quarta-feira, 8 de julho de 2020

mutante

Criado em 1974 por Roy Thomas, Len Wein e John Romita Wolverine é das personagens mais interessantes da parafernália Marvel, um assassino de bom coração… Em Wolverine: Logan, texto de Brian K, Vaughan e Eduardo Risso, o mutante está no Japão, em processo de autoconhecimento e regeneração. Edição G-Floy, 2020.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

ideias peregrinas

Zé Nuno Fraga (n. 1974), após ter trocado a engenharia pelos quadradinhos, cuja estudo e prática aprofundou na Galiza, apresenta-se ao grande público com a adaptação da peça A Assembleia das Mulheres, de Aristófanes. O comediógrafo (e poeta) da Grécia Antiga fez representar o texto pela primeira vez em Atenas, em Janeiro de 392 a.C., num concurso teatral realizado durante as festas dionisíacas das Leneias. Perdeu; porém tratou-se dum belo insucesso, considerando os dois milénios que o texto já atravessou…
Aristófanes parodia a ideia que advogava a possibilidade de o governo da polis ser entregue às mulheres. Perante a crise que assolava Atenas, decorrente da longa Guerra do Peloponeso, travada com Esparta, um grupo de mulheres lideradas por Praxágora, disfarçadas de homens, propõe numa assembleia uma mudança de paradigma: já que o sexo masculino havia governado tão mal, era altura de tentar um governo exclusivamente delas. Mas havia mais: as leis seriam alteradas: deixaria de haver propriedade e bens particulares, tudo fazendo parte de um fundo comum. Os escravos, obviamente estavam fora desta medida, pois a democracia era só para os atenienses.
O longo diálogo entre Praxágora e o marido, convencendo-o da bondade do novo sistema, corre de feição, mesmo quando lhe é comunicado que homens e mulheres podem dormir com quem quiserem e que os filhos passarão a ser de todos os pais e mães. A forma como Fraga consegue contornar a dificuldade óbvia em reproduzir esta troca de argumentos entre o casal, é plenamente conseguida, ao longo de dez pranchas, tão cheias de movimento como de filacteras, e com um traço caricatural que se casa bem com o texto.
Se a utopia perseguida até hoje pelos visionários, poderia fazer sorrir o público ateniense nesse Janeiro de 392 anterior à nossa era, a irrisão surge quando a igualdade sexual passa a ser imposta por forma a não deixar ninguém para trás, como se leria hoje num cartaz político: antes dos jovens, havia que satisfazer os velhos, sob pena de avultada sanção em caso de incumprimento, antes dos belos os feios, e à frente dos saudáveis, os aleijados. Estamos já no domínio do grotesco, e que disputas se nos apresentam, por Zeus! De tal forma que a fome aperta. Está pois na altura de iniciar-se o banquete, prazeres da mesa e da mente, e de um prato especial, o Lopadotemakhoselakhogaleokranioleipsanodrimypotrimmatosilphiokarabomelitokatakekhymenokikhlepikossyphophattoperisteralektryonoptekephalliokinklopeleiolagōiosiraiobaphētraganopterygṓn –, um guisado imaginado pelo autor. Com ele Aristófanes brindou-nos, não com dotes culinários, mas com aquela que ainda hoje se considera a mais longa palavra jamais escrita.
Ao substituir um género por outro à frente dos destinos da cidade, cabe perguntar se estaria assim tão longe da ideia de “paridade”, como Platão viria a defender em A República, ainda que Aristófanes não parecesse partilhar do mundo ideal do filósofo, antes preferisse o gosto de meter a mão na massa...

A Assembleia das Mulheres
Texto: Aristófanes
Desenho: Zé Nuno Fraga
edição: A Seita, Prior Velho, 2019


sábado, 4 de julho de 2020

era uma vez o muro

Várias histórias de um autor alemão, Flix, recordando em conversa com outros que passam o tempo em que havia duas Alemanhas, um muro a separá-las e uma realidade nem sempre linear: Aqui Já Houve Algo – Memórias Deste e do Outro Lado, edição Polvo, 2020.


