunes, o Ferreiro, aquele que virá a morrer “duas vezes”, inimigo jurado, pessoal e “político” – passe o exagero de atribuir qualquer desígnio político à cacicagem – deste salteador letrado, que permaneceu no imaginário popular.
Se não se trata de uma obra-prima, Mataram-nos Duas Vezes é uma assinalável realização da BD portuguesa. Ao contrário do que se via em muitas das suas congéneres, a informação histórica prestada ao leitor não é metida a martelo na boca das personagens, soando tantas vezes a falso, mas assumidamente fornecida através de asteriscos ou em vinhetas próprias para o efeito. Se o trabalho de Pedro Massano respeitante às fisionomias nem sempre nos agrada, é notável o tratamento dado a cada prancha, com planos visualmente muito fortes e um saudável desrespeito pelos limites das vinhetas.
Lembrando uma carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins, entusiasmado após a leitura de Os Filhos de D. João I (1891), exortando o historiador a pegar nas incontáveis personagens sedentas de biografia e outras abordagens que povoam o nosso passado, este podia e pode ser um dos caminhos para os quadradinhos portugueses. Uma das pranchas mais notáveis é a que identifica, desfilando a cavalo, os sicários de João Brandão: o Juliana, a ferocidade em forma de homem; o Gralha, fala-barato, sempre com um corvo ao ombro; o Anjinho, alcunha apropriada para um violador; o Palaio, muito religioso, benzia-se antes de matar; o Venta Larga, feio como o nome, mas de tiro certeiro; o Faca de Mato, sempre munido dum cutelo de magarefe, com que extirpava quem lhe fizesse frente. Criaturas que só esperam um argumentista à Charlier ou à Dorison que os venha chamar do Inferno, o seu habitat natural.

A Lei do Trabuco e do Punhal – Mataram-no Duas Vezes
texto: Luís Avelar
desenhos: Pedro Massano
edição: Europress, Odivelas, 1987

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Léonard

Uma paródia a Leonardo da Vinci esta série criada em 1975 por Turk e de Groot. As invenções são múltiplas algumas inesperadas, como sucedia com as do próprio Leonardo. A dupla Turk & de Groot, vinda desde o início dos anos 70 com o genial Robin Dubois (ou Robin da Mata, entre nós) desfez-se e desde 2016 que é Zidrou a assegurar os argumentos. Neste 51.º álbum, Léonard inventa… o crime organizado. Léonard – Génie du Crime, Le Lombard, Bruxelas, 2020.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

o melhor amigo do cão

O autor espanhol José Fonollosa é voluntário numa associação de abrigo e protecção canina. A experiência de cuidar destes animais carentes é-nos dado num álbum ternurento e de traço suave. Refugio, Grafito Editorial, Valência, 2020.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

a nossa companheira morte

À morte, o melhor será olhá-la de esguelha, pois sabemos que ela está sempre por perto, à espera, à espreita. E esse olhar convém que seja gelidamente irónico. L. L. de Mars, suíço, também escritor e ilustrador, publica uma série de tiras que a mostra na faina diária junto dos mais ou menos incautos. Com humor, como podemos ver na capa, fazendo uma selfie junto a uma das suas telas preferidas, A Ilha dos Mortos (1880) do também suíço Arnold Böcklin.

um amor à face da exclusão

“Favela”: sabemos o que é, mas não a origem da palavra... O Morro da Providência, também conhecido por Morro da Favela é a mais antiga aglomeração do género no Rio de Janeiro, iniciado por veteranos da Guerra de Canudos, a quem foram prometidas casas quando regressassem das operações. Fartos de esperar, ocuparam uma elevação no local da Providência, lembrando o morro da Bahia – onde vicejava a favela, tipo de arbusto endémico –, de onde faziam pontaria aos homens de Antônio Conselheiro, “profeta” milenarista que sublevou os miseráveis da região, dando origem às campanhas de Canudos, descrita numa obra-prima da nossa língua, Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, e também motivo do extraordinário romance de Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo (1981).

