terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

uma Batalha de Stuart

As histórias aos quadradinhos têm uma tipologia que desde cedo foi infringida: imagens sequenciais contando uma história mais ou menos circunstancial, em que o discurso directo é reproduzido através de filacteras, os ‘balões’ com um apêndice indicando o locutor. Narrativas por imagens existem desde a Suméria, se não quisermos porventura ir ainda mais longe, às cenas rupestres…, e filacteras, pelo menos desde a Idade Média – mas só se pode falar apropriadamente da existência da banda desenhada, quando esta ganhou uma dupla realidade, editorial e social, com a sua difusão através da imprensa, no século XIX. O cartoon poderá, eventualmente, ser considerado como um subgénero, ou não. Há argumentos para ambas as posições, que se deixam aos teóricos, não sem lembrar que uma série tão emblemática como Príncipe Valente, de Harold Foster, não tem filacteras, tal como não é raro verificar-se num gag ou numa tira a ocorrência de uma única vinheta, em que o talento do autor aí concentra tudo o que pretendeu dizer. Assim o cartoon.
Interessa é justificar que para nós faz sentido a presença dos cartoons de Stuart Carvalhais (Vila Real, 1887- Lisboa, 1961), numa rubrica de BD, tanto mais que se trata do pioneiro da 9.º Arte em Portugal, com as aventuras de Quim e Manecas (1915), além de muitas outras áreas em que aplicou o seu extraordinário talento, da pintura (Jazz, da Colecção de Arte Moderna da Gulbenkian) ao cartaz (o Fado, enfiado nas mãos dos turistas, que nunca saberão quem foi o Stuart), da ilustração ao design gráfico: são suas as capas de dois grandes romances portugueses da década de 1920: Andam Faunos pelos Bosques (1926), de Aquilino Ribeiro e Emigrantes (1928), de Ferreira de Castro.
A Batalha, jornal diário da Confederação Geral do Trabalho (CGT), foi fundado em 1919, e chegou a ser o terceiro com maior difusão nacional, depois do Diário de Notícias e de O Século. Em 1923 lançou um suplemento literário, que saía todas as segundas-feiras, por forma a dar o descanso dominical aos tipógrafos. Ali escreveu o escol do publicismo anarquista do tempo, parte do qual estará na génese do histórico semanário O Diabo, em 1934.
A traço rápido e contorno grosso, estes desenhos de Stuart estão dentro do espírito do jornal, feito por trabalhadores, para trabalhadores e pelos trabalhadores; e o alvo era o sistema de poder: a falcatrua financista, a amoralidade burguesa, e os seus instrumentos: a cozinha política, a autoridade fardada e a Igreja, com um humor umas vezes áspero, outras irónico. E uma impressiva atenção aos ‘humilhados e ofendidos’, expressão que tanto enfado causa aos yuppies e aos nenúfares das letras & das artes, à direita e à esquerda.
Renda Barata – e outros cartoons de Stuart Carvalhais n’A Batalha
apresentação e notas de António Baião
edição: A Batalha e Chili com Carne, 2019


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