quarta-feira, 27 de novembro de 2019

toy stories

Alvitre ao leitor: quando estiver com este livro nas mãos, comece por não ler, mas observar; folheie demoradamente, deixe os olhos vogarem ao ritmo que o autor imprimiu a cada prancha, depois fixe as vinhetas, demore-se nas páginas, nos diversos e bem doseados planos dos quadradinhos, admire o excelente trabalho de claro-escuro, a partir, supomos, de vários tipos de canetas de feltro; chegue ao fim, e então comece a leitura. Está por sua conta.


Pum! / Qual Pum! É Bang! Isto é BD! / ? / Crack! à la Hugo Pratt. / Click! Vazio. // Toca a mexer malta, ou acabamos num caixote no sótão ou na Feira da Ladra.» Palavras iniciais deste livro de Filipe Abranches (Lisboa, 1965), Selva!!!: diálogos de soldadinhos de guerra em missão por floresta espessa ou sobre oceanos de mar revolto.


Todos quanto, rapazes (e raparigas, porque não?...), brincámos aos tiros com miniaturas, recordamo-nos dos incríveis teatros de guerra que criávamos. Índios e cowboys, aliados e nazis, unionistas e confederados, mouros e cruzados. Uns quantos livros de capa dura dispostos no chão do quarto dava para fazer um qualquer forte da cavalaria americana ou um castelo medieval, à falta de modelos de escala reduzida. Os bonecos eram da “Britains”, muito bem feitos, em resina de poliester com uma base verde, de metal; ou então uns bonecos da “Airfix”, para quem quisesse e tivesse paciência para pintá-los... Experimentavam-se as tácticas com a imaginação e a ajuda do cinema, televisão e revistas aos quadradinhos. Uma delas, aqui graficamente citada, o Falcão, com estupendas séries fixas, edições distribuídas pela Agência Portuguesa de Revistas: Sandor, Ogan, Oliver, Kalar e o Major Alvega.


História dentro da história, intromissão do real na ficção, uma vinheta em falta, pórticos que se atravessam, do mundo da imaginação ao mundo verdadeiro, onde a mentira é maior: a guerra tem sempre acoplada a palavra “Paz”, com maiúsculas e tudo. Ainda agora a vimos, na operação “Paz para a Primavera”, turcos contra curdos, uns que contemporizaram com o Daesh, outros que lutaram contra ele, também em nosso benefício. Parece que há mais verdade na BD, mesmo que os intervenientes sejam de poliester ou plástico.


No colofão, o autor lembra os pais, que lhe compravam saquetas com revistas aos quadradinhos para ler na praia, e agradece também ao “Buck Dany”, a quem roubou muitas vinhetas. Buck Dany, extraordinária BD de guerra e aviação criada pela dupla Jean-Michel Charlier – Victor Hubinon para a revista Spirou (os mesmos que conceberam o pirata Barba Ruiva para as páginas da Pilote). Sim, há aqui grandes quadr(ad)os inspirados na arte daquele mestre belga, homenagem com maturidade gráfica de quem já leva anos disto.


Selva!!!


texto e desenhos: Filipe Abranches


edição: Umbra Edições, 2019


terça-feira, 26 de novembro de 2019

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

o menino Ferreira de Castro

As terras têm o seu património, natural, etnográfico, arquitectónico. O legado literário em geral dá-lhes, porém, mais densidade. Amarante, com Pascoais, Vila do Conde tem Régio e o irmão Júlio/Saul Dias, Rio Maior e Ruy Belo, a Vila Franca de Xira de Alves Redol. Oliveira de Azeméis tem Ferreira de Castro, e a autarquia editou, no ano seguinte ao centenário do seu nascimento, uma BD para as crianças, da autoria do conterrâneo Manuel Matos Barbosa (1935), um nome do cinema de animação e do documentarismo.
Castro tem excesso de biografia: aos 12 anos emigrou sozinho para o Brasil, sendo enviado para um seringal na Amazónia. Dessas experiências extrairá matéria para dois extraordinários livros, que irão renovar o romance português, abrindo portas ao neo-realismo: Emigrantes (1928) e A Selva (1930). Porém, verdadeiro escritor, não se ficaria por aqui: Eternidade (1933) encerra um fundo existencialista numa narrativa de cunho social; A Lã e a Neve (1947), friso romanesco que é talvez o seu romance mais perfeito; ou A Missão (1954), uma novela que é uma jóia de problematização psicológica.
Como se fosse pouco, este autodidacta, foi durante décadas o escritor português mais traduzido, duas vezes proposto para o Nobel da Literatura, entre muitos outros factos que aqui não cabem. Mas o cerne dessa vocação está na primeira infância, na aldeia natal de Ossela, e Matos Barbosa, com um traço límpido e tons suaves, foi feliz em mostrá-lo.
O José Foi à Escola
texto e desenhos: Matos Barbosa
edição: Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, 1999