quinta-feira, 2 de julho de 2020

piratas

A pirataria conta com mais uma personagem de BD: Raven, um jovem audaz defrontando um governador corrupto, uma comandante de flibusteiros que dá pelo nome de Lady Darksee – uma venda no olho, uma homofonia com o negrume do mar da pirataria…– tudo ambientado no Caribe, como teria de ser. Texto e desenhos de Mathieu Lauffray, autor que gosta de cultivar o género, responsável pela série Long John Silver – para quem se não lembra, o perna-de-pau de A Ilha do Tesouro (1883), do escocês Robert Louis Stevenson –, com argumento de Xavier Dorrison. Edição Dargaud, Paris, 2020.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Teodoro

Frank Le Gall é autor de uma maravilhosa série de aventuras dentro da “linha clara”: Théodore Poussin, ou Teodoro Pintainho, como ficou na tradução do primeiro e único álbum publicado em Portugal, pela Meribérica, que teremos um dia de ir buscar à velha estante. Para já a notícia de que a Dupuis se prepara para lançar “a integral”, com os seis primeiros álbuns divididos por dois volumes. Edição Dupuis, Marcienelle, 2020.

domingo, 28 de junho de 2020

Dick Tracy


O imaginário gangster, que nos foi aportado pela literatura e pelo cinema, está muito longe de exercer o mesmo fascínio que o western, esse sim, o grande contributo da América do Norte para a narrativa humana global, desde que descemos das árvores.
No que respeita aos comics a primazia deve-se a Chester Gould (1900-1985) e ao detective policial que criou, Dick Tracy. Surgido em dois jornais, em Nova Iorque e Detroit, em 1931, em pleno vigor da “Lei Seca”, à sombra da qual medrou o crime organizado, com o seu cortejo de horrores, disposição legal que viria a ser revogada na presidência de Franklin D. Rossevelt, um dos grandes presidentes da história dos Estados Unidos.
A diferença de Dick Tracy relativamente a recriações recentes como o magnífico Torpedo, de Enrique Sánchez Abuli e Jordi Bernett, reside na circunstância de este se tratar de uma recriação, com a justaposição da pátina que o tempo histórico lhe deu, ao passo que Dick Tracy evoluía durante o calor dos acontecimentos. Talvez por isso a violência e a crueza que por vezes é apontada à série se explique por essa contiguidade com o crime, trazido em manchetes pelo mesmo jornal que publicava Dick Tracy, em tiras diária e páginas dominicais. Acresce à verosimilhança da violência o atractivo dos gadgets a que o detective lançava mão e à prática científica forense apresentada de forma meticulosa, pois o próprio Chester Gould tirara vários cursos para documentar-se.
Mas o principal trunfo de Dick Tracy deve-se, quanto a nós, à mestria narrativa do autor, com uma influência do cinema, nomeadamente nas elipses e cortes de planos. Gould possuía uma mestria narrativa que prendia a atenção do leitor. Neste mesmo livrinho, por exemplo, numa única tira, com apenas três vinhetas – dando sequência à do dia anterior e procurando interessar o leitor pela continuação no dia seguinte – cada quadrinho corresponde a lugares diferentes da história: o espaço da vítima, o dos criminosos e a esquadra de polícia (cfr. tira central da página 27).
O Caso 3-D, a história desta edição, datada de 1957, é um vulgar episódio de extorsão, muito bem contado. Cabeça de Lata, a personagem central, magnata do petróleo, detentor de uma fortuna colossal e vários casamentos, decide visitar um dos sete irmãos, após 30 anos de ausência. Este é BO Plenty (Farfalha, na tradução brasileira), um hillbilly – ou seja, uma dessas figuras rústicas, que vivem em clã nas zonas montanhosas da América do Norte, celebrizados também pelos comics e pelo cinema – e a cuja família, em particular às jovens sobrinhas, quer presentear com uma modelar casa de banho... Este Farfalha, ex-criminoso tornado amigo de Tracy, foi um elemento de contraponto humorístico, para suavizar a violência negra do argumento. Ao mesmo tempo, Poly, ex-mulher de Cabeça de Lata e gananciosa, mancomunado com o amante, 3-D Magee, não olham a meios para extorquirem o possível ao velho tycoon. No fim, é fatal, o bem triunfa sobre o mal. Rima e tomara fosse verdade.

