quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

o que foi Stuart?


1- Nova visita a um pioneiro dos quadradinhos em Portugal, embora num âmbito mais largo, abrangendo as várias dimensões em que Stuart se expressava, do cartoon à pintura, do capismo e ilustração ao desenho publicitário. Foi o que fez João Paulo Cotrim (Lisboa, 1965), argumentista de BD, entre outras coisas, aqui no papel de historiador ensaiante em torno da vida e obra do criador de Quim e Manecas, em Stuart – A Rua e o Riso (2006), livro de grande formato e volume, para ser lido e visto (e, no nosso caso, também sublinhado) – tudo menos um coffe table book, embora o sainete seja garantido. É excelente o trabalho de Cotrim, pela profusão das imagens, a forma pensada com que o livro foi arrumado e o levantamento das fontes, em que não faltam as homenagens de colegas do mesmo ofício (de Valença a Amarelhe) ou nossos coetâneos (de António a João Fazenda, inéditos até aqui). Acresce fragmentos dos homens dos jornais, como Norberto Araújo, das revistas literárias, o caso de José Pacheko (Contemporânea e Portugal Futurista), e o incomparável e desvairado Reinaldo Ferreira, o Repórter X (nom de plume que aproveitou de um desenrascanço de tipógrafo que não percebera a assinatura), que assim escrevia sobre essoutra deste Stuart, em 1923: “Um S a tombar sobre um t hirto que estende a mão ao u escancarado e que ameaça engolir o a d'imprensa que se lhe segue e que, por sua vez, parece galgar um r que vai encostado a um t final, espécie de poste de cruz, a fechar...” (p. 22). Com eles, fragmentos de escritores de coturno mais alto, como veremos para a semana.

Nascido em Vila Real, José Herculano Stuart Torrie d'Almeida Carvalhais (1887-1961), provindo de famílias tradicionais, foi um aristocrata da boémia lisboeta, de onde irradiava o talento que a necessidade e a dependência alcoólica não tolhiam. Muito cedo iniciado nas lides jornalísticas, começa a publicar em O Século, no ano seguinte ao da morte de Rafael Bordalo Pinheiro, de que não será herdeiro, como Cotrim sublinha, ao contrário dos nomes proeminentes do desenho humorístico de então. Começa por assinar JStuart Carvalhaes, mas na década de 1910 já marcava de espadachim os trabalhos que lhe saíam. Depois de um breve período em Paris, que lhe alargou as vistas, regressa, casando-se, em 1913, com uma varina, “como a querer dizer que desposa a cidade” – escreve o autor; essa Fausta Moreira, cujo traço não conheceremos, tornada onírica à força de a imaginarmos; e ele, Stuart, o culpado, graças a essa obsessão boa pela beleza do sexo feminino, como também veremos.

Uma única exposição individual realiza, aos 45 anos, na Casa da Imprensa. Stuart, talvez desleixado e pueril, mas livre, não tinha jeito ou apetência para se vender, embora do trabalho lhe viesse o sustento. Norberto de Araújo, numa passagem que impressiona, fala “[n]esse rapaz que a si próprio tão insuficientemente se respeita” (o “rapaz” já tinha 40 anos), fazendo uma comparação um pouco forçada com Verlaine. Pode ser, Mas respeitar-se como e o quê, senão o próprio trabalho, numa Lisboa, retrato do país, provinciana e basbaque?

2- Em pintura, Stuart foi o que pôde ser e não provavelmente o que quis. “Não passo d’um fabricante de desenhos”, dirá. Trabalho restrito, mas não despiciendo – quem não conhece o magnífico Jazz (1925), que aqui não figura? – João Paulo Cotrim fala num “desejo de paisagem”, que podemos observar em três telas, uma das quais, pertencente a José Gomes Ferreira, suscitou a este bons versos dum expressionismo brandoniano, já fora de tempo (1981), mas no tempo do quadro. Noutra, uma paisagem com Quixote, tem forçosamente de remeter-nos para o lugar-comum (nosso, não dele) quixotesco de ingénuo idealismo, de acordo com os cépticos ou os cínicos; e adiante surge também, como ilustração, um carvão assombroso de Quixote e Sancho por entre lombadas da obra de Cervantes, publicado na revista Civilização. Foi na imprensa que Stuart se afirmou como o que julgamos ser o maior artista gráfico português da primeira metade do século passado – período, de resto, repleto de bons nomes a trabalhar num tempo ávido por mostrar imagens.