terça-feira, 19 de novembro de 2019

a malta é jovem

Um cínico diria que o magistério uma profissão extraordinária, não fora a existência dos alunos. Discorda-se do cínico: o problema não está nos discentes, mas na circunstância de alguns trazerem como bónus alguns pais muito pouco recomendáveis à saúde. Também há os simulacros de professores, cuja verdadeira missão é a de ganhar o ordenado enquanto sonham com uma reforma por invalidez. No princípio de tudo, porém, estão burocratas do ministério, entretidos com as suas carreiras e progressões nas ditas, trabalhando para as estatísticas que lhes são impostas pelos políticos de turno. Destes, uns são comissários do partido e outros, tipos bem intencionados, com ideias completamente diferentes dos antecessores no cargo, que as porá em prática até chegar quem lhe suceda. Por isso, os estudantes costumam ser as primeiras vítimas deste carnaval, seguindo-se os bons professores e os pais conscientes, espécie ameaçada.
Feito o exórdio, comece-se por dizer que o professor Álvaro é um baril, e houvesse necessidade de filho nosso precisar de explicações de Geometria Descritiva, já saberíamos a que porta bater. Mas o professor Álvaro é também autor de BD e cartunista (além de arquitecto de formação) e teve a boa ideia de se inspirar no seu ganha-pão para aplicar o talento que lhe assiste na recriação da sua circunstância profissional – embora tal esteja longe de ser o exclusivo da matéria-prima a que recorre para o trabalho bedéfilo.
Conversas com Putos e com os Professores Deles é o terceiro livro desta série. Deixamos os docentes em paz – os muito bons dificilmente são parodiáveis, os maus são paródia triste – e vamos à maralha de 15, 16, 17 anos e às suas lindezas: do acne, terror das miúdas, à javardolice flatulenta dos rapazes; dos futebóis aos jogos e consolas (ou as gajas); da seca da matéria e da cabulice – as cenas com os alunos passam-se normalmente em contexto de explicação –, a temas mais sérios de política e sociedade, sempre com o enviesamento da auto-suficiência das opiniões fortes e supostamente definitivas, pois os putos é que sabem...
Álvaro (Parede, 1970) é particularmente feliz na captação das expressões que resultam de diálogos que atingem o mirabolante (por vezes nem se trata de diálogo mas de resmungos, quando não grunhidos): do surprendido ao irritado, do facecioso ao conformado, do enfadado ao malicioso. Não se pense, porém, que o autor comete a feia acção de fazer nome e fortuna (pelo menos crítica) à custa daqueles infelizes. Não, ali há empatia e pundonor profissional, ambos especialmente necessários, quando aos professores de hoje (aos bons e até aos maus) é cometida pela sociedade não apenas a importante função de ensinar, mas também, quantas vezes, a ingrata tarefa de educar, competência que mingua a muitos paizinhos, sempre prontos a exigir dos docentes o suprimento do que a eles lhes falha.
Conversas com os Putos e com os Professores Deles
argumento e desenhos: Álvaro
edição: Insónia, São Domingos de Rana, 2019





domingo, 17 de novembro de 2019

"não é fácil o amor"

...melhor seria arrancar um braço”... canção de Janita Salomé que veio à cabeça ao relermos O Amor Infinito que Te Tenho (2011), de Paulo Monteiro (Vila Nova de Gaia, 1967). Com dez curtas narrativas (um índice daria jeito...), é poesia posta em quadradinhos, sem surpresa, pois o autor é também poeta, embora bissexto.
Histórias muito centradas nas suas circunstâncias pessoais, nem por isso deixam de interessar em várias latitudes – ou não fosse este um livro com várias traduções, e não fosse também o ser humano igual por toda a parte. Amor filial, amor paternal, amor conjugal, amor impossível, amor altruísta, amor egotista, amor que tem à espreita o seu próprio fim, pois que tudo desesperantemente acaba; BD ora solar ora de trevas, quanto mais negra mais carregadas as vinhetas, e mais limpas quanto mais jubilosa.
No fim, Monteiro incluiu excertos do diário da feitura do livro, motivo suplementar de interesse em que podemos acompanhar os itinerários de criação – os sucessos: «3h30 de trabalho. Hoje saiu-me tudo bem! E se eu desenhasse sempre assim? 3H30 e duas vinhetas!» (4.1.2009); os fracassos: «Parti a caneta com toda a força contra o estirador e saí para a rua desvairado e furioso comigo mesmo.» (22.10.2008); e os impasses: «É só um livro com meia dúzia de histórias. O importante é a vida. Vou ouvir a Amália. Os fados alegres, claro.» (16.2.2009).
O Amor Infinito que Te Tenho e Outras Histórias
texto e desenhos: Paulo Monteiro
2.ª edição, Polvo, Lisboa, 2012


