Mies Van der Rohe (1886-1969). A vida de um dos grandes arquitectos do século XX, as aspirações artísticas, a vivência amorosa, a perseguição do III Reich e a ida para a América, recordada pelo próprio em diálogo com o neto. Texto e desenhos de Agustín Ferrer Casas, livro premiado no país vizinho, numa edição Grafito, Valência, 2020.
domingo, 11 de outubro de 2020
sábado, 10 de outubro de 2020
um homem de palavra
Tal como o ser humano, também as civilizações temem o fim e elaboram sobre o prazo de validade. Do Antigo Testamento às expedições a Marte, com calamidades naturais, guerras, fomes, pestes, invasões, com tudo isso a humanidade se defronta desde que deu conta de si própria. A arte é fértil, tornando-se´o imaginário pós-apocalíptico uma categoria como qualquer outra, nas suas variantes. E a BD não fica atrás, destacando-se no campo franco-belga, a séries de Simon du Fleuve, criada em 1973 por Claude Auclair (1943-1990) e Jeremiah, de Hermann, em curso de publicação, ambas tendo por base um cenário pós-catástrofe, consequência de guerras nucleares ou conflitos étnicos generalizados.
Le Convoyeur é uma nova série do género, com argumento de Tristan Roulot (Rennes, 1975) e Dimitri Armand (Orleães, 1985), tendo a sua estreia, em Abril deste ano, coincidido em cheio com o início do pânico sentido em boa parte da Europa provocado pela Covid-19, uma curiosa coincidência.
Um vírus desconhecido emerge do centro da terra, atacando os metais, corroendo lentamente todos os utensílios, todas as estruturas edificadas assentes no betão. Recurso agora escasso, os homens têm de readaptar-se, regressando ao couro e à madeira. De pé ficaram apenas as estruturas que vinham do Antigo Regime, os castelos, as fortificações. Mas este vírus interfere também no metabolismo, originando terríveis anomalias e mutações, atingindo elevada percentagem da população. Neste primeiro tomo, intitulado Nymphe, percebemos a pulverização populacional num cenário medieval de paliçadas e castelos coexistindo com vestígios de ruínas da modernidade: carcaças de automóveis, edifícios meio desabados. O poder exerce-se em bandos, havendo ainda uma poderosa organização sacerdotal, cujos contornos não surgem ainda bem definidos neste episódio inicial. Sabe-se apenas que percorrem as comunidades, fortemente armados , à caça de crianças sãs e dos progenitores, capturando-os para futura reprodução de indivíduos saudáveis – a única possibilidade de salvar a humanidade, a procriar seres repelentes (a bela Ninfa, metade mulher, metade aranha é um deles) ou tornada estéril. Na floresta, elemento sempre misterioso e inacessível, vivem predadores cegos, espécie de dinoprimatas da mata, chacinando tudo o que se aproxima da fímbria do seu território
E o herói, no meio disto tudo? O Convoyeur (o distribuidor) é um solitário façanhudo, que aceita todas as missões que lhe são confiadas, aparentemente sem grandes dilemas morais. “A minha palavra é a minha lei”, diz para consigo. Em troca, o contratante compromete-se a engolir um peculiar ovo que aquele lhe oferece... Porquê, não sabemos; não é difícil ver naquele alimento um símbolo de renascimento. Mas respostas para estas e outras interrogações, só nos álbuns seguintes.
Le Convoyeur – tomo 1 – Nymphe
argumento: Tristan Roulot
desenhos: Dimitri Armand
edição: Le Lombard, Bruxelas, 2020
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Mulher-Borboleta
"Greg" é um mal sucedido autor de autoficção. O editor propõe-lhe a criação de um super-herói diferente, que as minorias possam apreciar. É assim que surge a mulher-borboleta: uma empregada de limpeza negra num laboratório de física, para fugir ao assédio de um cientista esconde-se num acelerador de partículas no preciso momento em que uma borboleta lhe pousa no ombro. Nasce assim a Butterfly-Woman, inimiga dos fascistas, dos racistas, dos machistas, numa homenagem paródica ao universo dos super-heróis. La Femme Papillon, texto de Michel Coulon, desenhos de Grégory Mardon, Futuropolis, 2020.