Dick Tracy -- O Caso 3-D
argumento e desenhos: Chester Gould
edição: Rio Gráfica Editora, Rio ded Janeiro, 1981


sexta-feira, 26 de junho de 2020

do melhor

Mesmo sem ainda termos lido senão algumas pranchas. E porquê? À partida, porque o argumentista é Xavier Dorison, de quem já aqui falámos a propósito de Undertaker; depois porque os desenhos de Félix Delepe, um jovem autor de 27 anos são de tal forma soberbos na antropomorfização animal – ao nível de Sokal (Canardo) e Guarnido (Blacksad), que nos deixam ávidos por próxima leitura. Um castelo é abandonado pelos senhores, e os animais dele tomam posse. Sílvio o touro impõe-se e governa pela força. Que aproximações e distâncias a Animal Farm, de George Orwell?... O Castelo dos Animais, tomo 1, edição Arte de Autor, 2020.


quarta-feira, 24 de junho de 2020

à procura do passado

Romance gráfico da alemã Antonia Khün, fala-nos de Paul, um rapaz que perdeu a mãe, e cujo passado familiar está envolto em secretismo, interditos ou não-ditos. Trata-se de saber, ajudado pela memória desfocada e intermitente e fragmentos remanescentes do passado, que família é a sua. La Clarière, edição Cambourakis, 2020.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

André Diniz outra vez

Também dele já aqui falámos, a propósito do desafiante Entre Cegos e Inimigos (2019). Oportunamente será a vez de abordarmos a segunda edição de Morro da Favela, sobre o fotógrafo Maurício Hora, enriquecida com novas pranchas do autor e mais fotografia. Edição Polvo, 2020.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

sobre o mal

Umbra”, palavra latina para “sombra”, traz consigo todos os transtornos: os segredos inconfessáveis, a clausura, a morte. Digamos então que Umbra é uma publicação de banda desenhada sobre a persistência do mal, em nós e nos outros – e que bem ele se nos apresenta: predação, conspirações, ganância, parafilias, abusos, de tudo há nestas cinco-estórias-cinco de BD em português. Uma cabeça de ursinho Rupert, na capa magnificamente umbrosa, diz tudo.

Estrada da Coca-Cola, de João Chambel (texto) e João Sequeira (desenhos), fábula pós-nuclear em que impera o mutismo e o isolamento. Um casal habitando uma roulote à beira duma via deserta, em que por vezes circulam presas e predadores, desespera por encontrar mais gente, mas os sinais de desumanidade são demasiados para um final feliz. O preto e branco de João Sequeira serve esta narrativa porosa em que a escuridão predomina.

Óscar, sigla de mensagem de radioamador – ‘o chat dos anos setenta’ – e alcunha da personagem desta história, com argumento de Pedro Moura e desenhos de Filipe Abranches. Contactado na banca da arrecadação, onde tentava arrumar tralha antiga, por um amigo desse tempo, desaparecido havia muito. Óscar percebe que aquele que agora lhe surge do nada, inesperadamente, como se engolido e materializado em frequências electromagnéticas. Óscar empreendeu o registo dessa voz que lhe vinha de outras bandas; porém, o homem põe e há sempre alguém a dispor...

Herbicida, também de Pedro Moura e desenhos de Sérgio Sequeira, estica até ao horror as consequência da manipulação genética no reino vegetal. O estilo manga de Sequeira enquadra na perfeição o argumento. Das cinco, é a única narrativa que não se afunda no pessimismo.

Carne, de José Carlos Joaquim, Pedro Moura e Hugo Maciel, traz-nos um loquaz psicopata esquartejador de mulheres. Tudo correcto, mas talvez pelo tema batido, foi a que menos nos agradou. No entanto, uma bela subversão daquele verso de Camões, “Transforma-se o amador na cousa amada”...

Finalmente, Zodíaco, do brasileiro (Eduardo Filipe) Sama, é uma feliz combinação de sobrenatural e atmosfera negra, por onde vagueia um jornalista despromovido para secção do horóscopo. Há o patrão e a mulher dele, ou cá se fazem, cá se pagam – ou não?

Para revista falta à Umbra um pouco mais – e não é só o índice inexistente. Um editorial a dizer ao que vem, não estaria mal; umas notas sobre os autores, também não; e se se quer ser revista, há que rever, um artigo outro não era mal pensado. Falta tudo isso, e é pena. Esperemos que o n.º 2 possa colmatar estas lacunas, até porque quando se fizer um balanço das revistas de BD numa qualquer data redonda deste século, a Umbra terá de lá estar.

