segunda-feira, 29 de novembro de 2021

de A a Z - H, de Hagar o Horrível (Dick Browne, 1975)




Víquingue rude, e de pelagem hirsuta, terror de anglos e francos que lhe sofrem a pilhagem, temido por todos, tem pena de que a família não saiba disso: Helga, a mulher, sempre reclamante, e os filhos Honi, adolescente, apaixonada, e Hamlet, um intelectual nada interessado em expedições e saques. Era uma delícia que os jornais ofereciam.

«Leitor de BD»

domingo, 28 de novembro de 2021

uma personagem cheia



Bart “o” Belga montou em Nice dois restaurantes de especialidades gastronómicas do país de Hergé e Franquin (que é também o de Brel, Magritte, Simenon, Yourcenar...), arredondando os proventos com um tráfico modesto de cannabis e um pouco de pó branco, quando calha. Uma vez instalado, teve, porém, de lidar com as exigências da “Trindade”, organização mafiosa que pratica a extorsão, e todos os outros crimes de catálogo, liderada por um velho magnata cuja fortuna se fez alegadamente em torno das corridas de cavalos e apostas, um proxeneta rufia, destinatário de tráfico de carne branca oriundo do Leste, e um empreiteiro que evolui no mundo legal, corrompendo os agentes do Estado. O aviso é feito com um assalto meio simulado a um dos restaurantes, perpetrado por três homens embuçados. Mas ninguém contava que um velho que por lá passara a comprar uma “mitraillette”, típica sanduíche belga, depois de agredido por um dos sicários, neutralizasse todos como se fossem meninos de escola. Trata-se de Vadim Koczinsky, o protagonista do álbum de hoje

Quando os comunistas tomaram o poder em Varsóvia, o jovem Vadim fugiu e alistou-se na Legião Estrangeira, tornando-se atirador de elite. Chegada a idade da reforma e tendo enviuvado, Vadim acomoda-se num lar confortável, graças às poupanças, empregando o remanescente num seguro de vida para o neto, depois de a filha, casada com um indivíduo suspeitoso de traficâncias, ter sucumbido às drogas, algo por que Vadim responsabiliza o genro. Os dias passavam-se amargos mas tranquilos no lar, até que o idoso é notificado que a conta bancária está a zeros, por burla do gestor. Obrigado a deixar a casa de repouso, vendo-se acolhido num albergue para sem-abrigo, ciente de que Sacha ficou sem o seguro de vida, acabará por aceitar a proposta de Bart van Coppens, que a tudo assistira no seu restaurante: “o Belga” não é tipo para deixar-se ficar, e vê no aposentado o homem que irá executar os chefes da “Trindade”. O velho aceita, com condições, e será ainda posto à prova antes de dar conta do trio de bandidos que domina a cidade. O pior são as malditas artrites, que lhe paralisam os dedos de quando em vez.

Monsieur Vadim é um herói inusitado, uma máquina de matar espondilítica, porém com consciência: não é assassino de inocentes, e tem um hábito q ue cumpre religiosamente, a telenovela diária, um pastelão intitulado “As Conchas do Amor”, o que provoca estupefacção, tornando-o alvo de ironia. Como se vê, uma personagem cheia, posta numa situação que não imaginamos consentânea com utentes de lares e centros de dia. O argumento, de Gihef e Didier Mertens, é cru: ajustes de contas com amputações sortidas, curros onde se encerram as jovens mulheres traficadas, forçadas à prostituição; mas não cede a um maniqueísmo fácil: a conversa fortuita de Vadim com um dos homens que no dia seguinte terá na mira é um dos vários bons momentos desta BD. O desenho expressivo, rugoso e com um apurado sentido do movimento de Morgann Tanco, está à altura da escrita de Gihef e Mertens, sendo por sua vez servido na justa medida pela paleta experimentada de Cerise (o casal Cynthia Englebert e Gianluca Carboni).


Monsieur Vadim 1 – Arthrose, Crime & Crustacés

Texto: Gihef e Didier Mertens

Desenhos: Morgann Tanco

edição: Grand Angle, Charnay Les Macôn, 2021

«Leitor de BD»

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

de A a Z - G, de Gaston Lagaffe (André Franquin, 1957)




Uma das mais geniais criações da BD, Gaston é funcionário da redacção da revista Spirou, responsável pelo correio. Ninguém sabe quem o contratou e ele também não se lembra. As gaffes são épicas e o expediente para não fazer nada, também. É inventor de inutilidades e pratos deslumbrantes, como o inolvidável bacalhau com morangos.