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

um duro coração de manteiga


Na vinheta inicial, sob um sol de canícula, um abutre de longas asas estendidas voa com a cabeça inclinada para o solo; a seguir, em grande plano, vemo-lo a fixar o olhar em algo; depois, a carcaça de um cavalo sendo devorada por um bando de aves; no quarto quadradinho, com o mosquedo a voltear, a carniça é arrancada pelos fortes bicos concebidos para retalhar. A partir da segunda vinheta, filacteras sem o apêndice característico transmitem-nos as reflexões de alguém: «As pessoas não gostam de nós. / Há quem diga que é porque passamos o nosso tempo no meio de cadáveres. / Transmitimos a morte como outros transmitem bexigas. / Também consta que cheiramos mal e que podemos dar azar. / Vá-se lá saber onde foram buscar isso! / A verdade é que as pessoas não gostam de nós. / E ainda bem.» Quinta e última vinheta da primeira prancha: um homem ainda novo, de barba cerrada, vestido de escuro, sentado de caneca na mão e cigarrilha na boca, encostado à carreta que lhe pertence, completa agora o seu pensamento: «Também não gosto delas.» É Jonas Crow – um gato-pingado, um cangalheiro – o herói desta série. Acompanham-no “Jed”, um abutre de asa embriada que Jonas não teve coragem de matar, e os dois cavalos da carroça funerária: “Zephyr” e “Cobalt”.
Pela amostra deste primeiro álbum, publicado originalmente pela Dargaud Benelux, em 2015, a saga de Jonas Crow tem tudo, autores e assunto, para vingar. O texto é de Xavier Dorison e o desenho de Ralph Meyer, ambos parisienses de 1971. O primeiro é argumentista exímio (O Terceiro Testamento, sequelas de XIII e Thorgal); Meyer, tem um lápis ágil e espectacular, além de abundantes recursos expressivos. Diga-se, a propósito, que a semelhança fisionómica com Mike T. Blueberry é, mais do que intencional; é um elo que os autores criam – por razões que nesta fase não são claras – à melhor BD western. A cada um a possibilidade de especular...
Crow é uma personagem, é a personagem: solitário, misterioso (transporta uma história consigo), de mão leve com a artilharia e raiva interior que o tornam temível, além de um coração de manteiga, capaz dos gestos mais altruístas – e também divertidos, como aquela citação da “Epístola de São Paulo aos Californianos”… Se o Duke, de Hermann e Yves H., de quem já aqui falámos, é um pistoleiro que não gosta de armas, Jonas Crow é uma máquina de matar que odeia violência... Aliás, o que não falta é um conjunto de personagens fortes, que tornam este western intenso e áspero, embora a violência não seja gratuita, antes uma exigência da própria trama, dotada destas personagens específicas: um antigo garimpeiro às portas da morte, dono duma cidade, ganancioso e cruel, uma jovem governanta inglesa hierática e sensual, um criado de casa ressentido, uma velha chinesa perspicaz, um xerife venal, e por aí fora, em intriga estonteante.
Undertaker – 1. O Devorador de Ouro
argumento: Xavier Dorison
desenhos: Ralph Meyer
cor: R. Meyer e Caroline Delabie
edição: Ala dos Livros, Benavente, 2019

sábado, 9 de novembro de 2019

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

um mundo à parte

Jeff Smith (The Rocks, Pensilvânia, 1960) integrou cedo a família de autores que criam o que gostariam de fruir, talvez farto das oferta corrente (mutantes e outras criaturas de várias cores em remultiplicação infinita). As influências são as dos velhos comics, de Walt Kelly (Pogo) a Carl Barks (Tio Patinhas), mas também Moebius. Will Eisner, entusiasmado, falou de Herriman (Krazy Kat); outros referiram-se a Schulz (Peanuts) – tudo gente de alto coturno, a que se juntam referências literárias (Mark Twain, Tolkien), para não falar do cinema (Star Wars). Daqui e do mais extraiu esta criação original que dá pelo nome de Bone, publicada entre 1991 e 2004.
Mundo à parte, em que o maravilhoso e o fantástico se conjugam, os Bones são criaturas alvas como um osso de BD. Três primos estão na base da série: Fone Bone, sensato e sensível, Phoney Bone, autoritário e ganancioso, Smiley Bone, um simplório. Execrado e expulso de Bonneville, Phoney leva consigo os dois parentes. Perdidos no meio dum deserto não assinalado nos mapas, são assaltados por uma nuvem de gafanhotos e dispersam-se. Fone Bone, a personagem principal, dá por si numa superfície escalavrada, avistando ao longe uma floresta – típico tópico de interdição e perigo – , com um vale no centro. Aí vive uma pré-adolescente por quem Fone se apaixona, chamada Thorne (‘Espinho’), com uma avó muito peculiar, e também afáveis criaturas do bosque, além de horrendas ratazanas do tipo pós-nuclear. Por todo o lado, um original dragão da guarda faz aparições inesperadas; e à medida que o enredo se intrinca, mais queremos entrar nesse estranho universo.


Fora de Boneville
texto e desenhos: Jeff Smith
edição: Via Lettera, São Paulo, 2002



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

resistir é vencer

Valério, arquitecto de meia-idade, passeia pelas ruas com um carrinho-de-mão carregado de tijolos. Em flashback, ficamos a saber que quando a Troika se instalou, a oficina de arquitectura onde trabalhava fechou portas, solidária à força com o empobrecimento geral do país, pobreza em que caíramos por entre esquemas de variegada proveniência, políticas de sentido único e prestidigitações financeiras. Nas mãos dos mercados, esse Shazam! da modernidade dos povos talhados para as alegrias do 5G, foi um ver-se-te-avias na degradação do nosso viver habitualmente. Os portugueses medianos, ingeridos sem esforço, tornaram-se bons nutrientes para a comilança da banca e a veniaga partidária; os pobrezinhos e sobrantes, alavancaram o elevador espiritual de muito bom praticante de banco alimentar, cujo Céu certamente foi ganho.
O desempregado Valério resolve então recuperar a casa que lhe ficara dos avós que, com espanto e indignação, descobre ocupada por gente sem-abrigo & outros desqualificados. Porém, à síncope que então o acometeu, seguida de internamento, sobreveio um outro olhar sobre o real, e tudo deixaria de ser como fora até aí: Valério passa a prestar atenção aos outros – «construir para resistir» torna-se uma divisa. E deste modo pretendeu edificar uma outra realidade, diferente da liquefação contemporânea sem horizontes para muitos, nem tecto ou chão, como se de um novo ajustamento se tratasse, desta vez o da decência, à margem da mercantilização da cidade e de quem nela vive.
Os portugueses, e os lisboetas em particular, passaram agora a andar ditosos com a procura turística. Não há cidade que aguente ou aeroporto que chegue para tanta oportunidade de fazer dinheiro Pelo meio desta “avidez da ganhuça” – para citar o escritor anarquista Assis Esperança (1892-1975) –, haverá sempre tipos estranhos que recolhem tijolos, para desdém dos empreendedores e desgosto dos presumíveis herdeiros.
Com uma composição dinâmica de cada prancha, em que a vinheta tradicional está implícita ou simplesmente não existe, a benefício da fluidez narrativa, Pedro Burgos (Lisboa, 1968), ilustrador e arquitecto que “gosta de desenhar histórias aos quadradinhos sem quadradinhos”, como reza a contracapa, dá-nos em O Coleccionador de Tijolos uma parábola dos tempos que correm.
A leitura lembrou-nos por vezes o Will Eisner do The Building, de que já falámos; outras, a poética do franco-grego Fred, criador do maravilhoso Philémon. A edição é cuidada, com atenção aos pormenores (por exemplo, a analepse impressa em papel doutra cor). Mestria na composição, solidez de ponto de vista, que não nos deixa indiferentes, humor e amor em doses comedidas – o que mais se pode querer de uma BD?
O Coleccionador de Tijolos
argumento e desenhos de Pedro Burgos
edição: Chili com Carne, Cascais, 2019