Umbra #1
Vário autores
edição: Umbra Edições, Outubro 2019


segunda-feira, 15 de junho de 2020

o primeiro Lucky Luke

No fim da II Guerra Mundial, o jovem Maurice de Bevère (1923-2001) trabalhava nuns estúdios de animação em Bruxelas, na companhia doutros futuros talentos da BD: Franquin (Spirou e Gaston), Peyo (Schtroumpfs) e Eddy Paape (Luc Orient). A concorrência dos grandes estúdios norte americanos era avassaladora, e a pequena empresa fechou. Os jovens viraram-se para a banda desenhada, actividade supostamente contígua; porém, como viriam a descobrir, a linguagem é outra e de outra natureza é a arte praticada.
Morris – nome artístico de Maurice, homofonia adoptada para sempre – estava longe de imaginar que a personagem que criara, para o Almanaque Spirou, no fim de 1946, figurando numa breve narrativa intitulada Arizona 1880, viria a ser um dos maiores ícones dos quadradinhos mundiais, no que respeita a difusão e popularidade. Chamava-se Lucky Luke, personagem de que nunca mais se desligou, sendo um dos raríssimos casos em autores de BD a trabalhar exclusivamente a mesma figura. Até Hal Foster, que não imaginamos a fazer outra coisa que não o Príncipe Valente, desenhou previamente um Tarzan…
Em 1948, Morris partiu para os Estados Unidos, na companhia de Jijé e Franquin, e por lá ficou seis anos a trabalhar. Em Nova Iorque, três anos depois, irá dar-se um encontro decisivo com René Goscinny, decisivo para ambos, pois será em consequência dele que o futuro criador de Astérix se lançará como argumentista de BD.
O Lucky Luke inicial tem ainda características de boneco para animação: traços muito arredondados, quatro dedos em cada mão, mas também já algumas das características que o distinguirão: tiro certeiro, um punch de aço, espírito abnegado e corajoso.
Este primeiro álbum, publicado em 1949 na sua edição inicial, traz duas histórias: A Mina de Ouro de Dick Digger (1947) e O Sósia de Lucky Luke  (1951). Na primeira, o mapa de uma mina dum velho pesquisador é roubado por dois bandidos, com o jovem cavalheiresco prometendo à mulher de Dick Digger a sua recuperação; na segunda, Mad Jim é um desperado que aterroriza o Arizona; acontece que é também um sósia de Luke, vestindo a mesma indumentária: este é capturado e Mad Jim faz-se passar pelo nosso herói. Jolly Jumpper, porém, que à época ainda não aprendera a jogar xadrez, não se deixou enganar. A narrativa termina com o original a abater a cópia. No tempo de Morris a solo, Lucky Luke matava; Goscinny acabou com isso.
 A partir de Carris na Pradaria (1955), o argumentista vem acrescentar ao carisma inicial uma refinamento no humor e um carácter menos naïf, além do cómico de situação, reinventando uns primos Dalton (os irmãos originais haviam também sido mortos pelo cowboy solitário) e o cão mais estúpido do Oeste, Rantanplan. Depois foram vieram livros como O Juiz O 20º de CavalariaA CaravanaCalamity Jane, Canyon Apache, ou Os Dalton no Psicanalista, entre outras obras, primas atrás de primas.


Lucky Luke – La Mine d'Or de Dick Digger
texto e desenhos: Morris
edição: Dupuis, Marcinelle, 1969.
edição portuguesa: Asa, Porto, 2005.


domingo, 14 de junho de 2020

Ama

No Japão da década de 1960 subsistem numas recônditas ilhas japonesas um grupo de mulheres, designadas por ama, cuja prática de mergulho em apneia para apanhar crustáceos é ancestral. Num Japão tradicional, estas mulheres de modos livres e naturais – envergam apenas um pano a tapar o sexo – causam a admiração geral, pelo modo como agem, inclusive perante os pescadores por quem não se deixam amedrontar. Nagisa, rapariga de Tóquio, tímida e de educação tradicional, passa uma temporada com elas, deixando para trás um passado problemático. Texto de Franck Manguin, profundo conhecedor e apaixonado pelo Japão, cuja cultura quis estudar após ter lido Kawabata, e desenhos cheios de souplesse em muitos tons de azul de Cécile Becq. Edição Sarbacane, Paris, 2020.