«Leitor de BD»


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Brick Bradford, um herói sem tempo


Os primórdios das séries de  ficção científica em BD situam-se muito depois de  escritores como Júlio Verne ou H. G. Wells encerrarem o século XIX anunciando a miríade de caminhos possíveis para as estrelas. Buck Rogers, em 1929, através do traço de Dick Calkins, a partir de um conto de Philip Francis Nowlan, é o primeiro a ganhar as páginas dos quadradinhos. Segue-se Brick Bradford, o herói do livro de hoje, com argumento de William Ritt (1902-1972) e desenhos de Clarence Gray (1901-1957). Nenhum dos dois porém atingirá a aura de Flash Gordon (1934), de Alex Raymond, um dos maiores nomes da 9.ª arte. Lermos um Brick Bradford com os olhos de hoje, esquecendo que os comics eram puro entretenimento publicado nas últimas páginas dos jornais e destinado a todos os públicos, pode ser um exercício de masoquismo, tal o tom naïf e hollywoodesco do argumento. No entanto, Bradford faz parte de um processo que culminará, por exemplo, com uma notável série francesa, madura e complexa, como Valérian (1967), dos franceses Jean-Claude Mézières e Pierre Christin. Brick Bradford está dentro da que é tida como a idade de ouro dos comics americamos (1929-45), devendo-se-lhe também a consolidação de um género nos quadradinhos, sempre apelativo: o das viagens no tempo.

Nesta altura, as narrativas sequenciais sucediam-se indefinidamente, dia após dia, semana após semana, consoante se tratasse de tiras ou páginas dominicais. Chegada a altura de reuni-las em revista ou álbum, era inevitável os referentes narrativos estarem alhures. Por exemplo, Rota é uma "princesa imperial" caída em desgraça e abandonada numa ilha deserta, sem que se saiba a razão. (Uma edição actual traria um resumo do que se passara até aí). Tal como Buck Rogers e Flash Gordon, estamos diante de um trio herói-donzela-sábio. Brick Bradford é um protótipo, pela atitude, do que viria a ser um super-herói. Não tem superpoderes, apenas intrepidez e coragem, e monta ainda a cavalo – o "Chama" –, embora viaje pelo espaço e pelo tempo, graças ao domínio de um elemento chamado "Timex"... Estes périplos recorrentes são um dos atractivos da série: homens de um amanhã longínquo de crânios gigantescos e corpo reduzido (ainda na última semana trouxemos ao "Abecedário" o Esquálidus, de Floyd Gottefredson...), evoluindo dentro de uma bolha, que encerram também as cidades; além de anacronismos sempre saborosos: aztecas e naves espaciais, pilotos com farda tardomedieval, e por aí fora. O cientista amigo de Brick é o bonacheirão Doutor Dramaticus, com aspecto de bonzo tibetano. Sendo amigo do herói é adversário da heroína coadjuvante, deixando o primeiro numa situação desconfortável, embora não hesitante. A(s) história(s) datam de 1945: uma incursão no "hemisfério perdido" (a América), dominado por insectos gigantes, seguindo-se uma perseguição pelo futuro a culminar no ano 1001945 (!)

Brick Bradford

texto: William Riit

desenhos: Clarence Gray:

edição: Editorial Presença, Lisboa, 1976

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domingo, 21 de novembro de 2021

de A a Z - Fantasma / The Phantom (Lee Falk & Ray Moore, 1936)

 



Um espírito que anda, acompanhado por um lobo, a que chama “Diabo”. Um mascarado imortal, assim o julgam todos, menos os pigmeus bandar, junto de quem vive, na Caverna da Caveira. O Fantasma (o Senhor Walker, quando vestido à civil) é o último de uma linhagem que desde há 400 anos jura combater o crime. Nunca se vira nada assim, um justiceiro que inflige o terror à bandidagem. O Batman virá beber aqui.