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
raparigas e marinheiros
Vamos sempre dar a um porto e aos seus bordéis. Depois de O Porto Proibido (Il Porto Proibito, 2015) a sequela parece que foi publicada primeiro em França, pela Glénat: Les Filles des Marin Perdu, cada uma cada noite, num alcouce de Plymouth, contando a sua história. Pelo casal Teresa Radice e Stefano Turconi, também autores Disney italianos (Pippo, Topolino, Zio Paperone – ou seja, Pateta, Mickey Tio Patinhas), num movimento do infanto-juvenil para o adulto, contrário ao de Cosey, autor do poético Johantan, que não se coibiu de desenhar, por exemplo, a Minnie, como já aqui falámos.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
«Stumptown»
Uma detective chamada Dex Parios, dona da Stumptown Investigations é também uma dependente do jogo e, lésbica, sorte ao amor ver-se-á. Nomeada para um Prémio Eisner, foi adaptada a série televisiva. O título do primeiro tomo é magnífico: "O caso da rapariga que levou o champô mas deixou o carro". de Greg Rucka e Matthew Southworth, edição G-Floy, 2020.
domingo, 4 de outubro de 2020
«O Juramento dos Vikings»
Há uma tira de Hagar o Horrível, em que o víquingue criado por Dick Browne, chegado a França para a pilhagem, vê um burguês gritando aos quatro ventos “Cachez vos belles!”, receoso do estupro a que as mulheres estariam sujeitas; quando Hagar vislumbra um estafermo à janela, é o próprio que grita desalmadamente: “Cachez vos belles!” Ah, os víquingues!… Historicamente, Levaram tudo à frente, da Europa Oriental ao Norte de África. Pagãos relapsos por muito tempo, tanto se lhes dava arriar em cristãos como em muçulmanos. Ao rei de França impuseram um extenso domínio, a terra dos homens do Norte, os normandos – essa Normandia que viria a estar na origem da Guerra dos 100 anos... Para deles se proteger, Mumadona Dias, Condessa de Portucale (c. 943-950), mandou erigir uma larga torre que deu origem ao castelo de Guimarães; Mediterrâneo adentro, atiraram os árabes ao mar, criando o reino normando da Sicília...
Hoje voltamos a Peyo (Pierre Culliford, 1928-1992), depois de Kim Kebranoz, e também ao mar, depois de Raven, na semana passada. E a própria pirataria não está de todo ausente, uma vez o autor, belga de pai inglês, é descendente de um flibusteiro do século XVII, Robert Culliford, parceiro e depois inimigo do célebre Capitão Kidd (1645-1701), corsário escocês. Les Aventures de Johan aparecem no jornal belga La Dernière Heure, em 1946. Trata-se de um escudeiro com traços de Príncipe Valente disneyficado, habitando numa Idade Média de transição, por volta do século X, e que ao terceiro álbum, já na revista Spirou, ganhará em Pirlouit – um anão truculento que tem uma cabra por montada – um digno Sancho Pança, ou um Haddock, um Fantásio, um Obélix... Em Portugal tomaram o nome de João e Pirolito.
O Juramento dos Vikings, álbum original de 1958, sem a panóplia de feiticeiros, ogres, gigantes, pequenos seres azuis (os Schtroumpfs apareceram aqui) que caracterizam a série, é um episódio bastante linear: de regresso de uma missão que lhes fora confiada pelo rei, e após uma trapalhada de Pirolito, caído ao mar vestido, os dois amigos são acolhidos por uma família de pescadores. Um dos quatro filhos, pela idade e porte, destoa do resto da família. Não tardaremos a perceber de que se trata de um jovem rei destronado pelo regente, que em segredo fora escondido naquela recanto isolado. Há guerra civil no reino da Snoelândia, e sem noção do que está em causa, julgando ser o rapaz o filho mais velho do pescador, João e Pirolito vêem-se envolvidos numa disputa entre dois grupos – os que querem matar o jovem e os que querem resgatá-lo para que se sente o trono.