domingo, 7 de junho de 2020

sem palavras

Realizador, documentarista, argumentista, o belga Joris Mertens estreia-se na BD com Béatrice, história, sem palavras, inspirada num velho álbum de fotografias. Balconista num qualquer centro comercial, todas as manhãs vê numa montra uma carteira vermelha que parece aguardá-la. Até que Béatrice decide levá-la consigo, o que terá como consequência uma reviravolta na sua vida. Escreve o editor que o mito de Fausto anda por perto. Edição Rue de Sèvres, Paris, 2020.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

um homem escalavrado

A leitura é também um processo físico, e nada substitui o prazer de ter um livro nas mãos e folheá-lo, nem sequer as revistas, que são outro tipo de regalo. Já a web, com todas as vantagens quanto à disseminação de material, falta-lhe o vinco da matéria impressa, o cheiro a papel e a tinta, se tivermos sorte. Um álbum em formato clássico de BD franco-belga, produzido na origem, com a chancela portuguesa da Arte de Autor, dá-nos aquela boa sensação. E com a pandemia, as opções têm sido escassas...
Comecemos pela capa, ampla, imagem aberta e essencial como o cenário de que se compõe. O Colorado, nos finais da década de 1860, um território que não ascendera ainda à dignidade estadual e cujo nome tipifica o lugar-comum do oeste selvagem, de terras sem lei nem ordem. Os áridos maciços pedregosos das Rocky Mountains, cujo tom terroso e barrento contrasta com a chapada de azul celeste, impõe-se à imagem do cowboy e montada postados à direita, em primeiro plano. Enquanto que, no canto superior esquerdo, entre o nome dos autores – Hermann e Yves H. – e o título deste episódio – A Última Vez que Rezei – o lettering que compõe o nome-alcunha do protagonista – Duke – apresenta os caracteres gastos, corrompidos, um borrão com salpicos de tinta caindo da letra inicial, como se um esguicho de sangue negro se tratasse, transmitindo a condição do herói, a de um homem escalavrado, como a paisagem que percorre com o olhar. Hermann a anunciar a mestria do desenho, os fundos aguarelados, a eficácia dos enquadramentos.
Neste quarto álbum, Duke, que vinha descobrindo-se pistoleiro contra a própria vontade, parece ter-se rendido ao fatum nefasto que o assombra, vindo dos tempos remotos duma infância que vamos entrevendo pelas informações que o texto nos vai dando; através diálogos evocativos ou recurso ao flasback, revela uma orfandade precoce que não foi acomodada da melhor maneira. Nas palavras do protagonista: “Abandonados por Deus, era inevitável que o Diabo se interessasse por nós...” O passado é algo de que não se pode fugir.
O modo de desvelamento, que o argumentista, Yves H., vai soltando com eficácia, ocorre à medida das muitas peripécias de que o álbum está recheado: perseguição infrene (há um cofre recheado que foi objecto de um assalto no álbum anterior, de que já aqui se falou), o rapto de Peg, a prostituta que é o amor adiado de Duke, a sua captura, um espectro que o persegue espalhando a morte em redor mas poupando-o sempre. Em suma, uma sucessão de acções violentas, em que Duke é quase sempre um agente passivo, em resposta defensiva. Até quando?
Atentemos nos nomes dos quatro álbuns: A Lama e o sangue, Aquele que Mata, Sou uma Sombra e A Última Vez que Rezei. O título do quinto tomo, em que Hermann está a trabalhar em bom ritmo, já se conhece: Serás um Pistoleiro, e poderá responder àquela pergunta.

Duke – A Última Vez que Rezei
texto: Yves H.
desenhos: Hermann
edição: Arte de Autor, Estoril, 2020.


terça-feira, 2 de junho de 2020

mais jornalistas

A BD está cheia de jornalistas que raramente escrevem e normalmente se metem em alhadas – de Tintin e Fantásio a Ric Hochet, passando por Clark Kent. Jacques Gipar é um desses. No oitavo tomo das suas aventuras, em tempo de Guerra Fria, Gipar imiscui-se pelos meandros da sociedade russa de Paris, cidade favorita de refúgio para os russos brancos, após a Revolução de 1917, mas pejada doutros, bem vermelhos. Texto de Thierry Dubois, desenhos de Jean-Luc Delvaux, numa BD muito tributária, no bom sentido, da Escola de Marcinelle. Lécho de la Taïga, edição Paquet.