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

um pequeno malcriado

Titeuf, abreviatura de 'petit œuf '' ('pequeno ovo', por óbvias razões anatómicas), é uma personagem criada em 1993 pelo autor suíço Zep (Philippe Chappuis, Onex, Genebra, 1967), pseudónimo que é uma homenagem aos Led Zeppelin. À partida, ‘Ovinho’ seria uma tradução aceitável para o nome da personagem, não fora esta ser por vezes um bocadito alarve: com cerca de oito anos, e um topete que parece uma hipérbole do cabelo de Tintin, Titeuf é um reguila desabusado, por vezes malcriado, que quer dar nas vistas para parecer mais importante e mais crescido do que na verdade é – e também para que as miúdas reparem em si. Um rapazelho como muitos outros, portanto... Até hoje foram editados 18 álbuns, com claro sucesso de público e crítica: tiragem de milhões de exemplares, adaptação a cinema de animação e o merchandising habitual.
Em Petit Poésie des Saisons (de 2005, agora reeditado com nova capa) assistimos ao decorrer das estações do ano, tal como Titeuf e os amigos as vivem; e claro que a poética a que o título alude não pode deixar de ser irónica: a areia da praia intromete-se nos mais recônditos e incómodos interstícios; o salpico de neve que lhe cai em cheio na roupa está longe de ser alvo e imaculado. Quanto ao mais: a escola, o cair da folha e o obrigatório Halloween, no Outono; escola, bonecos de neve, frio e o Natal, no Inverno; escola, o despertar da Natureza e das paixões, as partidas do 1.º de Abril, na Primavera; no Verão, as férias grandes, as festas... e a escola, a começar no início de Setembro, em eterno retorno de trapalhadas, triunfos e desaires à escala minorca, sempre acolitado pela família, a inevitável professora velha e feia, os indispensáveis compinchas, e uma certa Nadia, a quem Titeuf arrasta a asa, quando distraído das suas actividades mais sérias, ou seja, pregar partidas e fazer que estuda.
Em 2001, Zep e Hélène Bruller, então sua mulher, criaram um livro extra-série, Le Guide du Zizi Sexuel (Aparelho Sexual & C.ª, na tradução brasileira), obra pedagógica destinada aos pré-adolescentes, que teve a duvidosa distinção de ser apresentada por Bolsonaro, como exemplo do alegado 'kit gay' e incitamento à pedofilia...
A fórmula do gag é clássica: exposição, desenvolvimento e remate, sempre cómico e/ou inesperado. Há um, porém, que foge a esse esquema, o dedicado às mentiras do 1.º de Abril: em seis vinhetas Titeuf prega partidas em casa e na escola, rindo-se a bandeiras despregadas; na sétima, ao fim do dia, será a vez da televisão pregar a sua mentira aos telespectadores (assim acreditava o rapaz): uma intervenção militar no Iraque, diz o pivot, fará milhares de vítimas. Titeuf não viu onde estava a graça. Os mentirosos eram outros, já então se sabia.

Titeuf – Petite Poésie des Saisons
texto e desenhos: Zep
edição: Glénat, Grenoble, 2019


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

very british

A propósito de Raymond Macherot (1924-2008), um mestre da BD franco-belga, Hergé, que muito o admirava, foi um dia taxativo: «Macherot c'est Macherot...». Uma das suas personagens mais queridas, fruto do fascínio que sobre si exercia a Inglaterra, é o patusco Coronel Clifton – Harold Wilberforce Clifton, oficial reformado do MI5, detective amador, escoteiro graduado, com um fleumático bigode imperial, indumentária impecável, governanta previdente e um MG-Type Midget de fazer inveja, ideal para as deslocações entre Londres e a cidadezinha fictícia de Puddington, onde vive.
Macherot assinou apenas três álbuns – e com que sedutora simplicidade de linhas e eficácia narrativa. A transferência da revista Tintin para a rival Spirou obrigou-o a largar Clifton, bem como Clorofila, um rato do campo de quem oportunamente falaremos.
Em As Investigações do Coronel Clifton, publicadas em 1961, um emir das Arábias deposita o maior diamante do mundo no estabelecimento de dois honrados ourives da capital inglesa, para que estes lhe façam um exuberante anel. Assustados com o montante do seguro, optam por guardá-lo no cofre da casa, um impante «”Johnson” superblindado de tripla combinação», mas – estava-se mesmo a ver – no dia seguinte os honestos joalheiros darão de caras com o sítio... Para evitar o escândalo do assalto, recorrem aos serviços do famoso militar retirado.