«Leitor de BD»

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

aviões de papel

 




Que fazem dois autores de BD quando pretendem desenvolver uma série de aviação, de aviões percebendo nada? Obviamente, tiram o brevê... Foi o que se passou com Jean-Michel Charlier (1924-1989) e Victor Hubinon (1924-1979), antes de estrearem a primeira aventura do coronel piloto-aviador Buck Danny, Les Japs Attaquent (1947), episódio de Pearl Harbour, no Pacífico, com uma forte inspiração de Terry e os Piratas, de Milton Caniff (1907-1988), terminada no ano anterior e substituída por Steve Canyon, também ele um ás Força Aérea Americana. Buck Danny é um coronel piloto-aviador, que desde cedo contará com a companhia de dois camaradas:  o capitão Tumbler e o tenente Tuckson. Acompanhando o tempo histórico em que cada álbum se publica, trata-se da mais antiga e bem-sucedida série de aviação de guerra da BD franco-belga: 58 álbuns, 40 dos quais assinados por esta dupla.

Livros como o de hoje, Histoires Courtes (1946-1969), destinam-se principalmente aos admiradores das séries e aficionados dos quadradinhos em geral. Compõem-se de episódios breves, curiosidades, pastiches, documentação. Neste caso, criteriosamente editado por Bernard L. Thouvanel, jornalista especializado em temas de aeronáutica, recolhe dez breves histórias, algumas inéditas outras dispersas, para além de fotografias históricas. Mas o leitor comum ficará sempre mais bem servido com a narrativa canónica das 46 páginas. 

O álbum começa com a pré-história de Buck Danny: "Pilotos de turismo" (1946), apenas de Hubinon, um trecho de humor que conta as peripécias por que passavam os candidatos ao brevê numa qualquer escola de aviação. Segue-se "A agonia do 'Bismark'", também de '46, em que ambos desenham: episódio verídico sobre o super-couraçado "Bismark", o mais poderoso vaso de guerra até então construído, que afundara o HMS Hood, orgulho da Royal Navy, na batalha naval do Estreito da Dinamarca (1941), representando uma séria ameaça, como afirmou Churchill: "Para que a Inglaterra sobreviva, custe o que custar, afundem o Bismark!" Os ingleses vão empreender uma perseguição fazendo pagar caro a pesporrência nazi. Pese a juventude dos autores, com 22 anos, o dinamismo narrativo é eficaz, com vinhetas esplêndidas de batalha aéreo-naval, e abundância de plano picado e contrapicado, como seria de esperar. "Duelo no Céu", "Missão Especial" e "Roubaram um Protótipo..." (1955-56) são histórias breves de quatro pranchas, agora já com o coronel Danny, durante a Guerra Fria, em que está sempre por detrás a acção de uma potência estrangeira, nunca nomeada. Se não acrescentam nada a este universo, também não deixam os créditos dos autores por mão alheias, embora Charlier detestasse escrever narrativas curtas por lhe queimarem vários cartuchos passíveis de usar num álbum canónico. Finalmente quatro pequenos episódios de humor e autopastiche: "As horripilantes aventuras de Buck Danny, veterano da U. S. Air Force" (1957); "Duck Flappy - Protótipo X-6432589" (1960); "Missão Especial" e "Uma História Inacreditável" (1969), cereja no topo: em pleno ar, o chefe da esquadrilha comporta-se estranha e perigosamente aos comandos, para espanto dos companheiros: chegados ao solo, Tumbler e Tucker dirigem-se furiosos ao comandante, quando vêem Gaston Lagaffe, o anti-herói criado por Franquin, vestido a preceito, trazendo na mão o manual "Piloto de Caça em Três Lições", e com justificação: uma vez que vira Buck Danny demasiado absorvido pela aventura da página 14, resolvera substituí-lo, naturalmente...

Les Aventures de Buck Danny - Histoires Courtes 1. (1946-1969)

Texto e desenhos: Jean-Michel Charlier e Victor Hubinon.

Edição: Dupuis, Marcinelle, 2020

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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

de A a Z - Esquálidus / Eega Beeva (Bill Walsh e Floyd Gottfredson, 1947)


 


Homem do futuro (século XXIV), encontrado fortuitamente por Mickey e Pateta no interior de uma caverna, dormindo no topo de uma estalagmite. De nome completo Pittisborum Psercy Pystachi Pseter Psersimmon Plummer-Push, fala na língua dos pês. De cabeça desproporcional e mãos e pés em que sobressai apenas o polegar e o dedão, tem como uma das características retirar do saiote qualquer objecto, de um dedal a um iate. Bem visto: cérebro enorme para armazenar dados, polegares avantajados para teclar um móvel, resolvido o problema de acumulação de bens de consumo. Seremos felizes no século XXIV.