A introdução toca as várias facetas do trabalho stuartino,incluindo as que ficaram na sombra ao fim de um século: pintura, ilustração, cartaz publicitário, capas de livros e partituras, todas à excepção da primeira sofrendo mais aceleradamente o desgaste do tempo, por extinção de actividade ou renovação do revestimento, como é o caso dos livros. E neste particular teremos de citar a capa de Lírios do Monte (1918), título inicial do já referido Gomes Ferreira – que depois eliminará da sua bibliografia, como sucede com muitos escritores relativamente aos textos mais juvenis –, as primeiras edições das novelas de Aquilino Ribeiro, Filhas de Babilónia (1920) e do romance Emigrantes (1928), de Ferreira de Castro, revisitações de A Farsa e os Pobres, de Raul Brandão, coexistindo com o o testemunho pungente de Reinaldo Ferreira, nas Memórias de um Ex-Morfinómano (1933) – além de literatura humorística ou frívola e edições de actualidades, pois o sustento a tal obrigava.

Exposto e ilustrado o artista, segue-se a arrumação temática: os auto-retratos, os quadradinhos, o cartoon, os costumes, a Lisboa stuartina, as mulheres, os tipos mais ou menos populares, as figuras conhecidas, os pobres e marginais, a morte. E porque Stuart é Stuart, ainda na próxima semana continuaremos na companhia deste príncipe, com especiais enfoques: a BD, pois claro, desde muito cedo; a cidade, que aqui se chama Lisboa; a mulher, que Stuart magnifica sempre e como poucos; a atenção que o artista prestou aos pobres e excluídos – que já conhecemos de Renda Barata compilação de 2020 de cartoons publicados no diário anarco-sindicalista A Batalha –; e ainda um Stuart menos risonho e conhecido.

3- A bonomia de Stuart estava afeita aos quadradinhos, pelo que não é de estranhar que também por aí caminhasse abrindo caminho – João Paulo Cotrim observou ter sido ele o primeiro bandadesenhista europeu a recorrer à filactera, o balão que identifica a fala das personagens. Tiras humorísticas e uma série pioneira Quim e Manecas (1915-1953), quase 40 anos de tropelias atrás de diabruras, cuja influência José-Augusto França filiou em Max und Moritz (1865), de Wilhelm Bush, o que nos parece questionável. A haver uma, ela radicará num brilhante sucedâneo da série alemã, os terríveis Hans e Fritz, vulgo Os Sobrinhos do Capitão (1897), de Rudolph Dirks.

Mas como vimos, Stuart faz-se de muito mais do que apenas BD. Grandes escritores debruçaram-se sobre o seu trabalho, no que, para além do talento único, constitui mais um seguro de vida póstuma. A propósito de Lisboa, que aqui merece um capítulo, escreveu Manuel Mendes: “Encarnou a alma da terra que escolheu para viver […] e acabou por melhor a sentir e expressar do que os próprios naturais. Viu tudo, amou e sentiu tudo […], entrou-lhe na alma e lá se instalou como na própria casa.”

Stuart adorava as mulheres, e demonstrava-o gulosamente. Se vemos mundanas, viciadas, prostitutas, também aí estão, sobretudo, as mulheres do povo, dignas, altivas, elegantíssimas. Uma vendedora de fruta aparece-nos cheia de sensualidade e raça, nunca postiça, mas bem real. Stuart conhecia por dentro aquilo de que tratava. E isso estende-se à crítica impiedosa da sociedade doente. Fiquemos com as palavras de Aquilino Ribeiro: “Stuart era um rebelde; mais do que isso, por baixo do seu desmancho de boémio havia um revolucionário, muito senhor de si [...]”. A sua ferocidade enquanto cartoonista social é directamente proporcional à selvajaria da classe dominante.

Ferreira de Castro, por ele três vezes retratado, e cujos romances iriam advogar a revolução social e libertária, irmanava-se com Stuart na repugnância não só da miséria ou dos mecanismos que a perpetuavam, mas também da indiferença com que era aceite e vivida. E por isso escreverá, em 1926: “Mais do que um ilustrador, Stuart Carvalhais é um água-fortista. Na arte portuguesa, ele está, como desenhador, ao lado de Raul Brandão, como literato. E até como este, Stuart repete-se […] como se entendesse que a carranca da vida, enrugada, desgrenhada, há-se sempre reflectir-se num mesmo e imutável espelho.” Veja-se o retrato sombrio de Camilo Castelo Branco, como se possuído por um demónio interior que cedo ou tarde lhe cobrará a dívida do génio; ou o de um mefistofélico Ferreira de Castro (ambos de 1928), num quase sorriso de esgar, como se dali viesse uma ameaça de não deixar pedra sobre pedra, num mundo a derrubar para voltar a construir. Mas ao lado, contudo, uma jazz-band embevecida, olhando para uma Amália ridente... Stuart não é (só) para meninos.

Stuart – A Rua e o Riso

Autor: João Paulo Cotrim

edição: Assírio & Alvim e El Corte Inglés, Lisboa, 2006

«Leitor de BD» #1, #2, #3

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