As Investigações do Coronel Clifton
texto e desenhos: Raymond Macherot
edição: Editorial Íbis, Venda Nova, 1969


terça-feira, 22 de outubro de 2019

mais olhos que barriga

Criado em 1991 pelo norte-americano Rob Liefeld e o argentino Fabian Nicieza, Deadpool é mais um elemento da parafernália de superentidades da Marvel: vilão mutante cujas características notórias são a capacidade de auto-regeneração dos órgãos e tecidos, alguma esquizofrenia, pois tanto combate como admira as grandes figuras mascaradas, e uma incontida tagarelice. A propensão para o cómico é evidente, facilitando a criação da série paralela intitulada Killogy,  imaginada por Cullen Bunn e Matteo Lolli.
A ideia até é boa: depois de chacinar os heróis da Marvel (Deadpool Kills The Marvel Universe, 2011), com o fito altruísta de libertá-los dos caprichos dos seus criadores – mas na verdade manobrado por um qualquer génio do mal –, e antes de matar-se a si mesmo (Deadpool Kills Deadpool, 1913), o vilão é persuadido pela Brigada dos Cientistas Loucos a liquidar as maiores personagens da literatura, fonte de todos os super-heróis, e a única forma de acabar com eles definitivamente. Por exemplo, a morte da Sereiazinha inviabilizará Namor, o príncipe submarino, e o fim dos Três Mosqueteiros ou das Mulherzinhas impedirá a formação de futuras equipas de heróis e heroínas...
Boa a ideia, mas demasiado ambiciosa. Graças a um dispositivo de Reed Richards, do Quarteto Fantástico, Deadpool conseguirá viajar no espaço e no tempo. Da Odisseia à Metamorfose, do D. Quixote ao Sr. Scrooge, passando pelo Pinóquio (saído do interior de Moby Dick), contámos 23 referências, mais ou menos desenvolvidas, número certamente excessivo para as 80 páginas disponíveis. Podemos meter Gulliver ou Macbeth numa única vinheta, mas fazer o mesmo ou parecido com as sucessivas obras denota o propósito de citar o mais possível, em sacrifício da fluência narrativa. Além disso, a carnificina é sem descanso, como um videojogo para adolescentes retardados, em maçador acumular de pancadaria e larachas.
O trabalho de Lolli tem bons momentos: o massacre da tripulação do “Pequod”, a tareia das Mulherzinhas, Deadpool trespassado pelo chuço do Quixote. Mas o melhor mesmo está nas capas de Mike del Mundo.
Um dos aspectos mais desagradáveis dos comics é o imperativo de fazer dinheiro a todo o transe, sujeitando os pobres super-heróis a inenarráveis tratos de polé: matam-nos, ressuscitam-nos, casam-nos, mudam-lhes a fatiota, a cor da pele e até o sexo, criam séries paralelas em mundos alternativos, deixando à nora o desgraçado leitor que não seja um incondicional... Ao mesmo tempo, criam-se mais heróis e vilões, com as suas evoluções e especificidades, assim à maneira dos pokémons. O que importa é fazer render o peixe. O coitado do Homem-Aranha tem sido a principal vítima deste festival de ganância, o que não é de admirar, tratando-se a mais icónica e portanto a mais rentável marca da sua editora. É verdade que, por vezes, surgem pepitas, mas este não é o caso.
 
Deadpool Mata os Clássicos!
texto: Cullen Bunn
desenos: Matteo Lolli
edição: G. Floy Studio, 2019

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

uma vinheta de Bruno Brindisi


Dylan Dog -- Até que a Morte Vos Separe
(Mauro Marcheselli, Tiziano Sclavi & Bruno Brindisi)

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

uma folha de papel

Com Winsor McCay (1867-1934), os quadradinhos atingem a maturidade gráfica. Little Nemo in Slumberland, a sua mais célebre criação estreou-se a 15 de Outubro de 1905, no New York Herald. Cada prancha é um prodígio de imaginação e cor, e nunca mais se foi tão longe na disposição de uma narrativa em imagens. Jean Giraud / Moebius foi um dos muitos que aqui vieram beber.
         A página é encimada por uma vinheta a toda a largura, espécie de friso ao gosto Arte Nova, que dá o mote: Morfeus, rei do País dos Sonhos, envia emissários a Nemo; e lá vai ele, até acordar, por vezes no chão. Há ocasiões em que, em vez de quadradinhos estanques, o mesmo desenho se prolonga, dando a ilusão de vária vinhetas – por exemplo, entre os vãos dos pilares de uma ponte. Esta linguagem, hoje comum, era nova no dealbar do século XX. Aliás, como notam os críticos, o caminho fazia-se à medida que o caminhante vencia cada etapa. No álbum que temos em mãos, esse work in progress é particularmente visível: nas pranchas iniciais, McCay, embora recorresse à filactera (o ‘balão’), introduzia texto sob a vinheta, uma redundância que só atrapalhava a fruição da beleza dos desenhos, a riqueza da composição e a inventiva das histórias que pretendia contar. Ao fim de 20 pranchas, essa excrescência será eliminada, dando a margem indispensável ao leitor para seguir a narrativa sem outra condicionante que não fosse a materialidade sobre a qual se aplica uma história em quadradinhos: uma folha de papel.
 