«Leitor de BD» 

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

CRÁS!


Linguagem específica da BD, nada melhor do que uma onomatopeia para dar título a uma revista de quadr(ad)inhos. Nos idos de '74, a Editora Abril, uma das maiores da América Sul, lançou uma edição especial da colecção "Diversões Juvenis", testando o mercado para a receptividade de novos títulos. CRÁS!, em formato europeu, reuniu um punhado de autores representativos dos quadrinhos brasileiros. Quadrinhos que vêm de longe: As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte (1869), do ítalo-brasileiro Angelo Agostini (1843-1910), assinalam o início da 9.ª Arte no Brasil. Hoje, mesmo com a enorme influência dos comics americanos, o panorama quadrinístico é palpitante, pelo que nos é possível ver, graças também à persistência duns poucos editores portugueses.   

Trata-se de uma edição equilibrada quanto aos géneros e temas, em que o humor prevalece nas suas várias dimensões. As històrinhas de cariz mais infantil estão representadas por "Aragão", um cachorro e a sua criança, da autoria Cesar & Odair, e "Cafuné e Acácio", de Primaggio (também ítalo-brasileiro), sobre um tucano que vive no gorro do dono.   Humor para todos, encontramos nos perfeitos gags animalistas de Waldyr Igayara (o cão Astolfo, a tartaruga Nina e o rato Felisberto); "Olimpo", de Xalberto, põe em situação cómica os deuses gregos; "Zing, Zong, Crunch e o Chomp" de Júlio & Omar, ou o bicho da maçã que não se fica diante de nenhum Guilherme Tell. Pelo meio, “Vavavum”, desenho de Nico Rosso e Carlos Edgard Herrero e texto de Ivan Saindenberg, sobre um piloto de Fórmula 1 que salta no tempo quando mete a sexta velocidade. Noutro registo, “Alex e Cris”, trecho banal de espionagem; e os obrigatórios temas indianista – “A Iara”, de J. Lanzelotti -- e histórico: o tópico do encontro entre navegadores portugueses e indígenas, com desenhos de Ivan Washt Rodrigues e argumento de Saidenberg em “A guerra que não houve”. No domínio do fantástico (de que “Iara” também participa), o luso-brasileiro Jayme Cortez procede a uma recriação do mito de Fausto, numa demonstração dos recursos que fizeram dele um dos maiores nomes da BD dos dois países no século passado.

Regressando ao humor, o melhor vem no fim. “Cactus Kid”, de Renato Canini. Um pistoleiro com aparência de Kirk Douglas e sex appeal que na verdade é Zeca Funesto, um cangalheiro falido, careca e desdentado com o negócio em crise, pois os bandidos estão todos a regenerar-se. Uma pura desbunda pelo artista que (não) assinava as histórias da patota do Zé Carioca em Vila Xurupita. Outra narrativa esplêndida, sem título, e assinada simplesmente por Michele (o ítalo-brasileiro Michele Iacocca), mostra-nos um homenzinho que começa por reivindicar um simples vinheta que lhe enquadre o espaço e termina com a destruição da mesma à bomba pelo próprio locatário, que entretanto encheu o espaço de tudo o que a sociedade de consumo e desperdício facilita (e quem vier depois que fecha a porta). Finalmente “Satanésio”, de Ruy Perotti, um diabo que vem à superfície por falta de hóspedes. O Inferno está à superfície, e o pobre diabo, ultrapassado pela crueldade humana, arranja emprego num circo, e expelir fogo pela boca, pois claro.