A partir daqui, há um corrupio por entre mares e ilhas, enseadas e castelos, espadeirada de meia-noite, em vinhetas que compõem pranchas com um óptimo dinamismo visual.
João e Pirolito – O Juramento dos Vikings
texto e desenhos: Peyo
edição: União Gráfica, Lisboa, 1967
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Spirou (1 a 5) e o Marsupilami
Spirou – 1. Guerra Fria: o Conde de Champignac foi raptado pelo KGB. Os soviéticos precisam da colaboração do excêntrico sábio na concepção dum vírus do comunismo, a disseminar pelo mundo inteiro. Uma piscadela de olho a Tintin?... Spirou chez les Sovietes, por Fabrice Tarrin e Fred Neidhart, Dupuis 2020.
Spirou – 2. Intriga internacional no Pacific Palace, hotel onde se refugia um ditador fugido da Europa Oriental, e com ele a jovem filha, a que Spirou também não ficará indiferente. Para tudo se tornar mais estranho nesta espécie de huis clos em extremo tensional, Fantásio é também groom, e como sempre desastrado. Por Christian Durieux, em curso de publicação no magnífico semanário de BD que leva o seu nome.
Spirou – 3. A dupla Vehlmann & Yoann, uma das boas que lhe assina as histórias, prossegue com o inofensivo “Supergroom”.
Spirou – 4. Mas talvez a grande dupla que pegou neste ícone belga tenha sido Tome & Janry, criadores também da série divertidíssima do Pequeno Spirou. Com a morte recente do argumentista, Janry prossegue com os gags.
Spirou 5. Entretanto, Émile Bravo desunha-se com a terceira parte da tetralogia L'Espoir Malgré Tout, que temos vindo a acompanhar. O álbum terá 112 páginas.
...e o Marsupilami. Mas o universo de Spirou é inesgotável. Antes de Champignac e Zorglub terem as sua próprias séries, o estranho animal criado por Franquin em 1952 é assegurado por Batem, entre outros. Mas ainda outra dupla, Zidrou e Frank Pê propõem uma outra leitura, também em curso de publicação autónoma, brinde aos assinantes da revista.
domingo, 27 de setembro de 2020
os párias dos mares
Sempre houve pirataria nos mares, por vezes confundindo-se, não sem motivos, com o corso, ataque autorizado aos navios inimigos, por embarcações que não sendo da marinha de um país estão ao seu serviço com uma liberdade de acção generosa. Mas a pirataria, embora heterogénea, tem sempre por fim o saque de bens e pessoas e não cuida de patriotismos. Estamos, em muitos casos a falar de fora-da-lei absolutos, párias que renegam a autoridade dos estados, constituindo microsociedades, sempre efémeras, em ilhas e portos de que se apropriam, nomeadamente nas Caraíbas, mas também nas próprias embarcações que são o seu, digamos, ganha-pão. Um saque bem sucedido é um pecúlio arrebatado graças a muita disciplina, um quase ascetismo, que, uma vez conseguido, é dissipado em festins pantagruélicos, como se não houvesse amanhã. E muitas vezes não havia. Giles Lapouge, autor do notável ensaio sobre estes "párias do mar" – Os Piratas (1987, edição portuguesa na Antígona) – refere-se à curtíssima esperança de vida desta gente odiada que se fazia temer.