O Pequeno Nemo no País dos Sonhos – vol. I:1905-1907
texto e desenhos: Winsor McCay
edição: Livros Horizonte, Lisboa, 1990
 


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

sonata para clarinete e explosivos

Depois do universo franco-belga, a Itália é o segundo centro europeu de criação e produção de BD com projecção global. Vieram dali, entre muitos outros, Corto Maltese, Tex, Valentina… e o Superpato.
         Dylan Dog, criado em 1986 por Tiziano Sclavi (Broni, Pavia, 1953), um escritor à procura de leitores, é uma personagem curiosa: antigo agente da Scotland Yard, passa a trabalhar por conta própria, deslindando casos em que o paranormal faz as suas aparições. Calmo (detesta armas) e morigerado (não bebe nem fuma), tem um fraco por mulheres, que se sucedem quase à cadência de uma por história. No mais, é um tipo reflexivo que gosta de ler e tocar clarinete, chegando a fazer um dueto com Woody Allen... Contudo, o seu tema preferido não está no dixieland mas na sonata Il Trillo del Diavolo, do compositor setecentista Giuseppe Tartini – ou melhor, da autoria do próprio Satanás, que em sonhos o visitou, executando a composição que ficaria também conhecida como a «Sonata do Diabo». Nada de admirar, para um detective do pesadelo. A acompanhar Dylan Dog, temos um auxiliar com cara, nome e chistes à Groucho Marx.
         Apesar de ser um dos fumetti mais populares em Itália, com cada revista a atingir um milhão de exemplares de tiragem nos tempos áureos, entre nós Dylan Dog é pouco conhecido, como a generalidade da BD italiana, com as assinaláveis excepções.
         Em Até que a Morte Vos Separe, de 1996, Sclavi desenvolveu uma ideia de Mauro Marcheselli, recuando aos tempos da polícia londrina e aos ataques e retaliações perpetrados pelo IRA na capital inglesa. Estava-se ainda a dois anos da assinatura do Acordo de Paz de Sexta-Feira Santa, e os atentados faziam vítimas, em especial entre os representantes do Estado, que por sua vez reprimia com condições carcerárias duríssimas, contra as quais se insurgiram Bobby Sands e outros prisioneiros independentistas irlandeses, numa greve de fome histórica e fatal. Dylan conhece Lillie Connolly, uma irlandesa do Ulster a viver em Londres, militante daquela força paramilitar, sob disfarce. No entanto, apesar das mortes e das prisões, o dramatismo é moderado q.b., não só porque a menina é assombrada por visões, o que opera uma quebra no realismo da narrativa, como há pormenores de série humorística – veja-se aquele ponto de interrogação desenhado sobre a cabeça dum rato, numa das cenas passadas nos esgotos da cidade. Os registos realista, onírico e humorístico interpenetram-se, o que não tem mal, desde que o leitor, como é de bom uso, estabeleça com os autores o pacto da suspensão voluntária da descrença.
         Bruno Brindisi (Salerno, 1964), não obstante algum tradicionalismo na disposição das vinhetas – convém lembrar que Dylan Dog se destina, antes de mais, ao grande público –, é um desenhador de assinaláveis recursos, como se verifica, logo na capa, no trabalho sobre o véu da noiva.
 
Dylan Dog – Até que a Morte Vos Separe
texto: Mauro Marcheselli e Tiziano Sclavi
desenhos: Bruno Brindisi
edição: G-Floy Studio, 2019

domingo, 13 de outubro de 2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

traquinagens

Quim e Filipe (Quick et Flupke, no original) aparecem no jornal juvenil Le Petit Vingtième, em 1930, fazendo companhia a Tintin. Enquanto o repórter deambula pelo Congo, Hergé oferece semanalmente aos leitores histórias humorísticas de duas páginas, em que os protagonistas são dois garotos de Bruxelas. O seu grande desígnio é comum a todos os miúdos de todas as épocas: passar o dia a brincar, de preferência na rua, se possível com muitos amigos. Meninas, não há; parece que a rua não era lugar para elas nesse tempo, até porque jogar à pedrada, um dos entreténs da rapaziada de várias eras, não parecia ser muito do seu agrado. A comicidade é suave e inofensiva – quem nunca tocou a todas as campainhas de um prédio e depois deu à sola? Nos melhores momentos, reconhecemos o humor de Hergé, dos estatelanços aos quiproquós.
Série secundária em face da magnitude das aventuras de Tintin, lê-se com agrado pelo valor testemunhal: dos artefactos – quando a tecnologia de ponta se materializava num esplendoroso carrinho de rolamentos, fabrico próprio –, à pedagogia aplicada, a saber, uns açoites bem puxados quando as tropelias passavam das marcas, para não falar da falta de sentido de humor do polícia de giro (Quim e Filipe têm um problema com a autoridade…)
Os episódios cessam em 1941, ano que não é para graças. Numa das longas entrevistas que concedeu a Numa Sadoul, Hergé revelou que estava então assoberbado de trabalho com Tintin e Milou e ainda uma outra série de que também falaremos: Jo, Zette et Jocko.
 
Aventuras e Desventuras de Quim e Filipe- vol. I
Texto e desenhos: Hergé
Edição: Difusão Verbo, Lisboa, 2000.