«Leitor de BD»

domingo, 24 de outubro de 2021

de A a Z - Dick Tracy (Chester Gould, 1931)


Numa América assolada pelo proibicionismo da Lei Seca e pelo gangsterismo que a originou, o agente da Lei tem de ter cara de poucos amigos, e preparar-se para esmurrar ou disparar, quando for preciso, os patifes cujo fácies nada ficava a dever a James Cagney ou Edward G. Robinson nos seus piores momento.

sábado, 23 de outubro de 2021

o senador Alix




Alix o Intrépido, apareceu em 1948 nas páginas da revista Tintin, mostrando as aventuras de um jovem gaulês, antigo escravo adoptado por um patrício romano. A adesão dos leitores “dos 7 aos 77 anos”, foi imediata, para surpresa do próprio Hergé, em cujos estúdios o ainda jovem autor trabalhava; e em breve Jacques Martin (1921-2010) ganharia a autonomia necessária para consagrar-se inteiramente à sua obra. Alix, principalmente, mas também Lefranc, de que já aqui falámos, entre outros. Até uma idade avançada e com problemas de visão, Martin interveio nos livros, contando também com assistentes que, adoptando-lhe o estilo, continuaram o seu trabalho.

O sucesso de Alix deve-se, quanto a nós, à circunstância de relatar as peripécias de um jovem gaulês na Roma de Júlio César e à arte de narrar de Martin, construindo episódios em que perpassa sempre algo de inusitado. Acresce um grande rigor de investigação, que fez do autor um nome também respeitado pelos historiadores. Características que tentaremos desenvolver quando tratarmos do Alix canónico.

Com dezenas de milhões de álbuns vendidos, as histórias prosseguem, correndo ao lado de uma sequela, Alix Senator (desde 2012), e uma prequela Alix – Origens (2019), este num estilo gráfico inspirado pela manga japonesa, que nos parece muito bem, porém dividindo a crítica. Sempre defendemos que a continuação das séries quando o autor original se retira não deveria cingir-se a uma simples cópia da matriz, mas a partir dela evoluir no que respeita ao argumento, sem traições ao espírito do universo tratado; e quanto aos desenhos, quanto mais marcadamente o novo autor assumir a sua personalidade, maior é o risco, mas também o interesse pelo desafio.

O álbum de hoje, Alix Senator – 1. As Águias de Sangue, vai por aí. Thiery Démarez (Raincy, 1971) afasta-se do estilo da “escola de Bruxelas”, a linha clara, procurando, no entanto, uma reconstituição historicamente credível a exemplo do Alix canónico; se a atitude nos agrada por princípio, a verdade é que o seu estilo, por vezes hiper-realista, não nos preenche. O mesmo não se dirá do argumento de Valérie Mangin (Nancy, 1973), historiadora de formação, especializada em história institucional, e com uma obra extensa de BD, revelando-se conhecedora não só da história de Roma, como do universo de Alix e da arte narrativa específica da BD.

O herói gaulês tornado político é, dobrados os cinquenta anos, senador no início do governo de Augusto, de quem é cunhado. Estamos em 12 a.C., preparando-se o imperador para a investidura como pontífice máximo. O cadáver do anterior dignitário, rival de Augusto, fora encontrado esventrado, os porcos a chafurdarem-lhe as entranhas, diz-se que atacado pelo próprio Júpiter sob a forma de águia. Pouco depois será a vez de Agripa, genro do imperador e seu sucessor designado, a conhecer a mesma sorte, numa conspiração urdida não se sabe por quem. Alix – agora na companhia de Tito, fruto da união com Lídia Octávia, irmã de Augusto, e Khephren, filho do inseparável companheiro egípcio Enak –, procurará perceber o que está por detrás do sucedido, num jogo complexo de incertezas e sombras que recaem sobre a narrativa. O maduro senador Alix vai ao encontro do jovem combativo de outrora.

Alix Senator – 1. As Águias de Sangue

Texto: Valérie Mangin

Desenhos: Thierry Démarez.

Edição: Gradiva, Lisboa, 2021

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quinta-feira, 21 de outubro de 2021

de A a Z - Calvin and Hobbes (Bill Watterson, 1985)




Há um arco de volta perfeita que transporta os sonhos feéricos do Pequeno Nemo 80 anos para a frente, ao encontro do sonhar acordado de Calvin, seu par na marca que imprimiu na história dos comics e na memória de milhões. Deixar a mente voar nos bancos da escola, quando não nos interessa nada do que a professora está para ali a dizer – quem nunca foi o astronauta Spiff ou o Homem Estupendo?... Watterson é um mago que nos abriu os portais da infância, partilhando connosco o segredo que só ele e Calvin conhecem: na verdade, Hobbes é um tigre a sério.