Mathieu Lauffray (Paris, 1970, também realizador de cinema e videojogos), apresenta uma prometedora personagem e uma narrativa que tem tudo para ser um marco: Raven é um pirata destemido, raptado ainda jovem enquanto servia como grumete num navio de carreira, e é também um romântico e um pé-frio, como dizem os brasileiros. De tal modo azarado que os companheiros ostracizam-no. Nada, porém, que lhe diminua o ânimo, em especial quando a possibilidade de um tesouro perdido no século anterior, enviado por Cortés ao rei de Espanha e nunca chegado ao destino, estará por ali, numa ilha à mão de semear. Esse território, não longe de Guadalupe e ignorado pelas cartas marítimas, leva o inspirador nome de “Enfado do Diabo”: acesso difícil e indígenas não só hostis como canibais. Raven não é contudo o único interessado, tem de disputar a avidez com o mais terrível flibusteiro da região, com fama de crueldade inexcedível: Lady Darksee, uma mulher, pois claro, por sinal bela, mesmo com a cicatriz que ostenta por baixo do olho direito. E apesar de ficção, Lauffray não foi demasiado longe, pois a existência de algumas mulheres no meio, mesmo comandando barcos piratas, está documentada. Para complicar as coisas, nessa ilha tão terrível em que até o próprio Satanás se aborrece, há seis meses que sobrevive um grupo de náufragos, liderado pelo Conde de Montignac, nomeado governador da ilha da Tortuga, na companhia de dois filhos e os sobreviventes da comitiva que o acompanhava. Raven e Darksee, a sua némesis, aí irão encontrar-se, para estupefacção de Montignac, e depois para algo pior. A fama de desumanidade que persegue a flibusteira não tardará a confirmar-se.
Acção, rebaldaria, solidez nas referências, um previsível triângulo amoroso e alguma inovação na caracterização das personagens, em que a rebeldia é algo mais que a marginalidade, em que o desprezo das classes dominantes por esta escória é retribuída na mesma moeda, para além do já referido "internacionalismo" endógeno e exógeno: as tripulações são heteróclitas quanto à nacionalidade e etnia e a noção de pátria, como se disse, não é popular. As pranchas são esplêndidas parecendo que se alargam, e o carisma das personagens é bastante palpável: imagine-se, para o protagonista, um espécime cruzado de Blueberry e Wolverine, com um traço que lembra umas vezes Hugo Pratt, outra Jordi Bernet, mas que no fundo é e será Mathieu Lauffray. Esplêndido,pois.
Raven t. 1 Némésis
texto e desenhos: Mathieu Lauffray
edição: Dargaud, Paris, 2020
sábado, 26 de setembro de 2020
da carochinha
Allan Kardec (pseudónimo de Hippolyte Léon Rivail, 1804-1869) é um dos nomes que associamos ao espiritismo, "disciplina" muito na moda na Europa na transição dos séculos XIX-XX, que se sustenta na capacidade de nos pôr a falar com os mortos, sabe-se lá com que vantagens para a humanidade. Come quem gosta, e à partida não haverá grande mal nisso – pois não há quem creia num deus feito homem concebido por si próprio no ventre de uma virgem?... Quando Jorge de Sena se referia aos desvarios "mediúnicos" de Pessoa – que atraíram a atenção de um aldrabão de feira como Alesteir Crowley – teve a sabedoria de avisar que não interessa nada o que pensamos sobre aquilo que o poeta dos heterónimos acreditava, mas para o percebermos integralmente não o deveríamos ignorar. Este Kardec, que influenciou milhões de pessoas, e continua a ter muitos seguidores em países como o Brasil, é uma figura susceptível de ser estudada e biografada, com óbvio distanciamento crítico, atitude que não obriga a excluir uma possível empatia. Podemos ser ateus e apreciar a postura do papa Francisco, por exemplo. O que é mais difícil é a condescendência com a apologia da crendice, da pseudofilosofia e da pseudociência, que é o que nos dá o livro de hoje, da autoria de Carlos Ferreira (Porto Alegre, 1970) e Rodrigo Rosa (nascido na mesma cidade, em 1972).
Kardec quer impingir-nos a vulgata espírita, servindo-nos o processo de "conversão" daquele que viria a ser o nome sonante de uma das muitas bizarrias que o ser humano inventou para tornear e tourear a morte. Trata-se, portanto, de um produto pobre e apologético, cheio de lugares-comuns, não faltando a tradicional narrativa do céptico ilustrado que se converte e torna apóstolo. No entanto, a coisa é tão pequeno-burguesa, que em vez dum coisa épica, do tipo estrada de Damasco, as “revelações” processam-se no conforto de salões parisienses, dentro dos quais sacolejam as célebres mesas giratórias através das quais os mortos comunicam com os vivos… – que diabo!, uma queda do cavalo numa rota do Médio Oriente como aviso divino é algo intenso e deu várias obras-primas da cultura ocidental, algo que dificilmente se verifica neste misticismo moviflor.