Morro da Favela, de André Diniz, agora em segunda edição portuguesa, aumentada, é a quadrinização (palavra horrível) do relato autobiográfico do fotógrafo Maurício Hora (1968), nado e criado no morro, filho de um bicheiro tornado um dos primeiros traficantes de maconha do local, que, após duas prisões, decide poupar-se e à família, passando a trabalhar na estiva. De acordo com os critérios de hoje, Maurício cresceu numa família disfuncional. Pai pouco dado a rotinas, mas sempre presente quando não estava preso, mãe com episódios esquizóides, irmãos, além dos avós, referências de estabilidade. O que Maurício Hora transmite através dos quadrinhos de André Diniz, traduz-se, por paradoxal que pareça, numa certa felicidade, uma nostalgia por esse país da infância, em que o amor existia, apesar dos crimes, do medo, em particular da polícia, boa parte comportando-se como bandidos com farda e melhor armados. Acima de tudo, Maurício veicula uma grande empatia, sempre vizinha do amor, que preenche também o coração de Maurício – demonstra-o o fotógrafo e o activista sócio-cultural. Na Favela há gente como todas as outras, gente boa e de trabalho, quantas vezes alvo da violência do Estado, ou capturadas pelo tráfico, que ali dita a lei; e há sobretudo uma invisibilidade para quem vive no asfalto, junto à linha de costa, circunstância que o fotógrafo tem vindo a contrariar, como artista e dinamizador social, procurando dar voz a quem a não tem.
Se a matéria de que se faz esta narrativa – o depoimento de Maurício Hora – é só por si de primeira grandeza, que dizer do trabalho de André Diniz? Em primeiro lugar a estrutura narrativa disposta como uma espécie de romance de formação. Do ponto de vista gráfico, a opção pelo fundo negro realça as linhas dos desenhos, os espaços em branco, as notáveis expressões das figuras, integralmente num preto e branco que nos faz colar os olhos às páginas, um percurso que termina com uma única vinheta colorida, o sorriso de Dona Iracema e o lado bom e fraterno da entreajuda em comunidade.
André Diniz e Maurício Hora pertencem àquela família de artistas cuja estética é servida por uma ética. O mundo é demasiado interessante na sua complexidade para confinar-se aos arredores do umbigo.

Morro da Favela
texto e desenhos: André Diniz
fotografias: Maurício Hora e
Augusto Malta / Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
2.ª edição, Polvo, Lisboa, 2020

sexta-feira, 17 de julho de 2020

The Lisbon Studios Series

Vários autores que integram o colectivo The Lisbon Studios associaram-se em álbuns sujeitos a mote. Depois de Cidades, Silêncio e Viagens, vem agora a lume o quarto título, sobre as Raízes. “Onde estão as raízes de cada um? No passado, nas memórias? Num sítio? Numa família ou grupo? Em que se enraízam as palavras e imagens?”– lê-se no press release. Autores: Ana Branco, Bárbara Lopes, Filipe Andrade, Marta Teives, Nuno Saraiva, Pedro Moura, Quico Nogueira e Ricardo Cabral; prefácios de André Diniz e Patrícia Furtado. Edição: A Seita, Lisboa, 2020.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

30 anos de História com Spirou

Depois de números consagrados a Uderzo e a Morris, a publicação Historia BD #3 dedica as suas páginas a Franquin, passando em revista o tempo e os tempos que acompanharam o genial autor belga, no período em que se dedicou às histórias do groom do Hotel Moustique: Spirou par Franquin et les Trente Glorieuses – 1945-1975, Paris, Julho de 2020.


terça-feira, 14 de julho de 2020

Schtroumpfs

Com argumento de Alain Jost e Thierry Culliford (filho de Peyo), desenhos de Miguel Díaz Vizoso e cores de Nina Culliford, os Schtroumpfs chegaram ao 38.º álbum. Quando têm de deslocar-se a paragens longínquas, estes pequenos seres azuis da floresta dispõem de linhas áreas próprias para o efeito: as cegonhas… Após uma visita ao mago Homnibus, por ocasião do seu aniversário, algo sucedeu quando se preparavam para regressar. Les Schtroumpfs et le Vol des Cigognes, Le Lombard, Bruxelas, 2020.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