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

os grandes mestres não desiludem


Hermann (Hermann Huppen, Bévercé, Ardenas, 1938) é um dos mais extraordinários autores de BD em actividade. Este terceiro álbum da série Duke, com argumento do seu filho, Yves H. (Bruxelas, 1967), aí está para o demonstrar.
Se a memória não atraiçoa, o nosso primeiro contacto com Hermann deu-se nas páginas da revista Tintin, com a série Jugurtha, com argumento de Jean-Luc Vernal, a desenrolar-se na Antiguidade. Mas foi na companhia de Greg que Hermann constituiu uma das duplas míticas da BD franco-belga, em torno da pura aventura de Bernard Prince e de Comanche, uma mulher cheia de fibra, dona do rancho «Triplo 6», western que foi uma excelente resposta do semanário belga ao concorrente francês Pilote, casa do Tenente Blueberry (Fort Navajo). Desfeita a dupla, Hermann avança por outros territórios ficcionais, de Jeremiah, fábula pós-nuclear, ao ciclo medieval de As Torres de Bois-Maury, além de vários one-shot (histórias publicadas num único álbum, sem sequência).
Há uns bons anos que Hermann tem em Yves H. um argumentista à altura do seu talento. Com Duke, o livro de que hoje nos ocupamos, esta colaboração pai-filho avança com uma série pensada de raiz, de que saíram já três tomos, todos publicados entre nós: A Lama e o Sangue, Aquele que Mata e Sou uma Sombra, editado este ano.
E quem é este “Duke”? Ao terceiro álbum ainda estamos a descobrir, aliás na companhia da própria personagem, Morgan Finch, de seu nome cristão, ex-adjunto do xerife da pequena cidade de Ogden, Colorado. Aqui quem manda é um potentado da mineração, com recursos financeiros, poder de fogo e sicários arregimentados para fazer valer os seus interesses contra os dos proprietários fundiários e reduzir a autoridade do estado a mero pró-forma. Esta situação obriga Duke –  menos contemporizador e mais jovem que o xerife, um hesitante – a afastar-se desse papel decorativo, o que só lhe trará problemas. Para simplificar diremos que  se trata de um pistoleiro que não gosta da  violência das armas – ou julga não gostar. É esta densidade ambivalente o maior trunfo da série no que ao argumento respeita, além de tratar-se de uma narrativa passada no oeste americano, topo com o melhor lugar cativo do nosso imaginário.
Sobre a arte de Hermann, o que escrever sem repisar os encómios? Atente-se na capa, um cowboy solitário na sua montada, de arma na mão, uma sombra no meio da noite de intempérie; no interior, os planos aguarelados da paisagem, a finura psicológica no tratamento das expressões, o grotesco por vezes quase simiesco dos corpos, em contraste com a beleza dos cavalos, o realismo dos trajes e dos edifícios. Veja-se a prancha 37 (pág. 39): dez vinhetas de tensão ao luar sem uma palavra. Mestria. É verdade: os grandes mestres nunca desiludem.

 
Duke – Sou uma Sombra
texto: Yves H.
desenhos Hermann
edição: Arte de Autor, Estoril, 2019


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

nada está a salvo

Laerte Coutinho (São Paulo, 1951), de cuja mão saíram, entre outros, os iconoclastas Piratas do Tietê e Suriá, a Garota do Circo, para um público mais jovem, está na linha da frente dos grandes autores brasileiros de quadrinhos. As tiras humorísticas de BD implicam um espírito crítico apurado, capacidade de síntese e, naturalmente, o talento do humor. Essas qualidades tem-nas Laerte em elevado grau, lançando um olhar irónico e inteligente sobre a sociedade e as pessoas que nela se movem. Mordacidade de alto nível, que lança mão de todos os recursos para atingir o seu fim, o de fazer-nos rir; mas nunca é um riso gratuito ou grosseiro, antes uma provocação que nos faz pensar, em que recorre ao trocadilho e ao cómico de situação, entrando pelo absurdo. Em Laerte nada está, felizmente, a salvo: a vida social de manada, a História, o imaginário e a cultura populares, a publicidade, o sexo e as relações pessoais, a deficiência – tudo serve para o seu manejo exímio do inesperado e do contra-senso. Por vezes, lembra os norte-americanos Johnny Hart e Grant Parker (B.C. e O Mago de Id).
Classificados são tiras publicadas no caderno de anúncios da Folha de São Paulo, de grande prestígio na imprensa brasileira. Ou muito nos enganamos, ou as páginas de anúncios seriam das mais vistas pelos leitores: por cada tira, o sorriso estava garantido e a gargalhada era uma forte possibilidade.

Classificados
texto e desenhos: Laerte
edição: Devir, Lisboa e São Paulo, 2001

terça-feira, 1 de outubro de 2019

a estrada

Funerais com longos regressos de automóvel são sempre propícios à trama e à efabulação. Assim este Entre Cegos e Invisíveis, de André Diniz (Rio de Janeiro, 1975). O autor é um nome de referência dos quadrinhos brasileiros, como desenhador e argumentista, estando actualmente radicado em Portugal, onde tem vários livros publicados. O seu traço pontilhista é pessoalíssimo e facilmente identificável, como é apanágio duma forte personalidade artística. Para quem não está habituado, o melhor será citar livremente o Pessoa publicitário: pode estranhar-se primeiro, mas entranha-se rapidamente.
Esta é uma narrativa de estrada. O espaço é uma rodovia interurbana que liga dois aglomerados populacionais, percorrida por uma viatura em que viajam um casal, Jonas e Maitê, a irmã daquele, Leona, além de uma estranha figura cuja língua ninguém entende. Vêm do funeral do pai dos dois irmãos, figura nacional, militar com altas responsabilidades, chefe da polícia secreta; um pai ausente, pois os filhos são fruto duma ligação extraconjugal, e nunca foram reconhecidos. O tempo é 1971, no auge repressivo da ditadura militar. No rádio do carro, as notícias com maior destaque versam sobre o recém-falecido e a ocorrência nessa noite de um fenómeno astronómico: uma lua cheia mais próxima da Terra do que o costume, invulgar episódio celeste que terá repetição apenas em 2018.
Tudo sobre rodas, mesmo com a reserva do quarto passageiro, de cuja boca só saem sons que imaginamos guturais, até que o carro pára, por falta de combustível. Um automóvel imobilizado numa estrada interurbana em noite de lua cheia é uma circunstância que irá propiciar um sem número de diálogos e situações, com revelações inesperadas, temas sufocados, por vezes há muito tempo, e que vêm ao de cima. As interacções e focos de tensão marido-mulher, irmão-irmã e entre cunhadas são momentos fortes, complementados pelo estranhamento do suposto gringo que os acompanha e pelo aparecimento bem doseado doutros intervenientes, pontuando a narrativa: um cão abandonado, crianças sem eira nem beira, um casal de assaltantes, os empregados da área de serviço e da gasolineira, uma coluna militar, parentes (da família legítima) com quem penosa e acidentalmente se cruzam. E, sob a falsa quietação da noite, alguns espectros: a memória da mãe-amante do militar, uma adopção falhada, a lembrança do morto a pairar; e ainda outdoors enluarados, publicitários, mas também políticos, como o infame “Brasil – ame-o ou deixe-o”, àquela hora sem função.
André Diniz dá-nos um argumento bem urdido, intercalando diálogos e pausas, que vão ganhando uma densidade acrescida. Chegamos a ouvir o silêncio sob aquele luar tão próximo e pesado, em nocturno claro-escuro.