Mas lá pretensão não lhe falta, nada menos do que a redenção universal, recuperando uma "idade do ouro" que só existiu nas narrativas mitológicas e na cabeça dos poetas antigos, porém sempre pronta a germinar com os tontinhos de ocasião, não faltando o acinte em discurso directo e tom de seita, numa referência ao "ninho de ratos que é o materialismo" (pág. 46).
Quanto ao mais: a história está gizada com fluidez e o trabalho de Rodrigo Rosa servem bem a narrativa; dir-se-ia bem de mais, uma vez que a matéria-prima é pobre. As vinhetas que representam a Paris esventrada pelo Barão Haussmann para a construção dos amplos bulevares que hoje nos encantam -- e tanto jeito deram para minimizar o efeito das barricadas duma cidade tradicionalmente insurrecta --, esses quadrinhos de Rodrigo Rosa são exemplares nos seus pormenores dramáticos. Mas BD é texto e desenho; e quando só um merece relevo, o todo resulta irremediavelmente coxo.
Kardec
texto: Carlos Ferreira
desenhos: Rodrigo Rosa
edição: Polvo, Lisboa, 2019
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
Anaïs Nin
Diarista e ficcionista francesa, Anaïs Nin (1903-1977) é um nome-chave do feminino, na escrita e na vida. Vida, cuja leitura Léonie Bischoff realizou, numa BD one shot que acaba de sair: Anaïs Nin – Sur la Mer des Mensonges. Edição Casterman, Bruxelas, 2020.
terça-feira, 22 de setembro de 2020
'Game Over'
Uma série humorística, composta por gags de uma página , da autoria de Midam e Adam, em curso de publicação na revista Spirou. O herói é uma personagem de um jogo de vídeo, o Pequeno Bárbaro, que não tem outro objectico senão o de chegar são e salvo ao fim do jogo, muitas vezes na companhia da Princesa, o que nunca acontece… Game Over #19 – Beauty Trap, edição Dupuis, Marcinelle, 2020.
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
assassino contra vontade
Na Califórnia, após a morte da sua jovem esposa, o ex-boina verde Jerry Braxter embarcou na carreira de assassino profissional para conseguir pagar os caros tratamentos da sua filha que foi afectada por uma doença rara e que a transformou num vegetal. Um dia, ao voltar de mais um “trabalho”, para a triste solidão do seu apartamento, encontra uma convidada inesperada: a Morte. Surpreendida pelas habilidades do Jerry, acaba por lhe oferecer um pacto: enquanto ele continuar a matar, a sua filha permanecerá viva e passará a ser considerado o “mensageiro da morte”.Davide Garota, O Último Sopro dos Mortos, Escospião Azul, Lisboa, 2020.
terça-feira, 15 de setembro de 2020
um homem que passa
A acção decorre no arquipélago de Chausey, no Canal da Mancha – Paul tem aí o refúgio, numa pequena casa que herdara dos avós –, e desencadeia-se quando, num paroxismo de desespero, o pavor de ficar meio inutilizado em consequência da doença, como sucedera ao pai, empreende o caminho para a costa para se suicidar. Mas um sinal luminoso a estralejar, indício de naufrágio, trava o intento. Conhecendo os rochedos como a palma da mão, arranca numa lancha em direcção ao pequeno veleiro em risco de se desfazer de encontro às rochas. A bordo está Kirsten, assistente editorial na casa que o publica, que se dirigira à ilha, sem avisar, para acertar pormenores.
