quarta-feira, 11 de maio de 2022

o amor salva




Tolstói, conde e anarco-cristão excomungado pela igreja ortodoxa russa, acreditava que o amor salvava, praticava-o e escrevia-o: “Onde está o amor, também está Deus” (1885) é o título de um conto que fez seu, mais conhecido por “A festa de Natal do Avô Panov”. Eça de Queirós, cônsul e casado com a filha de um conde, também anarco-cristão e anticlerical, leitor do grande russo, acreditava igualmente nisso: leia-se, por exemplo, “O suave milagre” (1898). Amor ao outro, aos outros, uma boa ideia suscitada pela leitura desta narrativa em quadrinhos de Marcello Quintanilha (Niterói, 1971).

Escuta, formosa Márcia” é o título de uma modinha de salão do Brasil imperial, de autor anónimo, que Márcia, protagonista desta história, enfermeira favelada, mãe solteira de um estafermo que dá pelo nome de Jaqueline, mas muito amada por Aluísio, um trolha que “é do bem” e pobre padrasto daquele estrupício, modinha que irá, romântica, adoptar como sua canção: “Escuta formosa Márcia / Tristes ais do teu pastor / São ais que a dar lhe ensinou / O tirano Deus Amor. // Eu nem suspirar sabia / Antes de te conhecer / Mas depois que vi teus olhos / Sei suspirar, sei morrer.”

Entre a favela, o hospital, com passagem por um condomínio privilegiado na zona sul do Rio, a narrativa é a vários títulos notável, desde logo pela empatia que demonstra, sem qualquer dose de maniqueísmo barato e primário, que poderia advir num episódio de vida numa sociedade desgovernada e iníqua, pela desigualdade. Onde estão os bons e os maus? Em todo o lado, certamente. O mal, exercido por pequenos delinquentes que coagem os moradores dos bairros pobres, traz sempre com ele um maior espalhafato (excepto no Carnaval), extensões do polvo organizado que por ali não pára, nem os sicários engravatados que dos seus escritórios nas zonas nobres da cidade exercem verdadeiramente o poder que oprime o povo. Mas no meio daquela selva, em que o ser humano luta para se manter à tona e sobreviver, o Amor pode ser francamente libertador. Pelo menos é o que nos ensina esta formosa Márcia de Quintanilha, cujos olhos doces não desmerecem a sua homónima da canção, que por amor maternal não desiste da desgraçada que pariu, e que há-de ter – presume-se, pois a narrativa é aberta – uma recompensa pela perseverança cuidadora que demonstra. Algo que aprendeu com Aluísio, o trolha.

Viver no Rio de Janeiro, sem ser favelado ou pertencer à bolha privilegiada que se entrincheira em condomínios fechados guardados por seguranças privados, deve ser uma experiência de vida que a classe média desta Lisboa tão amena e luso-tropical terá dificuldade em imaginar. História densa, com diálogos vivíssimos na linguagem de todos os dias e pranchas a abarrotar de vinhetas que acomodam o comércio do quotidiano – família, vizinhos, colegas, clientes, cúmplices, malfeitores e gente de bem – compõem o edifício narrativo desta novela gráfica de cores vivas, com as expressões humaníssimas saídas da mão de Marcello Quintanilha.


Escuta, Formosa Márcia

Texto e desenhos de Marcello Quintanilha

Edição: Polvo, Lisboa, 2021

«Leitor de BD»

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