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terça-feira, 19 de outubro de 2021

discurso directo: Yann

Yann, actual argumentista de Thorgal, foi o último a trabalhar com Rosinski, antes de o mestre polaco se retirar. À pergunta sobre como se processava a relação de trabalho entre ambos, Yann responde, em entrevista dada ao mensário L’Immanquable, em 2018: «Grzegorz é uma pessoa muito agradável. […] Procedi da mesma maneira que Jean Van Hamme, ou seja, forneci um argumento que ele compôs segundo o seu critério.» Muitas vezes o argumentista faz o plano de cada prancha, o découpage, dando pouca margem ao desenhador. Com Rosinski, não por capricho, mas por talento desmesurado, tal não seria possível.

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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

heróis improváveis




Na BD sucede, com alguma frequência, uma personagem secundária impôr-se ao autor ou ser adoptada pelo público, disputando com o protagonista o interesse dos leitores: Spirou ou Astérix são bons exemplos: é impossível imaginar este sem Obélix, e primeiro caso, Fantásio subiu mesmo ao cabeçalho, passando a série a apresentar-se como relatando as peripécias de ambos – as aventuras de Spirou e Fantásio. Astérix e Spirou são demasiado correctos e idealizados nas suas qualidades, enquanto Obélix e Fantásio estão cheio de defeitos e isso diverte, até porque vemo-nos ao espelho. O mesmo poderia dizer-se de Tintin e Haddock, Mickey e Donald e outros mais. Uns representam muito do que desejaríamos ser, os outros algo do que realmente somos. Há ainda outros casos curiosos em que personagens vindas do nada tomam conta das séries, relegando os prévios protagonistas por vezes a meros coadjuvantes: Popeye aparece em 1929 em Thimble Theatre, criado uma década antes, tendo Olívia Palito como personagem principal; a figura do livrinho de hoje, Nancy, talvez a criança mais feia dos comics, que destronou e relegou para a insignificância a tia, uma brasa com pinta de pin-up.

Em 1922, Larry Whittington (1903-1942) criou a personagem Fritzi Ritz, uma pura mundana desse período socialmente agitado do pós-Grande Guerra; mas apenas três anos depois, em virtude de disputas de copyright – eram os proprietários dos jornais em que se publicavam estas comic strips quem detinha os direitos de autor, e não os artistas que as criavam –, Whittington foi afastado dando lugar a outro jovem, Ernie Bushmiller (1905-1982). Em 1933, este introduz Nancy na série e pouco depois Sluggo, o amiguinho leal e paciente, inspirando-se Ernie na sua própria infância não muito abonada de filho de imigrantes vivendo no Bronx. Cinco anos mais tarde, em 1938, Nancy passa a protagonista, a tia Fritzi (a tia Glorinha, em português), continua lindíssima, mas remetida ao papel de educadora , nem sempre bem sucedida.

Nancy não é mignonne como a sua contemporânea Luluzinha, nem uma líder como Mônica, ou inteligentemente contestatária tal a Mafalda. Não, Nancy é uma criança caprichosa, comilona e por vezes desagradável e também esperta – talvez a razão do seu sucesso junto do público norte-americano. Entre nós, os miúdos ficaram conhecidos por Tico e Teca, assim chamados pelos brasileiros, nas revistas que aqui chegavam.

O talento de Bushmiller em criar uma situação cómica nas escassas vinhetas de uma tira, fazendo-o com economia de meios, mas grande legibilidade, foi sublinhado pelos estudiosos e pelos colegas de profissão. Autores como Wally Wood e Art Spiegelman expressaram a admiração pelo trabalho deste veterano, e no ensaio How to Read Nancy? (1988), os autores, Paul Karasik e Mark Newgarden, evocam o minimalismo de Mies van der Rohe a propósito da composição das tiras diárias de Nancy, acrescentando que elas são o modelo mais perfeito das características que deve apresentar uma tira de quadradinhos: equilíbrio, simetria, economia....