Recuperada e enxuta já no acolhedor chalé, vendo as fotografias de inúmeras mulheres dispostas nas paredes, pede-lhe que fale sobre o projecto, o mesmo é dizer que lhe conte a sua história. Duas gerações diferentes, ele um abencerragem dos libertinos anos 60 e 70, ela jovem mulher do tempo do #mee too, o caldo não tardará a entornar-se; Kirsten a acusá-lo de ser um predador exibindo troféus de caça, o que Paul nega com veemência; pelo contrário, apreciando as mulheres e o prazer mútuo que uma relação suscitava, apenas estava atento aos sinais, tendo a experiência ensinado que quando um homem aborda uma mulher, se esta não tiver já reparado em si com agrado, dali não levará nada... Quando a dinâmica do diálogo precipita a acção, ficamos a saber que Kirsten não é apenas a publisher que se lhe apresentou, mas alguém com ligações ao passado.
Se o argumento cumpre (de Denis Lapière, Namur, 1958) abeirando-se perigosamente de alguns clichés, o maior interesse reside no trabalho de Dany (Daniel Herontin, Marche-en-Famenne, 1943), um dos últimos grandes nomes da idade de ouro da revista Tintin. As pranchas iniciais, as da tempestade sobre a ilha, são magníficas, as analepses distinguem-se do tempo presente através do recurso à aguarela e as expressões, numa BD que assenta sobretudo em diálogos de forte tensão, são bem logradas.
Dany sempre foi um pouco narciso: Olivier Rameau, protagonista da série que criou com Greg, assemelha-se ao autor quando jovem, e a bela Colombe Tiredaile teve por modelo Marcy, sua mulher. Colombe, mesmo nos parâmetros mais rígidos da imprensa da época foi sempre uma figura sexuada, que se vai erotizando à medida que o tempo o permite. Por isso, quando da série de gags eróticos Ça Vous Interèsse? – que deu a Dany uma aura de homme à femmes, apesar de casado com a mulher que ama há mais de 50 anos, como fez questão de frisar numa entrevista a propósito deste álbum –, ninguém se admirou que a imagem decalcada de Colombe também por lá aparecesse. Há quem veja em Paul um seu auto-retrato físico, no que o desenhador só concorda parcialmente. A verdade é que Lapière destinou o argumento a Dany e a mais ninguém; e, mutatis mutandis, a evocação de Colombe, isto é da mulher, Marcy, continua neste álbum. No fundo, diga-se o que disser, Dany é um homem que fica.
Un Homme qui Passe
Texto: Denis lapière
Desenhos: Dany
Edução: Dupuis, Marcinelle, 2020
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
Baby Blues
Série criada em 1990 por Jerry Scott e Rick Kirkman, explora as situações de comicidade dentro de uma família de classe média americana: um casal, os três filhos e toda a humanidade que gira em volta de um lar: avós, parentes, vizinhos, professores, o pediatra... O habitat familiar foi sempre um recurso inesgotável para muitos autores, mesmo quando não está no centro da própria série, como é o caso dessa obra-prima de Bill Watterson, Calvin and Hobbes: lembremos Hi & Lois (Zezé, na versão brasileira), de Mort Walker (Recruta Zero) e Dick Browne (Hagar, o Horrível), até outra série excepcional que a Gradiva editou há amos, mas que infelizmente não vingou, A Balada da Máquina de Lavar, de Lynn Johnston. (Corram à procura!...) O gosto pelas tiras continua. Baby Blues #37 -- Vá para Fora Cá Dentro, edição Bizâncio, Lisboa, 2020.
domingo, 13 de setembro de 2020
"petite histoire"
A história episódica, a conjuntura, os factos, foram durante muito tempo desprezados pela historiografia, após, durante séculos serem sobrevalorizados. A verdade é que a História nunca se fez sem homens e nunca deixou de ser determinada por factos individuais, por muito que pesem as estruturas, de Júlio César a Napoleão. O volume I de Estórias da História, contadas por Jorge Magalhães e ilustradas por Jorge Trigo, não sendo um livro de BD, é uma obra de dois dos nomes mais importantes dos quadradinhos portugueses do século passado, e por isso o seu aparecimento deve ser assinalado, inaugurando, aliás, a "Colecção JM", justa homenagem ao argumentista e editor esclarecido. Edição Ala dos Livros, Estoril, 2020.





