«Kim Kebranoz e os Táxis Vemelhos»

“Bento Torceferro” poderia seu uma tradução literal do nome da personagem de hoje, Benoît Brisefer; porém, o tradutor optou pelo mais sonante “Kim Kebranoz”, e está certo. “Torce” ou “quebra”, porque o nosso herói, apesar de miúdo educado e gentil, muito atilado em sua indumentária, calções pretos, casaco vermelho, cachecol e boina basca de que nunca se separa, é um inusitado detentor de superpoderes. Mais forte que Sansão, mais rápido que o Flash da DC, pulmão tão devastador quanto o de Éolo, deus dos Ventos, salta, quase em voo, como se usasse botas de sete léguas. Apesar de nunca ter crescido, desde que em 1960 apareceu nas páginas da revista Spirou, julgamo-lo também imortal, como o Super-Homem, tendo também o seu calcanhar de Aquiles, não a kryptonite, mas o vírus da gripe, pois quando se constipa, Kim Kebranoz volta a ser uma criança igual às outras; mas ao contrário dos super-heróis, não faz questão de ter identidade secreta, só que o seu melhor amigo e companheiro de aventuras, o Sr. Vicente, velho taxista e ex-músico de jazz, nunca presencia os feitos do rapaz, atribuindo-lhe os relatos à imaginação fértil.
O autor é Pierre Culliford (1928-1992), mais conhecido por Peyo, já então autor da bela série medieval humorística Johan et Pirlouit, de onde surgirão os Schtroumpfs, – duns e doutros também aqui falaremos. Assoberbado pelos compromissos com várias séries a cargo, irá socorrer-se do seu camarada Will (Willy Maltaite, 1927-2000), desenhador da série Tif et Tondu, que se encarregou dos cenários, em particular dos edifícios, ruas e jardins da Vila Girassol (Vivejoie-la-Grande, no original).
Em Kim Kebranoz e os Táxis Vermelhos, primeiro titulo, uma moderna empresa de rádio-táxis instala-se na localidade. O negócio é porém uma fachada para um golpe épico sobre os bancos e demais comércio de valores da Vila Girassol, além de arruinarem o pobre do Sr. Vicente com concorrência desleal e sabotagem. O plano seria perfeito, mas não contavam com o fenómeno Kim Kebranoz – ele bem tentara avisar os adultos, que obviamente não lhe ligaram nenhuma –, que porá todos os grãos de areia na engrenagem, conseguindo ainda, pelo meio de todas peripécias, fazer-se raptar, indo parar a uma ilha, quase deserta, do outro lado do Atlântico.
Um álbum infanto-juvenil na sua génese, hoje irresistível para a faixa de “todas as idades”, ou “dos 7 aos 77”, para citar o semanário rival... O talento de Peyo, o dinamismo das vinhetas, sulcando e desarrumando o alinhamento clássico em prancha é bom de se ver, a que devemos acrescentar a destreza narrativa “folhetinesca” da história em continuação, ao longo dos meses em que se foi publicando, cada semana terminando em suspense ou com um gag.
Acrescente-se a curiosidade de esta edição portuguesa, de 1962, com a chancela da União Gráfica, editora ligada à Igreja Católica, ocorrer no mesmo ano da publicação do original na Bélgica, pela Dupuis.

Kim Kebranoz e os Táxis Vermelhos
Texto: Peyo
Desenhos: Peyo e Will
Edição: União Gráfica, Lisboa, 1962

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Louro & Simões


Na década de 1980, num meio editorial quase desértico a Editorial Futura, sempre pela mão diligente e culta de Jorge Magalhães, trazia aos quadradinhos portugueses uma das suas personagens humorísticas mais emblemáticas: Jim del Mónaco, da autoria de uma dupla que só por esta série ficará na história: Luís Louro e Tozé Simões. Louro, entretanto, empreendeu um percurso profissional, sendo um dos mais destacados autores da actualidade. Anuncia-se agora a recolha doutras história da dupla, dispersas por antigas publicações, com o humor mordaz que era seu apanágio. Universo Negro, edição Escorpião Azul, 2020.