Tico e Teca – Especial

autor: Ernie Bushmiller

edição: Idéia Editorial, São Paulo, 1976

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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

de A a Z - Batman (Bob Kane & Bill Finger, 1939)




Ver os pais assassinados or ladrões de rua: mais do que vingança Bruce Wayne, nascido em berço de ouro, quer tirar desforço do maldito acaso. Alfred é o mordomo que funciona quase como ump tutor, Gordon é o comissário impoluto mas complacente. O milionário playboy esconde o magnífico Batman, único, inigualável. Homem-morcego, actua de noite e o seu vislumbre inflige o pavor a bandidos semelhantes aos que o deixaram órfão nessa Nova Iorque negra que é Gotham City. Por isso, os inimigos de Batman estão para lá destes assalta-becos, pilha-galinhas urbanos; são criaturas hórridas – Joker, o Pinguim... –, inquilinos do asilo Arkham, expressões de terror simétricas dessa permanente cicatriz que deambula no breu dos arranha-céus.

Citação: «Batman é maior do que a soma dos seus ilustradores.» Jacques Sadoul, 93 Ans de BD (1989) – referindo-se a Kane, Adams, Miller, Wrightson e todos os outros.

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terça-feira, 12 de outubro de 2021

coboiadas



Uma capa minimalista que pouco diz sobre o que vai no seu interior, é a face do primeiro tomo de Gus, de Christophe Blain (Argenteuil, 1970), originalmente publicado em 2007: um cowboy de aspecto grotesco e nariz de Pinóquio em potência máxima, parecendo lançar-se sobre algo (uma sela, por exemplo), com olhos que não são de fiar. Abre-se, e se desconhecêssemos o autor, que é o mesmo de Isaac o Pirata, perceberíamos então que não se trata de histórias para meninos de bibe. Gus, Clem e Gratt formam uma quadrilha de ladrões de bancos e diligências. Amigos leais entre si, não têm pejo em despachar para a terra da verdade qualquer que se lhe atravesse ao caminho. Brigões perigosos, a maior fraqueza está nas “gajas”... Após cada assalto, há um banho reparador numa casa de meninas, que antecede a acção com as ditas. Porém...

Versando sobre diversos tipos de mulheres, o livro é escrito e desenhado por um homem e fala-nos também de homens e da sua obsessão primeira ou principal: como lidar (com) as mulheres quando o propósito é levá-las para a cama. Estes patifórios ficam a perceber que a última palavra é sempre delas. Gus é o mais cómico deste trio: um pinga-amor, cheio de dinamismo para a conquista, ficando invariavelmente a ver navios; Gratt é o mais tímido e gentil, o que lhe vale alguma coisa; Clem, por fim, homem de família, surge ligado às mulheres mais interessantes de todas quantas por aqui desfilam. Vamos a elas: Isabella, uma fixação antiga, é a que espicaça e nunca se entrega, pobre Gus, que terá de orientar o longo nariz para outro azimute. Depois a mulher sem nome, tão desejável, que se deixa admirar enquanto faz tempo numa estação de muda de cavalos, traz-nos à memória a milady do deslumbrante Cesário Verde: “Milady, é perigoso contemplá-la, / Quando passa aromática e normal, / Com seu tipo tão nobre e tão de sala, / Com seus gestos de neve e de metal.” Melanie e Lucy são a leveza da inconsistência que pouco ou nada acrescenta; tê-las ou não é mais ou menos irrelevante, como elas bem sabem e assim se dão bem. Depois, a poetisa chanfrada, com cremes e idade a mais; Gisella, a pintora madura ricamente casada e senhora da própria agenda; ou ainda a mal casada e não lá muito cheirosa Linda McCormick, mulher do juiz, que se apaixona por cada amante, nascida para carpir desilusões. E ainda as baristas e as prostitutas, que fazem o mundo girar. As belas figuras deste cortejo são Ava, a mulher de Clem, esposa leal, que se pressente fogosa debaixo duma capa de austeridade; e Isabella, a amante, a mulher livre, que se dá aos homens de quem gosta sem lhes pedir nada em troca, fotografando-os, não como troféus, antes recordação afectuosa.

Por baixo do desenho caricatural, grotesco e propositadamente infantilizado, há um colorido painel sobre relações, entre o encanto e a frustração. Encantador é o trabalho de Blain, a cor e o movimento de cada vinheta. E o conselho é este: após a primeira leitura, o melhor é mesmo folhear vagarosamente, apreciando cada vinheta e a arte sequencial do autor.


Gus – 1. Nathalie

texto e desenhos: Christophe Blain

Edição: Gradiva, Lisboa, 2021

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