
Comecemos
pela capa, ampla, imagem aberta e essencial como o cenário de que se
compõe. O Colorado, nos finais da década de 1860, um território
que não ascendera ainda à dignidade estadual e cujo nome tipifica o
lugar-comum do oeste selvagem,
de terras sem lei nem ordem. Os áridos maciços pedregosos
das Rocky Mountains, cujo tom terroso e barrento contrasta com a
chapada de azul celeste, impõe-se à imagem do cowboy e montada
postados à direita, em primeiro plano. Enquanto que, no canto
superior esquerdo, entre o nome dos autores – Hermann e Yves H. –
e o título deste episódio – A Última Vez que Rezei
– o lettering que
compõe o nome-alcunha do protagonista – Duke –
apresenta os caracteres gastos, corrompidos, um borrão com salpicos
de tinta caindo da letra inicial, como se um esguicho de sangue negro
se tratasse, transmitindo a condição do herói, a de um homem
escalavrado, como a paisagem que percorre com o olhar. Hermann a
anunciar a mestria do desenho, os fundos aguarelados, a eficácia dos
enquadramentos.
Neste
quarto álbum, Duke, que vinha descobrindo-se pistoleiro contra a
própria vontade, parece ter-se rendido ao fatum
nefasto que o assombra, vindo dos tempos remotos duma infância que
vamos entrevendo pelas informações que o texto nos vai dando;
através diálogos evocativos ou recurso ao flasback,
revela uma orfandade precoce que não foi acomodada da melhor
maneira. Nas palavras do protagonista: “Abandonados por Deus, era
inevitável que o Diabo se interessasse por nós...” O passado é
algo de que não se pode fugir.
O
modo de desvelamento, que o argumentista, Yves H., vai soltando com
eficácia, ocorre à medida das muitas peripécias de que o álbum
está recheado: perseguição infrene (há um cofre recheado que foi
objecto de um assalto no álbum anterior, de que já aqui se falou),
o rapto de Peg, a prostituta que é o amor adiado de Duke, a sua
captura, um espectro que o persegue espalhando a morte em redor mas
poupando-o sempre. Em suma, uma sucessão de acções violentas, em
que Duke é quase sempre um agente passivo, em resposta defensiva.
Até quando?
Atentemos
nos nomes dos quatro álbuns: A Lama e o sangue,
Aquele que Mata, Sou
uma Sombra e A Última
Vez que Rezei. O título do
quinto tomo, em que Hermann está a trabalhar em bom ritmo, já se
conhece: Serás um Pistoleiro,
e poderá responder àquela pergunta.
Duke
– A Última Vez que Rezei
texto:
Yves H.
desenhos:
Hermann
edição:
Arte de Autor, Estoril, 2020.
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