Entre Cegos e Invisíveis
texto e desenhos: André Diniz
edição: Polvo, 2019

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

um rapaz e o seu cocker

Criados em 1959, pelo belga Jean Roba (1930-2006), Boule e Bill, um rapazinho de sete anos e o seu cocker spaniel, são das personagens mais populares da BD francófona. As camadas de ternura aplicadas por Roba em cada vinheta, recriando um universo idílico numa família de classe média, com pais disponíveis, mesmo quando têm de impor regras, à criança (os tpc) e ao animal (o banho…), conjugadas com um humor por vezes desenfreado, foram ingredientes seguros desse êxito. Para Roba, o mundo já era suficientemente agreste para que os seus gags não permitissem essa distensão de humor sobre um tempo em que a vida é um recreio permanente, mesmo com vacinas e banhos obrigatórios…
As personagens inspiraram-se no filho do autor e no cão da casa, o que explica a quase beatítude que a leitura destas pequenas histórias proporciona, na procura duma inocência que só existiu no tempo em que os animais falavam. Numa entrevista a Hugues Dayez (Le Duel Tintin-Spirou, 1997), Roba afirmou: «acredito que o homem, num passado longínquo, pôde falar com os animais, e que esse privilégio foi-lhe subtraído. É isso uma maldição? Creio que sim.» Por vezes, encontram-se pontos de contacto com o Calvin de Bill Watterson. Bill não fala, mas pensa, e em pensamento dirige-se a nós, leitores.
A dupla continua, pelas mãos do francês Verron (Grenoble, 1962). Os álbuns de Boule e Bill estão inéditos em Portugal.
 
Roba, 60 Gags de Boule et Bill
edição: Dupuis, Marcinelle, 1962


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Os derrotados da História

Pensar que em 1974 o país estava num conflito militar com três frentes, perpetrando crimes de guerra em nome de uma mentirola consubstanciada no slogan “Portugal uno e indivisível, do Minho a Timor”, só não faz sorrir porque muitas foram as vidas destruídas, portuguesas e africanas, em nome dessa balela. No entanto, o tratamento dado aos ex-combatentes, que em nome deste rudimento ideológico serviram de carne canhão, foi outra indignidade, aliás muito portuguesa: varremos o que é incómodo para debaixo do tapete .
[Abre-se propositadamente um parênteses sobre o debate em curso, a propósito da falsa questão dos Descobrimentos: estes estão confinados aos séculos XIV e XVI; misturá-los com o imperialismo do Euromundo é um anacronismo grosseiro e uma mistura de conceitos. O século XV não é o século XIX.]
Mas há mais: africanos que pegaram em armas contra os movimentos de libertação – e já estamos a entrar no livro de hoje –, tiveram, muitos deles, um triste fim: Spínola, quando chega à Guiné, em 1968, muda de táctica, envolvendo as populações e criando forças africanas para combater o PAIGC, enquadradas pelas Forças Armadas – o velho ‘dividir para reinar’. Já era tarde, porém, tanto eticamente como do ponto de vista estratégico e político, para os obstinados do Império, que aguardava apenas uma rajada mais forte dos ventos da História para se escaqueirar.
BD que só sirva para dela falar, não interessa, perdoe-se o lugar-comum. Filhos do Rato, de Luís Zhang (Lisboa, 1986) e Fábio Veras (Lisboa, 1997), é um óptimo exemplo do bom momento por que passa a BD portuguesa. Belo texto (apesar de alguns anacronismos evitáveis…) para um dos dramas mais pesados da nossa história recente. A acção decorre na Guiné em dois momentos – Inverno de 1975, com um extenso flashback para um período que antecede a independência, Verão de 1973 – e conta-nos da amizade travada no mato por dois homens: Camões, um militar negro, e Joaquim, soldado duma aldeia perdida em Trás-os-Montes, amizade que vai subsistir ainda para além da morte. A certa altura da narrativa, uma ratazana é vista a comer mantimentos no barracão do acampamento; atingida em cheio por uma lata de conserva, foge e deixa no local embriões de ratos que serão esmagados, com nojo. Uma metáfora para esses anos da guerra na Guiné: sabemos quem são os filhos do rato; e também o que representa a ratazana. Para bom entendedor – é melhor confirmar pela leitura…
A opção da coexistência da cor e do preto e branco na mesma prancha é muito interessante; e o desenho de Fábio Veras, por vezes expressionista, passa ao papel, com o nervo intenso e necessário, os momentos desesperantes do tédio de uma longa inacção na espera do inimigo ou da ocorrência da emboscada, com a mata a ferro e fogo.
Sim, a BD é uma coisa séria.

Luís Zhang & Fábio Veras, Filhos do Rato
Edição: Comic Heart e G. Floy Studio, 2019