quarta-feira, 18 de março de 2020

Tarzan

Tarzan dos Macacos, romance publicado em 1912 por Edgar Rice Burroughs (1875-1950), escritor de pulp fiction, tornou-se o epítome de uma certa visão do homem ocidental e da efectiva supremacia de então. A história é conhecida: após um naufrágio ao largo da costa ocidental de África, lord e lady Greystoke, aristocratas britânicos, constroem uma cabana, procurando rodear-se dum mínimo de conforto com os salvados do navio. John Clayton, nascido em plena selva, não chegará a ter memória dos pais. Será Kala, uma fêmea gorila quem descobrirá um bebé a quem chamará Tarzan, ‘o de pele branca’, na sua língua simiesca… Dotado de grande inteligência, destreza física, uma força sobre-humana e um grito de guerra que atemoriza os outros animais, chegado à idade adulta, Tarzan virá a tornar-se o ‘rei’ incontestado dos símios e, com magnanimidade, ditará a lei naquele território.
Tarzan combina a fantasia do bom selvagem às avessas com a do fardo do homem branco, polvilhada pelas imaginosas narrativas finisseculares. Nessa medida, não estranha vê-lo em auxílio do rei Dalon, bem amado soberano cujo reino com cenário medievo fora tomado de assalto por dois aventureiros anglófonos, Flint e Gorrey. Se o monarca parece provir do círculo arturiano, também a princesa Nakonia se assemelha a uma estrela de Hollywood. Ingenuidades que atingem um patamar hilariante quando Tarzan se dirige aos seus num inglês impecavelmente traduzido: «Pois bem! – exclama Tarzan – apesar de ser uma loucura, guiar-vos-ei!»... Narrativa de aventuras puras, verifica-se uma quase paragem da História, quando, depois de expulsos pelo nosso herói, os dois rufias, recorrendo ao financiamento de um magnata do crime, Andol Rakka – o nome orientalizante é outro cliché –, invadem de novo o reino com uma poderosa força de guerra, composta por mercenários, blindados e aviões. Será o homem-macaco a liderar os animais da selva para o embate; os súbditos, aparentemente, parecem incapazes de defender-se por si sós...
O que há de particular interesse neste álbum, é a passagem de testemunho de Hal Foster para Burne Hogarth – os dois maiores desenhadores da série –, de um domingo para o outro: 2 e 9 de Maio de 1937. Foster (1892-1982), vindo da publicidade, trabalha na personagem de Burroughs durante oito anos, abandonando-a para criar o Príncipe Valente, uma das melhores bandas desenhadas de sempre; Hogarth (1911-1986) responde a um concurso aberto pela UFS, com uns desenhos à maneira de Foster, sendo contratado.
Se o primeiro é um soberbo fisionomista e, conhecendo Valente, já o estamos a ver nas vinhetas do homem-macaco, Hogarth, embora ainda muito colado ao primeiro, revela um plasticidade superior no movimento e na anatomia, qualidades que levará ao máximo na adaptação da história original, em 1973.
Tarzan na Cidade do Ouro – 3.ª parte
desenhos: Hal Foster e Burne Hogarth
edição: Futura, Lisboa, 1987
capa de Augusto Trigo, a partir de vinheta de Hogarth

Sem comentários:

Enviar um comentário